Capítulo 10 - Realidade a vista
Olá meus queridos. Como estão?
Trouxe pra vocês dois capítulos, como prometido.
Perdão pela demora mais uma vez. Não foi possível postar no sábado.
Boa leitura!!!
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"A realidade é apenas uma questão de ponto de vista".
Castelhano
William
Tenho vivido mais tempo no hospital do que jamais vivi, mesmo que minha profissão seja médico. Tenho praticamente morado aqui só por causa do meu filho.
Tomei a decisão definitiva de comprar uma parte do hospital e me tornei sócio majoritário. Eu não tinha interesse na administração de um empreendimento desse porte e foi o que disse a Renato, sócio fundador.
Todavia os acontecimentos que sobrevieram ao meu filho e sabendo que ele dependerá de revisões e consultas mensais – e possíveis internações – para sempre, tendo em vista o diagnostico de lesão medular confirmado, influenciou diretamente na minha decisão.
Apesar de termos um bom rendimento financeiro creio que terei que fazer muitas mudanças aqui, principalmente no atendimento ao cliente/paciente já que meu filho fará uso constante desse serviço.
O hospital é um dos melhores da cidade, precisa apenas de uma reciclagem e treinamento da equipe médica geral.
Certamente terei que me desligar de algum hospital em que já trabalho para poder participar da administração daqui e também na rotina do meu caçula, pois a realidade é que ele dependerá de alguém quase que vinte e quatro horas por dia.
Eu me cobro mais do que a idade permite, estou exausto, mas não posso permitir que qualquer coisa passe despercebido e intervenha na saúde de Nicholas que já está tão frágil.
Gabriel também passa boa parte do tempo aqui, pois quer acompanhar a evolução do irmão de perto. Nick já respira sem aparelhos e essa é nossa primeira vitória.
Ele parece menos aborrecido desde que eu providenciei um computador com um programa que o permite acessar o dispositivo utilizando comando de voz ou movimentos com a cabeça.
Sempre que tem a oportunidade me enche de perguntas e eu lhe dou respostas genéricas. Nunca menti para meus filhos, mas não sei como fazê-lo encarar a dura realidade.
Não quis falar sobre o porquê desmaiou meses atrás, não mostra seus verdadeiros sentimentos. Não sei se ele suspeita ou não da sua condição. Mas é apenas Nicholas sendo Nicholas.
Ele nunca foi nenhum poço de doçura, muito menos um livro aberto. Pelo contrário, é uma bomba relógio e, se ele outrora desmaiou não sei o que pode acontecer dessa vez com uma noticia devastadora.
O meu filho já está nesse hospital há seis meses e sua recuperação é a passos lentos. Tenho feito tudo o que está ao meu alcance para Nick se sentir bem e sua adaptação ser a melhor possível.
Nas duas últimas semanas não permito que o Gabriel venha para o hospital quando minha netinha – sim, uma menina – dá indícios que está prestes a vir ao mundo e a esposa precisa de seu apoio.
Eu nunca tinha visto minha família tão unida, infelizmente é sob essas circunstâncias.
Segui as orientações de Rafael e fui ver o tríplex para ser nosso novo lar. Definitivamente é um lugar agradável sem falar que é seguro e reservado.
O edifício luxuoso possui vinte e cinco andares e os vizinhos são bem discretos. É preciso ter alguns zeros na conta pra comprar um apartamento aqui, acho que isso influencia na tranquilidade e segurança do prédio.
Rafa já está arquitetando as mudanças necessárias para a acessibilidade do irmão. Começará a reforma na semana que vem apesar do Nick não ter previsão de alta.
Estou em uma reunião sentado na ponta de uma ampla mesa. Olho concentrado para além das grandes paredes de vidro os carros que parecem miniatura correndo sobre o asfalto, alheios a minha observação.
Estamos implementando no hospital um programa para alunos residentes na área de cirurgia, eles poderão acompanhar alguns casos e até fazer procedimentos de baixo risco ao paciente desde que os mesmos autorizem.
Eu e Helene sempre gostamos de lecionar, apesar de eu não fazê-lo. Como o hospital tem sido minha segunda casa vi a oportunidade de acompanhar a capacidade de futuros profissionais e, quem sabe, trazê-los para a equipe.
Volto minha atenção para os presentes na sala deixando de lado minha observação de carros em trânsito; os presentes são alguns médicos chefe de departamento e cinco alunos que passaram por uma rigorosa seleção para esses seis meses de experiência.
Entrevistei dois dos cinco jovens e acredito que são os melhores. Nick não será acompanhado pelo programa, mas estou otimista quanto ao sucesso deste.
Todos os alunos trouxeram consigo blocos de anotações ou apenas folhas, mas a única mulher do grupo está com três livros em inglês sobre células-tronco além de uma pasta com o que parecem ser arquivos.
Após o monólogo dos outros médicos me limito a falar que o programa terá inicio na semana que vem e será gerenciado pelo meu filho, Gabriel.
Intercepto a moça que possui traços asiáticos para uma breve conversa. Ela explica um programa de tratamento experimental na Tailândia abriu vagas para alunos de todo o planeta e que ela está estudando para entrar no tal programa e enquanto isso ela estuda no meu hospital.
Os meus olhos brilham com a possibilidade de mudar a realidade do meu filho, com uma pequena chance. Vou para minha sala buscar mais informações em lugar reservado.
Em posse de todas as informações necessárias resolvo os trâmites legais para o embarque e hospedagem no outro lado do mundo. Enquanto isso, penso em mais meias verdades que preciso falar para Nicholas.
Nicholas
Meu pai falou que precisávamos ir à Tailândia para um tratamento mais profundo.
Já viemos de lá onde fui submetido a um transplante de células tronco e estou agora em uma clínica de reabilitação nos Estados Unidos.
Viemos para cá a fim de que eu pudesse fazer um procedimento cirúrgico complicado, conhecido como transferência de tendão, assim me disseram. Serve para ajudar a restaurar a funcionalidade.
E mais uma vez acordo da cirurgia com muitas dores pelo corpo. Se por um lado ter uma parte do corpo totalmente adormecida me assusta, por outro sinto que meus ossos e músculos da parte ainda sensível irão se desfazer a qualquer momento.
Estou descansando no meu quarto reservado na clínica, observando a paisagem e a rotina das pessoas em Seattle pela larga janela.
Acabei de fazer uma intensa sessão de hidroterapia e estou aos poucos me adaptando aos exercícios e a rotina.
Eu fiz inúmeras pesquisas na internet baseado no que acontece comigo e descobri que tive uma lesão medular. Eu ainda espero uma conversa franca vinda do meu pai, pois vi que muitos pacientes não voltam a andar.
Será esse o meu caso?
Eu estou tentando, realmente estou tentando ter paciência e me empenhar nesse tratamento. Já são muitos meses internado e não vejo resultado algum.
Não posso sequer ter um surto sem alguém que assista ao meu show de desespero. Como não posso mexer os braços e as pernas tem sempre alguém aqui comigo; poucos são os momentos de paz como esse.
Nada vi durante a viagem a Tailândia e também fui dopado ao vir para a América. Sinto-me como um brinquedo que está indo de porta em porta para um conserto difícil e recebe sempre não como resposta; tampouco pode ser substituído por outro.
Desde que fiz o transplante com as células fui submetido a uma rotina pesada de fisioterapia e exercícios para melhorar o condicionamento físico. Eu não tinha um corpo sarado, mas fazia musculação para manter a definição dos músculos e ter um corpo apresentável agora parece que perdi uns trinta quilos.
Olha para a cadeira ao lado da cama que parece me encarar de volta e penso no dia em que a vi pela primeira vez.
~ ~ ~ ~ ~
Um tempo antes da maratona de exercícios uma psicóloga entrou no quarto com uma cadeira de rodas motorizada. Ela era muito sofisticada para ser de uso rotineiro para transporte de pacientes.
Fomos interrompidos por um barulho de calçados batendo contra o assoalho que ia aumentando gradativamente, por coincidência ou não, pela Andréa que apareceu para uma visita alegando ser 'da família' quando a psicóloga que falaria sobre a cadeira a pediu para sair.
Mais dondoca do que nunca, em cima de salto-altos e presunçosa como só ela sabia ser. Ela se aproxima e desvio minha atenção da cadeira para ela.
− Oi Nick, achou que eu não viria te visitar? – Disse sorrindo largamente.
Seu sorriso se desfez quando ela pôs olhos na cadeira e continuou.
− Você vai usar cadeira de rodas? O Rafael não me disse que a situação era tão grave.
Eu já estava sofrendo de ansiedade esses meses que estava internado e o comentário que ouvi apertou o gatilho na minha mente, a realidade iminente que me atingiu como um soco no estômago.
Sem chances!
Foi exatamente o que pensei depois que liguei os pontos. Outra crise de ansiedade vindo com tudo e meu corpo reagiu ao seu efeito. Eu já estava cansado e mal humorado e aquilo só piorou a situação.
Não consegui conter o nervosismo que foi se apoderando de mim. Comecei a hiperventilar, − tinha medo de voltar para a traqueostomia –, o coração acelerou. Dessa vez não desmaiei.
Vomitei todo o conteúdo estomacal e por estar sentado apoiado por diversos travesseiros e com as contrações que o meu estômago provocava me fizeram inclinar um pouco para frente e quase cair de cara no rejeito indesejado.
Mais que inferno!
− Nick, querido, não fiz por mal, só fiquei surpresa. – Andréa tenta. – Eu queria apenas te ver antes de todos. Desculpe-me.
Apesar de eu aceitar suas desculpas uma enfermeira vem e expulsa ela do quarto, só então percebo o quão aflita a psicóloga estava.
Parece que essa maré de azar não tem fim.
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Abraços!!!
#gratidãosempre
Capítulo publicado e revisado dia: 31/08/2020
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