Prelúdio



Se você perguntasse para Leonardo Petri o que ele seria quando crescesse, ele responderia: policial. Mesmo que seu pai quisesse que ele ficasse com a empresa de tecnologia, Léo diria que seria da policial federal, ou qualquer área que o permitisse imitar aqueles seriados tipo Arquivo X que ele tanto assistia na TV.

Léo estava tão paranoico com Natan Evans, ficava alucinando só de pensar que ele era estranho. Dedos humanos estavam dentro daquela caixa. Ele não contou isso para Olívia ou tampouco para Anna, porque não queria assustá-las. Mas isso não queria sair de sua cabeça.

E logo pela manhã de segunda-feira, Léo viu os gêmeos entrando em sua sala de aula. Eles foram se sentar nas carteiras vagas no final da sala, bem ao lado do trio de amigos que por anos dominavam o fundo. Daniel sentou-se ao lado de Anna, que corou ao vê-lo. Ele havia ouvido Anna contar à Olívia que havia beijado Daniel enquanto ela estava ajudando Natan. Léo se sentiu enjoado. Garotas...!

Mas Daniel era um camarada que Léo não se importava em ter como amigo. O que ele não gostava foi o fato de que Natan se aproximou de Olívia, trocando aqueles olhares esquisitos. Eles tinham algum tipo de comunicação que Léo não entendia. Isso o fez subir os pés pesadamente contra a sua mesa, chamando a atenção de Olívia, que se encolheu timidamente.

A paranoia de Léo foi piorando cada vez mais conforme os dias foram passando. Natan era impopular. Totalmente diferente de seu irmão. Daniel era tão descolado que todos queriam se aproximar dele. Tal como acontecia com Léo. E eles compartilhavam uma coisa em comum, por isso estava se dando bem. Daniel e Léo eram amigos. Daniel gostava que todos os chamassem apenas de Dan. Ele contava como havia jogado futebol na escolinha do Chelsea FC. E ele e Léo fizeram uma aposta para ver quantas garotas se apaixonaria por eles até o fim do Ensino Médio durante as férias de inverno.

Não que Léo gostasse de seu irmão, e seu desgosto foi aumentando quando, de repente, os animais de estimação da vizinhança começaram a sumir. Alguns eram encontrados mortos pelas calçadas ou lixeiras. O velho periquito da senhora Lurdes, vizinha da casa ao lado de Léo, foi achado amarrado no velho pé de laranja lima no quintal deles. Sangue escorria do animal que tinha suas duas asas arrancadas.

- Eu tenho o meu suspeito - disse Léo olhando com seus binóculos pela sua janela.

Olívia estava de pernas cruzadas, lendo uma revista de moda feminina que não combinava em nada com ela. Olívia era tão sem graça e tímida que Léo sentia pena; mas ele também não gostava que ninguém chegasse perto dela além dele.

- Você é estranho - disse Olívia olhando de sua mão para as unhas perfeitas que via na página da revista. As unhas delas estavam cheias de sujeira por baixo. Ela tentou escondê-las quando Léo a olhou meio indignado.

- Esse cara que é esquisito! - Léo bufou. Mas não teve coragem de dizer que encontrou uma caixa cheia de ossos nas coisas dele dias atrás. - Eu acho que ele é um daqueles tipos psiquiátricos que a gente vê no COP.

- Você quer dizer psicopata - corrigiu Olívia, rindo.

Léo se virou, tirando os binóculos dos olhos. Natan não estava fazendo nada de especial. E ele sabia que aquele esquisito passava tempo demais em seu quarto. Como as janelas dos quartos de ambos eram viradas uma para outra, Léo tinha aquela vantagem para ver tudo o que aquele cara fazia.

- Não quero você perto do senhor ET, ouviu? - disse ele, olhando para o rosto distraído de Olívia. Ele gostava de estudar o formato do rosto dela de vez em quando. Mesmo que ela fosse tão sem graça, havia alguma coisa nela que chamava muita à atenção de Léo. Quando ela sorria, ele se sentia... diferente.

- Você está ficando louco. Você não é um policial, Léo - respondeu Olívia sorrindo.

- Isso é só uma questão de tempo.

Léo suspirou, largando seus binóculos na mesa de cabeceira ao lado de sua cama. Ele se sentou perto de Olívia. Coçou atrás da nuca, e estudou o rosto dela outra vez.

- Que foi? - perguntou Olívia, confusa.

- Eu ouvi Anna dizendo que beijou Dan - falou ele. - Você parecia desanimada quando ela falou isso para você.

- Estava feliz por ela.

- Mentirosa.

- Por que está falando disso tão do nada?

- Para você ver que sou bom o suficiente e vou ser da polícia.

Olívia riu. Então, mordeu o lábio.

- Certo, detetive... É só que... Anna é tão bonita e consegue qualquer cara que ela quer. Os caras somente se aproximam de mim, porque sou melhor amiga dela.

Léo apertou o lábio, passando a mãos nos cabelos da amiga.

- Assim é melhor - disse ele. - Os caras são uns idiotas. Você não vai querer "ficar" com nenhum deles por aí.

- Eu nunca beijei - Olívia confessou em um sussurro tímido.

Léo franziu a testa. Ele já imaginava, mas ainda foi um choque ouvir aquilo.

Olívia olhou para ele, tímida. Léo não sentia pena de Olívia, não. Ele queria a abraçar, queria tirar a infelicidade que estava em seu olhar. E colocando sua modéstia à parte, Léo era o único que conhecia para isso. Portanto, ele se esgueirou ao lado dela, e lhe deu um beijo. Foi apenas uma coisa rápida. Mas os lábios de Olívia eram tão macios que Léo se sentiu com vontade de tocá-la outra vez.

- Obrigada... - disse Olívia, depois de que Léo tomou distância. Ele não entendeu pelo que ela agradeceu, mas se sentia em estupor. Sentiu como se fosse um jogador de futebol que marcou um gol de bicicleta numa partida super importante que seu time estava perdendo. Ele era um astronauta flutuando na gravidade espacial.

- De nada - ele respondeu. Mas se ergueu de onde estava sentado. Pegou seus binóculos e voltou a vigiar pela janela. Natan não estava mais em seu quarto. - Ele não está mais lá...

- Acho que ele foi tomar banho ou jantar... Pare de olhar a casa dele!

Léo não queria parar. Ele precisava saber de tudo sobre aquele esquisito. Dizia para si mesmo que era por Olívia e Anna. Não havia desejo maior por ele do que protegê-las. Isso também era um dos motivos que o fazia querer se tornar policial um dia.

- Veja, ele está saindo. São quase dez da noite... - disse o rapaz. - Vou seguir ele, Oliva. Fique aqui em casa.

Olívia não podia ficar em casa sozinha, já que seu irmão mais velho, Felipe, se ocupava junto a Leandro em alguma balada pela cidade. Ela e o irmão mais novo dela estavam esperando os pais chegarem. O caçula dos Mourabelli dormia no quarto de hospedes dos Petri. O que significava que ela precisava ir direto ao perigo. Quando saía pela porta da frente, Léo virou para Olívia e a beijou na bochecha.

- Fique aqui com Théo. Se nossos pais voltarem e ele encontrarem o pequeno sozinho, a gente está completamente ferrados.

Olívia pareceu um pouco temerosa, mas então agarrou a mão de Léo. Ele se sentiu um pouco assustado, porém estava mais convencido em seguir Natan.

- Por que você vai fazer isso? - Olívia o indagou.

- Porque quero proteger você... quer dizer, vocês.

Léo abriu um leve sorriso, observando a expressão admirada de Olívia. Tinha apenas que saber se suas suspeitas eram verdades.

Ele tomou todo o cuidado para não ter sido notado. Cruzava as ruas mantendo uma distância de Natan, que caminhava de modo estranho, usando uma jaqueta grande com o capuz sobre a cabeça. Fazia quase trinta graus aquele dia. Isso era mais bizarro. Natan caminhava na rua como se estivesse preste a roubar a bolsa de qualquer velhinha que estava no lugar errado, na hora errada, passando por um pirado no meio da noite.

Mas por mais que eles caminhassem, não acontecia nada de extraordinário. Léo começava a achar que aquele cara era apenas um maluco. Desejou do fundo coração estar errado. Aquele garoto não estava fazendo nada de errado.

Léo percebeu que, estava naquele jogo de gato e rato há muito tempo, e ele era o único que estava perdendo.

Talvez não fosse aquela noite que ele descobria a verdade. Porque por qualquer razão que fosse, ele estava se sentindo mal por deixar Olívia e seu irmão mais novo sozinhos em casa.

Perto do Clube Juventus, Léo resolveu voltar para casa pensando em Olívia. Mas, de repente, no meio do caminho, ele ouviu um grito. Correu de volta para ver o que acontecia.

Quando se aproximou, a boca de Léo caiu até o chão, e ele estava feito pedra igual ao poste em que se escondia.

Natan atacava uma mulher.

Léo não pôde ver o que ele possuía em mãos, porém notou que era o suficiente para ameaçar a mulher e fazê-la ficar quieta.

Então, o Senhor ET arrastou a mulher para outro lugar. Eles entraram em uma casa abandonada que as pessoas acreditavam ser assombrada. Léo os seguiu procurando um meio de chamar por socorro. Ele ainda não tinha o telefone celular que tanto queria, porque seus pais achavam que não era brinquedo.

Natan conduziu a moça para dentro da casa, e então fechou a porta quebrada olhando para ver se ninguém havia visto.

Léo sentiu a garganta seca como se tivesse bebido lava. Suando muito, o rapaz pulou o muro da casa velha, e havia apenas o plano de surpreender Natan.

Primeiro ele tomou em mão um pedaço de pedra do jardim velho da casa, então caminhou lentamente para ver através da janela o que estava acontecendo. Mas estava tão escuro, que ele mal podia enxergar a pedra sendo apertada fortemente entre seus dedos.

Léo ouviu um urro de dor. Assustado até a morte, o menino não pensou em outra coisa a não ser chamar a polícia. Engolindo em seco, ele tacou a pedra com toda a força contra a janela da casa, e saiu correndo sem ter certeza do que acontecia depois daquilo.

- FOGOOOOOOO! - ele berrou pela rua.

Todos sabiam que se você gritasse "socorro" ou "pega o ladrão" não teria tanto efeito quanto "fogo". Por isso ele gritou o mais alto que conseguia, correndo o mais rápido que os músculos das suas pernas aguentavam. Léo conseguiu ver algumas pessoas curiosas aparecendo em suas janelas, alguns saindo para fora com pijamas e/ou roupões de banho. Ele esperou que ninguém o tivesse visto. Por isso se jogou atrás de uma mureta numa casa velha à venda ali perto.

Sem saber quanto tempo estava escondido, respirando fundo, assustado e quase paralisado, Léo ouviu o som das sirenes de carros de polícia. O motivo que o fez se erguer de onde estava, para ver os carros correrem em alta velocidade para onde ele havia vindo.

Quase que sem seu controle, ele marchou para o mesmo lugar de onde fugiu. A velha casa abandonada estava lotada de carros da polícia. Praticamente toda a vizinhança estava para fora de casa, murmurando, sem saber exatamente o que estava acontecendo.

Ele parou ao lado de uma senhora que usava uma touca de plástico por cima de bobs e uma garota que Léo conhecia da escola.

- O que... O que está acontecendo? - perguntou ele para a menina.

- Léo? - se surpreendeu. Ele achava que seu nome era Natália Magalhães. - O que você está fazendo aqui essa hora da noite?

Léo não respondeu. Sua garganta ainda estava seca, como se houvesse comido capim seco. Ele não poderia acreditar que aquilo estava acontecendo. Ele sentiu vontade de vomitar, mas se segurou.

- Acho que uma mulher morreu na casa mal-assombrada no final da rua - disse Natália parecendo ter o mesmo gosto azedo que Léo tinha na ponta da língua.

- Morreu...? - repetiu o menino se sentindo ficar tonto. - Como?

- Não sei - disse ela. - Os vizinhos escutaram alguém gritar "fogo" de repente, e quando foram ver o que estava acontecendo, uma mulher saiu da casa mal-assombrada. Ela morreu no meio da rua.

Léo não podia estar escutando aquilo. Que tipo de gênio sombrio era Natan para pensar naquilo em tão pouco tempo? Então ele foi quem matou, porém arquitetou tudo para que ele saísse impune?

Saber a verdade causava medo e desespero em Léo.

Ele ignorou Natalia e sua avó, correndo sem pensar para o meio da confusão. Os policias não o deixaram chegar perto daquilo. Havia um círculo de pessoas em volta do corpo, assim como um bando de policias tentado descobrir o que aconteceu. Léo avistou Natan conversando com um policial alto no meio de outros que seguravam armas grandes e assustadoras.

- Natan! - Léo exclamou tentando pular a barreira policial - Natan! Seu extraterrestre do inferno!...

Os policiais não entenderam. Precisaram segurar Léo, que tentava atacar Natan. Aquilo não podia ser verdade. Léo nunca deixaria um cara como aquele perto de sua amada família!

Mas ele nem sequer conseguia repetir para polícia o que havia visto. As palavras grudaram no fundo de sua garganta.

Léo parou e pensou; talvez fosse levado para polícia, e talvez o máximo que ia acontecer com Natan seria ser internado na FEBEM por um ano e nada mais. Léo estava lembrando de seu pai reclamando da justiça brasileira outro dia.

Levou um tempo grande para a polícia entender o que estava acontecendo ali, quanto o menino estava paralisado sem pode falar. Quando eles perguntaram para Léo porquê ele agia como se soubesse de alguma coisa, ele piscou algumas vezes e respondeu com o coração batucando contra o peito:

- Ele beijou a minha namorada! Eu vou bater nele até não se mexer.

Léo não soube porque disse aquilo.

O policial que tinha o crachá com seu nome, Sgt. Carmona, inclinou um sorriso em seus lábios. Mas ele não viu nenhum motivo maior para manter os dois jovens sobre suas vistas.

- Garotos, vão para casa de vocês! - exclamou o policial, sem qualquer esforço. Léo achou que se ele usasse um pouco do cérebro, jamais mandaria os dois para casa e sim para a delegacia. - A mãe de vocês deve estar preocupada.

Léo arfou querendo dizer algo, mas recuou. Já havia acontecido denúncias de algum tipo de abusador pela vizinhança, mas sempre era preciso alguém morrer primeiro para que isso fosse importante e investigado. Léo nunca entendeu o que o pai queria dizer quando dizia que a polícia era podre, como todos os tipos de poderes no país.

- Então, vão para casa, crianças!

Natan acenou com a cabeça, Léo apertou o lábio. Os dois caminharam lado a lado para a Rua Martins Viera.

Depois de caminharem em silêncio, Léo agarrou Natan por trás o jogando contra um muro cheio de trepadeiras. A esposa do dono daquela casa tinha um caso com o pedreiro que construía uma churrasqueira no quintal.

- O que você fez? - ele quase gritou irritadíssimo. Foi a primeira vez que notou Natan sem a jaqueta que usava antes.

- Você estava me seguindo? - perguntou o Sr. ET.

- Sim, eu estava! Vi o que você fez...

- É mesmo? Vai contar para todo mundo? Você viu a polícia, eles não acreditam que um menino de doze anos matou uma mulher.

- Você matou?

- Não.

- O que aconteceu lá? O que você fez?

- Se eu contasse você não ia acreditar de qualquer forma.

- Experimente.

- Aquela mulher ia morrer de câncer. Ela estava em estado terminal. Eu ofereci a cura para ela. Contei tudo que meu pai fez sobre o câncer, que meu pai era um cientista. Pessoas desesperadas tendem a acreditar em tudo que possível para se manter vivas. Ela acreditou nisso. Mas a droga de meu pai não funciona. Ele quem me pediu para ajudar aquela mulher. Meu pai quem a matou, não eu.

Léo se sentiu assustado, ofendido por sua inteligência estar sendo subestimada. Natan era um assassino e mentiroso.

- Não chegue perto de Olívia. Nunca mais! Não ouse trocar um olhar sequer com ela. Se eu vir que seus olhos estão olhando sequer um fio de cabelo dela, eu juro: você irá se arrepender amargamente por ter nascido.

O menino empurrou Natan com força e caminhou para casa totalmente assustado, como se tivesse saído de um filme de terror.

Quando chegou em casa, ele não sabia o que fazer. Seus pais ainda não haviam chegado; Olívia e seu irmão mais novo estavam dormindo na mesma cama... em paz.

Elese sentiu mais sozinho e assombrado que nunca na vida. Mas ao mesmo tempo,experimentou uma sensação de que era só início de algo que ele temiaprofundamente.

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