8-Espada Carmim
Que garoto prepotente. Uma parte de si pedia para que continuasse quieta, outra para dizer na cara dele que não conseguia levar a sério o discurso dele e ver o circo pegar fogo. Ela mantinha os lábios pressionados, se segurando para não rir.
—Então, o que diz?
Talvez quando você decidir pedir com menos arrogância, pensou a jovem, enquanto desfazia as algemas com sua magia, despreocupada.
Kely tentou captar a reação do garoto, mas ele mantinha o olhar sério e firme.
—Tá bom, vamos fazer do jeito difícil.
—Talvez eu pense no assunto quando você pedir com educação— Kely respondeu, pensando em levantar e ir embora, mas Daniel não estava mais a fim de escutar. A garota percebeu tarde demais quando sentiu uma força empurrá-la para o chão. Quatro paredes rasgaram a terra e se ergueram em volta dela, transparentes como vidro. O primeiro instinto da garota foi socá-las, e o ritmo da sua respiração se alterou quando não se moveram nem um centímetro. Percebeu que a única forma de sair dali era atacar a fonte do feitiço, e jogou o garoto para os ares com uma rajada de vento. Para sua sorte, ele era um peso leve— e provavelmente não esperava nada dela. Ouviu-se um baque quando a gravidade o puxou de volta,e enquanto ele se recuperava, ela conseguiu quebrar a caixa e a magia. Kely ficou de pé e jogou outra corrente de ar na direção do menino, a guiou para cima e depois para baixo, o prendendo no chão com a força do vento. Ele se sustentou nos joelhos, mas logo conseguiu dissipar a corrente de ar. Seus tornozelos coçavam, e seu braço estava começando a ficar pesado.
—Que ideia é essa, cara?— ela o recriminou, por entre a respiração entrecortada. Seu coração havia tomado o lugar dos tímpanos. Ela não sabia o quanto ele era forte, e isso a preocupava.
—Eu disse que te levaria por bem ou por mal—Ele atacou novamente, com tiras de magia que avançavam a uma grande velocidade. Kely montou um escudo, mas não achava aberturas para atacar e fazê-lo parar. Foi pega de jeito quando uma rede caiu em cima dela. A jovem tentou fazer uma lâmina, mas a magia não vinha até ela, não porque estava cansada, mas porque toda a magia daquele espaço tinha sido concentrada por Daniel em uma grande esfera brilhante ao seu lado, que ela até havia percebido, mas não deu importância.
Ele começou a andar em sua direção. Kely precisava pensar, mas estava difícil. O nervosismo a fazia tamborilar os dedos no colar debaixo da blusa. Havia usado magia demais ontem quando armou uma explosão naquele monstro que os perseguiu. Valia a pena expô-la tanto?
Daniel se apoiou em um dos joelhos, as mãos nos bolsos, despreocupado. Como ele iria levá-la com rede e tudo? Seus braços pareciam não aguentar levantar uma mochila, como ia arrastá-la por aí? E ainda sem ninguém perceber?
O garoto a olhava como se fizesse as mesmas perguntas, mas logo agarrou a rede com as duas mãos e começou a arrastá-la pelo chão. A sensação não era muito confortável, mas ele ia devagar, iria demorar, isso se ele não encontrasse ninguém no caminho. Ela tentou se acalmar, pelo menos tinha tempo extra para pensar. A magia demorava um tempo para se espalhar no ar, então teria que usar outro método. Ela voltou a agarrar o colar, quando sentiu algo diferente nele, uma ponta de alguma coisa. Ela abriu a jaqueta com pressa, preocupada que Daniel fosse perceber. Seria uma baita vergonha, mas ele se preocupava mais em conseguir arrastá-la por uma distância considerável sem cair no chão. Ela tentou ser discreta, mas o nervosismo fazia parecer que tudo estava dando errado. Os olhos de Kely arregalaram tanto que ela nem se via capaz de abrir tanto os olhos, quando tirou uma espada escura por dentro da blusa. A garota estava em choque, mas tinha preocupações maiores. Sem perder tempo, ela cortou a corda com força, mesmo com os braços ardendo, e rolou para fora da rede, sentindo a grama grudar na sua pele. Daniel se desequilibrou no processo, mas se recostou em uma árvore e não caiu.
—Tudo bem, eu posso fazer uma rede mais forte—disse ele, sem se preocupar em se virar. Estranhando o silêncio, ele o fez, e se deparou com a ponta da espada apontada para ele, e Kely olhando para ele com a firmeza do olhar de uma ave de rapina.
Daniel levou as mãos acima da cabeça.
—Talvez possamos fazer um acordo.
Kely não estava mais com vontade de dar risada.
—Se você não percebeu, eu posso ir até o ginásio te acompanhando. Agora vai na frente.
—Ok, ok, mas abaixa essa espada.
—Já abaixo. Vai.
Daniel ia na frente e Kely atrás, o que deu uma abertura para ela admirar a espada, a lâmina preta como a pedra do colar, que refletia a luz em vermelho carmim. O reflexo a hipnotizava enquanto ele corria quando a garota subia e descia a espada em suas mãos. Talvez a pedra fosse muito mais do que um instrumento catalisador de magia profunda.
Os dois chegaram no ginásio, vazio e silencioso. Com o fio da espada em sua mão, ela tomava cuidado para não se cortar.
—Vocês sempre fazem suas reuniões aqui?
—Sim, devia ter uma reunião hoje, é estranho que ninguém apareceu.
Daniel ficou ali, esperando, olhando os arredores, apesar de que não tinha muito o que esperar. Kely tentava fazer malabarismo com sua espada, mas falhou e a espada fez um som metálico que ecoou em todo o ginásio. O barulho atraiu a atenção de Daniel, que fez uma cara engraçada de desprezo— seria engraçada, se não fosse para ela.
—Se eu fosse você, escondia essa espada.
Kely pegou a espada do chão. Não sabia onde guardá-la, mas logo pensou em colocá-la de onde havia saído. Ela encostou a ponta da espada no colar. Vendo que a espada atravessava a pedra, ela continuou empurrando. A espada desapareceu completamente.
—Não tem sentido ainda ficarmos aqui. Eu vou procurar no presídio— proclamou o ruivo, se direcionando para a saída. Kely foi atrás dele.
Os passos da dupla ecoavam pelos corredores escuros e frios. Ele andava com uma pressa que fazia difícil acompanhar. Correram até a sala do projeto. O ar daqueles corredores já era um tanto sombrio, mas a sala vazia trouxe uma ansiedade que parecia não fazer sentido. O garoto ignorou os papéis caídos no chão e se dirigiu até a planta pendurada na parede. As cadeiras estavam viradas em posições aleatórias e uma das mesas estava totalmente desalinhada. Era como se as atividades da sala tivessem sido abruptamente interrompidas.
—Esse lugar tá uma bagunça.
—Isso é estranho. Nunca deixamos a sala assim.
Tímida, ela também se aproximou da planta. As caligrafias ao redor das fiações eram diversas, algumas até ilegíveis.
—Posso te perguntar uma coisa?—Kely não deixou passar a oportunidade.
—Diga.
—O que essa máquina faz… exatamente?— estava com vergonha de perguntar, afinal era a gerenciadora e aquela era uma informação básica, ela já esperava que ele fizesse algum comentário ácido, mas isso não aconteceu, apenas recebeu um olhar curioso do garoto e ele começou a falar:
—Você sabe o que é esse lugar onde estamos agora?
—O antigo presídio?
—Isso. Para que os criminosos que estavam aqui não fugissem, eles usaram uma estratégia um tanto diferente.
—Os amaldiçoaram e criaram uma barreira mágica em volta do presídio para que não fugissem.
—Sim. Marcus provavelmente era um criminoso aqui, e há duas maneiras de sair desse presídio, quebrar a maldição, o que é difícil, já que quem os amaldiçoou deve estar mais morto que ele.
—Faz sentido. Eu não sei muito sobre maldições, mas dizem que é como um código de segurança.
—De certo modo sim. As fazem mais complicadas do que realmente são, usam etapas desnecessárias e ingredientes absurdos para que não possam ser repetidos e quebradas facilmente. Você vai estudar isso alguma hora. A outra maneira é quebrar a barreira de proteção, mas é necessário uma quantidade absurda de energia. Não sabemos de onde essa energia será tirada, mas a máquina é para controlar e direcionar a energia. Concordo que é mais fácil do que adivinhar quais foram todas as etapas para selar a maldição.
—Então Marcus quer realmente fugir de volta para a terra.
—E você sabe que tem mortos que não descansam em paz e preferem não deixar ninguém mais em paz. É por isso que montamos a rebelião, mas fica difícil quando estamos condenados a obedecê-lo a qualquer custo.
Ele voltou o olhar novamente para o pulso limpo da garota. Ela o escondeu, e sentiu novamente um soco metafórico no peito. O momento foi interrompido por Daniel:
—Ouviu isso?
Ele se referia a burburinhos não tão distantes, que pareciam vir do pátio do presídio. Os dois foram para o local, mas ficaram escondidos atrás do corrimão do mezazino do segundo andar. Kely pôs as mãos nas costas de Daniel, um sinal para ele se abaixar enquanto chegavam mais perto da beirada, do lado do pátio. Havia uma multidão no local, parecia até que a escola inteira estava ali.
—O que a escola inteira tá fazendo aqui?
A multidão parecia…perdida. Nem mesmo eles sabiam o que estavam fazendo ali. Os dois se aproximaram devagar da borda, e dali foi possível ver Brasa e Marcus. Marcus bateu palmas, buscando a atenção dos alunos, e a sala, de um segundo para o outro, ficou em silêncio.
—Agora que estão todos aqui, tenho algo para falar com vocês, meus queridos jovens, que todos os dias aparecem aqui, tão dispostos e proativos.
Kely odiava admitir que não sabia qual rumo a situação iria tomar. Mas de uma coisa ela sabia.
—Nosso progresso nesses dois anos foi formidável. Ainda há coisas a se resolver, mas eu nunca teria conseguido se não fosse por vocês. Por isso vim aqui expressar minha gratidão, renovando e fortalecendo o contrato que fiz com todos vocês.
Coisa boa não era.
Anselas tirou uma pedra de dentro de seu paletó, e levantou-a acima de sua cabeça. A pedra começou a brilhar com uma luz branca que iluminou quase o pátio inteiro. Os alunos mais próximos e Brasa tiveram que cobrir os olhos.
—A partir de agora, todos os seus desejos são vitalícios, assim como sua lealdade a mim.
Kely viu a expressão de alguns alunos mais afastados de Anselas, que ainda conseguiam ver apesar da luz forte. Os alunos que ela tinha visto na primeira reunião no ginásio. Expressões essas que antes eram indecifráveis, agora de certeza que havia algo errado.
Assim como sua lealdade a mim.
Kely tinha um mau pressentimento. Daniel sabia que ela tinha tirado o feitiço e poderia denunciá-la. Tinha que agir rápido. Protegendo os olhos da claridade, ela pegou o pulso de Daniel e puxou a manga da camisa. A marca estava ali. A jovem estava aliviada que havia ficado com o colar. Sem esperar a permissão do garoto, ela começou a remover a marca, envolvendo o pulso fino com suas duas mãos. Uma luz laranja iluminou a palma da mão da garota, Daniel reclamou e tentou puxar o braço de volta, mas Kely não cedeu. Tinha certeza que havia queimado o pulso do garoto no processo, mas era um mal necessário.
A luz preencheu todos os cantos da sala. Kely fechou os olhos, e ouvindo a agitação dos alunos lá embaixo, viu vultos, mas não como aparições singulares. Eram vultos de memórias, memórias que ela não se lembrava de ter vivido. Mas ela não tinha certeza de quem eram, e nem o que eram. Apenas formas, mas com detalhes bagunçados e indefinidos.
Ela abriu os olhos novamente. Daniel olhava para ela nada feliz.
—O que vo…
—Shhhhhh…
Kely teve que o repreender baixinho. O silêncio do pátio era sufocante e deixava Kely nervosa, principalmente com aquelas visões repentinas, que a deixaram cheia de perguntas. Ela queria escutar o que Anselas diria em seguida.
—A partir de hoje, seus desejos estarão em vigor para sempre.
Contrato, foi a palavra que ele substituiu. Um contrato onde as obrigações dos alunos não eram claras.
—Muito obrigado pela sua atenção, queridos jovens. Se tiverem algum problema trabalhando, o… os gerenciadores estarão prontos para atender vocês.
Era ótimo ter um chefe que te fazia descobrir suas obrigações em momentos oportunos.
Anselas saiu, e a turma no pátio ficou cada vez mais agitada. Estavam confusos, provavelmente não tinham sentido nenhuma mudança. Kely tinha a ideia de que eles pudessem estar sobre um transe de obediência muito mais forte. Mas não sabia o que isso mudava na prática.
—Você ainda não me explicou porque queimou o meu braço.
Ué, você não queria que eu tirasse o feitiço?, ela respondeu, mas apenas em sua mente. Sua resposta real foi uma feição carrancuda.
—Era para te proteger da claridade— ela respondeu, depois de um tempo. Percebeu que se falasse que havia tirado o feitiço dele, ele faria muitas perguntas que ela se ferraria se respondesse.
—Ela ia fazer o quê?
—Não sei, mas não confio naquele cara. Agora feche os olhos.
—O quê?
—Quer saber? Eu os fecho para você.
Ela bloqueou a visão dele. No começo ele protestou, mas parou e tentou outra tática: entender o que estava acontecendo.
—O que é tão misterioso que eu não posso ver?
—Você vai ver.
Ele ficou quieto, mesmo diante do novo paradoxo. Kely remexia seus bolsos como uma desesperada, quando lembrou que ela havia aprendido a fazer coisas sólidas com magia. Ela fez algo não muito impressionante, mas não importava, já que ele não veria. Talvez ele percebesse com a textura, mas tudo bem. Ela agora tinha um sabonete em mãos, e passou uma das pontas no pulso do garoto.
—Você vai tirar o feitiço?
—Vou, agora fica quieto.
Ela fingiu guardar o sabonete no bolso da calça, só para garantir.
A jovem tirou a venda mágica dos olhos dele. Ele imediatamente quis ver o pulso. Ficou boquiaberto, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Até passava a mão no pulso para ver se era verdade.
—Se for para tirar o feitiço dos integrantes da rebelião, vou precisar de tempo para conseguir mais.
Ele não respondeu.
—Obrigado— disse apenas, bem baixinho, e foi embora.
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