Capítulo I - A Porcaria da Lei De Murphy

Aquela noite estava um porre.

Do tipo muito porre.

Primeiro que eu levei um bolo imenso da pessoa com quem marquei um encontro.

Segundo que Rebeca e Trevor já tinham cada um arrumado um rolo pra lá e eu fiquei sozinha no balcão do bar.

Terceiro que a bebida tinha acabado e eu não tinha um puta tostão furado pra comprar nada.

Então é, estava um porre.

Pra piorar algum indivíduo colocou pra tocar Edith Piaff o que coroou minha noite com uma tiara de frustrações.

- Vai querer mais alguma coisa Lestrangge? - perguntou o Barman - Quem sabe um acompanhante?

Ele debochou e arrancou risadas dos demais ao longo do balcão.

- Vou sim, vou querer que você pegue esse seu sorrisinho e enfie ele no...

- Está bem, está bem, não precisa disso. - ergueu as mãos em sinal de paz. - Mas sério vai querer mais algo?

- Não. Ponha a bebida na conta do Trevor e se perguntarem por mim voltei pra casa.

Passei a mão na bolsa e me retirei do estabelecimento rumo ao meu chiqueiro organizado, como gosto de chamar meu flet.

Aquela altura da noite tudo soava muito calmo. Apenas uns poucos casais passeavam nos locais mais iluminados e arborizados da velha Paris, ou alguns bêbados se escoravam nos becos solitários. O som dos grilos é uma ótima companhia quando não se tem uma garrafa cheia na mão, constatei naquela noite.

Parei em um muro qualquer e acendi meu cigarro, baforando a fumaça branca enquanto pensava na vida patética em que me meti. Tantas coisas que poderia ter sido e acabo querendo me tornar uma versão fracassada de Sherlock Holmes. Talvez devesse ter virado prostituta com certeza estaria ganhando mais.

Natasha Lestrangge já é por si só um ótimo nome de guerra.

Enquanto devaneava sobre minhas péssimas escolhas o céu retumbou em um clarão de riscos luminosos, e como se já não bastasse tudo o que aconteceu começou a chover.

- Quem está na chuva... - comentei irônicamente.

Sai andando pelas ruas calçadas, meus passos ecoando agudamente no silêncio da madrugada, respingando água do chão em diversas direções, as gotas de chuva escorrendo pelo meu cabelo encharcado e pingando na face,a brisa suave e morna que embalava meus suspiros cansados como um acalento, um abraço aconchegante de mãe.

Como estava fazendo uma brisa morna em plena madrugada chuvosa na França? Pergunte pro pessoal especializado.

Pra outra infelicidade pisei em falso numa fenda das pedras do calçamento e no momento do tropeço quebrei o salto do meu melhor sapato.

Que noite adorável.

Depois de cinco minutos caminhando como uma bêbada pelo sapato quebrado - não que eu não estivesse minimamente alterada pelo álcool - arranquei os saltos dos pés e deixei a meia calça encostar no chão frio.

Molhada, rejeitada, sem grana, e ainda sem nada pra encher a cara, porque lá em casa também faz semanas que se foi a última dose.

Pra piorar cometi o principal erro contra o cosmos: disse a frase que não pode ser proferida.

- Pelo menos não tem como essa porcaria de noite ficar pior! - gritei para os céus que relampearam uma resposta incompreensível. - É por isso que gosto do céu, ele não me deixa falando sozinha.

Foi nessa hora que uma outra luz surgiu e brilhou forte me cegando momentaneamente. Quando consegui enxergar, estava em um beco sujo e vazio onde na ponta dele um carro preto piscava os faróis.

- Oi chuchuquinha, não deveria estar na rua essas horas! - gritou alguém do carro.

- Chuchuquinha é o teu rabo! Seja pelo menos criativo ao começar uma ameaça ôh palhaço! - gritei de volta.

- Essa ai está mais pra cadela mesmo rapazes! Vamos mostrar o lugar dela. - gritou outra voz e várias riram.

Saquei meu revólver do cós da saia e apontei na mesma hora. Talvez não seja uma boa ideia já que a mira alcoolizada não está das melhores, mas estou sem opções.

- Saiam daqui ou arrebento seus miolos. - retruquei confiante mirando a cabeça de um deles que estava pra fora da janela.

Péssima escolha. Cada um deles arrancou uma arma e apontou pra mim de lá de dentro.

- Acho que não cachorra. Rapazes, guardem a arma que a gente vai passar é por cima. - nisso ele acelerou o carro em minha direção.

Atirei contra o vidro do carro três vezes e ele se estilhaçou no chão do beco os fazendo frear. Foi o tempo pra eu sair dali o mais rápido possível. Quando estava saindo do maldito local eles voltaram a acelerar atrás de mim.

Fiz a curva correndo como só corri da polícia nos meus tempos de adolescente rebelde. O barulho do motor rugia como se estivesse na minha orelha e a chuva caindo me fazia escorregar no chão liso.

Então eles também começaram a atirar. A essas alturas meu coração já estava na boca e eu não sabia o que fazer. Virei em um outro beco que dessa vez era estreito demais para o carro e disparei corredor a fora jogando as latas de lixo atrás de mim, caso resolvessem me seguir a pé.

A passagem era extensa e quando cheguei no final não havia sinal dos macaquinhos de circo. Ainda tensa e desconfiada passei por mais duas ruelas imundas antes de voltar as ruas normais. Achando que os tinha despistado encostei a cabeça na parede e respirei fundo.

Voltei a caminhar completamente exausta pela corrida, olhando vez ou outra ao redor. Tinha dado uma bela volta e parado bastante longe de casa. Enfiei a mão no decote e retirei o maço de cigarros encharcados de lá.

- Sem bebida, confere. Sem cigarro, confere. Diário de bordo: sobrevivendo desafiando as Leis Dos Fracassados sem qualquer tipo de suprimento, talvez eu não viva por muito tempo. Ps: Preciso parar com o drama.

Do bairro onde estava até o meu, tinha um pedaço ermo que era inevitável. Era uma área verde grande e o terreno era duvidoso, passei por lá mais calma e louca pra chegar no meu chiqueiro. Respirei o ar - aquela altura frio - da madrugada com o cheiro de terra e grama umidecidas que era inegavelmente inebriante, enquanto ouvia uma sinfonia característica do cri-cri dos grilos e coaxar dos sapos de trilha sonora. A chuva estava fina e sem vento e começava a dar sinais de que iria parar.

Quando achei que tudo ficaria em paz, novamente aquele som horroroso rugiu atrás de mim com os faróis apontando em meu rosto.

- Mas que merda! - Sem ter como atingir qualquer um deles pela distância voltei a correr.

Mas estávamos em uma rua larga cercada por um barranco que dava em outro bairro e mais ruas largas e estabelecimentos fechados do outro. Eu não tinha pra onde correr.

A máquina foi se aproximando sem pudor e cada vez mais perto, me deixando sem saídas ou meios de escape. Então quando conseguia escutar as risadas daqueles vermesinhos fiz a única coisa que podia: me joguei no barranco.

O barranco era bem alto e muito íngreme, não tinha nem como andar direito nele, e depois daquele aguaceiro estava um lamaçal perigoso.

Pra mim o mundo girou em um borrão misturado de preto, marrom, chuva, lama, folhas e galhos, enquanto eu sentia fincadas horrendas na pele que se arrastava no que quer que estivesse abaixo de mim.

Ouvi lá de cima quando gritaram " Vadia! Vamos embora" e sumiram de vez. Quando parei de rolar cai em cima de alguém.

- Mil perdões, eu tropecei lá em cima não tinha intenção de derrubar você. - me desculpei gemendo de dor. - droga me arrebentei toda, espero não ter te machucado, você está bem?

Saí de cima de quem quer que fosse e quando ergui a cabeça soltei um grito: um rosto feminino estático me encarava de volta, quando olhei pra baixo identifiquei que além da lama ela - e obviamente eu também depois de cair por cima - estava encharcada de sangue fresco.

Me levantei aos tropeços completamente cambaleante e quando ia sair dali outra luz focou em mim.

- Parada, mãos pra cima! - gritou obviamente um policial que apontava a arma e a lanterna no meio da minha cara.

- Porcaria. - resmunguei pra mim mesma.

Meu pensamento era de que com toda certeza do mundo eu havia atirado merda na cara de Jesus enquanto ele era crucificado.

E a noite estava só começando.

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