11
Sávio estava em casa, encarando o teto, ele não sabia que horas eram, só que era madrugada e o único pensamento era em morte. A mãe odiava que ele fumasse dentro de casa, mesmo que fosse na janela do quarto e agora ele estava ali, tremendo, se contorcendo de vontade.
Tentou cantarolar uma música, tentou assistir alguma coisa, mas sua cabeça rodava apenas a ligação de Índia. A Sol recebeu a cabeça da Mariana em uma caixa.
Não podia ser a melhor pessoa do mundo, mas não fazia sentido estar metido em toda essa confusão. Mariana, ele mal conhecia, já tinha escutado falarem mal dela várias vezes, mas a cabeça em uma caixa era de mais. Não aguentou, empurrou as cobertas para longe e se levantou, o irmão ficava no quarto da frente e assim que abriu a porta escutou os palavrões baixos, e abriu a porta.
— Morri nesta desgraça do caralho! — O irmão tirou o headset da cabeça e fez menção de jogar, mas respirou fundo, passando a mão na marcação que tinha ficado no cabelo e o colocou de volta — Esse viadinho me matou.
— Eu não te matei.
— Que que você quer Sávio? — Disse de modo rude cruzando os braços enquanto girava a cadeira para encará-lo
— Você não tem prova de matemática amanhã de manhã?
— Você não tinha que tá dormindo pra ir procurar um emprego?
— Aí. — Dramatizou colocando a mão no peito rindo — Parece que eu sou um péssimo irmão.
— Que que você quer? — Disse incisivo, com a cara fechada, não achando nada nenhum pouco engraçado
— Olha Thiago, eu vou fumar lá fora, qualquer coisa você me encobre.
— Não. — E se virou para o computador
Sávio fechou a porta e revirou os olhos, o irmão tinha se tornado um péssimo adolescente. Voltou para o quarto, pegou o cigarro, o isqueiro e o celular com os fones e pulou a janela, passando pelo quintal e andando até o portão da casa, o portão tinha algumas aberturas que davam para ver a rua, escuro e sem movimentação, colocou os fones de ouvido ligado as músicas no aleatório e acendeu o cigarro, tentando não pensar em nada, concentrando em soltar a fumaça pelas aberturas do portão, o vazio e a escuridão contrastavam com a música que tocava, colocou o braço para fora enquanto soltava a fumaça e encarando o nada cantarolou em um péssimo inglês.
Talvez devesse ter prestado atenção, mas só notou a aproximação quando seu braço foi puxado para fora e bateu contra o portão, seus olhos se arregalaram, ao ver a máscara de Unicórnio do outro lado, apertando seu braço com força e puxando de dentro da roupa uma faca. Morrer. Não sabia se fazia parte da música ou se estava pensando que ia morrer, soltou o cigarro e começou a lutar contra o aperto, tentando puxar o braço repetidas vezes, o Unicórnio balançou a cabeça mostrando o sorriso da máscara doentia, a faca se moveu rapidamente e com medo da morte Sávio colou toda a força que podia em se tirar dali, puxando o braço de volta, não foi o suficiente, sentiu a faca rasgar sua pele, o sangue começar a sair, mas quando uma luz se acendeu no corredor, sentiu o braço ser empurrado de volta para dentro do portão.
— Que merda você tá fazendo aí? — Escutou o irmão perguntar baixinho — Mainha vai te matar se ela acordar.
Sávio encarou o braço, sua tatuagem de Cavaleiros do Zodíaco estava arruinada, o antebraço estava rasgado em um corte que começava um pouco abaixo do pulso e cruzava toscamente até terminar do outro lado, chegando na parte de cima do antebraço, o sangue derramava e com a outra mão ele tentava controlar aquilo, em choque com passos cambaleantes.
— Sávio? Tô falando com você cara! — Thiago reclamou colocando as mãos nos bolsos da blusa de frio e se aproximou do começo do quintal — Vou voltar pra dentro e você que se vire com a reclamação... Espero que você não tenha fumado outra coisa!
— Thiago... — Soltou em meio a um grunhido de dor — Me ajuda... Sangue...
— Quê? Porra Sávio, para de bancar o...
Não escutou o resto, seus olhos estavam focados no corte, seu corpo em caminhar para perto do irmão, a mão não dava conta de cobrir todo o corte e nem de estancar o sangue que parecia jorrar, a dor era insuportável, precisava parar aquilo...
— Sávio? — Thiago falou se aproximando — Que porra é essa!?
Correu se grudando no irmão, tirando a mão de Sávio e usando as suas para segurar o corte, não sabia o que fazer, apenas trocou um olhar desesperado com Sávio, a merda do celular estava dentro de casa, mas viu os fones de Sávio pendidos no bolso.
— Celular! Mãe! MÃE! — Gritou desesperado, vendo Sávio não atender o pedido, com o rosto mais branco que o normal, soltando uma das mãos e pegando o celular de Sávio — MÃE! MAMÃE! MÃE!
Não conseguia desbloquear, suas mãos manchadas de sangue marchavam o celular, ele limpou a mão e o celular na camisa, conseguindo discar para a emergência. Com o celular na orelha encarou a situação, uma poça de sangue onde estavam parados, ele e Sávio com uma das mãos no corte, mas nada parava aquilo, enquanto não era atendido, continuo a gritar pela mãe que finalmente, acendeu a luz e apareceu na porta sem entender nada.
— Thiago... — Sávio tremeu, com a boca branca
— Oi, meu irmão tá ferido! Eu preciso de uma ambulância! Uma ambulância!
A mãe apareceu de rompante parecendo meio em choque, sem entender muito ou questionar, tomou o telefone da mão de Thiago dando as informações certas, e recebendo algumas orientações, nada que a fizesse sentir mais tranquila, não respeitaram aliviados, nem mesmo alguns minutos depois quando o barulho de sirene de ambulância foi escutado.
------------------------------------------------------------
O Unicórnio jogou a máscara em cima da cama e guardou sua faca, agora limpa, em um saco, tirou seu manto guardando-o cuidadosamente e guardou os dois em uma mochila também preta. Não era a aproximação que queria, era para ser apenas uma reconhecimento de território, mas o idiota estava lá, com o braço moscando, como se não corresse perigo. Estava pedindo para ser cortado.
Respirou fundo e saiu do quarto, indo até a geladeira pegar alguma comida, a casa estava silenciosa como tanto apreciava, de volta ao quarto, deitou-se e encarou o celular, nenhuma mensagem. O dia havia sido conturbado de todos os jeitos e ainda havia um novo mistério.
Mindinho. Era como as notícias chamavam, parecia também rondar Índia e isso era inaceitável.
Índia era apenas sua.
------------------------------------------------------------
A manhã estava bonita, Helena e Otávio andavam aproveitando o ar fresco, ele bateu a bengala no chão identificando um buraco, e Helena o ajudou a desviar. Eles tinham se conhecido em um culto da igreja que ela passou a frequentar após se mudar, tinha só dois anos de diferença, Otávio era negro, tinha o cabelo cacheado e um sorriso resplandecente e nascido cego, Helena teve dúvidas no início mas se deixou envolver completamente, até mesmo esquecer de tomar o anticoncepcional.
Se sentaram em um banco da praça onde caminhavam.
— Você tá tensa com aquela notícia?
— Com certeza, se a Índia tá no meio é porque vai ter mais uma chuva de mortes.
— Lena, como você pode ter tanta certeza? Não vou ficar argumentando que é pura coincidência, mas estamos tão distantes, não precisa ficar tensa.
— Eu vivi quando o Unicórnio atacou, a minha melhor amiga morreu por isso, eu sujei minhas mãos de sangue para salvar o Daniel, quase morri, na época eu realmente achei que tinha sido uma coisa épica, mas agora, eu só quero paz.
— Tá fazendo parecer que foi a 30 anos atrás... Se tem um assassino a solta, a polícia o encontrará.
— Na minha cidade que era um ovo, todo mundo se conhecia, não descobriram nada, imagina aqui amor, torcer para que a Índia acabe com o Unicórnio de novo. — Cruzou os braços sentido as loucuras de suas palavras afetarem, tinha certeza absoluta que o Unicórnio estava a solta novamente
Queria socar alguma coisa, gritar ou encher a cara. Helena não tinha mudado de pensamento sobre tudo que aconteceu, ela dizia para todos que queria paz, mas algo ainda fervilhava dentro dela por atenção. Nunca tinha sentido uma emoção tão grande quanto o dia da perseguição na casa abandonada, ver Joana caindo, salvar o dia e ainda por cima ter contado para Daniel que Wagner era o Unicórnio, só os pesadelos a assustavam, tinha saudade de se sentir gloriosa.
— Tô falando com você... — Otávio chamou a atenção de volta dela — Vai ter aula hoje?
— Não, dia de luto, pelo menino que morreu com os tiros, na verdade metade da cidade tá, a menina que perdeu a cabeça era de uma particular lá perto, e a da mão tinha acabado de sair da outra pública... Mas a vida continua, então nós podemos ir comer fora hoje! Ou ir naquele bar que você gosta!
— Helena!? — Escutou a risada nervosa e se virou para encarar quem quer que fosse
Não conhecia mas era uma garota de Dreads azuis, maquiagem preta carregada e uma voz familiar.
— Oi... — Respondeu nem mesmo tendo ideia de quem era
— Giovana, lembra? Você me deu entrevista sobre a Mara uma vez, teve aquele jantar na casa da Sofia uma vez...
— Você é a amiga da Vanessa, claro! — Riu lembrando que a odiava com força, era inconveniente e enxerida — Meu namorado Otávio, estávamos só de passagem...
— Parece que nós duas não temos mais amigas... Desculpa... É que eu te vi aqui e queria falar rapidamente...
— Anda logo. — Helena sentiu a menina malvada nascer de novo dentro dela, cruzou os braços e a olhou com deboche, ela queria controlar a língua mas era impossível — Estou aqui no meu tempo, com meu namorado, você só apareceu aqui do nada... atrapalhando tudo...
— O Unicórnio matou meu namorado! Eu preciso que você me ajude a pegar o Unicórnio!
— Eu... — Olhou em volta tentando entender aquela interação — Eu não sou a Índia.
— É por isso mesmo! Não quero investigar! Quero apenas matar o Unicórnio! Não importa quem ele é!
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top