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*Melanie*
Meus olhos se revezam entre o vento batendo nas árvores e derrubando suas pequenas folhas verdes, e a câmera fotográfica em minhas mãos.
Não sei realmente o motivo de ter me emocionado tanto com o presente, mas o jeito que Shane falou, o jeito que me olhava, isso sim me fez chorar.
Eu não sou uma pessoa que gosta muito de conversar sobre sentimentos, acho que isso já ficou claro pra todo mundo. Não gosto nem um pouco, tento evitar ao máximo o assunto. E agora que ele perguntou sobre minha família, foi como se um muro tivesse sido erguido ao redor de mim, das minhas emoções.
Ao mesmo tempo que gosto dessa proximidade com Shane, minha consciência me avisa para eu me afastar. Nós fomos descuidados, eu fui descuidada. Estava magoada, estressada e queria saber por que ele estava me evitando, isso estava me deixando doida. Sempre tem muita tensão sexual quando se trata de nós dois, mas naquela noite... Algo foi diferente. Não era só desejo entre nós, tinha algo a mais, eu pude sentir. De lá pra cá fiz o que pude pra ficar afastada, tentei ser sua amiga, tentei ignorar o que estava crescendo em meu peito, e teoricamente estava dando certo.
Até que eu descobri a gravidez. Eu estava transtornada, sem chão. Nunca tive tanta insegurança como naquele dia, juro. Mas então ele fez uma surpresa pra mim, me levando pro telhado do quiosque. Me fez esquecer minhas preocupações, toda a insegurança e o medo irracional. Me fez desejar aquilo com ele, encontros a luz da lua, andar de mãos dadas e coisas que eu nunca havia pensado em querer. Ele me beijou. Me levou até em casa e me beijou. Ficou com aquele sorriso de garoto apaixonado no rosto que transformou meu coração em geleia. E foi ai que eu tive a certeza de que a nossa amizade nunca seria o suficiente. Eu queria aquilo, eu queria aquela sensação de borboletas na barriga, aquela felicidade que inundava o peito.
Mas tudo foi embora tão rápido quanto veio.
Shane descobriu que eu estava grávida e no momento eu entendi sua reação. Aquilo me serviu pra mostrar que a vida não é um mar de rosas. Não existe conto de fadas, finais felizes ou dançar na chuva de mãos dadas. O que existe é a morte, a desgraça, a dor. Batendo a nossa porta a todo instante.
Por isso fiz questão de trancar meus sentimentos a sete chaves, no fundo do meu coração, e eles ainda estão lá, beeem no fundo.
Agora somos somente amigos que vão ter um bebê.
Temos um certo nível de intimidade e carinho, mas nada além disso. Confio nele, e ele confia em mim, é isso. As vezes ele é meu porto seguro, meu salvador... Mas continua sendo somente meu amigo.
Não posso me dar ao luxo de desejar mais do que isso.
__ desculpa, não devia ter tocado nesse assunto. __ a voz dele irrompe no carro, me trazendo de volta a realidade.
Ah sim ... Minha família. Não sei se devo falar sobre isso. Amigos conversam sobre isso? Os que eu tive não conversavam. Obvio que talvez fosse por que eles só queriam me usar, não se interessavam com a minha vida.
Mas que diferença faz isso agora? Estão todos mortos, todos eles.
__ não... Tudo bem. __ apoio a cabeça em uns dos braços.__ meus irmãos eram gêmeos, você deve ter visto alguma foto deles lá na minha casa aquela vez.
Ele balança a cabeça. Eu lembro de ter visto ele observando meu quarto, minhas coisas. Sinto saudades daquela casa. Quem sabe algum dia eu volte?
__ quantos anos eles... Tinham? __ sua voz falha na última palavra, como se fosse escolher outra mas tivesse ficado sem tempo.
Fixo os olhos no lago refletindo o céu azul. Não vou chorar, não vou chorar.
__ dez, na época.
Vejo seus rostinhos em minha mente. O cabelo loiro esbranquiçado quase como gelo, os olhos azuis e grandes, sempre fazendo perguntas, sempre curiosos. Éramos muito próximos, mesmo eu sendo vários anos mais velha. As vezes acordo com suas risadas e imagino estar em casa, em um dia de domingo. Sinto o cheiro da panqueca que minha mãe fazia, as tintas que meu pai usava pra pintar seus quadros de fim de semana. Então as lágrimas molham meu rosto, e lembro que não é real. Não mais. Estão todos mortos.
Respiro com dificuldade, sentindo a ardência no nariz indicando que logo logo vem a choradeira. Preciso mudar de assunto.
__ e você... Tem gêmeos na família? __ pergunto, tentando me recuperar da enxurrada de emoções.
Shane se encosta mais no banco, relaxando os músculos antes de responder:
__ não que eu saiba. Mas também tive um irmão.
Automaticamente me viro pra ele. Sou um diabo quando fico curiosa, é um saco até mesmo pra mim. Mas será que ele vai me contar os detalhes?
__ o que aconteceu com ele?
Me arrependo logo em seguida de ter falado. Óbvio que morreu né, já que não está aqui.
Imagino que ele vá ficar tenso, magoado ou algo do tipo, mas nada em sua feição muda muito, a não ser um pequeno lapso de tristeza em seus olhos. Sinto meu estômago revirando. Não é normal notar tristeza no Shane, mas quando acontece, é como se fosse em mim. Me sinto péssima.
__ bom... é uma longa história.
Balanço a cabeça concordando. Não vou o obrigar a contar, está claro que isso mexe bastante com ele. Mas então, quando penso que não, escuto sua voz novamente:
__ o nome dele era Dray. Era dois anos mais velho que eu. Minha casa era relativamente calma considerando que nós éramos dois pestes. Brigávamos o tempo todo, por qualquer motivo. Um lugar na mesa, quem iria começar chutando a bola no jogo, até mesmo por quem tinha mais atenção do meu pai. Ele era um ótimo pai, um herói pra mim e pro Dray. Lembro de nós correndo no quintal com uma bola mal feita com as nossas meias sujas, e da minha mãe reclamando depois, na hora do jantar: " seu pai só ensina coisa errada pra vocês" ela dizia.
O sorriso que ele dá ao dizer isso, eu não tenho nem palavras pra descrever. Sinto meu coração acelerar e o obrigo a parar de fogo pois quero saber o resto da história.
__ até que teve um dia. Era um uma sexta feira, a gente tinha ido acampar junto com os vizinhos do nosso bairro, era uma coisa que fazíamos sempre. O lugar tinha uma clareira imensa. Longas árvores com balanços, espaço pra jogar bola a vontade. Era tudo o que eu queria, era o que eu ficava esperando todo mês pra acontecer, eu simplesmente amava. Por mim eu ficaria jogando bola os três dias inteiros, mas Dray não queria isso. Eu era o mais novo, o medroso. Dray não tinha medo de nada, era uma cópia exata do nosso pai. Lembro até hoje, eu estava chutando uma bola na árvore mais próxima, eu tinha 10 anos. Dray chegou correndo até mim, seus cabelos pretos como carvão refletindo no sol do entardecer, em contraste com os olhos verdes brilhantes que ele puxou do meu pai. Dray me convenceu a ser menos medroso, ele queria que eu mostrasse para os outros meninos que eu não era um fracote. Ele estava errado.
Não sei porque, mas estou começando a não gostar dessa história. O jeito que Shane conta, suas expressões ao lembrar..... Estão cheias de culpa. Não sei se quero ouvir o resto, mas ele continua contando.
__ naquela noite, eu teria que pular no rio pra provar que eu era corajoso, como o meu pai, e o meu irmão. Nós saímos da barraca de madrugada, escondidos, e fomos pras pedras de um pequeno monte, de onde jovens e adultos pulavam. Eu não queria fazer aquilo, mas precisava provar pra eles, e pra mim também. Eu não consegui. O Dray... Ele pulou. Gritou pra que eu pulasse que ele me seguraria, mas dava pra ver que ele não sabia nadar. Não demorou nem um minuto pra ele começar a se debater na água. Eu paralisei, o pânico tomou conta de mim. Parecia que meus pés estavam colados na superfície da pedra, não conseguia me mexer. Fiquei ali, o observando ficar roxo e gritar, enquanto se afogava. As pessoas acordaram com os gritos e vieram até nós. Já era tarde demais.
Não sei se ainda estou respirando. Não sei se Shane está. Seu rosto está vermelho, e ele segura o volante com força, como se aquilo fosse o impedir de desmoronar.
Acho que quero vomitar.
__ depois disso, tudo acabou. Ninguém me culpava pela morte dele, mas tudo ficou diferente. Não importava se alguém me culpava, eu me considerava culpado. __ as lágrimas há tanto contidas, escorrem por seu rosto.__ meu pai....ele nunca conseguiu se recuperar. Entrou na bebida e alguns anos depois se matou, batendo o carro contra uma árvore. Minha mãe teve que permanecer forte, mesmo estando destruída por dentro, por mim. Quando fiz 15 anos, comecei a beber, usar drogas e tudo o que você imaginar. Conheci Rick alguns anos depois, e depois que minha mãe também morreu, decidi ser policial junto com ele. Já fazia vários anos desde o afogamento, mas eu tive uma vontade imensa de fazer aquilo por Dray. Eu queria ser corajoso por ele, queria salvar pessoas por ele. Pelos meus pais também. Queria que ficassem orgulhosos de mim. Não sei se faz muito sentido.
Sem perceber, seguro sua mão. Shane entrelaça os dedos nos meus, enxugando o rosto com a mão livre.
__ nunca contei isso pra ninguém. Nem mesmo Rick sabia. Me desculpa, eu não queria te assustar. Agora você sabe minha história Melanie.
Eu sou a primeira pessoa com quem ele se abre. Ele confiou em mim pra isso. Não achei que tivesse como Shane me conquistar mais ainda, mas depois dessa história, por tudo o que ele passou....
__ Shane. __ levanto seu queixo para que me olhe nos olhos. __ você não foi o culpado disso tudo. Sei que teve que carregar toda essa tristeza sozinho por todos esses anos, mas não precisa mais. Eu estou aqui. Eu sei quem você é.
Respiro fundo. Tenho certeza que vou chorar, mas não me importo.
__ tenho certeza que todos eles ficariam orgulhosos de você. Eu.. eu tenho orgulho de você. Sinto muito, muito mesmo, por tudo o que você passou, você não merecia nada disso. Meu Deus, vem cá.
E então eu o abraço e dessa vez não me afasto até sentir que nós dois finalmente paramos de chorar.
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