Capítulo II - O Delegado Leôncio e seu Amigo Bigodes
Capítulo dedicado à @GustavoPNovaes
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- Assuma logo que matou a moça! - o terceiro tapa desnecessariamente estrondoso ecoou da mesa da sala do interrogatório enquanto o policial bigode de pincel cuspia em mim aos berros.
Tantos anos que não piso em uma delegacia como suspeita que tinha me esquecido como era a sensação das algemas.
Bem, dessa de metal claro.
Na última vez eu usava jaqueta de couro com caveira nas costas e um adesivo da cabeça de Hitler sendo explodida. Sai de lá prestando alguns favores e revelando uns esquemas antigos.
Não eu não entreguei ninguém, só contei uns casos de um pessoal que já havia sido morto na época e que ninguém tinha até então descoberto os lances. Ninguém saiu comprometido.
O que mais incomodava nem eram os pulsos machucando no metal frio, era a sensação vazia no cós da saia lápis agora que retiraram minha pistola de mim.
Uma LTGG-43, fabricada especialmente pra mim como presente de aniversário depois de ter sido bem sucedida em uma das mais importantes ações da resistência.
O delegado me encarava do outro lado da mesa enquanto minha LT parecia tão cruelmente solitária longe de mim e o amiguinho Bigodes me rodeava naquele jogo ridículo de policial bom e mau.
- Responda! - estalou outro tapa na mesa.
- Pra quê? Já disse tudo o que tinha pra falar e vocês não querem acreditar então azar. - respondi me ajeitando na cadeira.
- Quer mesmo que acreditemos que alguém assim como você - me olhou de cima a baixo analisando minhas roupas - estava sendo perseguida? Foi encontrada em cima da morta, toda suja de sangue e ainda portava uma arma!
- Exatamente Bigodes, eu portava uma arma de fogo e não uma lâmina com a qual obviamente ela foi assassinada. - soprei uma mecha de cabelo do rosto.
- Como sabe que ela foi morta a facadas? Nem mesmo a legista avaliou o corpo ainda.
- Como você disse eu estava em cima dela. E como eu disse, eu cai por cima dela depois que rolei o barranco. Vi os cortes na roupa encharcada de sangue.
- Isso não prova nada! Claro que você jogou a arma do crime longe pra amenizar a situação! - gritou outra vez.
- E qual seria meu motivo para matá-la caro policial? Sabe que sou uma detetive não teria razões pra isso e se tivesse não faria algo tão estúpido a ponto de ser apanhada.
- Calada! Quem pergunta sou eu! E sim, sabemos bem quem você é Lestrangge e é justamente por sabermos do seu passado que isso piora a sua situação!
- Que seja.
Eu já estava de saco cheio daquela luz esdrúxula na minha cara. Queria só acordar daquela noite horrenda e descobrir que foi tudo um pesadelo de muito mal gosto, mas nem sequer me colocaram na cela pra um cochilo só me arrastaram pra cá me julgando culpada e querendo arrancar uma confissão.
Panacas.
- Jean, pode parar com o interrogatório ela não vai falar nada. - o Delegado Leôncio palpitou pela primeira vez com aquela característica voz mansa do policial bonzinho. - Pode levar pras grades.
Apelidei ele de Leôncio pela barriga proeminente e o bigodão. O outro tal de Jean apelidei de Bigodes por ter um maior ainda.
Então o policial mau mandou que eu me levantasse e saiu me empurrando corredores a fora. Sobre minha ligação de direito? As únicas pessoas que conhecia estavam "trepando" uma hora daquelas e nem sequer lembravam da existência do mundo.
- Espero que o frio daí refresque suas memórias, vadia assassina. - retirou minhas algemas e saiu fechando as grades.
- Falou Bigodes. - retruquei me sentando no colchonete e massageando os pulsos.
- O que disse? - voltou raivoso.
- Disse boa noite. - sorri debochadamente.
Assim que ele saiu um outro policial entrou e se sentou na cadeira com uma xícara fumegante. Pelo cheiro devia ser café. Até que era bonito, se eu não estivesse atrás desse monte de ferro...
Minha situação estava péssima. Fui achada na cena do crime, em cima da defunta, em uma madrugada deserta, portando arma de fogo e com um currículo nada limpo em mãos.
É claro que eu ia ser condenada.
E é por isso que não podia ficar ali.
- Isso aqui está um saco não é não? - falei pro guarda.
- Calada prisioneira. - retrucou sem nem olhar pra mim.
- Ah que isso, só estou tentando puxar assunto.
- Não tem que puxar nada tem que ficar quieta. - bebericou o líquido da xícara.
- Tudo bem, tudo bem. - dei uma pausa fingindo desistir e depois retomei a fala - mas cara, só estava querendo dizer que, esse seu serviço parece uma droga ein?
Ele olhou pra mim.
- Ficar aqui, sozinho, observando uma única encarceirada sem ter nada pra fazer, e ainda não poder tomar uma cervejinha que fosse? Não criticando seu café, mas... eu estou ruim, mas você amigo...
- Não sou eu que vou passar o resto da vida na prisão. - retrucou.
- Ah claro, mas eu não vou estar trabalhando muito pelo contrário, e ainda vou poder fumar meus cigarros e pedir alguém pra levar minha birita. Eu é que não queria estar no seu lugar com um frigobar cheio de bebida e sendo obrigado a tomar café.
Ele alterou o olhar entre o frigobar e a xícara de café.
- O que você quer com isso mulher? - indagou desconfiado.
- E o que eu poderia querer com isso guarda? Oras só estou tentando amenizar a situação pra pelo menos um de nós. E ajudar alguém a manter o relacionamento com o álcool me faz ter a sensação de estar bebendo junto. - dei de ombros.
- É você tem razão - concordou se inclinando na ideia - Que se dane eu não vou ficar aqui bebendo café como uma senhorinha idosa.
O guarda levantou da cadeira e abriu o frigobar retirando de lá uma garrafa de cerveja. Sentou novamente colocando os dois pés na mesa e abriu a tampa com o abridor derramando o líquido na garganta.
Esperei um longo tempo que pareceu uma eternidade até acontecer o necessário. Recostada do vão entre as paredes aguardei o momento em que o guarda se levantou comprimindo as pernas.
- Vou tirar a água dos joelhos e já volto. Fica quietinha aí moça. - comentou com a voz já meio duvidosa.
- Claro, vá tranquilo seu guarda. - respondi com um sorriso singelo.
Assim que ele virou o corredor e deu dez passos altos que ecoaram naquela solidão cinza, eu retirei um grampo e um palito dos cabelos e me ajoelhei perto da fechadura.
- Non, rien de rien
"Não, nada de nada"
- Non, je ne regrette rien
" Não, não me arrependo de nada.
Um pouco de trabalho manual e a cela se abriu pra mim com um rangido abafado.
- Ni le bien qu'on m'a fait
" Nem o bem que me fizeram"
- Ni le mal, tout ça m'est bien égal!
" Nem o mal, tudo isso pra mim tanto faz!"
Andei pela sala e encontrei embaixo da mesa um pé de cabra. Retirei o cinto da saia e enrolei nas mãos. Mais dois minutos pra ele voltar.
- Non, rien de rien. Non je ne regrette rien
" Não nada de nada, não, não me arrependo de nada. "
Os passos voltaram dessa vez mais calmos enquanto eu aguardava atrás da porta. Assim que ele cruzou a soleira e se pôs á minha frente, enlacei com força sua garganta com o cinto, chutando a articulação do joelho para o fazer abaixar.
O peso contra o cinto foi o fazendo parar de tentar se debater rapidamente.
- C'est payé, balayé, oublié
Je m'en fous du passé!
" Está pago, varrido, esquecido, não me importa o passado!"
Ele caiu desmaiado como uma criança a dormir. Por que não usei o pé de cabra? Faria barulho. Derramei a garrafa de cerveja em cima dele e a coloquei ao lado. Caminhei pelos corredores me escondendo atrás das paredes, sabia que havia mais três policiais de plantão além do Bigodes e do Delegado Leôncio, geralmente ficam na recepção ou na cozinha improvisada.
Guiada pelas vozes consegui ir pelo caminho contrário a todos eles. Passei pela sala do interrogatório e achei minha LTGG-43 na gaveta do arquivo. Cheguei na recepção e só tinha mais um empecilho escorado na bancada para ser ultrapassado.
Mirei a arma no recepcionista e fiz sinal de silêncio enquanto passava rumo a porta. Foi nessa hora que alguém gritou de lá dentro:
- A prisioneira fugiu!!!
- Ela está aqui! - gritou meu alvo tagarela. Atirei em sua perna e ele caiu gritando de dor.
Mais uma vez naquela noite corri e afirmo que não foi nada bom pro meu sedentarismo, mas confesso que me senti em 1942 fugindo em meio a um tiroteio com soldados nazistas.
Me embrenhei no meio de mais vielas sujas até achar uma escada de incêndio já longe das vistas dos policiais. Quando subi toda ela e fui parar no telhado do prédio percebi que pararam de me perseguir.
A lua agora descoberta do manto negro brilhava sob a Velha Paris iluminando Lá Ville de L'amour.
- Non, rien de rien, no, je ne regrette rien.
" Não, nada de nada, não, não me arrependo de nada" .
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Música de Edith Piaf - Non, je ne regrette rien (também tá na mídia)
Ps: Ela só cantou uma parte da música rs
Lá Ville de L'amour: A Cidade do Amor
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