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*melanie*


"A dor não vai embora, você só se acostuma com ela."

Encosto a cabeça na janela de vidro, observando a multidão de mortos lá fora. Somos tão poucos em comparação com eles, é como se o mundo já fosse deles, e nós humanos, só os intrusos.

Eu costumava passar nessa rua todos os dias. Raquel me esperava na cafeteria, e assim que nós pediamos nossos frappuccinos de sempre, seguiamos rumo a faculdade.
Eu levava uma vida normal, com amigos, namorados e festas, como qualquer jovem da minha idade. Minha únicas preocupações eram se minha maquiagem tava borrada, ou reprovar o semestre.

Hoje, quase dois anos depois, vejo o quanto era uma vida vazia.

Volto meus pensamentos pro presente, pensando em como sair desse lugar.

Nem sei como conseguimos entrar nesse hospital.

Estávamos pegando coisas na Mello's, uma grande loja de departamentos. Assim que enchemos as mochilas, viramos a esquina, com a intenção de voltar ao prédio em que estávamos dormindo. Acontece que no momento em que viramos, uma horda saiu da puta que pariu vindo bem na nossa direção. Se tivéssemos demorado mais alguns minutos, com certeza já estariam sobre nós.

Minha cabeça estava girando a mil km por hora, meu primeiro instinto foi correr na direção contrária, sendo puxada pelo policial que segurava minha mão.

Depois de uns minutos demos de cara com um hospital e entramos, sem hesitar.

Não estava em tão péssimas condições quanto imaginei, oque já é ótimo. Paredes mofadas, goteiras e poeira não são tão ameaçadoras quando você foi acostumada a viver um uma prisão abandonada. Na verdade não chega nem perto.

Shane se separou de mim, tentando encontrar um cômodo seguro pra gente ficar, e logo voltou me puxando para um quarto na ala oeste.

Estamos aqui dentro até agora, e já escureceu. Com certeza teremos que passar a noite aqui, já que não temos outra escolha. Amanhã se tiverem menos deles, talvez dê pra sair de boa, espero. Até porque ninguém gosta de ficar coberto de sangue de zumbi, e esse é o único jeito de sair, se ainda estiver assim.

O quarto está escuro, com uma única luz que vem da lua. Temos suprimentos nas mochilas, mas não vão durar por muitos dias, se ficarmos aqui encurralados. A água que eu recolhi da chuva da madrugada passada também tá quase acabando, e eu tô tentando não pensar nisso.

Melhor morrer de fome/sede do que ser comida viva por esses sanguessugas.

Meus olhos estão quase fechando, mas não vou dormir. Eu dormi bastante noite passada, antes de acordar pra captar água, e preciso ficar de guarda pro Shane descansar. Ele correu demais hoje, e isso não é bom pros pontos. Nem um pouquinho. Eu dei uma olhada assim que chegamos aqui, e pareceu tudo bem, mas vai que estoura do nada esses negócios, ai fode gostoso mesmo.

O policial parece tão inofensivo assim dormindo. Como sempre, ele tá deitado em cima do braço, com a cabeça um pouco inclinada. A barba recente desenha seu rosto, deixando- o mais quadrado em conjunto com suas sombrancelhas escuras e cheias.

Um arrepio percorre meu corpo, me lembrando da noite passada, do toque, da sensação de ter minha pele colada na sua.

Não sei ainda como lidar com isso, então deixo pra lá.

Tambem não sei como lidar com esse "triângulo amoroso".

A verdade, é que eu não tenho nada serio com nenhum dos dois. Andei pensando bastante nisso ultimamente, e teoricamente, eu e Daryl não estavamos namorando, então não foi uma traição. Mas não deixa de ser errado.

O som da porta rangendo faz ele abrir os olhos, assustado. Felizmente trancamos a porta, e Shane colocou uma cadeira ali no local, impedindo a maçaneta de ser aberta por fora.

_ hey... Deve ser só um deles, daqui a pouco ele cansa e vai embora__ digo, me aproximando do policial.

_ você tá um caco. __ ele sussurra, provavelmente percebendo a minha cara de exausta.

Seu corpo se ergue, e eu empurro novamente fazendo-o voltar a cama.

_ não. Fica ai e dorme mais um pouco, vai.

_ a água já acabou?

_ ainda não. Eu pego pra você, fique ai.

Pego a garrafa e o entrego. Ele dá um pequeno gole, tampando o plástico novamente.

_ temos que economizar. __ sussurra, colocando a garrafa em uma mesinha, do seu lado.

Se tivéssemos voltado antes para o prédio, que ódio.

_ hey. A gente vai conseguir sair daqui. __ Shane sussurra, segurando minha mão.

_ eu sei. __ respiro fundo, tentando fingir que acredito nisso.

_ vem cá . __ ele se move pro lado, dando um espaço pra que eu me deite.

É uma cama de hospital, ou seja, não é nem um pouco confortável.

Fecho os olhos, permitindo que minha mente descanse um pouco.

......

Vejo os olhos azuis, me fitando como se conhecesse cada pedacinho de mim. O caçador me beija, e logo estamos grudados, um completamente preso em sentir o outro. Ele estende a mão, e caminhamos até seu quarto. Observo como o colete de asas fica bem em suas costas, ele é sua marca registrada. A porta do quarto se abre, mas não vejo uma cama. Na verdade não vejo o quarto dele. Estamos no complexo dos Salvadores, e umas trinta pessoas apontam armas na minha cara. Um deles, moreno e alto grita algo e dispara a arma, na minha direção. Alguém pula em cima de mim e cai no chão em seguida, atingido no peito. Gritos ecoam na minha cabeça, é como se alguém tivesse me dado uma facada. Não estou ferida, mas isso dói muito mais do que se estivesse. Caio no chão também, ao lado do corpo do caçador e seguro sua mão, enquanto as lágrimas embaçam minha visão. Seus olhos, ainda abertos não são mais azul brilhantes, mas sim um tom de cinza, escuro e sem vida, me fitando mesmo depois de morto. Deito a cabeça em seu peito, esperando que suas mãos alcancem meus cabelos, ritual que sempre fazíamos antes de dormir. Fecho os olhos com força quando entendo que acabou. Ele morreu. Nunca mais vai acontecer.
Daryl Dixon morreu por mim.
_ eu te amo, caçador_ escapa pela minha boca, entre soluços.
Gritos ecoam pelo local, e logo percebo que eles são meus. Levanto a cabeça, e um dos homens sorri, como se tivesse feito algo extraordinário.
_ já que ele quis o presentinho, agora é a sua vez_ ele sussurra, ainda com o sorriso nos lábios, mas tudo oque eu consigo fazer é gritar, e é isso que eu faço, quando a bala me atinge na testa.
A última coisa que escuto são as risadas, muitas delas enquanto tudo fica preto e sem vida.
Então agora não sinto mais nada, não sou mais nada.
Só existe um vazio.
Acabou.

......

Algo cai no chão fazendo meus olhos se abrirem com o baque. Shane está de pé, me encarando.

_ você tá bem?

Olho pros lados, tentando entender oque houve. Meu coração bate acelerado e minha testa está molhada, como se eu tivesse suado horrores.

Foi um sonho. Graças a Deus.

Ainda consigo sentir a dor em meu peito, que me destruía, mesmo que eu ainda não tivesse machucada.

Pareceu tão real.

Assim que ele se foi, eu soube. Assim que o vi, se jogando no meu lugar, eu soube. Não sei oque faria se algo acontecesse com ele, não consigo nem pensar.

_ to bem. __ respondo, assim que consigo controlar a respiração.

Tem pouca luz entrando pela grande janela de vidro, o que me faz pensar que está já amanhecendo.

Ele faz cara de quem não acredita, mas mesmo assim não toca no assunto, pois sabe que eu não vou dizer.

_ a movimentação tá menor e já dá pra gente ir. Ao menos que você quiser ficar, e descansar mais um pouco.

Balanço a cabeça e levanto da cama, indo até a janela. Realmente, eles já se dispersaram bastante. No geral, tem uns 20 zumbis pela rua, 5 deles na frente do hospital. As chances tão ao nosso favor.

Pego as nossas coisas, que estavam jogadas no chão e sigo o policial, passando pela porta. Diferentemente do quarto, aqui no corredor não tem quase nenhuma luz, e tempo é algo que não dá pra desperdiçar então vamos assim mesmo.

Shane segura minha mão apertada, e posso sentir o quanto está tenso. Eu também estou, até porque só basta um zumbi aparecer sem que vejamos no escuro, e nos atacar, que é morte na certa.

Ele para subitamente, me fazendo quase tropeçar em seu corpo, no breu.

_ hey... Tive uma ideia. A gente tem fita em alguma das mochilas né?

Concordo, já imaginando o que ele tem em mente.

Lá na prisão, a gente fazia bastante isso, quer dizer, eu não fazia parte do grupo de defesa, pois meu papel era mais cuidar da Judith junto com a Beth, mas eu observava bastante quando eles saiam pra enfrentar zumbis.

Passar fita nos braços é uma prevenção bem eficaz, visto que os mortos não conseguem cortar a fita, se ela for passada direito.

Dez minutos depois entramos em um corredor um pouco mais claro, que dava direto na saida do local.

Silenciosamente caminhamos até a porta, mas novamente Shane para, e eu tropeço nele, coisa que parece que já virou rotina.

Ele me olha, com o dedo nos lábios e aponta para a esquerda. Um outro corredor corta esse que estamos e pela luz no fim dele, dá pra ver mais de dez sombras, caminhando lentamente pra longe de nós.

Respiro fundo.

Quando eu penso que vai dar tudo certo aparece mais um filho da puta pra fuder com a minha vida. Que droga.

O policial caminha devagar, e silenciosamente até a outra parede, esperando que eu o siga.

Minhas mãos soam, e as balanço, tentando focar no objetivo. Dou um passo de cada vez, sem olhar para o lado e chego até Shane, quase tendo um ataque cardíaco.

Ele me abraça, e fala que vai ficar tudo bem, antes de selar os lábios nos meus, carinhosamente.

Encosto ao seu lado, tentando respirar do jeito certo.

_ agora a gente vai ter que sair, e lá fora vai ser mais difícil ainda. Se eles vierem pra cima, você usa os braços, ou corre, mas não use a arma de jeito nenhum, o barulho só iria atrair mais deles.

Concordo com a cabeça.

_ vai dar tudo certo. __ ele sussurra, me abraçando.

Ja fizemos isso milhares de vezes, mas mesmo assim, sempre sinto a mesma tensão e medo. De qualquer jeito, agora não é hora pra isso, precisamos voltar pra Alexandria, eu não estou com um pressentimento muito bom.

Abro a porta e saímos, seja oque Deus quiser.

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