Três | Léo

A única coisa que eu não podia imaginar era que Olívia me incomodasse tanto. Isso era desolador. Meu coração estava ferido por algo que eu não consiga entender.

Você sabe quando vimos àqueles filmes que tomam "todas" para esquecerem seus problemas, tornando tudo numa enorme piada? Acho que estava agindo quase da mesma forma. Apesar dos meus dezesseis anos de idade, eu estava me viciando em coisas erradas nas expectativas de esquecer Mourabelli, de esquecer o que Natan tinha feito a mim, e como nossa rivalidade poderia até ter matado os meus pais. E guardar isso só para mim era desolador.

Sempre delirei em sonhos onde o terminava em um lindo "feliz para sempre", em meu futuro com Olívia Mourabelli Petri. Sonhos em que ela era minha esposa, e tínhamos três filhos. Morávamos numa casa comum, e vivíamos felizes. Mas, por causa desse momento tão confuso, até meus sonhos se tornaram pesadelos.

Toda a vez que meus sonhos viravam para a realidade de que Natan e Olívia estavam indo bem, isso doía. Era sonho, era real. Apesar de no começo eles manterem uma distância, agora não importava onde eu olhasse, ali estava o "casal maravilha", jogando areia nos meus olhos.

Muitas vezes eu ia para casa de Dan somente para ver Olívia, pois ela não me via com tanta frequência quanto antes. Quando eu ia para casa de meu melhor amigo, a coisa se tornava verdadeira.

Naquela tarde, eu entrei na casa dos Evans depois das aulas. O Sr. Walter vinha atravessando o quintal, resmungando sozinho enquanto conversava ao telefone. Segurava em uma mão uma sacola cheia de vegetais e raminhos verdes. Como de costume, xingava milhares de palavrões indecorosos com alguém. Ora em inglês, ora em português.

— Oi, Walter! — eu disse quando passava por ele.

Walter olhou para mim apenas um segundo.

— Dan está lá em cima — respondeu ele quando afastou o telefone da orelha. — Venha almoçar com a gente, estará pronto logo.

— Oh. Claro. Creio que é o especial do Walter.

— Exatamente. Panquecas!

— Panquecas de bacon.

— Bom garoto.

O Sr. Walter abriu um enorme sorriso, espalhando meus cabelos no topo de minha cabeça. Ele disse alguma coisa sobre cozinhar, e voltou para seu destino enquanto falava ao telefone.

Uma coisa sobre os Evans era que eu não os entendia muito bem. Walter Evans era um homem misterioso. Um cientista contratado do governo, que possuía licença para trabalhar em seu laboratório no porão de sua própria casa.

Ele trabalhava muito, então quase ninguém via o homem. Daniel e eu brincávamos sobre isso. Porque apesar de ser o pai dele, Daniel o via tanto quanto o ar, embora soubesse que existia.

Natan, diferente do irmão, entretanto, era bem próximo do pai. Ao ir à casa dos Evans, era comum ver Natan indo e vindo do laboratório no porão.

Depois que subi para o quarto de Dan, e ficamos um bom tempo jogando videogame, Walter nos chamou para o almoço. Para minha surpresa, eu os vi logo que adentrei a sala: Olívia e Natan sentados se olhando enquanto Walter observava o prato de Olívia como se estivesse estudando complexas formas matemáticas.

Meu estômago embrulhou quando eu vi a cena. Aquilo era nojento. Confraternização paterna e casalzinho meloso vomitando arco-íris. Eu tive vontade de vomitar.

— Pai — disse Daniel. — O senhor quem fez o almoço?

— É claro, Clara não vem hoje. — Clara era a emprega doméstica deles. — Sente-se para comer. O almoço hoje é pipoca, panqueca de bacon, refrigerante. — Walter deu um grande sorriso quando o filho pareceu aprovar o cardápio.

Daniel me estudou e eu fiz o mesmo para ele.

— Já comemos — disse ele dando os ombros. — Eu e Léo vamos jogar lá fora.

Apesar de ser sem noção em muita coisa, Daniel teve a sensibilidade de perceber que seria estranho para mim, ficar à mesa com seu irmão anormal. Eu apreciei o fato de que fomos para os jardins dos fundos brincar de qualquer coisa. Mas eu queria mesmo era incomodar o casal maravilha, mesmo que isso não aconteceu — também queria paz de espírito.

Daniel e eu ficamos nos jardins, arremessando pedras para o outro rebater com o taco de basebol de Daniel, autografado pelo jogador mais famoso de todos os tempos — ele conseguiu quando foi para os Estados Unidos de férias. Ficamos por horas como idiotas vendo quem tinha mais força. Até que quebramos uma janela, e resolvemos parar.

— Ei, você não acha que Natan e aquela esquisita estão tão irritantes? — disse Daniel, de repente, analisando o estrago que ele mesmo havia feito na janela de seu próprio quarto. — Você viu como eles agem...? Credo! Se bem que, esta foi a primeira vez que vi meu pai sair do laboratório para fazer comida. Acho que Natan deve ter convencido ele para sair de lá.

Eu senti comichões por todo o meu corpo, porque aquela era uma conversa que não queria ter. Não esperava mesmo que Daniel começasse o assunto. 

— Eles são um casal. Não culpe eles porque somos canalhas — eu disse, com ar de desdém. — A gente tem que se acostumar.

— E pensar que meu irmãozinho conseguiu conquistar uma garota — Dan riu. — Natan é o tipo de cara que acredita em tudo. Até se uma garota estiver mentindo e ficando com ele por pena, já que ele é esquisito.

— Você é parecido com ele.

— Bem, não escolhemos a família que temos. — Dan enfiou as mãos nos bolso de sua bermuda azul, cujo emblema do Chelsea estava desenhado na bainha esquerda de sua perna. — Quando a gente era pequenos, uma menina de, sei lá, uns dez anos enganou o Natan. Ele chorou de amores por uma semana. Eu tive que me disfarçar dele, para conseguir dar o troco. Eu cortei todo o cabelo da menina, quase careca, sabe...

Nunca tinha pensado naquilo, mas Natan e Daniel eram gêmeos. Eles eram próximos, mas ao mesmo tempo eram distantes. Indo na casa deles, foram raras as vezes que os vi no mesmo cômodo, e agora como estavam do mesmo tamanho, dava para confundir um com o outro.

— Vocês fazem muito disso — dei de ombros —, trocam de identidade? Igual  aquele filme, Operação Cupido?

— Que tipo de filme anda vendo, cara? — Dan riu, e eu continuei sério. — A gente fazia mais disso para conseguir "cookie" da mamãe. Mas depois, meio que demos uma paradinha. Natan ficou com medo depois que eu zuei com a cara dele.

— Ah, é? Você faz muito disso com seu irmão. Vai ver é por isso ele é malucão.

— Talvez. Nate começou a gostar dessas coisas de UFO quando eu contei uma mentirinha para ele.

— É mesmo? 

Eu estava começando a sentir pena do pobre coitado, mas um detetive sempre conhecia o criminoso. Desde a infância, até o momento em que pirou.

— Quando a gente era pequenos, eu fiz Nate acreditar que a gente trocava de identidade e todo mundo acreditava, porque ele era um metamorfo.

— Metamorfo? — eu ri com gosto. — Igual o Supernatural?

— Acho que sim. Mas lá onde a gente morava, tinha uma lenda urbana com algo parecido. Dizia que, em casa de par de gêmeos, muitas vezes um deles era a forma de um metamorfo. Isso sempre explicava quando uma criança era malvada, porque a culpa era de uma cria malvada do inferno. A lenda dizia que um nasceu, e o outro era uma imitação feita na maternidade — Dan riu. — Eu fiz o Natan acreditar de que ele era uma imitação minha, que sou o original e ele apenas um metamorfo.

— Isso é cruel, cara, você deixou seu irmão pirado.

— Bem, eu não sei. A gente mudou algumas vezes e vocês nem sequer perceberam. É um lance de gêmeos.

— Quando mudaram? 

Dan olhou para mim, deu de ombros, e sorriu. 

— Desde que a gente começou a zuar ele chamando de E.T, UFO, Cosmolouco, ele meio que não fala comigo direito. Mas, a última vez, foi dias antes dele começar a namorar a Olívia.

— Quê? A gente nem percebeu!

— Exatamente. 

Olhei para Dan franzindo a minha testa, ele suspirou. Sentou debaixo de sua janela que dava de cara para o jardim japonês que acessava a todos os cômodos da casa. O jardim estava malcuidado, porque não havia como Sr. Walter se importar por ele. O chafariz em forma de cone estava seco, e não havia nenhuma flor. Os pisos acinzentados estavam desgrudando, assim como também alguns bichos desconhecidos transitavam pela parte arenosa debaixo dos pisos soltos.

Ficamos em silêncio por um momento. Minha cabeça estava vagando em lembranças dolorosas de quando os Evans mudaram para a casa ao lado da de Anna. Naquela época, eu descobri o que Natan era: um assassino. Daniel não era nada parecido com ele. Mas imitar o irmão tão bem, era um pouco perturbador.

Depois que a família deles mudou para a vizinhança, as pessoas do bairro nunca mais puderam adotar animais de estimação, pois sempre apareciam mortos e muitos deles com uma pata costurada na cabeça, ou o rabo suturado no lugar da língua.

Eu não tinha provas, mas sabia quem era o culpado por tais bizarrices. Nunca contei aquelas coisas para ninguém. Pensei uma vez em contar para os meus pais, porém eles foram mortos. Ainda não podia revelar nada. Queria ter todas as provas que fossem necessárias.

Mas, por enquanto, nessa guerra particular entre mim e Natan, não importasse quanto tentasse, ele sempre ganhava vantagens.

— Eu trouxe algo para vocês comerem — disse o senhor Walter, subitamente surgindo do interior da casa para sentar ao lado de seu filho. Havia cerveja e sanduíches em uma bandeja em sua mão.

— Cerveja! Mandou bem, hein, pai.

— Vocês são menores de idade, peguem leve.

Eu apanhei uma lata como se isso fosse um prêmio de consolação, e me endireitei enquanto eu suspirava.

— Por que essas suas cervejas são as mais gostosas, senhor? — eu perguntei, olhando o Walter.

— Ora, temos um garoto bem curioso aqui — respondeu ele. — Era você que gostaria de ser policial quando crescesse, não é?

Eu balancei a cabeça. Desde sempre foi o meu sonho entrar para a polícia federal.

— Me perdoem, mas as cervejas brasileiras são aguadas. Essa é o que chamariam de artesanal — respondeu o homem, enfiando a mão no bolso. — Sou brasileiro, mas fui criado em um pub inglês, se é que me entende...

Apalpando suas roupas, o homem tirou um cigarro de dentro de seu jaleco branco.

— Estão servidos? — disse ele acendendo a ponta.

Eu ergui as sobrancelhas. Não era a primeira vez que eu conversar com o senhor Walter, mas estava surpreso pelo fato de que ele era tão irresponsável quanto meu irmão, Leandro. Eu sorri. Claro, eu estava servido. E demorou pouco tempo para o cigarro fazer efeito.

— Fascinante — ria Daniel. — Esse está bom, pai.

O senhor Walter não estava fumando. Ele nos olhava quase do mesmo jeito que fitava o prato em que Olívia estava comendo algum tempo atrás. Achei um pouco estranho, mas mantive apenas a observação.

— Vocês são uns garotos um tanto quanto doidos — disse o senhor Walter. — Onde conseguem essas porcarias?

— Foi o senhor quem nos deu essa, pai. — Daniel riu. — Tem um gosto estranho.

— Hum, é mesmo? Eu mesmo o criei... Estava meio que curioso para saber os efeitos. Mas parece que são os mesmos que os que eu encontrei debaixo de seu colchão, Danny.

Daniel parou de rir. Ele tinha ficado com o rosto corado. Devo dizer que eu também tinha alguns daqueles debaixo de meu colchão, mas não tinha supervisor para me dizer se era certo ou errado. Ouvindo o senhor Walter agir de modo tão paterno, me deixou com vontade de jogar todas as minhas porcarias fora. E eu faria aquilo assim que chegasse em casa.

— Você está nos usando como cobaia? — eu pesquisei, cuidadosamente inclinando um sorriso. — E se a gente morre?

— Não seja tolo — disse Walter. — Vocês são pessoas, não ratos de laboratório.

Daniel me lançou um olhar, depois balançou a cabeça.

— Não é comigo que deveriam estar preocupados — continuou o homem.

— O senhor cria um bagulho em laboratório, e não é com você que a gente devia se preocupar? — disse Daniel amassando o cigarro com o sapato. — Eu devo sempre me preocupar com o senhor... pai.

— Você está sendo dramático, garoto — Walter olhou o filho pelas esquinas dos olhos.

Ele fez uma nova pausa. Então suspirou longamente.

— Se eu fosse você, me preocuparia em sair, me divertir — Walter disse tranquilamente. — Acredito que fumar maconha e beber cerveja não são "planos" que reservou para mim.

— Não. Mas acho que fez esses "planos" com Natan e ele dispensou você —  Daniel parecia muito chateado. Havia um tom de ciúme em sua voz. — Anda um pouco deprimido, porque Natan está preferindo passar o tempo com a namorada dele, não é, papai?

Walter lançou um olhar estreito ao filho. Eu passei dois anos ouvindo de Daniel que o pai amava mais o irmão gêmeo do que ele. Visto porquê, Natan era um gênio. Estava sempre envolvido em seus projetos. Desde que, o Sr. UFO começou a namorar Olívia, Walter tinha mesmo uma expressão mais carrancuda quando saia do laboratório.

— Realmente — ele disse. — Mas não é algo que vai durar por muito tempo. Natan é Natan. Nada mudou, nada vai mudar. Para Natan, o amor está em apenas um lado da moeda. Muitas vezes, o amor tem um lado sombrio; e esse é o lado que ele mais ama.

Daniel pareceu um pouco desconfortável. Ele passou a mão nos cabelos, olhando para o chão.

— Acho que minha própria família não seja nada de se orgulhar — ele disse, um sorriso curvava no canto de sua boca.

Os segredos do Evans eram propriamente desconfortáveis. Eu sempre fiquei muito curioso sobre eles; principalmente porque desejava desmascarar Natan.

— Vocês acham que Natan vai terminar com Olívia? — eu perguntei.

Sr. Walter examinou o meu rosto, as sobrancelhas franzidas em uma ruga.

— Eu acho muita coisa, e uma dessas coisas é que isso certamente vai acontecer — respondeu o homem. — Uma pena para sua amiga.

— É mesmo? Por quê?

— Garoto, entenda, muitas vezes, as pessoas são o que elas disseram que nunca iriam se tornar. Ou simplesmente existem mentiras sutis quando a verdade é muito difícil de crer. 

Eu olhei com um olhar ainda mais confuso para Sr. Walter, porque não entendi o que aquilo significava. Abri a boca para discorrer, porém fui interrompido:

— Natan está apaixonado pela menina, se é o que quer saber. Mas nunca, em toda história de amor existente nessa vida, estar apaixonado por alguém significou "perigo".

— Sr. Walter, tem algo que o senhor veio contar para mim? — eu perguntei, também franzindo a minha testa. Sentia que toda aquela conversa inútil tinha um propósito. — Está me fazendo acreditar que Olívia está em risco com esse namoro entre ela e Natan, que começou do nada!

Eu podia ver Walter de perfil, olhando para mim e Daniel pelo canto do olho. Seu rosto longo tinha um ar ligeiramente enigmático.

— Você é realmente muito esperto, garoto. Já disse que gosto de você? — Walter sorriu. — Talvez eu tinha algo a dizer, mas como sou um covarde, perdi a coragem.

Enfiou a mão nos bolsos, suspirando. Ele olhou em direção a casa, descendo logo a seguir o desnível entre o deck do jardim e o piso quebrado.

— Mas vou dizer porque gosto de você. E sim, todas as coisas que suspeita de Natan são verdadeiras. Embora, você não esteja em um nível intelectual para entender o porquê ele é assim — se afastou mais um passo. — Se eu fosse você, colocava em mente que quando alguém como Natan deseja outra pessoa, disso tudo nasce uma maldição.

Daniel e eu nos entreolhamos. Meu amigo deu de ombros quando fiz uma pergunta silenciosa com um gesto.

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