Capítulo 1 _ Parte 2/3

      Os pássaros cantavam de forma suave, as cigarras atuavam seu papel na cadeia da vida e ali, bem escorada em uma árvore estava Emma, perplexa com sua decisão. Admirava o céu enquanto criava suas teorias sobre como alguém poderia se tornar uma estrela após a morte. Se ela enfim aceitasse que seu irmão não voltaria, estaria aceitando sua perda. De certa forma se Darlan estivesse mesmo em outro plano não cabia à ela o impedir de estar em paz, pois não pertenciam ao mesmo lugar.

      Se a luz que vemos hoje de uma estrela é sempre como olhar para o passado, teria então que aprender com elas que: Algumas já não existem, mas o que realmente importa é o que elas deixaram para ser visto. Com esse pensamento cravou em seu peito que perdas fazem parte, mas que deveremos seguir em frente. Desde àquela noite fria e cheia de desejos vindos de todos os cantos da Terra, ela escolheu olhar para às estrelas todas as noites e se lembrar do irmão, de seu pais e eles deixaram nela anos luz de lembranças.

     Riscou de lápis alguns rascunhos, sobre coisas que poderia fazer e alguns objetivos. Começar do zero sempre será difícil, mas o importante é simplesmente começar. Lembou-se que astrônomos mapeiam o universo à cada dia. Ela iria traçar a rota de seus sonhos, entretanto percebeu que não estava agindo de forma correta. Ainda naquela noite visitou o túmulo do seu irmão mais uma vez e pediu-lhe desculpas caso ela não voltasse mais lá. Essa atitude para ela era tudo o que iria fazer sentido, era carregá-lo na alma ao invés de rezar para ossos do que um dia foi seu irmão cheio de vida.

      Emma voltou para casa, se deitou em seu quarto silenciosamente, pois Eduardo ainda estava deitado em seu tapete de cor marçala. Ao olhar uma última vez para ele antes de pegar no sono, foi de encontro com a sensação de alívio. Ela sabia que naquele mesmo tapete foi dormir chorando muitas vezes e em algumas delas, ele era o culpado, porém desde a morte do seu irmão tinha mudado sua personalidade. Logo decidiu que por mais que ela pensasse que ele não merecia, ele era a pessoa que esteve com ela durante anos, e o último motivo significativo para seguir em frente. "Por que não dar um voto de confiança e ele?" Pensou. Nem tudo está perdido se há oportunidade de um novo recomeço.

     Pela manhã, Emma abriu sua janela que sempre emperrava, sacodiu as cortinas e deu um grande sorriso ao ver que o botão de rosa. Até outro dia parecia estar morto e naquela manhã se tornou uma bela flor. Arrumou seu quarto e não se preocupou com a aparência. Caminhando ainda com sua camisola grande e clara, descabelada e sem escovar os dentes, apareceu para o café sorrindo. Eduardo estava tomando o café de um outro dia, e sem nada mais à mesa.

___ Emma, hoje você acordou tão... Diferente.

___ Senhor, o botão floriu.

___ Como?

___ O botão. Oras.

___ Ah sim. Está falando da roseira. Uma linda flor. Não quer que eu à pegue e ponha em seu quarto?

___ Jamais.

___ Não gosta que eu tente te agradar?

___ Não é isso. Eu não iria arrancar algo para ter só pra mim se eu sei que posso admirá-la da janela. Ao invés de ver seu corpo secar no meu quarto posso a ter por muito mais tempo.

___ Belas palavras. Já lhe disse, me chame de Eduardo.

___ Como você tem coragem de tomar isso?

___ Só por que eu fiz outro dia? Não está estragado.

___ Não é isso.

___ O que é então? Oras.

___ É porquê foi você quem fez___Riram.

    Naquela manhã, Eduardo estava feliz por ter acordado e encontrado Emma em seu quarto sorrindo enquanto dormia. Cogitou se ela teria sonhado com o irmão, ou se não teria sido com ele. Ele à amava de uma forma tão pura e tão intensa que só o tempo poderia explicar e esclarecer. Emma, acordava todas as manhãs bem vestida, com a roupa passada e nem um fio de cabelo fora do penteado, mas hoje ela não se preocupou com a aparência, e nesse dia ele também lhe viu como uma linda mulher. Não falava muito, P
Porém sempre ria sozinha e passava boa parte do seu tempo no terraço com seu falecido irmão, onde antes, ficavam também seus pais.

___ Você não gostaria de ir ao teatro hoje?

___ Não.

___ Por quê?

___ Eu gostaria que o teatro viesse até mim.

___ Como?

___ Descubra e me mostre hoje a noite no terraço. Tenha um ótimo dia, senhor Coleman.

     Eduardo levantou animado e intrigado. Como ele poderia levar o teatro até sua casa? Talvez com todo o dinheiro que tinha fosse bem fácil, mas ele sabia que Emma não era nada materialista. Ela, para ele, era incrivelmente maluca e totalmente encantadora. Em seu trabalho pode tomar um café que não estivesse tão ruim quanto o seu, como Emma sempre dizia. Emma o achava sempre insistente, pois sempre fazia seu café, mesmo ficando péssimo.

    Eduardo, queria à qualquer custo agradar a jovem. Ele, mais do que ninguém sabia o quanto suas perdas traziam tristeza. Via seus olhos enxerem de lágrimas ao se lembrar dos pais e agora mais ainda ao se lembrar do irmão. Emma derramara lágrimas durante a tarde inteira e mais tarde colocou os pertences de seu irmão para doação. Assou um pato com batatas e abriu o vinho, ajeitou a mesa e se sentou bordando mais uma de suas pequenas obras de arte.

     Bordou uma rosa para sempre se lembrar daquele dia em que resolveu experimentar pela segunda vez o café de Eduardo que não mais considerava como chefe. Se preocupou com seus gastos e pensou em se mudar. Pensou em todo o dinheiro que tinha, mas que pouco se importava com ele. Pensou no futuro e em suas linhas traçadas. Teria espaço para Eduardo em seu universo particular?

     Quando Eduardo chegou, tirou os sapatos e contou suas novas bolhas, tomou um banho quente e se vestiu com o melhor terno. Não era só Emma que havia mudado, mas algo dentro dele também estava diferente. O sentimento de gratidão vindo dele era tão bonito quanto a rosa que Emma admirava pela janela. Ele pensou bem, pensou o dia inteiro e percebeu que o dinheiro não iria comprar o sorriso de sua amada, se nem o dele poderia comprar.

     Desceu as escadas sentido o cheiro de um jantar caprichado e ficou contente por saber que não precisaria fazer sua comida, já que Fernanda, a cozinheira, estava de férias. Quando chegou na cozinha seus olhos brilharam ao ver Emma com um vestido vermelho e os cabelos soltos. Ela estava magnífica. Só por um instante, ele pensou em elogiá-la, mas não queria à constranger. Pensou também que não há nada que o tempo não possa lapidar.

___Oi.

___Oi, Emma. Senti sua falta.

___Eu sei que sentiu.

___ Não vai dizer que sentiu a minha?

___ Mas eu já lhe disse.

___ Quando?

___ Agora, bem nesse instante.

___ Como?

___ Com os meus olhos.

___ Você quer me enganar?

___ Me disseram que os olhos não mentem.

___ Vamos jantar. Tenho um teatro para você.

___ Terá música?

___ Sim. Terá.

     Mais tarde, Eduardo subiu ao terraço com Emma e quando chegaram lá tinha apenas uma caixa de som antiga. Os dois dançaram a noite inteira como se o tempo fosse uma incógnita e o amanhã não fosse existir. Uma dança lenta, calma, e cheia de perguntas, pois nem sempre é necessário a resposta se você faz boas perguntas. A música leve soava e se chocava com o vento, dançando com ele, assim como Emma e Eduardo. Naquela noite os olhos de Emma fizeram todas as perguntas possíveis, enquanto ela mesma presumia respostas. Eduardo se sentia confortável e pronto para responder qualquer coisa, mas o silêncio foi tão caloroso, tão acolhedor, que nada disseram.

     Em vez de se aborrecerem com perguntas, ou insistirem nas respostas, optaram por guardar aquele momento. Emma não sabia dançar com alguém, porém não quis o incomodar. Ela acreditava nela mesma, sabia que era capaz e que era algo tão simples, um detalhe, que nem quis comentá-lo. Eduardo pode passar uma noite incrível enquanto escutavam música clássica, assim de forma sutil e simples, como Emma. Não era uma grande peça de teatro, não era algo ensaiado, ou forçado. Era um pequenino teatro, mas era real e inesperado. Era o começo de um traço, como traçar novas rotas.

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" E como um anjo caído,
Eu fiz questão de esquecer,
Que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira
Mas não sou mais tão criança a ponto de saber tudo"

Renato Russo

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