Quatro | Léo


As palavras de Walter ainda estavam ecoando em minha cabeça; na verdade, elas estavam pairando na minha mente como uma vespa. Um inseto irritante, que perturbava ainda mais quando tentava tirar aquilo da minha cabeça.

O que mais me incomodava era que, Natan gostava dela. Walter disse isso. Mas quanto mais aquelas palavras apareciam, a reação química que acontecia em meu corpo era como uma bomba atômica.

Natan estava a tratando como deveria. Porém, eu não gostava disso. Não gostava de ver como ele olhava para Olívia. Muitas vezes me parecia como se ele quisesse devorar Lívia, não amar.

Me sentia frustrado quando via Olívia fazer aquele olhar carinhoso para ele. Frustrado, porque era como se ela estivesse amolando a faca que seria usado para abrir seu próprio coração. E quanto mais procurava uma brecha para apontar dedos, cuspir acusações, nada encontrava.

Houve um tempo, depois de tanta investigação malsucedida, eu quis mesmo esquecer aquilo tudo. Por isso quando uma garota se aproximava de mim, não hesitava em beijá-la; em usá-la para que eu esquecesse Olívia Mourabelli por dez segundos que fosse.

Nunca conseguia chegar até o fim com ninguém, embora depois eu contava vantagem para Daniel e Diego, dizendo que estava indo melhor que eles em nossa aposta idiota. Olívia me tinha na palma da mão dela, mas ela mesma não sabia disso.

E no fundo, daria tudo para voltar dois meses atrás, onde após ouvir sua declaração, ao invés de rir, zombar, sem dúvidas eu ia abraçá-la e dizer que "eu também".

Amar Olívia foi uma conclusão que nunca cheguei sozinho. Foi preciso que ela partisse para que eu desse valor ao que sempre tive com ela. Porque agora Lívia me odiava.


******


Quando caminhava de volta para casa depois de uma partida de futebol com os amigos, eu fui surpreendido.

Na calçada perto de casa, ouvi vozes altas apenas abafadas pelos sons dos carros. Um cara buzinou e gritou alguma coisa sobre "ir lavar a louça". Eu consegui supor que havia alguma briga de mulher.

De repente, fiquei espantado, porque a briga que acontecia, era entre Anna e Olívia.

Me aproximei para primeiro sair do torpor que me tomou; depois para ouvir o que elas gritavam uma para outra. Anna e Olívia jamais brigaram.

—... Vai mesmo acreditar no que aquele idiota está dizendo? — gritou Anna, o rosto estava vermelho de raiva. — Quando começou com isso, Lívia? Quando começou a ser uma imbecil?

— Você está se doendo, porque o que eu disse é verdade! — Olívia retrucou.

Anna ficou ainda mais vermelha de raiva, e para minha surpresa, atacou a amiga com um tapa.

— Eu jamais faria algo assim com você. E quem pensa que eu sou? — ela começou a chorar, e aquelas lágrimas tomaram tanto a mim quanto Olívia de pasmo. — Eu não sabia que sua amizade era de papel, Lívia. Por que estou preste a amassar e jogar no lixo todos esses anos que confiamos uma na outra.

Olívia mordeu o lábio, seus olhos estavam vermelhos, molhados. Ela arfou tentando responder, mas as palavras não saíram. Saiu algo parecido a um coaxo, como um sapo.

— Você era minha melhor amiga, e agora acho que não posso perdoar você. Como pode duvidar de mim? Pelo quê? Pelo Senhor E.T.?

— Não fale assim dele! — Olívia consegui retomar a voz, e quando disse, foi a vez dela atacar Anna. — É por causa desse apelido idiota, é porque dia e noite estão zombado dele, Natan me fez abrir os olhos. Léo é um idiota, machista e perturbado. Mas isso a gente já sabia. O que notei é que, a nossa omissão nos torna cúmplice. E eu não quero ser cúmplice e tampouco vítima de vocês.

— O quê? — Anna estava revoltada. — Você é uma hipócrita! Também já tirou sarro dele. E várias vezes.

— Algumas pessoas conseguem se arrepender do que diz e faz. Outros persistem no erro.

— Natan não é uma vítima, Lívia... Ele está afastando você da gente. Tipo, está fazendo você vir aqui e me acusar de coisas que eu nunca fiz. Perceba que ele está tentando se vingar do Léo e você está sendo usada para isso!

Olívia apertou o lábio, eu nunca a vi tão irritada em todos aqueles anos que nos conhecíamos. Eu nunca a vi ter voz o suficiente para brigar por alguém.

— Não vou ficar aqui discutindo com você! — Olívia se ajeitou. — Vou pra minha casa.

Ela deu as costas e saiu andando. Anna foi atrás, apenas dois passos.

— Vai idiota! E lembre bem que eu não estou falando mais com você! — gritou atrás dela.

— Que bom, eu também não!

Quando Olívia se afastou, dobrando a rua que levava para sua casa, eu finalmente tomei coragem para sair do meu estado de pasmo. Caminhei em direção à Anna, observando-a andar de um lado para outro, enquanto passava a mão no rosto, irritada, resmungando alguma coisa baixo.

— Anna? — disse eu, pisando fundo no chão para que ela me notasse. — O que aconteceu aqui?

Anna fez uma expressão irritada, porém ao ver meu rosto confuso, deixou as lágrimas fluírem livremente.

— Léo... — murmurou. Sua voz estava embargada quando o nariz começou a escorrer. — Você viu aquela idiota? Você viu?

Eu tinha visto, mas não compreendido muita coisa. Sacudi a cabeça, olhando em direção à rua que Olívia seguiu.

— Ela está me acusando — Anna apontou para si mesma com as duas mãos —, me acusando de emprestar minhas piores roupas para que ela parecesse um palhaço. Para que todos rissem dela. Para que, dando minhas piores roupas, ela parecesse feia e só eu ficasse linda entre nós.

Abri a boca, chocado. Já havia visto Olívia usar as roupas de Anna, e na maioria das vezes, não lhe caia bem. Porque Anna tinha um gosto mais requintado; Olívia, porém, combinava com roupas mais neutras. Não que ela ficasse feia quando Anna a ajudava a ficar na moda, a verdade era que ela não parecia à vontade, ninguém fica bonito em roupas que não se sente bem.

Era uma acusação muito injusta. Anna sempre quis ajudar Olívia que entendia mais de computadores do que de moda.

Eu suspirei, levando meio segundo para entender o motivo.

— Acredito que o Natan tenha alguma coisa a ver com isso... — apontei, suspirando. Enfiei as mãos no bolso de minha bermuda moletom, sacudindo a cabeça.

— É, cara, você está vendo? — Anna apontou para rua atrás dela. — Ele está virando ela contra a gente!

Aquela era uma verdade. Eu acreditava que Natan era culpado de muita coisa. Nunca consegui provar nada. Burro eu fui por não ter dito quando tive a chance; e agora eu era o alvo por saber quem aquele cara era. Anna não merecia estar no meio do fogo cruzado.

— Anna, querida — disse eu, me aproximando e afastando a lágrima do rosto dela. — Faça as pazes com Olívia.

— O quê? Está louco? Eu não quero falar com ela nunca mais. — Anna estava irritada. — Se ela prefere acreditar naquele louco, não em mim, Olívia não é digna de minha amizade.

Apertei o lábio, frustrado.

— É exatamente por isso que deve voltar a falar com ela — disse, mansamente. — Ela está presa como se estivesse enfeitiçada. Devemos resgatar Olívia daquele cara, não nos afastar.

— Está ouvindo o que está dizendo?

Ela sacudiu a cabeça, afastando a minha mão. Urrou, caminhando de volta para casa.

— Faça o que estou falando, Anna. Deixa Olívia comigo, porque vou trazer ela de volta para nosso lado.

— Não precisa — gritou irritada, por cima do ombro. Ela se voltou para mim, apontando o dedo em minha cara. — Aliás, isso não teria acontecido se não fosse por sua causa, Leonardo Batista Petri! Se você não tivesse sido um babaca, Olívia ainda era a nossa Olívia.

Eu, que seguia ela, parei no meio do caminho. Mordi o lábio, frustrado. Sabia o que fiz e ainda daria tudo que tinha para voltar meses atrás.

— Sim. Errei, e é por isso que estou dizendo que vou consertar, Anna.

A minha prima me olhou, engolindo o palavrão que queria gritar. Ela passou a mão no rosto cheio de lágrimas, esfregando os olhos. Respirou fundo e então disse:

— Espero que traga ela de volta, Léo. Eu a amo, não quero perder minha melhor amiga.

Sorri, me balançando no lugar enquanto fitava os meus próprios sapatos.

— Eu sei — disse.

Bastou alguns dias, Anna e Olívia estavam de bem outra vez. Não soube quem cedeu primeiro, porém, pelo menos elas pareciam mais amigas do que nunca.


******


Disse para mim mais uma vez: eu daria tudo para voltar meses atrás. Mas como o tempo não podia voltar, pelo menos eu podia tentar consertar algo.

A rachadura que existia entre mim e Olívia era grande, uma fissura que nos separava por quilômetros. Ela não falava comigo, mas pelo menos não estava fugindo como acontecia no começo.

Houve um dia, no tempo que eles estavam mais apaixonados, que eu comecei a duvidar disso. Aconteceu um dia em que Anna e Olívia haviam marcado de sair para algo relacionado ao Halloween — aparentemente, um pedido de desculpas de Lívia.

Ela estava parada no portão baixo, esperando minha prima. Eu tinha uma partida de futebol marcado, saia vestido com a camisa do Juventus e, dono da bola, segurando a pelota na mão. Quando a avistei, Olívia estava linda.

Tinha o cabelo comprido, descolorido de loiro. As madeixas caiam em cascatas sobre os ombros. Vestia jeans, camisa xadrez e o salto alto levantava sua silhueta.

Olívia estava distraída, mandando mensagens de SMS em seu novo telefone smartphone Xperia X10 que havia ganhado de aniversário do pai. Ela sorria, e quando se mexeu, as fivelas de sua bolsa tilintaram junto da pulseira de pingentes de flores, que eu também havia dado para ela de presente de aniversário — entregue por Anna, claro.

Temerosamente eu sorri, aproximando cinicamente, como se o mundo estivesse colorido entre nós. Ao dizer "oi", ela não fugiu como temi. Olívia abriu um sorriso que senti saudades. O mesmo que tinha para mim meses atrás. Ainda como se o sol fosse cor de rosa, me aproximei mais, escorando na mureta ao lado do portão. Começamos uma conversa casual sobre o aparelho smartphone, uma novidade no mercado de telefonia.

Ela me ensinou como funcionava, e todo aquele sistema de apps e sobre usá-lo com um simples toque do dedo. Abriu um jogo chamado Angry Birds, e eu amei bater seus recordes. Olívia ficou brava comigo de um jeito doce e fofo.

Quando tomou o aparelho para quebrar meu recorde, eu fiquei atrás dela, olhando seus dedos trabalharem na tela. Encostei o meu peito em suas costas, sentindo o cheiro de seu perfume. Eu nem percebi o dedo dela tremer, e tampouco percebi que estávamos perto demais.

Olívia olhou por cima do ombro, abaixando o telefone. Com o movimento da cabeça, nossas bocas se encontraram. Foi rápido, mas o suficiente para causar uma explosão cósmica dentro de mim.

Achei por um instante, que apesar de eu ter subido no céu e voltado errado para o lugar, Olívia fosse me dar um chute. Mas ela estava parada, olhando para mim com a testa franzida. Engoli em seco. Seus olhos escuros brilhavam, a boca estava entreaberta.

Olívia deu um passo em minha direção, quase me beijando de volta, porém fomos interrompidos no mesmo momento ao Anna abrir a porta com tudo.

Anna, que não era burra, percebeu o clima mesmo que Olívia e eu pulamos para trás longe um do outro. Minha prima piscou e depois dobrou um sorrisinho no canto de sua boca pintada de batom.

— Você está pronta, Lívia? — disse ela, mordendo o riso.

 Ela olhou para o portão da casa de Natan, suspirando de alívio. Olívia tossiu rápido, então balançou a cabeça para Anna.

— Sim, vamos — disse. Eu percebi que seu rosto estava completamente avermelhado.

Agora mesmo, comecei a ver o mundo feito de algodão doce e cor de rosa. Eu olhei significativamente para ela, louco para lhe agarrar, mas me segurei.

— Aonde vocês estão indo? — perguntei vendo Anna rir, enquanto puxava Olívia pela curva do cotovelo.

— Não é da sua conta! — Anna riu, puxando a amiga.

Elas se afastaram aos risinhos. Eu ainda ouvi Anna dizer alguma coisa sobre mim, e Olívia mostrar a língua para ela em resposta.

Passei a mão pelos cabelos, me sentindo o pavão mais bonito do bando.

Eu estava certo que Olívia ainda estava apaixonada por mim.


****** 


Horas mais tarde, passava jogando a bola de futebol para o ar, sorrindo feito um idiota por causa da partida vencida por meu time, porque descobri que Olívia ainda era minha. E fiquei muito satisfeito quando a vi brigando com Natan na porta da casa dele.

A discussão foi encerrada depois que Olívia gritou um palavrão, e deu as costas, indo para sua própria casa.

Eu simplesmente abaixei a cabeça, abrindo o portãozinho da minha casa. Mas para minha surpresa, senti uma mão pesada se fechar contra meu ombro, me puxando para trás. Com o susto, virei-me para deparar com o rosto vermelho e furioso de Natan.

— Hei, você! — gritou ele. — Fique longe da minha namorada!

Eu afastei a mão dele com um tapa.

— Tire suas mãos de mim, E.T.! — retruquei.

— Eu vi você flertando com minha namorada, eu tenho o direito de socar sua cara!

— "Flertando"? Está falando a linguagem do espaço?— eu ri com deboche. Nunca ouvi ninguém com menos de sessenta anos falar aquela palavra.

Natan se afastou um passo, ele respirou fundo.

— Me satisfaz perceber como seu cérebro não é tão desenvolvido. Ele me estudou de cima à baixo com desdém. — Nerds ficam com nerds, atletas saem com animadoras de torcida. Você, porém, se diverte com amebas, já que estão no mesmo nível intelectual.

Eu deveria me sentir ofendido, mas sabia que se levantasse a mão, eu ia perder a razão  como aconteceu em todos nossos embates anteriores. Me agarrei a minha bola, e sorri com pura satisfação.

— Minhas notas estão perto das suas, super-gênio — eu ri com ironia. — E se isso é o melhor que pode fazer para me ofender, precisa de pelo menos cem anos para conseguir me atingir.

Me aproximei com um sorriso petulante dobrando no canto de minha boca, sabia que podia ganhar aquele jogo tão mais fácil do que contar até dez.

Eu não sou inteligente o suficiente. Eu não sou bom o bastante — disse suavemente. — E se você tem conhecimento sobre a teoria da relatividade, eu tenho o conhecimento de que Olívia ainda me ama.

Natan ficou vermelho de raiva. Ergueu a mão para me socar, mas parou no meio do caminho. Sua mão ficou estendida no ar, o lábio apertado com a fúria que tomava o seu interior. Eu não me mexi, fiquei apenas parado, encarando-o com o mesmo desdém que ele me tratava.

Abaixou a mão, então inspirando e expirando para controlar a respiração.

Ele passou a mão no cabelo, retomando sua compostura. Então sorriu.

Bater em você é fácil — disse ele. Mas não é tão divertido.

Enfiou as mãos no bolso do jeans.

Cuidado, Petri advertiu, o seu sorriu estava ainda mais detestável. Ainda estou ganhando esse jogo.

Está mesmo?

Olívia Mourabelli ainda é minha. Fique longe dela.

Ele se afastou em direção ao portão aberto de sua casa, com um sorriso demoníaco no canto de sua boca.

******

Natan conseguiu afastá-la de vez de mim. Talvez fosse a culpa porque quase nos beijamos, mas Olívia sempre abaixava a cabeça e o obedecia cegamente. Ele conseguiu isolar Olívia não somente de mim, mas de todas as pessoas que ela conhecia.

Eu andava notando como ela sempre encontrava desculpas para não ir às festas que Anna ia; sequer sair com os amigos. Natan acabou por ser a única pessoa por quem ela conversava. E a pior parte disso, era ver sua expressão ora triste, ora vagando em seus próprios pensamentos.

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