CAPÍTULO 3

ASTRAIA NÃO VEIO

atrás de mim, o que foi uma sorte. Se visse seu

rosto de novo, teria ficado aniquilada. Em vez disso, descia escadaria como se estivesse flutuando, em total estado de torpor. Sabia que logo iria cair em mim e perceber o que tinha feito, que o

amargor do meu auto desprezo iria comer minhas entranhas e me queimar até os ossos. Mas, agora, estava envolta num manto de macieze, quando chegueiaos pés da escadaria, pisei no chão

e fiz uma reverência sem ao menostremer.

- Bom dia, papai. - Ao meu lado, ouvia respiração profunda detia Telomachee percebi que

tinha me desviado do cerimonial. Fiz a reverência de novo. - Papai, eu agradeço por toda sua

gentileza e lhe imploro que permita que eu deixe sua casa.

Como se o Lorde Park seimportassecom propriedade.

Papai me estendeu o braço.

- Eu lhe concedo a permissão com o coração felize a mão aberta, minha filha.

Certamente a parte relativa à felicidade era verdadeira. Ele estava vingando a esposa morta, salvando a filha favoritae mantendo acunhadacomo concubina - e o único preço aser pago era a

filha que ele nunca quisera.

- Onde está sua irmã? - tia Telomache sibilou ao me cobrir com o véu. A gaze vermelha me


cobriu até os joelhos.

- Ela estava chorando - eu disse com voz calma. Era mais fácil enfrentar o mundo por detrás da névoa do tecido. - Mas você pode trazê-la arrastada paracáe arruinaracerimônia, se preferir.

- Não é correto ela perder seu casamento - murmurou tia Telomache, ajeitando o véu.

- Deixe-a em paz, Telomache - disse papai com voz calma. - Ela já teve sua cota de


sofrimento.

O ódio gelado voltou a me enlaçar, mas tentei engoli-lo e descansei meus dedos no braço do


papai. Saímos de casa juntos num passo lento e imponente, tia Telomache atrás de nós.

A luz do sol brilhava através do meu véu. Vi seu borrão dourado por sobre o horizonte e


agora o céu todo estava quente e brilhante.

A música envolveu-me, junto com o barulho forte de

vozes. O povo da vila estava se divertindo; ouvi gritos de viva e risadas, vislumbrei flâmulas

vermelhas e crianças dançando. Todos sabiam que eu estava me casando como o Lorde Park

como pagamento por um acordo que papai fizerae, embora não soubessem do plano dele, tinham

conhecimento de que meu casamento com aquele monstro devia significara morte ou algo muito

pior. Mas eu ainda era a filha do grande proprietário de terras e ele ainda planejava oferecer aquela

grande festa.

Para o povo,era um feriado.

Percorremos a vila toda. Era bem antes do meio-dia, mas por causa do sol e da proximidade

do véu com minha pele, o suor escorria pelo meu pescoço no momento em que chegamos à rocha

das oferendas. Toda vila tem uma rocha dessas: uma pedra lisa e enorme, para as pessoas

deixarem seus presentes para o Lorde Park.

Agora havia uma estátua ali no topo: uma coisa meio estranha, feita de pedra desbotada. A

cabeça oval tinha duas cavidades no lugar dos olhos e uma linha suave imitando a boca; galhos ao

longo das laterais sugeriam braços. Geralmente essas estátuas ficavam no lugar de um morto, para

funerais ou rituais de antepassados. Hoje, a estátua seria a representação do Lorde Park. Meu

noivo.

Diante de testemunhas, meu pai proclamou que estava me dando de livre e espontânea


vontade. As moças solteiras da vila cantaram um hino a Artemise depoisa Hera.

Num casamento

normal, o noivo ea noiva iriam trocar presentes - um cinto, um colar, um anel -,então beberiam na mesma taça de vinho. Em vez disso, pendurei um colar de ouro no pescoço escorregadio da estátua. Tia Telomache ajudou-me a levantar a ponta do véu a fim de que eu pudesse tomar um


gole do vinho enjoativo da taça de ouro, então segurei a taça perto do rosto da estátua e deixei

escorrer um pouco da bebida perto da boca. Eu me senti como uma criança brincando com um

brinquedo imperfeito. Mas esse jogo estava me unindo a um monstro.

Então chegou a vez dos votos. Em vez de segurar a mão do noivo, eu toquei os dois lados da

estátua e disseem voz alta:

- Eis-me aqui. Venho até você destituída do nome do meu pai, expulsa do lar da minha mãe;

de agora em diante, meu nome deverá ser o seu e serei uma filha da sua casa; seus deuses serão os

meus deuses e então irei honrá-los; onde você for, eu irei também; onde você morrer, eu também

morrerei e ali serei enterrada.

Como resposta, houve apenas o roçar do vento nas árvores. Mas as pessoas gritaram vivas de

qualquer jeito. Então um novo hino começou atocar, dessa vez com dançase uma chuva de flores. Eu me ajoelhei na rocha em frente à estátua, sem ver nada, minha cabeça curvada, coberta pelo véu. O suor escorria por meu rosto e meus joelhos estavam doloridos pela pedra dura.

A voz de uma das meninaselevou-seacima das outras:

"Emboraas montanhas derretam e os oceanos possam queimar, Os presentes de amor ainda assim vão retornar."

Eu achava que isso era verdade. Papai amara tanto mamãe e, 17 anos depois, os presentes


daquela loucura ainda estavam voltando para nós. Eu sabia que não era daquele tipo de amor que

o hino falava, mas eu não conhecia nenhum outro. Na minha família, o amor só tinha resultado

em crueldade e tristeza e, mesmo assim, continuava sendo oferecido.

Lá em casa, Astraia estava chorando. Minha única irmã, a única pessoa que me amara, até


tentara me salvar, estava chorando porque eu tinha quebrado seu coração. Durante toda minha

vida eu tinha mordido a língua para não falar palavras cruéis e tinha engolido todo meu ódio. Havia repetido a mentira reconfortante a respeito do Verso Rimado e tentei não me ressentir com

o fato de ela ter acreditado naquilo tudo. Porque a pesar de todo o veneno do meu coração, eu sabia

que não era culpa de Astraia o fato de que papai tivesse me escolhido. Então, havia me esforçado

para fingir que era a irmã que ela merecia. Até o dia de hoje.

Cinco minutos a mais, eu pensei. Você só tinha de se segurar por mais cinco minutos e todo o ódio em

seu coração nunca mais seria capaz de machucá-la de novo.

Escondida pelo véu e pelo clamor do casamento, finalmente chorei também.

Quando o sacrifício para os deuses tinham terminado, tia Telomache tirou-me dali e colocou-me na carruagem com papai. Geralmente, a noiva e o noivo ficavam na festa - como também o pai

da noiva, que oferecia o evento -, mas levar-me ao Lorde Park era algo muito mais importante. A porta fechou-se atrás de nós. Assim que a carruagem deu um tranco e se pôs em

movimento, tirei o véu do rosto, contente por poder me livrar daquele calor sufocante. Meu rosto

ainda estava grudento das lágrimas; esfreguei meus olhos, torcendo para que não estivessem

muito vermelhos.

Papai olhou para mim, seu olhar neutro e impassível, seu rosto uma máscara elegantemente

esculpida. Como sempre.

- Você se lembra dos segredos? - a voz dele era calma, neutra; era como se pudéssemos estar

falando sobre o tempo. Repareiem suas mãos juntas sobre os joelhos. Ele usava o grande sinete de

ouro esculpido na forma de serpente comendo a própria cauda: o símbolo dos Resurgandis.

Eu sabia o que estava escrito do lado de dentro do anel: Eadem Mutata Resurgo, ou, "Embora

transformado, eu me levanto igual". Era um antigo ditado hermético, há muito adotado como

lema dos Resurgandis porque eles pretendiam voltarater o céu azul verdadeiro.

Eu não estava indo para minha condenação com meu pai. Eu estava indo para minha

condenação com o Magistrado Magno dos Resurgandis.

- Sim - eu apertei minhas mãos sobre meus joelhos. - Você já me viu escrevê-los de olhos


fechados.

- Lembre-se de que os corações podem estar disfarçados.Você vai ter de ouvir...

- Eu sei. - Apertei os dentes para manter longe todo o veneno que queria rosnar para ele. Talvez eu não conseguisse feri-lo com minhas palavras, mas ainda lhe devia respeito.

Algumas pessoas desconfiavam dos segredos dos Resurgandis, do jeito como os duques e o


Parlamento os consultavam; falavam à boca pequena que o que os Resurgandis praticavam era

arte de demônio. De um modo, isso era verdade. Por força de longos estudos e cálculos

cuidadosos, os Resurgandis passaram a acreditar que enquanto os negócios com o Lorde Park

fossem obtidos por meio de seus poderes demoníacos insondáveis, a Separação seria diferente. Era


um vasto trabalho hermético, cujos diagramas eram o próprio castelo do Lorde Park.

Isso significava que,em algum lugar daquele castelo, deveria haver um Coração de Água, um

Coração de Terra, um Coração de Fogo e um Coração de Ar. Se alguém tentasse inscrever segredos

anuladore sem cada coração - assim dizia a teoria -, o trabalho feito contra Arcádiaseria desfeito. Ocastelo do Lorde Park desmoronaria,enquanto Arcádia voltaria para o mundo real.

Os Resurgandis sabiam do fato há quase cem anos e tal conhecimento não lhes fora de


nenhuma grande validade. Até agora.

- Sei que você não vai nos decepcionar -disse papai.

- Não vou - respondi. Olhei pela janela, incapaz de manter a calma em meu rosto por mais

um momento sequer. Tinha passado minha vida inteira fingindo ser a filha feliz que ia morrer

pelo bem de sua família. Será que não dava para ele fingir, pelo menos uma vez, ser um pai que

estava triste por me perder?


travessávamos o bosque agora e começamos nossa lenta subida pela colina no topo da qual


ficava o castelo do Lorde Park. Por entre os galhos das árvores, pude vislumbrar pedaços do céu, como se fossem papel cortado em pedaços jogado sentreas folhas. Então, de súbito, passamos por

uma clareira e vi o que parecia ser uma folha do tamanho de um papel ofício de céu claro.

Olhei para cima. Papai tinha mandado instalar, por conta da claustrofobia de tia Telomache, uma pequena janela de vidro no teto da carruagem. Então pude ver o céu por cima da minha

cabeça e o símbolo preto, em forma de diamante, enganchado no topo do céu como se fosse uma

aranha. As pessoas o chamavam de Olho do Demônio e diziam que o Lorde Park podia ver

qualquer coisa que passasse sob ele. Os Resurgandis oficialmente zombavam dessa superstição - se o Lorde Park tivesse tal conhecimento, já teria destruído todos nós há muito tempo -, mas eu

tentava imaginar quantos haviam temido secretamente que ele pudesse estara par de seus planos, atraindo-os para uma de suas armadilhas sarcásticas.

Será que ele estava me observando agora lá do céu? Será que sabia que aquele medo era como

um turbilhão percorrendo meu corpo como água escorrendo de uma banheira, e será que ele

estava rindo?

- Eu queria ter podido ter mais tempo para treinar você - disse papai abruptamente.

Olhei para ele, surpresa. Papai vinha me treinando desde que eu tinha nove anos de idade. Seria possível que estivesse dizendo que não queria mais que eu fosse?

- Mas o acordo dizia que tudo deveria acontecer no seu 17º aniversário - ele continuou, tão

placidamente que minhas esperanças murcharam.

- Vamos ter de torcer pelo melhor. - Cruzei meus braços. - Se eu tentar derrubar o castelo

dele e falhar, tenho certeza de que serei morta e daí talvez você possa casar Astraia com ele e lhe

dar uma chance.

Papai comprimiu a boca. Ele jamais faria uma coisa daquelas com Astraia e nós dois


sabíamos disso.

- Telomache contou-me que Astraia lhe deu umanfaca - comentou ele.

- A culpaétoda dela - disseeu. - Ou foi ideia sua contar-lhe aquela história?

Eu ainda me lembrava daquele dia em que tia Telomache nos contara a respeito do Verso


Rimado - a fungada abafada de Astraia, a dor forte na minha garganta, o lampejo súbito de


esperança quando tia Telomache me dissera que eu poderia destruir meu marido prendendo-me

com ele numa armadilha em seu castelo que estaria desmoronando. Então eu o mataria e voltaria

para salvar minha irmã.

Não pode ser verdade, eu tinha pensado. Eu sei que não pode ser verdade - e mesmo assim, na quela noite, eu quase chorei quando tia Telomache contou-me que era realmente mentira.

- Ela era uma criança na época e precisava se consolar com alguma coisa - disse papai. - Mas

você é uma mulher adulta agora e sabe qual é seu dever, então presumo que já tenha se livrado da

faca. Endireitei-me no assento.

- Ainda a estou usando. Ele também se endireitou.

- Nyx Triskelion. Livre-se dela agora mesmo.

Imediatamente, as palavras sim, papai formaram-se em minha boca, mas as engoli. Meu

coração disparou, meus dedos ficaram gelados porque estava desafiando meu pai e isso significava

ingratidão, falta de respeito, era errado...

- Não - acabei dizendo.

Eu ia morrer executando o plano dele. Perto daquilo, aquele pequeno gesto de desafio pouco

iria importar.

- Você realmente está se iludindo, achando que...

- Não - repeti em tom monótono. Essa tinha sido outra parte da minha educação: a história


de todos os tolos que haviam tentado assassinar o Lorde Park. Ninguém havia sido bem- sucedido e todos tinham morrido, porque mesmo que tives sem conseguido esfaquear o coração do

Lorde Park, ele se recuperava num instante e destruía seu agressor no instante seguinte. Há

muito tempo eu desistira daideia de que qual querarma mortal fosse capaz de matar um demônio.

- Eu não acredito no Verso Rimado e, mesmo que acreditasse, não apostaria nossa liberdade

em minha habilidade com uma faca. Você me treinou muito bem para essa missão, papai. Mas

esse foi o último presente que minha única irmã me deu e eu a usarei para cumprir meu destino se

for minha vontade, papai.

- Hum... - Ele ajeitou-se no assento. - E você já pensou em como se explicar ao seu marido, quando chegara hora?

De novo, sua voz estava tão calma como quando me lia a história de Lucrécia. O eufemismo

era seco e incruento como poeira naquele velho livro. Quando chegar a hora. O que queria dizer:

Quando ele a despir e ausar como quiser.

Naquele momento, odiei meu pai como nunca havia odiado nada ou ninguém em toda


minha vida. Olhei para a pele flácida de seu pescoço e pensei: Se eu fosse realmente como Lucrécia, mataria você e depois me suicidaria.

Mas só o simples fato de pensar na quela insolência fez com queeu me sentisse doente. Ele só

tinha tentando salvar minha mãe. Sem dúvida, em meio ao seu desespero, ele se iludira achando

que enganar o Lorde Park seria uma tarefa fácil;e uma vez que percebera o quanto estava errado, o que podia fazer senão tentar salvar o que ainda podia ser salvo?

Mas só o simples fato de pensar na quela insolência fez com queeu me sentisse doente. Ele só

tinha tentando salvar minha mãe. Sem dúvida, em meio ao seu desespero, ele se iludira achando

que enganar o Lorde Park seria uma tarefa fácil;e uma vez que percebera o quanto estava errado, o que podia fazer senão tentar salvar o que ainda podia ser salvo?

Durante toda minha vida, eu vira pessoas que haviam enlouquecido por causa dos demônios.

Se eu libertasse Arcádia -, ninguém mais seria morto ou ficaria louco por causa de um demônio de

novo. Nenhum tolo faria acordos desastrosos com o Lorde Park e nenhum inocente pagaria o

preço por eles. Nosso povo viveria em liberdade sob o céu verdadeiro.

Qualquer um dos Resurgandis estaria disposto a morrer por aquela chance. Se eu amasse


meu povo, ou apenas minha família,eu também deveria estar feliz por morrer por isso.

- Vou lhe contar a verdade - disse. - Não poderia suportar desfazer-me do presente da


minha irmã.

- Você devia fazê-lo pensar que nem queria ter essa faca.

Dizer-lhe que fez uma promessa a


seu pai. Não pude segurar o comentário:

- O próprio Lorde Park fez um acordo com você. Acha que ele é tolo o suficiente para


acreditar que você faria alguma coisa para tentar me salvar?

Papai arregalou os olhos e seu queixo endureceu. Com um pequeno lampejo de prazer, percebi que finalmente tinha conseguido feri-lo.

Foi desse jeito que ouvi a história pela primeira vez. Papai puxou-me de lado e disse: "Quando eu era jovem, prometi aos Resurgandis que uma de minhas filhas lutaria com o Lorde


Park e nos libertaria a todos.Você é essa filha".

Acho que foi um ato de gentileza ele ter me contado a história desse jeito - o primeiro e


último gesto de bondade que jamais teve em relação a mim. Ouvi o resto da história logo depois, contada por tia Telomache, e depois muitas outras vezes, contada por ela, por ele e por membros

dos Resurgandis que vinham nos visitar.

A história estava toda à minha volta - no silêncio austero de tia Telomache, nos olhares

cuidadosamente vagos de papai, no jeito como suas mãos se tocavam quando eles achavam que

ninguém estava vendo; estava no baú cheio de brinquedos de Astraia, nos retratos de minha mãe

em cada cômodo, na pilha de livros que papai me dava a respeito de cada herói que morria no

cumprimento do dever. Eu respirava essas histórias, nadava nelas, sentia como se me afundasse

em suas profundezas.

Tudo começar assim:

No passado, Leônidas Triskelion era um jovem bonito, inteligente e corajoso. Era o


queridinho de sua família e esperança dos Resurgandis. E era também o amor da vida de uma

jovem chamada Thisbe, que acabara se casando com ele. Mas conforme o tempo fora passando, aquele casamento tão feliz se enchera de tristeza, já que Thisbe não conseguia conceber um filho. Não importava o quanto Leônidas jurasse seu amor pela esposa, ela se via como uma mulher sem


sorte e sem valor nenhum, que faria com que o nome de seu marido não se perpetuasse porque

não podia lhe dar um filho. Finalmente, o desespero foratanto que ela tentara se matar. Para tanto, em mesmo as habilidades herméticas de Leônidas puderam ajudá-la. Então, que esperança ainda averia?

Só uma.

Finalmente, Leônidas, que havia passado anos tentando derrotar o Lorde Park, fez um


acordo com ele. E o que o príncipe dos demônios propôs foi o seguinte: uma criança do sexo

masculino estava fora de cogitação, mas Thisbe iria conceber duas meninas saudáveis até o fim

da quele ano, e o único preço aser pago seria a mão de uma delas quando fizessem dezessete anos. Era aquilo mesmo. Uma das duas deveria setornar a esposa do próprio Lorde Park.

- E não pense que você pode me enganar - dissera o príncipe dos demônios. - Se esconder

suas filhas, eu asachareie, depois de mecasar com uma delas, matareia outra. Mas me conceda a

mão de uma delasea outra viverá livre e feliz pelo resto de sua vida.

Lorde Park sempre cumpre sua palavra, mas também trapaceia nos acordos. Fizera


realmente Thisbe conceber e carregar duas crianças gêmeas no ventre, mas não a deixara criá-las. A primeira menina nasceu rapidamente e sem problemas, mas a segunda veio tortuosa e toda

cobertacom o sangue da mãe e, embora tivesse sobrevivido como uma criança normal, Thisbe não

tivera a mesma sorte.

Leônidas não pudera deixar de amar Astraia, a filha pela qual sua mulher pagara tão caro. E


não pudera deixar de me desprezar, a filha que recebera a vida sem custo algum, assim como ele

não havia pagado nada de seu próprio bolso para nos receber. Desse modo, Astraia crescera muito

amada, a imagem vívida de minha mãe. E eu havia crescido sabendo que meu único propósito

seria o de ser a encarnação da vingança do meu pai.

______________

A carruagem parou com um solavanco.

Olhei para papai. Ele me olhou de volta.

Minha garganta ficou apertada e tentei engolir. Tinha certeza de que havia alguma coisa que


eu pudesse dizer - devia dizer - se ao menos eu pudesse pensar em algo, e depressa, de


preferência.

- Vá com todas as bênçãos dos deuses e de seu pai - ele disse com voz calma.

As palavras mecânicas feriram mais do que seu silêncio. Enquanto o condutor abria a porta

da carruagem, percebi o quanto eu queria que ele mostrasse um pouco de relutância, um simples

sinal de que sofria em me usar como arma. Mas por queeu deveria reclamar? Afinal de contas,eu não tinha ferido Astraia ainda mais?

Dei um sorriso brilhante.

CAPÍTULO 3

ASTRAIA NÃO VEIO

atrás de mim, o que foi uma sorte. Se visse seu

rosto de novo, teria ficado aniquilada. Em vez disso, descia escadaria como se estivesse flutuando, em total estado de torpor. Sabia que logo iria cair em mim e perceber o que tinha feito, que o


amargor do meu auto desprezo iria comer minhas entranhas e me queimar até os ossos. Mas, agora, estava envolta num manto de macieze, quando chegueiaos pés da escadaria, pisei no chão

e fiz uma reverência sem ao menostremer.

- Bom dia, papai. - Ao meu lado, ouvia respiração profunda detia Telomachee percebi que

tinha me desviado do cerimonial. Fiz a reverência de novo. - Papai, eu agradeço por toda sua

gentileza e lhe imploro que permita que eu deixe sua casa.

Como se o Lorde Park seimportassecom propriedade.

Papai me estendeu o braço.

- Eu lhe concedo a permissão com o coração felize a mão aberta, minha filha.

Certamente a parte relativa à felicidade era verdadeira. Ele estava vingando a esposa morta, salvando a filha favoritae mantendo acunhadacomo concubina - e o único preço aser pago era a

filha que ele nunca quisera.

- Onde está sua irmã? - tia Telomache sibilou ao me cobrir com o véu. A gaze vermelha me


cobriu até os joelhos.

- Ela estava chorando - eu disse com voz calma. Era mais fácil enfrentar o mundo por detrás da névoa do tecido. - Mas você pode trazê-la arrastada paracáe arruinaracerimônia, se preferir.

- Não é correto ela perder seu casamento - murmurou tia Telomache, ajeitando o véu.

- Deixe-a em paz, Telomache - disse papai com voz calma. - Ela já teve sua cota de


sofrimento.

O ódio gelado voltou a me enlaçar, mas tentei engoli-lo e descansei meus dedos no braço do


papai. Saímos de casa juntos num passo lento e imponente, tia Telomache atrás de nós.

A luz do sol brilhava através do meu véu. Vi seu borrão dourado por sobre o horizonte e


agora o céu todo estava quente e brilhante.

A música envolveu-me, junto com o barulho forte de

vozes. O povo da vila estava se divertindo; ouvi gritos de viva e risadas, vislumbrei flâmulas

vermelhas e crianças dançando. Todos sabiam que eu estava me casando como o Lorde Park

como pagamento por um acordo que papai fizerae, embora não soubessem do plano dele, tinham

conhecimento de que meu casamento com aquele monstro devia significara morte ou algo muito

pior. Mas eu ainda era a filha do grande proprietário de terras e ele ainda planejava oferecer aquela

grande festa.

Para o povo,era um feriado.

Percorremos a vila toda. Era bem antes do meio-dia, mas por causa do sol e da proximidade

do véu com minha pele, o suor escorria pelo meu pescoço no momento em que chegamos à rocha

das oferendas. Toda vila tem uma rocha dessas: uma pedra lisa e enorme, para as pessoas

deixarem seus presentes para o Lorde Park.

Agora havia uma estátua ali no topo: uma coisa meio estranha, feita de pedra desbotada. A

cabeça oval tinha duas cavidades no lugar dos olhos e uma linha suave imitando a boca; galhos ao

longo das laterais sugeriam braços. Geralmente essas estátuas ficavam no lugar de um morto, para

funerais ou rituais de antepassados. Hoje, a estátua seria a representação do Lorde Park. Meu

noivo.

Diante de testemunhas, meu pai proclamou que estava me dando de livre e espontânea


vontade. As moças solteiras da vila cantaram um hino a Artemise depoisa Hera.

Num casamento

normal, o noivo ea noiva iriam trocar presentes - um cinto, um colar, um anel -,então beberiam na mesma taça de vinho. Em vez disso, pendurei um colar de ouro no pescoço escorregadio da estátua. Tia Telomache ajudou-me a levantar a ponta do véu a fim de que eu pudesse tomar um


gole do vinho enjoativo da taça de ouro, então segurei a taça perto do rosto da estátua e deixei

escorrer um pouco da bebida perto da boca. Eu me senti como uma criança brincando com um

brinquedo imperfeito. Mas esse jogo estava me unindo a um monstro.

Então chegou a vez dos votos. Em vez de segurar a mão do noivo, eu toquei os dois lados da

estátua e disseem voz alta:

- Eis-me aqui. Venho até você destituída do nome do meu pai, expulsa do lar da minha mãe;

de agora em diante, meu nome deverá ser o seu e serei uma filha da sua casa; seus deuses serão os

meus deuses e então irei honrá-los; onde você for, eu irei também; onde você morrer, eu também

morrerei e ali serei enterrada.

Como resposta, houve apenas o roçar do vento nas árvores. Mas as pessoas gritaram vivas de

qualquer jeito. Então um novo hino começou atocar, dessa vez com dançase uma chuva de flores. Eu me ajoelhei na rocha em frente à estátua, sem ver nada, minha cabeça curvada, coberta pelo véu. O suor escorria por meu rosto e meus joelhos estavam doloridos pela pedra dura.

A voz de uma das meninaselevou-seacima das outras:

"Emboraas montanhas derretam e os oceanos possam queimar, Os presentes de amor ainda assim vão retornar."

Eu achava que isso era verdade. Papai amara tanto mamãe e, 17 anos depois, os presentes


daquela loucura ainda estavam voltando para nós. Eu sabia que não era daquele tipo de amor que

o hino falava, mas eu não conhecia nenhum outro. Na minha família, o amor só tinha resultado

em crueldade e tristeza e, mesmo assim, continuava sendo oferecido.

Lá em casa, Astraia estava chorando. Minha única irmã, a única pessoa que me amara, até


tentara me salvar, estava chorando porque eu tinha quebrado seu coração. Durante toda minha

vida eu tinha mordido a língua para não falar palavras cruéis e tinha engolido todo meu ódio. Havia repetido a mentira reconfortante a respeito do Verso Rimado e tentei não me ressentir com

o fato de ela ter acreditado naquilo tudo. Porque a pesar de todo o veneno do meu coração, eu sabia

que não era culpa de Astraia o fato de que papai tivesse me escolhido. Então, havia me esforçado

para fingir que era a irmã que ela merecia. Até o dia de hoje.

Cinco minutos a mais, eu pensei. Você só tinha de se segurar por mais cinco minutos e todo o ódio em

seu coração nunca mais seria capaz de machucá-la de novo.

Escondida pelo véu e pelo clamor do casamento, finalmente chorei também.

Quando o sacrifício para os deuses tinham terminado, tia Telomache tirou-me dali e colocou-me na carruagem com papai. Geralmente, a noiva e o noivo ficavam na festa - como também o pai

da noiva, que oferecia o evento -, mas levar-me ao Lorde Park era algo muito mais importante. A porta fechou-se atrás de nós. Assim que a carruagem deu um tranco e se pôs em

movimento, tirei o véu do rosto, contente por poder me livrar daquele calor sufocante. Meu rosto

ainda estava grudento das lágrimas; esfreguei meus olhos, torcendo para que não estivessem

muito vermelhos.

Papai olhou para mim, seu olhar neutro e impassível, seu rosto uma máscara elegantemente

esculpida. Como sempre.

- Você se lembra dos segredos? - a voz dele era calma, neutra; era como se pudéssemos estar

falando sobre o tempo. Repareiem suas mãos juntas sobre os joelhos. Ele usava o grande sinete de

ouro esculpido na forma de serpente comendo a própria cauda: o símbolo dos Resurgandis.

Eu sabia o que estava escrito do lado de dentro do anel: Eadem Mutata Resurgo, ou, "Embora

transformado, eu me levanto igual". Era um antigo ditado hermético, há muito adotado como

lema dos Resurgandis porque eles pretendiam voltarater o céu azul verdadeiro.

Eu não estava indo para minha condenação com meu pai. Eu estava indo para minha

condenação com o Magistrado Magno dos Resurgandis.

- Sim - eu apertei minhas mãos sobre meus joelhos. - Você já me viu escrevê-los de olhos


fechados.

- Lembre-se de que os corações podem estar disfarçados.Você vai ter de ouvir...

- Eu sei. - Apertei os dentes para manter longe todo o veneno que queria rosnar para ele. Talvez eu não conseguisse feri-lo com minhas palavras, mas ainda lhe devia respeito.

Algumas pessoas desconfiavam dos segredos dos Resurgandis, do jeito como os duques e o


Parlamento os consultavam; falavam à boca pequena que o que os Resurgandis praticavam era

arte de demônio. De um modo, isso era verdade. Por força de longos estudos e cálculos

cuidadosos, os Resurgandis passaram a acreditar que enquanto os negócios com o Lorde Park

fossem obtidos por meio de seus poderes demoníacos insondáveis, a Separação seria diferente. Era


um vasto trabalho hermético, cujos diagramas eram o próprio castelo do Lorde Park.

Isso significava que,em algum lugar daquele castelo, deveria haver um Coração de Água, um

Coração de Terra, um Coração de Fogo e um Coração de Ar. Se alguém tentasse inscrever segredos

anuladore sem cada coração - assim dizia a teoria -, o trabalho feito contra Arcádiaseria desfeito. Ocastelo do Lorde Park desmoronaria,enquanto Arcádia voltaria para o mundo real.

Os Resurgandis sabiam do fato há quase cem anos e tal conhecimento não lhes fora de


nenhuma grande validade. Até agora.

- Sei que você não vai nos decepcionar -disse papai.

- Não vou - respondi. Olhei pela janela, incapaz de manter a calma em meu rosto por mais

um momento sequer. Tinha passado minha vida inteira fingindo ser a filha feliz que ia morrer

pelo bem de sua família. Será que não dava para ele fingir, pelo menos uma vez, ser um pai que

estava triste por me perder?


travessávamos o bosque agora e começamos nossa lenta subida pela colina no topo da qual


ficava o castelo do Lorde Park. Por entre os galhos das árvores, pude vislumbrar pedaços do céu, como se fossem papel cortado em pedaços jogado sentreas folhas. Então, de súbito, passamos por

uma clareira e vi o que parecia ser uma folha do tamanho de um papel ofício de céu claro.

Olhei para cima. Papai tinha mandado instalar, por conta da claustrofobia de tia Telomache, uma pequena janela de vidro no teto da carruagem. Então pude ver o céu por cima da minha

cabeça e o símbolo preto, em forma de diamante, enganchado no topo do céu como se fosse uma

aranha. As pessoas o chamavam de Olho do Demônio e diziam que o Lorde Park podia ver

qualquer coisa que passasse sob ele. Os Resurgandis oficialmente zombavam dessa superstição - se o Lorde Park tivesse tal conhecimento, já teria destruído todos nós há muito tempo -, mas eu

tentava imaginar quantos haviam temido secretamente que ele pudesse estara par de seus planos, atraindo-os para uma de suas armadilhas sarcásticas.

Será que ele estava me observando agora lá do céu? Será que sabia que aquele medo era como

um turbilhão percorrendo meu corpo como água escorrendo de uma banheira, e será que ele

estava rindo?

- Eu queria ter podido ter mais tempo para treinar você - disse papai abruptamente.

Olhei para ele, surpresa. Papai vinha me treinando desde que eu tinha nove anos de idade. Seria possível que estivesse dizendo que não queria mais que eu fosse?

- Mas o acordo dizia que tudo deveria acontecer no seu 17º aniversário - ele continuou, tão

placidamente que minhas esperanças murcharam.

- Vamos ter de torcer pelo melhor. - Cruzei meus braços. - Se eu tentar derrubar o castelo

dele e falhar, tenho certeza de que serei morta e daí talvez você possa casar Astraia com ele e lhe

dar uma chance.

Papai comprimiu a boca. Ele jamais faria uma coisa daquelas com Astraia e nós dois


sabíamos disso.

- Telomache contou-me que Astraia lhe deu umanfaca - comentou ele.

- A culpaétoda dela - disseeu. - Ou foi ideia sua contar-lhe aquela história?

Eu ainda me lembrava daquele dia em que tia Telomache nos contara a respeito do Verso


Rimado - a fungada abafada de Astraia, a dor forte na minha garganta, o lampejo súbito de


esperança quando tia Telomache me dissera que eu poderia destruir meu marido prendendo-me

com ele numa armadilha em seu castelo que estaria desmoronando. Então eu o mataria e voltaria

para salvar minha irmã.

Não pode ser verdade, eu tinha pensado. Eu sei que não pode ser verdade - e mesmo assim, na quela noite, eu quase chorei quando tia Telomache contou-me que era realmente mentira.

- Ela era uma criança na época e precisava se consolar com alguma coisa - disse papai. - Mas

você é uma mulher adulta agora e sabe qual é seu dever, então presumo que já tenha se livrado da

faca. Endireitei-me no assento.

- Ainda a estou usando. Ele também se endireitou.

- Nyx Triskelion. Livre-se dela agora mesmo.

Imediatamente, as palavras sim, papai formaram-se em minha boca, mas as engoli. Meu

coração disparou, meus dedos ficaram gelados porque estava desafiando meu pai e isso significava

ingratidão, falta de respeito, era errado...

- Não - acabei dizendo.

Eu ia morrer executando o plano dele. Perto daquilo, aquele pequeno gesto de desafio pouco

iria importar.

- Você realmente está se iludindo, achando que...

- Não - repeti em tom monótono. Essa tinha sido outra parte da minha educação: a história


de todos os tolos que haviam tentado assassinar o Lorde Park. Ninguém havia sido bem- sucedido e todos tinham morrido, porque mesmo que tives sem conseguido esfaquear o coração do

Lorde Park, ele se recuperava num instante e destruía seu agressor no instante seguinte. Há

muito tempo eu desistira daideia de que qual querarma mortal fosse capaz de matar um demônio.

- Eu não acredito no Verso Rimado e, mesmo que acreditasse, não apostaria nossa liberdade

em minha habilidade com uma faca. Você me treinou muito bem para essa missão, papai. Mas

esse foi o último presente que minha única irmã me deu e eu a usarei para cumprir meu destino se

for minha vontade, papai.

- Hum... - Ele ajeitou-se no assento. - E você já pensou em como se explicar ao seu marido, quando chegara hora?

De novo, sua voz estava tão calma como quando me lia a história de Lucrécia. O eufemismo

era seco e incruento como poeira naquele velho livro. Quando chegar a hora. O que queria dizer:

Quando ele a despir e ausar como quiser.

Naquele momento, odiei meu pai como nunca havia odiado nada ou ninguém em toda


minha vida. Olhei para a pele flácida de seu pescoço e pensei: Se eu fosse realmente como Lucrécia, mataria você e depois me suicidaria.

Mas só o simples fato de pensar na quela insolência fez com queeu me sentisse doente. Ele só

tinha tentando salvar minha mãe. Sem dúvida, em meio ao seu desespero, ele se iludira achando

que enganar o Lorde Park seria uma tarefa fácil;e uma vez que percebera o quanto estava errado, o que podia fazer senão tentar salvar o que ainda podia ser salvo?

Mas só o simples fato de pensar na quela insolência fez com queeu me sentisse doente. Ele só

tinha tentando salvar minha mãe. Sem dúvida, em meio ao seu desespero, ele se iludira achando

que enganar o Lorde Park seria uma tarefa fácil;e uma vez que percebera o quanto estava errado, o que podia fazer senão tentar salvar o que ainda podia ser salvo?

Durante toda minha vida, eu vira pessoas que haviam enlouquecido por causa dos demônios.

Se eu libertasse Arcádia -, ninguém mais seria morto ou ficaria louco por causa de um demônio de

novo. Nenhum tolo faria acordos desastrosos com o Lorde Park e nenhum inocente pagaria o

preço por eles. Nosso povo viveria em liberdade sob o céu verdadeiro.

Qualquer um dos Resurgandis estaria disposto a morrer por aquela chance. Se eu amasse


meu povo, ou apenas minha família,eu também deveria estar feliz por morrer por isso.

- Vou lhe contar a verdade - disse. - Não poderia suportar desfazer-me do presente da


minha irmã.

- Você devia fazê-lo pensar que nem queria ter essa faca.

Dizer-lhe que fez uma promessa a


seu pai. Não pude segurar o comentário:

- O próprio Lorde Park fez um acordo com você. Acha que ele é tolo o suficiente para


acreditar que você faria alguma coisa para tentar me salvar?

Papai arregalou os olhos e seu queixo endureceu. Com um pequeno lampejo de prazer, percebi que finalmente tinha conseguido feri-lo.

Foi desse jeito que ouvi a história pela primeira vez. Papai puxou-me de lado e disse: "Quando eu era jovem, prometi aos Resurgandis que uma de minhas filhas lutaria com o Lorde


Park e nos libertaria a todos.Você é essa filha".

Acho que foi um ato de gentileza ele ter me contado a história desse jeito - o primeiro e


último gesto de bondade que jamais teve em relação a mim. Ouvi o resto da história logo depois, contada por tia Telomache, e depois muitas outras vezes, contada por ela, por ele e por membros

dos Resurgandis que vinham nos visitar.

A história estava toda à minha volta - no silêncio austero de tia Telomache, nos olhares


cuidadosamente vagos de papai, no jeito como suas mãos se tocavam quando eles achavam que

ninguém estava vendo; estava no baú cheio de brinquedos de Astraia, nos retratos de minha mãe

em cada cômodo, na pilha de livros que papai me dava a respeito de cada herói que morria no

cumprimento do dever. Eu respirava essas histórias, nadava nelas, sentia como se me afundasse

em suas profundezas.

Tudo começar assim:

No passado, Leônidas Triskelion era um jovem bonito, inteligente e corajoso. Era o


queridinho de sua família e esperança dos Resurgandis. E era também o amor da vida de uma

jovem chamada Thisbe, que acabara se casando com ele. Mas conforme o tempo fora passando, aquele casamento tão feliz se enchera de tristeza, já que Thisbe não conseguia conceber um filho. Não importava o quanto Leônidas jurasse seu amor pela esposa, ela se via como uma mulher sem


sorte e sem valor nenhum, que faria com que o nome de seu marido não se perpetuasse porque

não podia lhe dar um filho. Finalmente, o desespero foratanto que ela tentara se matar. Para tanto, em mesmo as habilidades herméticas de Leônidas puderam ajudá-la. Então, que esperança ainda averia?

Só uma.

Finalmente, Leônidas, que havia passado anos tentando derrotar o Lorde Park, fez um


acordo com ele. E o que o príncipe dos demônios propôs foi o seguinte: uma criança do sexo

masculino estava fora de cogitação, mas Thisbe iria conceber duas meninas saudáveis até o fim

da quele ano, e o único preço aser pago seria a mão de uma delas quando fizessem dezessete anos. Era aquilo mesmo. Uma das duas deveria setornar a esposa do próprio Lorde Park.

- E não pense que você pode me enganar - dissera o príncipe dos demônios. - Se esconder

suas filhas, eu asachareie, depois de mecasar com uma delas, matareia outra. Mas me conceda a

mão de uma delasea outra viverá livre e feliz pelo resto de sua vida.

Lorde Park sempre cumpre sua palavra, mas também trapaceia nos acordos. Fizera


realmente Thisbe conceber e carregar duas crianças gêmeas no ventre, mas não a deixara criá-las. A primeira menina nasceu rapidamente e sem problemas, mas a segunda veio tortuosa e toda

cobertacom o sangue da mãe e, embora tivesse sobrevivido como uma criança normal, Thisbe não

tivera a mesma sorte.

Leônidas não pudera deixar de amar Astraia, a filha pela qual sua mulher pagara tão caro. E


não pudera deixar de me desprezar, a filha que recebera a vida sem custo algum, assim como ele

não havia pagado nada de seu próprio bolso para nos receber. Desse modo, Astraia crescera muito

amada, a imagem vívida de minha mãe. E eu havia crescido sabendo que meu único propósito

seria o de ser a encarnação da vingança do meu pai.

A carruagem parou com um solavanco.

Olhei para papai. Ele me olhou de volta.

Minha garganta ficou apertada e tentei engolir. Tinha certeza de que havia alguma coisa que


eu pudesse dizer - devia dizer - se ao menos eu pudesse pensar em algo, e depressa, de


preferência.

- Vá com todas as bênçãos dos deuses e de seu pai - ele disse com voz calma.

As palavras mecânicas feriram mais do que seu silêncio. Enquanto o condutor abria a porta

da carruagem, percebi o quanto eu queria que ele mostrasse um pouco de relutância, um simples

sinal de que sofria em me usar como arma. Mas por queeu deveria reclamar? Afinal de contas,eu não tinha ferido Astraia ainda mais?

Dei um sorriso brilhante.

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