18


Olá gente, hoje estou aparecendo no começo.

A música que eu coloquei aí em cima foi uma das músicas que eu escutei enquanto estava escrevendo essa parte, mais especificamente, a parte da Kely, então eu meio que associei. Já pra parte do Daniel, acho que não combina não(mas vai vir depois da parte da Kely). É uma música que vocês talvez achem estranha, mas claro, não é obrigado a escutar, é só algo que eu queria compartilhar.

Aproveitem a leitura lindos, espero que gostem do capítulo.

***

⚠Aviso⚠

Esse capítulo contém violência

Kely apareceu para trabalhar depois de dias, e duvidou que ali sentiram sua falta. Quando encontrou Brasa no corredor, tomou um susto, porque não lembrava dele ser tão alto, e de estar de cara fechada a maior parte do tempo - quer dizer, sobre isso, só havia esquecido. Agora que parava para pensar, fazia parecer que ele não gostava de trabalhar. Ou havia sido rebaixado de cargo, ela pensou, já que ele carregava um balde e uma vassoura.

— Quem é você, hein? Nunca te vi, você já trabalhou aqui uma vez? — E ele não perdoava.

— É, eu tava me preparando pro jogo, você lembra, né? — uma nova onda de nervosismo surgiu nela.

— Como foi o jogo? — ele perguntou, com um tom meio irritado, e começou a esfregar o chão do corredor empoeirado. Nunca houve a necessidade de esfregar o chão, por que agora?

— Nós ganhamos. E causamos uma briga na arquibancada.

— É, fiquei sabendo, meu pai voltou para casa sem um pedaço.

— Nossa, o que aconteceu?

— Parece que a mulher-morcego que começou a briga arrancou o ombro dele fora. Ele vai tentar processá-la.

Ah. Então ele era o pai de Brasa. Se aquela era a referência que o garoto tinha, ele até que é bem calminho. Ela pensou em comentar que ele não estava isento de culpa na briga, mas Chikec havia arrancado o ombro do pai dele fora para defendê-los, então achou melhor ficar quieta.

— Desculpe perguntar, mas por que está esfregando o chão?

A expressão de Brasa ficou mais irritada.

— Quer saber, eu também não faço ideia, o chefe disse que era uma ocasião especial, mas vai encher de poeira do mesmo jeito. Ele está estranho hoje, e parece que tirou o dia pra me dar tarefas pra me irritar.

Brasa estava abertamente bravo com o chefe. Kely nunca havia visto isso acontecer. Era um pouco divertido.

— Ele disse pra você ficar depois do horário também? — ele perguntou a ela.

— Não.

Ele bufou.

— É, como se eu não tivesse nada pra fazer depois do horário, mas... paciência — disse a palavra nem um pouco paciente. E ela ficou ali mais um pouco, ouvindo Brasa falar mal do chefe, e ela contribuindo. Aparentemente, Gael também ficaria depois do horário.

— O quê? O chefe também mandou ele ficar depois do horário?

— Não, ele mesmo se convidou.

— Por quê?

— Porque ele é metido.

E ainda ficaram ali, falando de Gael.

— Acho que ele queria o posto de gerenciador, e quando eu consegui fácil, ficou me caçando, dizendo que gostava de mim.

— Você não é um exemplo de gerenciadora, mas é melhor do que ele, eu acho.

Você "acha"?

— Como assim? Eu sei que sou nova, mas tento fazer tudo certo. O chefe — ela odiava ter que chamar Marcus de chefe — nem me pede tanta coisa assim por causa disso — ele nem sente minha falta, ela quis completar, mas deixou quieto.

— Quando Gael consegue recrutar todos os novatos, você some. Ano passado, estávamos aprendendo todos juntos a realizar as tarefas, e todos se ajudavam. Agora sobrou tudo pra mim — Brasa desabafou. Provavelmente ser obrigado a ter contato com humanos o irritava.

Logo apareceu um adolescente no corredor, que veio ali buscando ajuda. Compreensiva, Kely foi ajudar, deixando Brasa resmungando para o chão.

À medida que o tempo passava, ver o prédio afundado ficando com cada vez menos alunos trazia ansiedade ao peito de Kely. Quando terminou de ajudar o adolescente e não havia mais nada para conferir, ela foi para a sala do projeto. Apenas Daniel estava ali, com uma bolsa estilo carteiro pendurada no ombro. Ela se perguntava se havia muita coisa na bolsa e se ele usaria para atrasar Brasa.

— Nervosa? — Daniel perguntou. Kely se jogou em uma das cadeiras, de madeira apodrecida, não muito confortáveis e muito menos confiáveis.

— Sim, bastante— ela foi sincera — fiquei sabendo que Brasa e Gael ficarão depois do horário hoje.

— Os dois geralmente ficam, mas temos que agir logo, os alunos estão indo embora e vai ficar estranho se ficarmos também. Onde está Jon?

— Estou aqui — o garoto falou da porta, trazendo com ele sua energia — prontos para a conspiração?

— Mais ou menos. Alguém pode me explicar onde é a sala da máquina?

— O quê? Você é a gerenciadora e não sabe como chegar lá?

— Geralmente eu fico aqui por perto, pra não me perder.

Jon deu as instruções para ela, e Daniel entregou um frasco de poção de corrosão.

— Se não for usar, não o perca e nem quebre.

— Nada vai acontecer ao seu bebezinho, Daniel.

— O quê? — Daniel ficou sem graça, e virou o rosto para grunhir para a parede.

Jonathan não levava nada para cumprir sua tarefa. Atrasaria Gael com a velha e não muito boa conversa fiada.

— E se encontrarmos antes o outro? — perguntou Jon para Daniel.

— Como assim?

— Tipo, eu encontro o Brasa primeiro.

— Enrola do mesmo jeito. Quem vamos enrolar não é a questão, é não deixar nenhum dos dois chegar à sala da máquina.

— Beleza. Espero que eu encontre Gael primeiro.

Daniel tentou não demonstrar, mas não gostou do comentário.

— Por quê? O Brasa não é tão ruim assim — disse a garota.

— Ele me assusta um pouco. É fechadão, às vezes grunhe para a gente, espero que consiga prender a atenção dele, se não ele te deixa sozinho e vai embora...

— Ok, Jonathan, já entendi.

— Ou seja, eu me dou melhor com Gael — envergonhado, disse a última frase muito rápido. Kely concordava com Jon e sabia que Brasa não gostava de humanos, mas ficou um pouco triste pelo garoto... monstro.

Os três estavam no centro da sala, em silêncio, prorrogando o inevitável. O ar da sala tinha gosto de incerteza dos planos do futuro. Ninguém queria ser o primeiro a ir.

— A gente não tinha que se espertar? — Daniel quebrou o leve silêncio.

Na prática, todos estavam ali parados, esperando alguma ajuda divina cair do céu para que eles não precisassem fazer nada.

— Acho que sim — foi Jon quem respondeu — boa sorte pra vocês, galera. Vocês são estranhos, mas são legais.

— Há há há — Daniel riu sarcasticamente.

Os três acabaram rindo das bobeiras.

Kely sentia falta de um abraço, como o que ela havia dado ontem neles. Daniel não parecia ter gostado, mas se morresse, ela pensou, morreria sem ter dado um abraço. Então ela, de novo, se aproximou dos dois garotos, esticou os dois braços ao lado do corpo e os envolveu, novamente.

— Boa sorte meninos — desejou, e tentou acabar com o abraço o mais breve possível, mas os dois retribuíram, até mesmo Daniel, sem questionar. Ela se deu o luxo de apertar um pouco mais. Em meio àquele nervosismo, sentiu um pouco de paz. Sentiu alguns segundos de conexão.

Foi a primeira a sair da sala, não querendo mostrar que estava sem graça.

Kely participou seriamente dos dias das bruxas uma única vez, quando foi numa festinha na casa de uma amiga e o grupo havia saído para pegar doces nas casas. Não era uma tradição comum à família dela, e na ocasião ela havia conseguido uma capa preta muito legal para a fantasia de bruxinha. Era grande na época, e a capa continuava um pouco grande para ela usar, o que significava que ela não tinha crescido muito desde então, mas pelo menos a esconderia muito bem. Tinha bolsos ajustáveis na parte de dentro, onde ela guardou o frasco com a poção de corrosão. Havia a chance de cair se ela os colocasse no bolso da calça. Ela chegou na porta da sala do projeto, feliz que havia seguido as instruções direitinho.

A sala estava vazia. Ela nunca havia visto aquela sala sem nenhuma pessoa, sem nenhuma alma. A máquina era enorme, não havia mudado muito desde a primeira vez que a viu. Estava pronta, mas ninguém se preocupou em retirar os andaimes em volta dela. Melhor para ela. A portinhola ficava em cima.

A máquina era muito maior vista de perto, parecia ter uns cinco metros de altura. Na base dos andaimes tinha uma folha de caderno colada em uma das ripas, e escrito em caneta rosa brilhante:

"NÓS TERMINAMOS :D"

Provavelmente foi uma grande conquista para os alunos. Dois anos trabalhando em uma máquina. Deve ter exigido muito conhecimento, reforma, mudança de planos...

Kely agora se sentia mal por ter que destruí-la. Infelizmente, era necessário.

Ela começou a subir. As tábuas rangiam a cada passo da garota, e ela quase teve medo de subir, mas foi mesmo assim. Havia lampiões acesos nas paredes, e Kely olhava para as mesas em volta da sala. Parafusos, chaves de fenda, alicates, ferramentas diversas ainda estavam espalhadas. Em um canto, Kely viu um rostinho feliz desenhado em meio à poeira.

Kely chegou até a portinhola. Tirou as trancas, uma por uma, sentindo o metal frio na polpa dos dedos. A parte interna da máquina mais se parecia com uma macarronada colorida, fios por quase toda a extensão, enrolando-se por cima e por baixo, virando uma coisa só. Kely estava pensando, o melhor modo de danificar a máquina sem que fosse perceptível ao primeiro olhar era não deixando rastros de que alguém havia mexido nela. Fios cortados deixariam isso claro, então Kely os derreteria.

No fim do andaime estava a escada que os alunos usavam para entrar na máquina. Era bem grande, e Kely quase não conseguiu erguê-la. Mas era uma rara ocasião em que sua determinação lhe dava forças, o que a deixou com um pouco de dor na lombar. Posicionando a escada, percebeu que teria que ir fundo dentro da máquina. Como sempre, estava com medo. Nos últimos anos, o que mais Kely sentiu foi o coração batendo rápido diante de uma nova situação.

Mas ter a consciência de que ela tinha se colocado ali a consolava de alguma forma, a responsabilidade era sua, e era ter coragem ou não seria o que mudaria o futuro. Todos estavam contando com ela. Chegar ali e desistir era um desperdício de tempo, um desperdício de esforço, desperdício de confiança.

Kely apoiou as duas mãos no metal gélido, e sentindo dor nos braços, se impulsionou para passar além da portinhola, um pouco alta para ela alcançar. Até que ouviu passos.

Estavam se aproximando, mas a garota estava presa. Pular dentro da enorme máquina era burrice, se machucaria ainda mais, e não teria tempo de escapar pela escada. Estava imóvel, e os passos estavam cada vez mais próximos, apressados e pesados, familiares para ela, mas no momento sua mente não conseguia lembrar quem tinha aquele caminhar.

Brasa chegou com um mais um lampião, que banhou seu rosto branco com uma luz dourada quando o ergueu para tentar enxergar Kely.

— Kely? Pensei que você já tinha ido.

O que ele estava fazendo ali? Droga, já se passara tempo o suficiente para Daniel, ou até Jonathan o encontrar.

— O chefe me pediu pra ficar aqui cuidando da máquina. Tudo está um mistério hoje.

Kely se afastou da máquina, quase se desequilibrando e derrubando toda estrutura de andaimes, que ela sentiu tremer debaixo dos pés. Ela tentou falar alguma coisa, mas havia muita saliva no fundo da boca, deixando impossível uma palavra sair, apenas tosse.

— Eu também vim aqui por isso — ela disse, após se recuperar da crise de tosse. Fora a única coisa em que conseguiu pensar.

A simpatia foi aos poucos deixando o rosto de Brasa.

— O chefe me deixou bem claro para não tocar na máquina. Acho difícil que ele deixasse você subir nela pra fazer... seja lá o que você estava fazendo — Sua última frase foi proferida em um tom de voz baixo, em um tom ameaçador, que a fez lembrar do pai dele — Se afaste da máquina.

Que se ferre a discrição, ou deixar a máquina parecer intocada. Kely abusou da ajuda de seu colar para formar em suas mãos um laser de diâmetro de um disco de vinil, brilhante e altamente destrutivo, que iluminou a sala completamente. Kely fazia vários lasers, com pausas milimétricas, para deixar sua vista se recuperar. Era um feitiço que havia achado por acaso nas anotações da maleta, onde podia-se ler "dangerous" no topo da página onde estava documentado.

⌁₊˚⊹⊹˚₊⌁

Agora é a hora, ponderou Daniel, tirando os frascos de sua bolsa de carteiro. Poção de corrosão e uma espécie de geleca que parecia muito com a que estava por todo lugar antes de Brasa limpar tudo. Preparar a armação levaria apenas segundos. Rápido e eficiente. Sim, ficou um pouco bravo quando decidiram mudar o plano dele. Sentia uma compulsão de estar sobre controle em cada lugar que frequentava, mas deixar que isso atrapalhasse no funcionamento das coisas o faria egoísta, então, daquela vez, deixaria passar.

A armação estava pronta. Tinha muito a cara de algo que faria Brasa sofrer pra limpar até chorar, o que significava que estava perfeito. Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios. Quase sentia pena dele, por ter o cargo mais alto e ser ele que tinha que sair limpando a bagunça dos outros.

— Olá Daniel — uma voz disse atrás dele.

Sua coluna arrepiou. Conhecia aquela voz e não gostava nem um pouco daquilo.

— O que é isso que você está fazendo? Parece aquela geleia que aparecia por aqui ano passado — seu tom de voz era calmo, tentando passar a ideia de ignorância, mas o desgraçado não conseguia esconder o sorriso de deboche no rosto.

Apesar do susto, tentou manter-se controlado. Daniel não baixaria a cabeça para gente ridícula.

— Acertou. Eu ia chamar Brasa pra ver isso, mas agora que você está aqui, pode me ajudar?

— Não me venha com essas mentiras, bichinha, você estava aqui trabalhando em cima disso de um jeito muito estranho.

— Estava testando se essas poções ajudariam — ele continuou mentindo, mantendo um tom de voz inocente, apesar de cada músculo do seu corpo tremer para lhe dar um soco após ouvir aquela palavra. Deu um passo muito à frente, fazendo Gael ter que recuar, como se aquilo pudesse o colocar no lugar dele, que era o de ficar quieto em vez de falar tanta besteira — estava pensando, se eu atrair insetos aqui, você acha que eles comem a geleia?

Gael avaliou Daniel, e avaliou a gosma nojenta na parede. Ele voltou a falar, mas Daniel não podia dizer se ele estava mentindo ou não.

— Não sei, vamos testar então — Gael respondeu, soltando um suspiro e limpando os óculos na camiseta, como se tivesse sido derrotado. Conseguiu a atenção dele. Só esperava que Jon não arruinasse tudo com Brasa com aquela língua solta.

—Me dê a poção aqui— Gael exigiu, e Daniel fez o que ele pediu, relutante. Não tinha que abusar da sorte.

E no segundo seguinte, ouviu-se o barulho de vidro sendo estilhaçado no chão de pedra. A poção foi jogada próxima à geleca, mas boa parte dela escorria pelos sulcos entre os tijolos. Um grande desperdício.

— Porque você fez isso!? — a paciência de Daniel chegou ao limite. Desde que foi desencantado, observar Gael fazendo absurdos e falando qualquer porcaria que lhe viesse à mente era insuportável. Alex fora uma pessoa próxima de Gael, e imaginava tudo o que os dois poderiam ter deixado passar.

— Droga, acho que errei a pontaria. Não joguei com força suficiente?

Semanas de trabalho jogadas fora. O ruivo ouvia apenas o som do próprio sangue borbulhar e a voz da sua cabeça pedindo para ele fazer coisas imperdoáveis.

— Vá pro...— antes mesmo que conseguisse terminar a frase, sentiu um puxão em seu braço fino e seus tendões serem deslocados para uma posição desnatural. Daniel contorcia-se junto com o membro, mas ele era girado cada vez mais, o prolongamento da agonia fazendo parecer pior do que era. Gael era inesperadamente forte, talvez por conta do ódio, ele não sabia, mas a dor o tornava indefeso e isso era um problema. O loiro soltou o braço, mas a dor o fez congelar. Parecia se espalhar até o ombro. Teve vontade de gritar.

— Idiota, você acha que eu não percebi você de repente ficando amiguinho daquelazinha e do capitão de vôlei? Ainda não sei como vocês conseguiram se livrar das marcas, mas se você falar, eu não falo sobre você para o chefe nem para ninguém.

Daniel, apesar de reconhecer que era um tanto egoísta às vezes, sentia que não era certo desistir e deixar seus dois amigos na mão.

— Não sei do que está falando.

Gael estava tão paciente quanto ele. Gael pegou novamente o braço dolorido, cravando as unhas em sua carne.

— Não!

Mais dor. Daniel caiu em seus joelhos, não aguentando, tentando abafar o grito com a mão. Livrou o braço do aperto, e o deixou descansar ao lado do corpo. Começou a ficar tonto. Entre seus dedos, sentiu a textura gosmenta da geleca os envolver.

— Miserável...— Tudo o que conseguiu reunir para falar.

— Vamos ver quem vai ser o miserável agora — e mais uma vez sentiu um puxão no braço. Sua visão estava turva, e tudo o que ele sentia era dor, dor, dor. Quase não sentia seu corpo sendo arrastado. E mais uma vez, ele era fraco e não conseguia se defender direito.

Quando foi girado e jogado outra vez no chão, Daniel ficou tonto. Não tinha forças para levantar a cabeça e ver o que estava à sua frente, podia confiar apenas em seus ouvidos.

— O que acha, chefe? Um presente de boas vindas pra você. Um traidor da sua causa, e há outros.

Boas vindas? Para Marcus? Do que Gael estava falando? Uma voz indignada à sua frente exclamou:

— O quê? Não era pra esse problema existir. Eu dei instruções bastantes específicas.

Mas a voz não era de Marcus. Era uma voz que Daniel nunca havia ouvido antes, um pouco rouca de idade e grossa. Ele olhou à sua frente, apenas conseguindo ver os sapatos. A aura laranja brilhante fez fácil reconhecer Marcus, mas havia um outro par de sapatos sociais, pretos, e calças brancas. Foi esse que começou a vir na direção de Daniel.

— Desculpe, chefe — a voz de Marcus ressoou na sala, temerosa.

Marcus tinha um chefe? O par de sapatos ficou à frente dele em uma distância perigosa.

— Interessante. Agora dê o fora, pirralho.

Estava sendo liberado? A voz de Gael mostrou que não.

— Mas, eu, não posso ficar e ver o senhor usar a máquina? — respondeu, suplicante.

— Não verás nada, agora suma daqui antes que eu suma com você! — O outro levantou o tom de voz de uma maneira que pareceu fazer a sala tremer. Isso mais o irritava do que o assustava.

Daniel ouviu passos se afastando, depois correndo. Talvez ele devesse fazer o mesmo.

— Levante — a voz ordenou, Daniel não sabia para quem, mas duvidava que ele fazia alguma diferença ali em seu estado deplorável.

Levante! — A voz gritou novamente. O ruivo, apressado, obedeceu, ficando ainda mais tonto.

Daniel nunca havia visto aquele rosto na vida. Era pálido como o de Marcus, mas não brilhava, era opaco, quase se passaria por uma pessoa viva. Mas seus olhos não tinham nem uma faísca dela.

Olhava feio para o garoto. Pegou seu pulso, levantou sua manga, e o ameaçou. Estava sofrendo do mesmo problema de Kely, não conseguir sustentar uma ilusão.

— Você servirá de exemplo para os outros — e empurrou seu pulso com violência, o deixando ali sozinho e indo até Marcus. Pegou-o pelo rosto, com nenhuma delicadeza, e tirou uma pedra do bolso, que começou a brilhar, aproximando-a do rosto dele. Marcus tentava se desvencilhar.

Não, não! — Um coro de vozes respondeu, em desespero. O outro fantasma o soltou. Seus joelhos falharam e ele caiu no chão, tremendo e agarrando o próprio rosto.

— Cuide do garoto. Verei como Brasa está indo.

Daniel acompanhou o outro fantasma com o olhar. Ele saiu da sala, e apenas Daniel e Marcus, tremendo no chão, estavam ali.

Marcus começou a deformar. O espectro, aos poucos, deixava a forma humana e se transformava em algo grotesco. Suas costas se expandiram como a barriga de um sapo, e suas duas únicas mãos, em um estado de crescimento desenfreado, não davam conta de esconder o que crescia a partir de seu pescoço, se transformando em um tubo cheio de calombos e sustentando a dezena de rostos que se juntavam ao coro horrível de desamparo e sofrimento. Suas costas se expandiam e esticavam, como seus braços e suas pernas.

Daniel olhou para a porta atrás de si. Aquela era uma das poucas salas em todo o prédio antigo que tinha uma porta, e estava fechada. A dor de cabeça ficou mais forte à medida que ele começou a correr até ela, mas o esforço foi inútil. Estava trancada.

Seu coração começou a acelerar. Suas mãos começaram a suar frio.

Os passos daquela... coisa... reverberaram na sala. Estava muito maior, e seus vários rostos estavam virados para ele, alguns deles saindo da extensão do peito até o abdômen. Eram vários, de todos os tipos possíveis. Mesmo sem olhos, fitavam sua alma, a procurando para fazer parte da criatura também. Seu corpo inteiro era longo, como o de um skinwalker, e a aura laranja que dava à Marcus um pouco de carisma desaparecera completamente, sua pele pálida virou cinza sem vida. Uma criatura abominável.

Todos os rostos gritaram, criando um coro de terror que fez os joelhos de Daniel falharem.


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