Capítulo 28 - Retrocedendo...
Boa leitura!!!
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"Se a gente cresce com os golpes duros da vida, também podemos crescer com os toques suaves na alma."
Cora Coralina
Nicholas
Eu estava perdido, para dizer o mínimo.
Aceitei vir com minha mãe, pois ela disse que seria apenas para pegar alguns documentos da loja para o Rafael analisar. Ele estava desconfiado de um desfalque no faturamento da mesma. Alegando que ela precisava de companhia me persuadiu a vir, mas e sabia que as sua intensão era apenas me tirar de casa.
Minha mãe havia ido com o Samuel e meus pertences que ficaram no carro – bolsa com coisas para emergência e celular – foram juntos. Lívia e a amiga não estavam em parte alguma e dona Helene não havia dito qualquer instrução de tão atordoada que ficou ao ver o estado do Sam.
Sem ajuda ou comunicação, que escolha eu tinha a não ser me deixar levar por Fábio e suas ideias nada altruístas?
– Ei, você não pode ir com o Fábio dessa vez. – Lívia para na minha frente com os braços cruzados sobre os seios como se fosse me dar uma bronca. – Vocês marcam de sair outro dia porque a sua mãe, Nicholas, deixou bem claro você precisa ir para casa tomar remédios, ou seja lá o que for. Ela disse que eu deveria chamar seu irmão, ele já deve estar chegando.
Nossa! Como ela é inocente, acabou de provavelmente salvar minha vida e acha que está impedindo um passeio entre amigos. É fato que eu não queira mais viver, entretanto não será Fábio a tirar minha vida.
Eu não digo nada, apenas solto o ar devagar que não percebi estar prendendo, o alívio percorre todo o meu corpo. Fábio, todavia não parece feliz. Passa por nós bufando.
– Fábio! Quando você vai crescer? – Ela o questiona. – Ele é seu amigo, você precisa compreender que a condição física do Nicholas inspira cuidados e não ser o amigo da onça que você está sendo. Cadê a sua humanidade?
Ô Lívia, quando você vai deixar de ser tão distraída e ler todos os sinais que o Fábio está dando?
– A minha humanidade foi pra casa do cacete! – Ele deixa a máscara de bom moço romântico cair para a surpresa de todos e mostra o verdadeiro Fábio que eu conhecia. – Por que você tem que ser tão insuportável, sua ratinha? Vão se ferrar os dois!
A expressão de choque que a Lívia faz só me faz concluir o que eu já sabia: ela nunca tinha visto ele assim. E eu achando que ele só se revelaria depois de desvirginá-la. Ela só saiu do transe de choque após a amiga se aproximar e chamá-la.
– Liv eu já vou, meu pai veio me buscar. Você quer carona? O que aquele porco do Fábio queria, vocês ainda estão se falando? – A amiga fala ininterruptamente sem parar para respirar. Lívia não se abala com a capacidade de fala da amiga como eu que fiquei impressionado, ela apenas responde calmamente.
– Não para todas as perguntas, amiga. Ele não queria nada. Eu não vou mais me envolver com ele... jurei de dedinho, lembra? Vai lá, depois a gente sai pra comprar a roupa.
– Como você vai voltar, seu pai vem te pegar?
– Vou com o Nick e, por favor, fique bem.
– Vou ficar. – Ela se volta pra mim. – Falando nisso, o que seu amigo tem pra fazer essa cena por causa de um cumprimento? Deixou-me muito sem graça.
Acho que eu já esperava essa pergunta.
– Irei falar com ele pra saber se ele aceita sair pra que nós quatro conversemos. Se o encontro acontecer significa que está aberto a falar sobre o assunto e ele mesmo contará o que se passa. Não vou falar por ele até porque não sei se o agradaria ter sua intimidade aberta para uma pessoa que ele acabou de conhecer.
– Tudo bem. Fala pra ele que eu peço desculpa por ter feito algo que desencadeou isso. – Inclino levemente a cabeça em concordância. Ela abraça Lívia. – Tchau!
Rafael aparece e me investiga. Eu já estava acostumado com esse jeito d'ele sempre varrer com os olhos, a expressão analítica. Talvez ele tenha percebido que eu estou um pouco ansioso.
– Está tudo bem? – Ele demostra a preocupação usual para comigo. Apenas balanço a cabeça positivamente.
– O que ele falou? – Lívia pergunta repentinamente fazendo meu coração acelerar, tanto pelo tom alto da voz quanto por me lembrar de sua presença. – Eu preciso aprender essa língua, é muito chato ficar pedindo interpretações.
Eu ainda estava um pouco nervoso pela ameaça do Fábio, portanto me mantive quieto e calado por longos minutos, apenas me concentrei em respirar. Quando vi sua expressão fechada com a face emburrada de forma infantil, respondi:
– Ele perguntou se está tudo bem. – Olho pra meu irmão e falo. – Rafa, vamos para o hospital.
Não eram necessárias explicações sobre qual o hospital que Samuel foi socorrido, a pergunta seria retórica. A faixada do prédio em vidro e granito me trouxe recordações não muito boas. Eu só vinha aqui se necessitasse ficar internado o que eu fazia de tudo pra não acontecer.
Minhas consultas se davam na clínica que o Gabriel administrava então eu só vinha aqui por uma emergência. Essas paredes me faziam lembrar-se de quando percebi que estava aprisionado em meu próprio corpo e de como a minha vida mudaria a partir dali. Ao mesmo tempo em que minha vida mudava o meu pai se tornava sócio majoritário dessa empresa. A única notícia realmente boa que essas paredes testemunharam foi à existência da minha sobrinha.
Com a venda do hospital para o meu pai e minha longa estadia no local os funcionários ficaram sabendo que eu sou o filho do "dono" e isso facilitou a nossa entrada para ver o Samuel fora do horário de visitas.
Estamos na frente da porta do quarto em que o Samuca, a cerca de quarenta e cinco minutos, ele está dormindo depois de ter sido medicado. Eu não entrei no quarto e meus acompanhantes também se detiveram em ficar no banco que havia ali no corredor.
Em um momento de distração da Lívia, o Rafael sinaliza que precisa ir e que chamará a mamãe, ele sai sem ser notado.
Estou incomodado com o que preciso falar para a Lívia, pois ela não tem nenhuma relação comigo e precisarei invadir sua privacidade para dar tal conselho. Tudo o que ela faz não me diz respeito, porém minha responsabilidade social fala mais alto.
– Eu preciso falar com você, senhorita! – Chamo sua atenção aproveitando que estamos a sós.
– Cl-Claro! – Ela parece desconfortável. Será que me equivoquei ao pensar que ela não se incomoda com essa cadeira como as demais pessoas fazem?
– Pode chegar mais perto, eu não farei nada que a desrespeite. – Ela permanecia com a cara assustada. Abre um sorriso tímido e encara meus olhos. Ela senta ao meu lado meu sem jeito. – Quero te dar um conselho, pode seguir se quiser, é claro. Se afaste do Fábio antes que a prejudique, ele não é uma boa pessoa.
– Que é isso alteza! – Ela fica com um semblante divertido e questiona: - Está com ciúmes do seu amigo?
O que?
– Não somos amigos, meus verdadeiros amigos você já conheceu. Eu poderia até dizer que ele e eu somos inimigos. Ele não é uma boa pessoa, acredite! – Falo cada palavra com propriedade olhando fixamente em seus olhos avelã. Por algum motivo que eu desconheço me era importante saber que ela estava bem e segura. Acho que eu estava enveredando pelo perigoso caminho da afeição.
Ela me devolve o olhar, pensativa e minha mãe aparece ladeada pelo pai do Samuel. Vamos embora após nos certificamos de que Sam ficaria bem.
Lívia
O dia do evento estava bem próximo, faltavam apenas algumas semanas para a concretização – era o segundo evento consecutivo que eu participava. Achava uma causa nobre a Marcela, minha professora de música e aluna da minha mãe, se empenhar em promover concertos musicais para a alta sociedade contribuir para projetos africanos que visavam amenizar a miséria e a fome naquele continente.
Eles também socorriam vítimas da guerra civil que assolava muitos países de lá. Essas instituições eram administradas pelo falecido ex-noivo da Marcela que era tão enigmático quanto à vida da própria professora.
Ela era extremamente talentosa e também muito reservada. Muitos eram os boatos que circulavam a seu respeito, tudo o que sabíamos era que o noivo havia tirado a própria vida. Tão misterioso quanto o sumiço da pianista era o seu retorno, pois algo a fez voltar.
Marcela a muito havia sido substituída por outro professor, mas a preferencia por ela era gritante. Ela se apresentaria com a orquestra oficial e de alunos que a mesma havia montado no conservatório em que dava aulas. Eu não queria que meu pai soubesse de meu envolvimento com a música para não causar-lhe nenhum sofrimento ao lembrar-se da minha mãe e como ela o deixou, na certa ele faria isso.
Lúcia e eu também somos dessa orquestra de alunos, mas eu apenas canto; estudo o canto lírico, minha voz é uma herança da minha mãe. Assim como o concerto se aproximava, o fim do ano também estava próximo e com ele meu aniversário de dezesseis anos.
Nós saímos da escola direto para o shopping, como consentimento do meu pai e com a ajuda do amigo dele e pai da Lú, aliás, ele quem me dava cobertura para que meu pai não soubesse do meu envolvimento com a música clássica. Ele também era responsável por acobertar as escapadas vespertinas para os ensaios com a orquestra.
Todas essas fugas sem o conhecimento do meu pai lembravam-me da missão que me propus a concretizar, a missão da minha vida.
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Gente, eu sinto falta da interação de vocês. Sério mesmo, estou super desanimada pra escrever. Não custa nada apertar na estrelinha como um incentivo para a autora, não é? Estou até ficando sem inspiração de tanta tristeza.
Obrigada a você que vota, agradeço de coração.
Até o próximo capítulo.
Abraços!!!
#gratidãosempre
Capítulo publicado e revisado dia: 04/11/2020
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