Dois | Léo
Lá estava ela: com aquele sorriso tolo no rosto.
Fazia uma semana que não nos procurava; fazia uma semana que estava andando para cima e para baixo com aquele paspalho. Por que o Senhor UFO, Olívia?
Natan Evans podia ser irmão do meu melhor amigo, mas ainda era diferente de qualquer outra pessoa que eu tenha conhecido.
Falava de um jeito esnobe, agia como se as pessoas ao seu redor não passassem de lixo. Eu sabia que se sentia superior a todos, somente porque era mais inteligente que qualquer um na escola. E ainda foi se meter com minha garota.
Eu conhecia aquele cara bem o suficiente e achei que tinha deixado bem claro que não era para ele chegar perto de meus amigos. Nós tínhamos uma história longa. Sabia bem o que ele havia feito alguns anos atrás. E nossa antipatia era tão grande que fazíamos jogos um contra o outro de formas desiguais.
Joguei todos contra eles, provando daquela coisa de bullying, mas ele sabia se vingar de uma forma assustadora.
Primeiro: ele me fez ganhar pesadelos, me prendeu em uma guerra psicológica que só me fazia ganhar quando eu estava provando alguma coisa ilícita. Segundo: eu não sabia ao certo, mas acredito que ele causou a morte de meus pais... Por fim: ele estava fazendo o que pedi para nunca fazer, se engraçando com Olívia. Natan não poderia estar ganhando dessa maneira.
Não entendia o que se passava com eles. Estavam andando de mãos dadas há uma semana. Estavam trocando carícias todo aquele tempo. Nunca vi Olívia Mourabelli sorri daquele jeito. Nunca a vi se divertir daquele modo. Ela que sempre me surpreendia com o nosso tipo diversão, parecia em outra vida agora. Uma outra vida que até tornou seu sorriso... revoltante.
Será que não levei para ela tudo que eu podia para fazer estar sempre a minha companhia? O que ela mais queria de mim? Primeiro diz que me amava, e no dia seguinte estava justo com o Senhor UFO? Quem ela pensava que era? Se aquilo era para me atingir, estava totalmente enganada, Mourabelli. Diferente dela, eu era bonito e muito popular. Se estalasse os meus dedos, várias garotas estariam ao meu redor.
Mas por qual razão me sentia traído? Por que meu coração batia tão dolorosamente no peito quando eu avistava ela andando com aquele cara?
Não era por Natan, quem eu sabia não prestar, que me fazia sentir pior. Era por ela. Nunca contei nada a Olívia sobre Natan, sua verdadeira face, nem nada do tipo, nunca quis assustá-la. Contudo, Olívia sempre foi obediente em relação aos meus pedidos. Ela havia me traído, e isso me magoava.
Estávamos eu, Anna e Daniel, juntos dos novatos Diego e Rita sentados na mesma mesa no refeitório. Percebi que eles pouco se importavam com Lívia; o único que não parava de olhá-la era eu. Somente meus olhos estavam sendo teleguiados para cada coisinha que ela fazia, percebendo o sorriso repugnante no rosto dela.
— Ela está feliz, não acha? — disse Anna, de repente. Anna era muito irritante quando tratava de me observar, quando tratava de dizer o que eu sentia sem eu ao menos ter percebido ainda que sentimento estava por debaixo de meu coração. — Eu nunca vi a Olívia sorrir daquele jeito. Ela disse para mim que estava vivendo uma coisa nova. Sem drogas ou bebidas. Acho que ela está certa sobre isso.
— O que isso tem a ver comigo? — eu perguntei, sentindo todos os meus músculos endurecer. — Além do que, é só uma questão de tempo até que ela venha para nós, pedindo por diversão. Lívia não consegue ficar longe da gente.
Mas eu estava enganado. Passou quase um mês, ela continuava sorrindo, e andando de mãos dadas com Natan. Não andava mais conosco. Não convivia mais com a gente. Era como se tivesse esquecido totalmente de nós. De mim...
Irritado, prendendo o ar, eu me perguntei como estava permitindo que outro homem a tirasse de mim. Ver Olívia com outro cara estava deixando-me muito irritado. Ela sempre esteve ao meu lado. Desde a morte de meus pais, ela cuidava de mim. E eu comecei, a partir de sua compaixão, sentir outro sentimento por ela além daquele que se tem por uma irmã, por exemplo.
Ela ficou mais aberta e suas histórias eram interessantes para mim. O modo como mexia a mão, o modo como mordia o lábio quando estava frustrada, o sorriso travesso que fazia quando estava rindo com Anna. E eu adorava ouvi-la falar sobre seus sonhos.
Olívia sempre relatava, mesmo que fosse peculiar, sobre sonhos que pareciam reais. Uma vez havia contado para Ana e eu que havia sentindo que saiu do corpo, e viajou por nosso quarto e vizinhança. Ela riu quando disse que eu roncava alto ― e isso me deixou meio envergonhado o suficiente para rir de volta, dizendo que ela era maluca, que me ouviu em outro momento.
Eu percebi que sempre estava dizendo o que não devia para ela. Tinha de aprender a dobrar a língua.
Mas ainda me frustrava em como alguém feito Natan Evans conseguia tomar o seu lugar. O que eu havia feito de errado? Quando eu comecei a perder nossa guerra particular?
Não. Eu ainda não havia mostrado todos os meus demônios a ela. Eu sabia que tinha um tipo de poder sobre Olívia. Como as tantas outras mulheres que vinham atrás de mim, não seria diferente com ela. Logo estaria batendo à minha porta, confessando seu amor para mim mais uma vez, e eu ia amar isso. Talvez até derreter feito manteiga. Logo, logo ela estaria aqui de novo... Não estaria?
Também estava errado. Todas as vezes que ia à minha casa, não era para me ver. Ela só se importava com Anna. Queria passar o tempo que tinha com minha prima irritante.
E sabia que elas se divertiam ainda como nas antigas. Porque olhando pela fresta da porta do quarto do meu irmão mais velho, eu enxergava bem as duas tomando todas as doses gim e fumando os charutos grandes que Leandro conseguia de cliente de seu trabalho. Ela não havia abandonado velhos hábitos. Apenas me abandonou!
— O que está fazendo? — disse Daniel quando me pegou em flagrante parado à frente da porta. Diego, nosso amigo da escola, dois anos mais novo que a gente, ria sem parar.
Eu corei e senti algo como um cubo de gelo escorregar por minhas costas.
— As meninas estão seminuas — respondi, sentindo meu rosto ficar púrpura.
Daniel enrugou as sobrancelhas para mim, em seguida me empurrou para o lado para visualizar a cena. Diego ficou um pouco estático, mas logo cedeu e olhou a mesma fresta da porta que eu e Daniel compartilhávamos.
— Uau! — eles exclamaram entorpecidos pelo corpo bonito de minha prima bonita — Anna... ela é... — Disse Daniel no final.
Eu olhei para Olívia. Ela usava um roupão e por debaixo suas roupas íntimas infantis que eu tanto gostava. Ela estava perdendo peso, seus cabelos não ficavam mais naquele coque estranho no topo da cabeça. Namorar aquele imbecil a fez ficar mais vaidosa? Aquilo que usava era maquiagem? Lívia, parecia cada vez mais...
—... Bonita — sussurrei inconscientemente complementando Daniel que me fitou no mesmo instante.
— Você acha sua prima, praticamente sua irmã, bonita desse jeito? — ele indagou. Daniel era um idiota, sem dúvidas. Tive sorte que não percebeu nada.
— Acho — menti. — Mas não desse jeito.
— E vou namorar Rita, um dia — Diego afirmou. Seus olhos brilhavam para a moça.
— Hei — Daniel chamou com um sorriso imoral nos lábios. — Vamos entrar na festa delas! Já estão cuspindo fogo, mesmo, não vão se importar.
O que eu podia dizer? Eu também queria estar com Olívia. Me divertir com ela. Por isso não hesitei; eu acenei com a cabeça, e abri a porta.
Olívia parou de pular na cama. Anna caiu sentada olhando para nós, constrangida. Rita escondeu seu corpo no roupão de seda que usava, e seu rosto ficou tão roxo quanto das outras duas. Eu também senti que corei. Tive a decência de sentir, pelo menos, que elas iam nos matar.
— Ih, há, há. — Olívia riu, cambaleando um pouco. — Se não são os meninos!
— Podemos nos juntar à diversão? — descaradamente, Daniel pediu. Ele estava tremendo tanto quanto eu.
Meu rosto também mudou de cor. Deveria estar azul de pavor.
— Bem... — Diego tentou dizer algo. — Meninas... er...
Anna fechou a cara. Não estava tão bêbada quanto Olívia e Rita. Mas senti que havia alguma coisa roxa nas maçãs de seu rosto enquanto olhava para Daniel. Ela era apaixonada por ele, era tão perceptível que chegava a doer.
Não porque era minha família, mas Anna estava se tornando estupidamente linda. Como uma modelo de capas e revistas de celebridades, que não fazia nenhum tipo de esforço para ser bonita.Contudo, Daniel era o tipo mais insensível que eu conhecia. Um canalha pior do que eu. Foi ideia dele competir por quantas garotas a gente podia "pegar" até o final da escola.
Mas no fundo, eu sabia que também nutria sentimentos por Anna, mas não iguais ao dela. Para ele, minha prima era só mais uma na sua lista de conquistas.
— Claro, claro! — Olívia disse, caindo na cama. — É a nossa Festa das Calcinhas — e riu sem parar.
Anna ficou roxa, depois ganhou um pouco de azul quando Daniel pulou para cima da cama, onde as duas estavam. Diego, já de cueca, começou a pular na cama com Rita que não parava de rir. Eu tirei minha camisa, sorri, abaixando a calça depois. Se era a festa de roupa de baixo, também tinha que entrar na onda.
Quando pulei para o lado de Olívia, ela me olhou brevemente, e depois virou o rosto para o lado. Me senti um idiota.
Ela ia continuar a me evitar... talvez, sempre? Senti um vazio no estômago. Mas não me contive, ergui minha mão para alisar os cabelos, agora lisos, dela. Estavam macios e cheiravam bem. Ela inteira estava cheirando deliciosamente bem.
— Gostei do seu cabelo assim — eu disse, , me sentindo seguro. Passei a mão mais uma vez em seu cabelo, cada vez mais perto.
Cheguei tão perto, que senti uma onda de calor passar por todo o meu corpo. Eu lembrei do babaca que eu era, lembrei que não consegui me controlar quando ri dos sentimentos dela por mim.
E isso era tão ruim quanto levar um chute na virilha.
— Você não fala mais comigo. Fiz algo errado? — sussurrei, observando-a fechar os olhos quando joguei uma mecha de seus cabelos atrás de sua orelha.
Ah, claro que tinha feito! Usei a estratégia errada para provocá-la. Não deveria ter rido dela quando se confessou para mim. Eu ri, porque estava nervoso. E depois, como um idiota, escondi os meus próprios sentimentos. A pergunta era "ainda está brava comigo?". Ser cínico também não estava ajudando muito.
Olívia virou seu rosto para mim, e vi que ainda estava louca de raiva. Mas ela esmoreceu a expressão como um balão murchando. Estava mesmo cansada de mim? Não sabia a resposta, no entanto, sabia que aquela noite, ela estava se entorpecendo com muita raiva. Não largou a garrafa de gim nem por um segundo. Deu um gole demorado, e depois se ergueu na cama, voltando a pular.
— Léo é um bobo, Léo é um bobo, Léo é um bobo — cantou, pouco se importando em responder o que eu podia fazer para consertar aquela maldita pisada de bola que eu dei.
Me senti dentro de um buraco profundo que me jogaram depois de terem quebrado minhas pernas. Ela era impiedosa. Precisava tomar as mesmas medidas que a dela. Necessitava me tornar cruel tanto quanto ela.
Levantei com raiva. Ofeguei e depois tomei a garrafa de sua mão. Levei pouco tempo para ficar tão bêbado quanto ela, sem saber o que estava fazendo depois de um tempo. Agia sem pensar por causa do álcool, que subia para minha mente. De repente, eu tinha coragem de fazer coisas que normalmente fazia com ela, mas tomava cuidado para não demonstrar meu desejo.
— Sou um bobo? — disse, e depois cantei embriagado. — Sou bobo, sou bobo, sou bobo...!
Daniel e Anna, Diego e Rita não se aguentavam de tanto rir. Eles ainda estavam deitados no outro lado da cama, e os mais novos pulavam junto de mim e Olívia. Mas logo se esqueceram de nós, porque Anna e Daniel começaram a se acariciar e depois a beijar sem desgrudar nem por um segundo um do outro.
Olhei Olívia, que ainda pulava na cama, rindo e me chamando de idiota. Repentinamente, um impulso muito mais forte me empurrou para ela. Desejei beijá-la. E não consegui me controlar. Eu a queria. Ela era minha, não daquele cara.
Foi diferente. Seus lábios estavam com gosto de bebida, mais ainda eram tão doces como me lembrava. Não era a mesma coisa das garotas que geralmente eu beijava. Tinha sentimento. Havia um sabor que eu nunca experimentei em nenhuma outra mulher. Mesmo que não fosse a primeira vez, o sentimento de antes não havia mudado. Eu enjoava rápido de meninas, não gostava de ficar com a mesma mulher por mais de um dia; mas com Olívia, sentia que podia beijá-la o resto da minha vida que nada ia mudar. Que eu ainda seria seu melhor amigo, e que ainda sentiria aquela sensação estranha que nunca sentia em outras garotas.
Mas ela me empurrou. Tão forte que cai no carpete, batendo minhas costas com força no chão.
— Idiota! — ela gritou. — Nunca mais encoste em mim!
Anna e Daniel sobressaltaram, se soltando um dos outros assustados. Olharam para mim, e depois viram Olívia pular fora da cama. A minha garota correu para fora do quarto, e bateu alguma porta no corredor quando desapareceu.
— Que houve? — perguntou Anna, confusamente. — O que você fez?
— Eu... er... eu... — gaguejei. Que droga, Mourabelli, você não era apaixonada por mim?, pensei assustado.
Anna se sentou, e depois suspirou. Rita já havia corrido para acudir à amiga.
— Léo! — Anna exclamou, me olhando com pena. — Você a beijou de novo, não foi?
Não consegui negar. Ela sentia a mesma coisa que eu. Mas por que agia daquele jeito?
— Pelo amor de Deus, Léo — Anna disse. — Ela tem namorado agora. Não deixe as coisas mais complicadas do que já estão. Deixe Olívia em paz! Não a machuque mais que já machucou.
Deus, que canalha que eu era! Não sabia se me sentia feliz por saber que eu ainda mexia com ela, ou se me sentia infeliz por entender que ela nunca mais ia me querer enquanto estava enroscada com Natan Evans.
Eu suspirei demoradamente depois que Anna saiu atrás dela.
— Cara, tem tantas mulheres bonitas atrás de você... — disse Daniel irritado. — Por que você fica correndo atrás daquela esquisita?
Diego deu uma palmada nas minhas costas, balançando a cabeça.
— Não se preocupe, ela foge de todos os caras — ele disse dando os ombros. — Outro dia ela se escondeu no banheiro quando um vizinho nosso tentou "ficar" com ela, sabe...
Me ergui do chão, e gemi de dor quando senti uma fisgada nas costas. Bem feito para mim!
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