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*melanie*


Três semanas se passaram, desde que ele foi embora.

Não foi fácil me acostumar a sentir sua falta. Shane trabalhava o dia todo, mas eu sabia que no fim do dia, ele estaria aqui, comigo, a um quarto de distância.

No entanto, esses dias não foram totalmente péssimos. Na verdade não foram nada péssimos. Acho que eu precisava desse espaço pra me recuperar de... Tudo. Não me incomodo mais em ficar sozinha. Leio livros, faço biscoitos e escrevo para aliviar a mente.

Achei um caderninho com capa de couro antigo, no meio de uns livros velhos, e me animei para o transformar em algum tipo de diário, onde escrevo pensamentos, sentimentos e tudo mais. Tem sido ótimo. Me sinto melhor a cada dia.

Além disso, eu também saio de casa. Ando pela comunidade, converso com todos e ajudo os moradores mais velhos, que descobri recentemente serem muito boa companhia.

Não sinto mais aquele desespero sem fim.... Agora me sinto em paz. Os pesadelos já não mais me abalam e são raras as noites em que os tenho.... Porém as dores continuam, no entanto não há algo que eu possa fazer sobre isso. Meu bebê continua chutando diariamente e isso já me faz imensamente feliz.

Acho que agora eu entendo que não teria como eu e Shane continuarmos naquela situação. Eu precisava me curar antes de me envolver em qualquer tipo de relacionamento com qualquer pessoa. Do contrário, sempre acabaríamos brigando e magoando um ao outro, que era exatamente o que estávamos fazendo. Eu não quero que meu filho cresça entre brigas e desentendimentos desnecessários, quero que seja em um ambiente saudável e amoroso e estou trabalhando para isso.

Nos vemos todos os dias. Sentamos no balanço da varanda e ficamos conversando sobre a vida. Não falamos de sentimentos, traumas, nem nada triste, somente coisas felizes. Ontem ele me ajudou a fazer biscoitos e depois comemos observando o sol se pôr, e posso dizer que foi um dia incrível. Não sei se estou totalmente curada ainda. Se eu fechar os olhos e me concentrar bastante, ainda posso ver o rosto daquele homem, escutar sua voz e sentir suas mãos nojentas em mim. As vezes ainda me pego pensando nisso, e imediatamente tento ocupar a mente com outras coisas.

Ainda sobre eu e Shane, estamos tentando recomeçar. Já não lembro quantas vezes tentamos fazer isso e todas deram errado. Não sei se dessa vez vai funcionar, mas acredito que sim, precisa funcionar. Hoje, quando olho para o passado e vejo todos os altos e baixos que passamos, não consigo entender algumas coisas que eu fiz. Shane também fez coisas desagradáveis, mas a maioria foi eu. Meus sentimentos por ele nunca foram claros, sempre pareceu ter uma neblina espessa impedindo que eu os visualizasse por completo. Agora não é muito diferente, porém os vejo cada vez mais claros.

Ele estava certo quando disse que só vou atrás dele quando preciso. Foi assim desde o começo. Quando nos beijamos pela primeira vez, eu estava carente, e me aproveitei da situação. O deixei acreditar que teríamos algo, mas assim que chegamos em Alexandria eu corri para os braços do Daryl. O tempo passou, e já não parecia mais uma escolha entre eles dois para mim. Eu tinha o Daryl ao meu lado, mas mesmo assim não deixei as coisas claras pro Shane. Em minha cabeça eu imaginava que se escolhesse um dos dois, posteriormente ficaria sozinha, mas foi justamente o contrário do que aconteceu. Não escolhi nenhum, e fiquei sem os dois.
Então fomos pra Charlottesville e meu coração bateu mais forte por Shane. Nunca fiquei tão preocupada com alguém quanto fiquei ao vê-lo ferido daquele jeito. Ele estava caindo aos pedaços, mas não me deixou sozinha. Depois de tudo o que eu havia feito, ele encarou o mundo para ir comigo naquela longa viagem. E eu me entreguei a ele.
Sexo com o Daryl era ótimo mas com o Shane.... foi diferente. Não em questão de melhor, ou pior, mas em como ele me tocava. Não tem outra forma de explicação que não seja: devoção. Era quase como se ele sonhasse a vida toda com aquilo, e finalmente estivesse vivenciando. Eu gostei de ser tocada por ele. Gostei muito.
Então teve toda aquela coisa com os Salvadores, e Glenn morto e Daryl sequestrado e acho que foi nesse momento que eu comecei a ficar mal. Não conseguia suportar a idéia dele sequestrado, simplesmente não podia. Cada pedacinho meu parecia que ia explodir de tanta dor, só de imagina- lo torturado por aqueles homens. Não tive mais cabeça para Shane, sexo, ou qualquer outra coisa. Simplesmente não dava. Uma voz gritava na minha cabeça: TRAIDORA! TRAIDORA! Então eu simplesmente afundei.
Não me importava mais qualquer coisa, eu havia perdido outra pessoa que amava. Como poderia superar aquilo?
Quando o vi novamente, achei que fosse um sonho. Estava tão machucado que outra parte de mim se quebrou naquele momento. Fomos para Hilltop, e tivemos nossa despedida, que me ajudou a afundar mais ainda em minhas próprias dores. Daryl me jogou fora, e advinha só? Sim, eu fui procurar o Shane. Eu sabia que ele sempre se importaria comigo e utilizei disso pra que me trouxesse embora pra Alexandria. Ele descobriu que eu estava ferida, e não saiu do meu lado até ter certeza de que eu estava bem. O tempo passou, e eu ainda estava muito mal. Minha relação com Daryl havia acabado, e Shane me tratava como uma desconhecida. Fomos naquela patrulha e eu pedi que ele transasse comigo, pois estava chateada. Ele não negou, mas nossa relação não mudou. Mais algum tempo se passou e nos tornamos amigos, esquecendo tudo o que havia acontecido intimamente entre nós. Descobri que estava grávida, e a tristeza caiu sobre mim novamente. Eu não tinha alguma esperança de dar a luz a uma criança nesse mundo podre. Não me parecia justo nascer para... Isso. Mas Shane continuou do meu lado. Depois disso foi só ladeira abaixo. Dores, pesadelos, e inseguranças eram tudo o que eu pensava , por mais que Shane sempre tentasse me ajudar, me entender, eu sempre o afastava. Éramos tão amigos, e foi só eu saber que estava grávida que tudo mudou. Eu não queria que ele tivesse aquela obrigação comigo, não seria justo. Nenhum de nós estava pensando em bebê quando transamos naquela cabana, numa noite extremamente fria e chuvosa.
Eu sabia que ele tinha direito de viver sua vida normalmente, e nunca o obrigaria a firmar um compromisso comigo por qualquer motivo que fosse.

Mas os sentimentos que eu já nutria por ele cresceram. E cresceram, e cresceram. Engoli todos eles. Guardei bem no fundo para que ficassem só pra mim. Como eu poderia exigir algo dele, quando havia simplesmente brincado com seus sentimentos por tanto tempo? Não seria justo. E eu não suportaria perder mais ninguém por quem eu tivesse tanto amor em meu coração.

Presumi que aquele beijo entre nós fosse somente um momento de tensão sexual para ele, mas pra mim não foi. Claro, eu o desejava tanto que chegava a doer, mas era mais que isso. Meu coração ansiava por ele. Pedi um tempo por que pra mim, o que ele havia sentido naquele beijo passaria com o tempo. Não o queria somente por prazer e tinha certeza que era justamente isso o que ele queria.

Mesmo assim, Shane não hesitou em me amparar naquele momento de puro desespero.

E ele ainda não hesita. Nos nossos encontros não nos tocamos, mas ele sempre quer saber como eu estou. Sempre se preocupa e se dispõe para ajudar, mesmo tendo dito que eu só ia atrás dele quando precisava.

Penso muito nele. Sinto sua falta em cada momento do dia, lembro de seu sorriso quando cozinhou pra mim, como limpou meus cortes, como tocou minha barriga. Sinto sua falta como se fosse um pedaço de mim.

Mas ainda assim sei que isso é o melhor pra nós. Estou me curando. Por mim, por Shane e pelo nosso filho.


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