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*Melanie*


O jantar foi incrível. Michonne e Rick são sempre amáveis, e dessa vez não foi nada diferente. Foi bem rápido, demos muitas risadas e eu pude aliviar bastante a mente das coisas que me preocupavam. Quando chegamos em casa, eu vim para o meu quarto e ele foi para o dele, murmurando um "boa noite" meio estranho.

Juro que não consigo entender o Shane. Fiquei com vontade de bater a cabeça dele na parede quando ele nem ao menos olhou pra mim pra se despedir. Não sei se está tentando evitar contato porque eu disse aquilo sobre ser tocada, ou se só está bravo comigo mesmo. Prefiro não pensar sobre.

Acho que vai ser bom esse tempinho pra que eu possa voltar ao normal, vai ser bom pensar um pouco sobre o que eu realmente quero.

Eu estava pintando, hoje cedo, quando ele veio falar comigo novamente. Agradeci mentalmente pelo quadro ainda não estar pronto quando aconteceu, pois mesmo sem querer era o rosto dele que eu pintava, como se minhas mãos se movessem por vontade própria.

Agora são quase 9 da noite, e Shane ainda não chegou.

Mexo no macarrão com o garfo sem parar, o girando para os lados. Não estou com fome, nem um pouco. Por isso guardo o prato na geladeira, pois ninguém em sã consciência jogaria comida fora com tudo o que vivemos.

Subo para o meu quarto em seguida. Não faz sentido ficar lá embaixo esperando ele chegar, prefiro tomar um banho quente e ir dormir.

Acho que não consigo dizer um lugar do meu corpo que não está doendo. Os pés e os peitos são o principal, mas por Deus, tudo dói. Tenho tomado vários banhos quentes por dia pois a água quente em contato com a pele me faz esquecer a dor, por uns segundos. Eu simplesmente amo isso. Naquela época em que eu e Shane morávamos naquela casinha na estrada, sem sombra de dúvidas a água quente era o que eu mais sentia falta.

Estou desligando o chuveiro quando escuto as batidas na porta do banheiro. Instantaneamente meu coração acelera e eu quase me dou um tapa na cara por ser tão idiota.

Que droga!

__ já estou saindo! __ aviso, passando a toalha ao redor do corpo.

Queria muito ter lavado o cabelo, mas já é tarde, está frio, e o medo de pegar uma gripe é maior. Bem maior.

Ainda me arrepio lembrando daquela gripe da prisão. Só o fato de que mais de 50 pessoas morreram de uma vez, por uma gripe, já faz todo meu corpo estremecer. Credo. Eu e Beth ficamos cuidando das crianças, por isso não tive contato direto com os doentes, mas mesmo assim.... Foi horrível ver todos aqueles corpos queimando.

Finalmente abro a porta e vejo Shane, sentado em minha cama com a cabeça baixa. Meu coração dá outro pulo.

__ oi.

Ele levanta a cabeça e quase dá um sorriso, levantando da cama.

__ oi... Você está bem?

Mesmo de pé, ele não dá nenhum passo em direção a mim, se mantendo uns 2 metros afastado enquanto eu fecho a porta do banheiro.

__ sim. E você? __ pergunto, com meus dedos ainda na fechadura pra evitar que comecem a tremer descontroladamente.

__ sim..... __ Shane balança a cabeça algumas vezes e passa a mão sobre o cabelo, como se estivesse ansioso __ olha.. me desculpa por ontem? Eu não estava pensando muito bem... Não tive a intenção de ser grosso, sinto muito.

Nossos olhos se encontram em um pequeno momento, antes que eu me virasse de costas pra abrir a gaveta da cômoda.

__ tudo bem Shane.

__ tudo bem mesmo? Por que pra mim não parece. __ o ar entre nós fica carregado quando ele sai de perto da cama e encosta na parede a minha frente.

__ sim. Tudo bem. __ foco minha visão nas camisetas dentro da gaveta, pra evitar os olhos escuros em cima de mim. __ eu te pedi tempo, e você deu. A não ser que você tenha ficado bravo comigo por eu ter dito isso, e agora está se desculpando por ter ficado bravo. É isso?

Tiro um vestido do meio das blusas, e coloco por cima da toalha mesmo, já que já estava de calcinha. Não estou mais usando sutiã por que todos estão extremamente pequenos, e não me fecham mais. Volto ao banheiro e tiro a toalha por baixo, tentando ver no pequeno espelho da pia se meus peitos aparecem sob o tecido fino.

__ não sei ao certo. Mas de qualquer forma... eu estava pensando se você quer que eu vá embora. Eu posso voltar pra minha ca...

__ você não vai embora. __ encosto no batente da porta do banheiro, cruzando os braços sobre os seios doloridos.

__ eu só pensei que pra você deve ser péssimo morar com alguém de quem tem medo.

Fito minhas mãos, tentando com todas as minhas forças não me aproximar.

__ eu não tenho medo de você. __ sussurro, de repente minha voz está densa e chorosa.

__ não foi isso o que me disse ontem.

__ okay... Eu disse que tenho medo de ser tocada, não que tenho medo de você Shane.

__ qual a diferença?

Não gosto quando ele fala comigo com esse tom, não gosto nem um pouco. Talvez eu esteja ficando um pouco irritada. Talvez..

__ sinceramente? Não tô com paciência pra isso não. Estou uma pilha de nervos, toda dolorida e puta que pariu.... __corto a frase no momento em que ia falar algo relacionado a ele. __ Então...se você puder deixar eu descansar agora, eu agradeço.

Caminho até a cama, esperando que ele não retruque porque realmente não quero brigar com ele hoje. Nem em nenhum dia.

__ okay. Eu te ofereceria uma massagem, mas... Tenho que voltar pro muro. __ ele caminha até a porta e vira, dizendo:
__ boa noite Melanie.

Seus olhos descem até minha barriga de agora 6 meses, e sinto a dor em seu olhar. Sinto uma pontada no coração, meu estômago revira. Logo após ele fechar a porta eu corro pro banheiro pra vomitar.

...

No momento em que o relógio bate 15:32, Shane entra pela porta da sala. É a primeira vez no dia que o vejo, pois quando acordei ele já tinha saido.

Conversamos pouquíssimo, pois logo ele sai denovo, me deixando sozinha. Sei que eu deveria sair, andar pela comunidade, ajudar pessoas, qualquer coisa... Mas não tenho vontade. Por isso me fecho dentro dessa casa o dia todo, todos os dias.

...

Acordo com uma dor descomunal na barriga. Procuro por remédios no criado mudo, mas tudo o que encontro são cartelas vazias. Minhas pernas mal funcionam quando vou a cozinha, agarrada ao corrimão da escada como se ele pudesse me libertar dessa tortura.

O gosto amargo do remédio na minha língua faz eu me esquecer da dor por alguns segundos, me dando tempo de encostar no balcão e respirar fundo, enquanto as pontadas vão embora lentamente.

Fazia tempo que eu não tinha esse tipo de dor. Rosita me deu vitaminas pré natais, mas elas acabaram há algumas semanas e eu não sou boba o suficiente de achar que há um estoque imenso dessas coisas. O vidro que ela me deu era o último de Alexandria, e provavelmente o último de toda a região em que fizeram a busca.

Eu sei que tenho grande chance de perder o bebê. Sempre soube. Eu sei que dores desse tamanho não são normais em uma gravidez saudável. Qualquer um sabe. Rosita me deu essas outras pílulas que ajudam a minimizar a dor, mas é como uma ilusão. E ilusões também acabam.

Além do efeito de anestesia, as pílulas sempre me dão muita fome. Eu gosto dessa parte, por que é só parcialmente dopada que eu sinto fome.

Observo fixamente o prato de macarrão nas minhas mãos. É de ante ontem mas está com uma cara ótima, e se eu esquentar no microondas tenho certeza que não vai ter diferença alguma de um feito na hora.

Quando estou levando o prato até o outro lado da cozinha meus olhos pousam na parede iluminada pela luz da lua, e na sombra projetada ali, que segundos atrás não existia. Escuto as batidas do meu coração mais altas que qualquer outro som da madrugada, e viro o rosto até a janela.

Um rosto envolvido pela noite está me olhando através do vidro.

Não sinto o prato caindo da minha mão, nem os cacos de vidro se estilhaçando e voando na minha perna nua.

Só sinto o medo, frio e cruel, infestando cada centímetro do meu corpo.

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