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Wagner tentava ligar para Daniel que simplesmente havia desaparecido. O clima na casa estava amigável, sentado na cama mexendo no notebook tentava esquecer que Mara ia fazer alguma coisa. Ela havia acabado de aparecer ali em uma van, chamando por Wagner mas o pai do garoto tinha sido mais rápido e colocado a garota para correr dali aos gritos. Mateus abriu a porta do quarto e ele abaixou a tela do notebook.

- Acho melhor você ir lá em baixo agora!- Mateus o encarou- Os pais do Daniel estão na porta.

Wagner desceu a escada e encarou Fernando conversando com seu pai.

- Venha aqui!- ordenou o homem

- Você viu o Daniel? Ele passou por aqui? Ele tá aqui?- Perguntou Fernando- Ele te disse alguma coisa?

- Não, eu não sei onde ele tá.

- Por favor, não minta, o Dani ainda não está bem para sair de casa, ele simplesmente sumiu da casa dos avós, estamos todos preocupados e eu sei que você seria a única pessoa que ele contaria para onde foi!

- Ele não me contou para onde ia! Ele disse que ia resolver tudo!- Ele pegou o celular mostrando a mensagem

- Aquela loira tem algo haver com isso?- o pai o encarou

- Eu não sei.- Ele se direcionou ao pai de Daniel- A Mara chegou transtornada aqui, dizendo que também ia resolver tudo, de qualquer jeito!

- Eu preciso achar essa menina! Eu preciso achar o meu filho! Me de o número dela e vou ver o que consigo.

Wagner anotou o número de Mara no telefone de Fernando e o homem saiu tão rápido quanto tinha chegado. O pai não disse nada, apenas saiu da sala indo para o banheiro, quem apareceu para dizer algo foi Mateus, o primo estava vestido de preto com uma mochila nas costas.

- Daniel não vai se ferir.

- Você já não devia ter saído pro trabalho?- Wagner o analisou

- É que... sabe... assim...- começou a atirar as palavras rapidamente- Você sabe como o Renato é implicado com o funcionamento das coisas, ele só confia na Maria pra abrir, ai ela não pode chegar no horário hoje por causa do filho dela, ai ficou não deu pra arrumar tudo...- ele respirou- Vamos abrir mais tarde.

- Bom trabalho então...- Não dava para acreditar naquilo

O primo passou em sua frente, indo até a porta e segurou a maçaneta como se hesitasse e encarou Wagner mais uma vez antes de sair. O silêncio da sala não preenchia a mente de Wagner, os tios deveriam estar fechando o mercado, Mateus tinha saído e o pai estava tomando banho, somente encarou a porta e saiu, ligando para Mara.

- Wagner.- Mara falou mostrando o celular a Daniel

Ela estava odiando aquela van, estavam sentados na parte de trás, suja e manchada, algo seco que parecia sangue.

- Atende.- Falou Daniel

- Oi, por acaso o seu pai tem bons modos agora?- Disse Mara colocando no viva voz

- Você pode me buscar? Eu quero participar disso também!

- O seu papai não vai te proibir?

- Para Mara...

- Daniel?- Wagner quase gritou- O seu pai está louco atrás de você! Eu achei que ele podia ter te pegado... Porque você não me atendeu?

- Vocês podem brigar depois, ok?- Mara riu- Podemos ir pegar o Wagner?- gritou para alguém, alguém no caso Joana, a motorista

- Não da, vai atrasar tudo, principalmente depois do desvio para pegar o Daniel! Eu não posso me atrasar, ele vai desconfiar! Não estamos nem na metade do caminho!

- Então Wagner, essa noite você não vai poder participar da nossa aventura.- Mara caçoou em um tom sombrio- Deseje que nenhum de nós morra.

- Você tem que ir atrás da Índia.- Daniel tomou o celular de Mara- Passamos na casa dela e tinha um movimento de polícia e uma ambulância... ninguém consegue falar com ela!

- Eu vou atrás dela!- um barulho no fundo, Mara havia tomado o celular de Daniel- Não desliga! Me diz pelo menos onde vocês tão indo?

- Não.- Mara desligou o telefone

Wagner respirou fundo mas antes mesmo que pudesse decidir algo o celular apitou.

"Sozinho"

A mensagem do número desconhecido brilhava na tela, a mensagem era clara, Wagner estava sozinho, olhou em volta enquanto apertava o passo, alguém o observava a cada esquina, a cada passo, pegou o telefone tentando ligar para Daniel mas o rapaz não atendia, podia ver o vulto preto se aproximando cada vez mais, ele correu, correu o mais rápido que podia, chegou até um carro estacionado e se escondeu atrás dele, pegou o telefone novamente, não adiantaria ligar para nenhum dos amigos, nem para Mateus... ligar para a polícia, era a melhor opção.

- Alô? Eu estou sendo perseguido!- ele disparou- Eu estou escondido atrás de um carro... na rua... Eu não sei o nome!- Wagner olhou em volta- Tem uma creche e uma padaria... Eu não consigo ler os nomes! Pelo amor de Deus, me aju...

O celular foi de encontro ao chão assim como Wagner, o rapaz não fez nenhum barulho enquanto o celular foi pego e jogado com força no chão, fazendo a bateria ir parar longe, as botas pretas paradas em sua frente não lhe davam uma opção de fuga, o chute que recebeu na boca do estômago foi fraco, o Unicórnio parecia um pouco mais lento, Wagner agarrou uma das pernas do Unicórnio e o fez desequilibrar, quando o vilão caiu de bunda no chão, ele se levantou e correu. Só havia um problema. Não se deve dar as costas para alguém armado.

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Daniel podia sentir todos os nervos fritarem, era muita coisa pra uma mente só, a van havia parado na parte alta escondida por alguns matos altos. Tudo que Joana dizia fazia um pouco de sentido, a garota usava uma roupa preta e conversava com Mara, segundo ela depois que acontecesse a morte o Unicórnio correria e se jogaria na parte de trás da van e Joana o levaria para o covil. Era a oportunidade de Ouro.

Mara ainda queria debater sobre o plano, ela queria ver com os próprios olhos, queria ver quem morreria, se pudesse ia atirar no Unicórnio ali mesmo, não ia ficar escondida na van esperando junto com Joana. Nesse plano Daniel era o porta voz e filmaria tudo e talvez com essas filmagens finalmente acreditariam neles. Se sentiam mal em nenhum momento, eles pensaram em salvar quem quer que fosse o morto.

- Joana quem ele vai atacar?

- Eu não sei!- Ela segurou Daniel- Ele só me disse uma coisa...- Ela desbloqueou o celular e mostrou a mensagem

"Traidor"

- Quem é traidor?

- Pode ser qualquer um...- Joana abraçou o próprio corpo

- A Índia...- Daniel roeu as unhas

- Tanto faz! É a nossa chance Daniel!- Mara encarou a arma que segurava, ela estava transtornada- Não vou deixar que ele me mate.

- Não podemos pega-lo de surpresa!? Impedir que mais sangue seja derramado?

- Silêncio!- Ordenou Joana e os dois se calaram, não muito longe podiam escutar alguns barulhos- Está na hora, vão!
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Índia abriu os olhos de vez, se sentindo cansada e com a cabeça pesada, tocou a testa e sentiu o pequeno filete de sangue, voltou a deitar no chão ainda desnorteada. Aos poucos foi notando, o céu estrelado, a terra e a grama, estava inteira mas não sabia onde.

Se sentou com dificuldade, não havia ninguém ao seu lado, parecia que o Unicórnio não estava ali, levantou procurando equilíbrio no nada. Aquele lugar lhe era familiar, mas porque ali afinal? Nada fazia sentido.

- Tem alguém ai?- gritou

- Claro que tem!

Ela procurou a voz por todos os lados mas só havia mato muito alto e uma construção abandonada a anos, os arbustos a faziam se sentir cercada, cada vez mais parecia que seu espaço diminuía.

- Apareça seu filho da puta! Qual o jogo da vez? Vai me matar? Mostrar a cara?

- Ainda é cedo!- Ela procurou novamente- Mas vamos jogar novamente perguntas e respostas.

- Apareça seu babaca! Eu não tenho mais nada a perder!

- Sério!?- riu- Então vamos começar! Vou até te dar uma vantagem, resposta certa ou errada, você ganha, por enquanto.

Índia tremeu, a voz robótica estava sendo amplificada, em algum lugar o Unicórnio estava se divertindo com o desespero dela, nunca tinha desejado tanto que a polícia aparecesse, ver Lucas ou até mesmo Luana.

- Está pronta?

- Sim!- A voz tremeu enquanto gritava

- Início fácil. O que a Laura adorava colecionar?

- Chaveiros!- Claro que Índia sabia disso, quem não? Laura adorava mostrar seus chaveiros espalhafatosos como se fossem algo extremamente importante, colocava vários na chave, vários na mochila, e sempre dizia ter um novo a cada mês

- Próxima! Porque Mara e Paloma deixaram de ser amigas?

- Augusto.- Índia sabia bem dessa, todos da escola comentaram por quase um mês

- Você lembra bem das coisas!- O Unicórnio riu e nada acontecia, nada mudava, Índia já estava achando que era uma piada- Por que a maioria odiava o Raphael?

- Ele... ele...- escutar o nome de Raphael fazia tudo voltar, a morte dele, o sangue- Ele era um pé no saco, sempre lembrava os professores das tarefas, ninguém podia fazer nada que ele corria para contar pro diretor!

- Bom.- Índia achava que tinha escutado algum barulho, passos- Por que pararam de falar com o Jonas?

- Por que...- Índia respirou fundo para se manter calma, Jonas era outra lembrança difícil também morto em sua frente- Por que a Mara disse para todo mundo que ele era gay e que tinha pegado o Tiago no banheiro da escola.

Novamente passos pareciam vir de trás da casa abandonada, ela podia ver de relance a sombra de alguém.

- Porque o Pablo era popular na escola?

- Porque...- A cena do tiro voltou em sua mente- Ele era filho do professor de física, achavam que iam conseguir as provas, mudar as notas mas nunca faria isso...

Foi então que ela viu, ainda estava distante de mais para que ela soubesse quem era, não usava uma fantasia de Unicórnio e estava com os braços amarrados.

- Que merda é essa?

- Sou eu quem faz as perguntas. Quem espalhou pela escola que a Suzana era apaixonada pelo Joseph?

- Foi o...- disso ela não se lembrava, mas tanto fazia só precisava de um nome, resposta certa ou errada- Foi a Helena...

O rapaz andou mais para frente, Índia tremia, deveria andar também? Ou ficar onde estava? Deveria fugir? Ele continuava andando até ela, Índia começava a reconhece-lo, o cabelo loiro estava bagunçado, as roupas sujas de terra, no rosto a expressão de desespero. Leo.

Foi o suficiente para Índia, ela correu e começou a desamarrar o primo.

- Desculpa.- Ela sussurrou- Eu não queria você metido nisso! Meu deus Leo...

- Não é sua culpa.- ele disse tentando a ajudar a soltar a corda- Você tem que pegar um papel...- ele olhou em volta- no meu bolso.

- O que?- ela soltou o primeiro nó

- Rápido Índia, ele vai vir me matar!

Ela o encarou assustada e pegou o papel no bolso dele, colocando no bolso da calça sem ao menos olhar o que era e continuando a desamarra-lo.

- O pendrive era uma distração...

- Eu vou te tirar daqui! Ele não vai tocar em você! Sinto muito ter metido você nisso!- Índia conseguiu soltar a corda e os dois se abraçaram

- Eu estava ajudando o Unicórnio.

Foi como se um choque percorresse o corpo de Índia, não fazia sentido.

- Não, ele mandou você dizer isso, nós vamos sair daqui agora!

- É tão bonito ver um momento família! Agora você tem que responder certo!- A voz robótica soou em algum lugar- Última pergunta. Quantos saem vivos esta noite?

Índia não respondeu, ela simplesmente agarrou a mão de Leo e começou a correr, não foi uma boa ideia.

Eles mal viram quando o Unicórnio pulou em cima deles pelas costas, os três caíram no chão. Índia sentiu algo apertar as pernas e escutou um grito, o Unicórnio estava sentado em cima dela uma das mãos estava agarrada a uma faca presa no ombro de Leo, ele arrancou a faca e Leo gritou novamente, Índia tentou se levantar, agarrar o Unicórnio, a máscara dele mas Leo pulou em cima dele, os dois rolaram pelo chão, pareciam lutar, se arrastou até os dois e agarrou um dos braços do Unicórnio. Leo estava no chão, o Unicórnio estava por cima dele, a atitude de Índia não adiantou em nada com a outra mão o Unicórnio cravou a faca em Leo, um pouco abaixo da clavícula, o corte foi profundo, Índia se jogou sem cima do Unicórnio e os dois rolaram pela grama e então Índia sentiu uma grande pancada sua visão ficou preta por alguns segundos e tudo parecia girar, seu corpo estava fraco, havia batido a cabeça em algo, parecia que seu nome estava sendo chamado de longe, não podia se distrair, não podia perder.

Enquanto tentava se levantar o Unicórnio já estava andando, ele iria até Leo, mais uma vez Índia tentou se levantar e cambaleou com a visão turva, o Unicórnio não se importavam mais com ela, se levantou, não podia correr, não podia nada depois de alguns passos caiu novamente, o Unicórnio riu, e pegou Leo pela camisa, arrastando o garoto para perto dela. Leo estava desnorteado sangue escorria dos dois cortes, o Unicórnio se sentou em cima dele e arrancou a faca do corpo do garoto e a aproximou do pescoço, Leo não tremeu continuou encarando a máscara medonha.

- Nosso jogo não acabou Índia.- Disse o Unicórnio- Ainda não me respondeu... Quantos saem vivos esta noite?

Índia sussurrou algo que nem ela mesma entendeu e então o Unicórnio apertou a lâmina pontiaguda e cortante no pescoço de Leo e a arrastou lentamente, abrindo a garanta do garoto, o sangue jorrava e escorria irregularmente, Leo tremeu antes de ficar estático, se ele pudesse ver o rosto por baixo daquela máscara, tão cruel... mas ele não podia.

Leo estava morto.

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