13- Sede de Respostas
— Eu sinto que está chegando rápido demais, mais rápido que no ano passado.
— Sinceramente acho que o problema é que a escola tá cobrando mais da gente. Estamos nos encontrando muito menos do que no ano passado, perceberam?
Todos na mesa concordaram.
— E o que me incomoda não é nem isso, eu queria ter mais tempo para treinar, mas o problema é que se eu treino mais, meu corpo dói demais no dia seguinte.
— Vocês podem treinar até mais tarde com o Jon — de repente um dos atletas apontou.
A atenção da mesa foi toda para o garoto.
— Verdade, mas ei, você não se sente morto no dia seguinte?
— Pois é, como você aguenta ficar treinando até mais tarde? Eu chego no meu apê e a primeira coisa que eu faço é cair na cama.
Mas os garotos da mesa não tinham a atenção do capitão.
A manhã que havia passado o fazia sonhar acordado, ou melhor, os acontecimentos inusitados que aconteceram naquela manhã. Um grito desumano cortou o ar de supetão quando o professor estava prestes a espirrar, e o espirro foi retribuído com um caloroso "saúde" da turma. A professora de português estava mudada da noite para o dia, a personalidade alegre e contagiante foi trocada por uma mulher chata e que tinha a mesma animação que Jonathan em uma segunda-feira. Quando a mulher pareceu voltar a ser um pouco daquilo que ele se lembrava, um grunhido desumano saiu da garganta da mulher, ritmadas e misturadas à sua risada. E o que havia tirado o garoto da calma fora a aparição do diretor, com uma cicatriz cobrindo metade de seu rosto, que pela aparência, havia sido curada com mágica às pressas, causando uma deformação estranha, que desapareceria com o tempo.
Bizarro.
E incomodava ter que fingir que não havia ouvido nem visto nada, pois seus colegas pareciam totalmente alheios à situação. Eram novas memórias, não, memórias escondidas, que vinham à tona mostrando que sempre fora daquele jeito. Provavelmente, algum feitiço pintou com outras cores os quadros de suas lembranças.
— Ele tá bem? Ele foi lá pra frente e não falou mais nenhuma palavra. Ele tava estranho hoje na sala.
— Tá aí ó, o que o treino excessivo fez com o cara.
Alguns da mesa riram do comentário. Perrone, sentado à direita de Jonathan, acenou na frente de seu rosto e conseguiu chamar a atenção do garoto.
— Você tá bem, cara?
— O que foi?
— A gente tava falando do seu treino, parece que tá precisando descansar.
— Hã? Ah, sim, talvez.
O capitão levou outra garfada de bolo de morango à sua boca – a única coisa que acalmaria seus nervos naquela hora – e continuou olhando pelo vidro da cantina. Concentrou seu olhar em um ninho de pássaros, acomodado em uma jabuticabeira. Deixou os garotos com a sua resposta vaga. Precisava pensar, processar as informações. Temia que teria que se encontrar novamente com Kely, ainda que estivesse ressentido. Não conseguiu ler o quadro mais cedo, as anotações em vermelho no quadro verde deixaram difícil de ler. Teria que se readaptar aos perrengues que havia lidado sua vida toda.
Os garotos não sabiam de sua protanopia. Achou desnecessário comentar sobre desde que Marcus o havia "curado". Mas tantas lembranças desembaçadas o deixavam em dúvida sobre qual teria sido o real preço.
Talvez a garota tivesse razão, afinal.
Mais tarde, Jonathan e Perrone estavam sozinhos na quadra, a pedido de Jonathan, que queria treinar o saque. Após alguns saques, o capitão já não mostrava a mesma precisão com que Perrone estava acostumado.
— Cara, você não acha que tá treinando demais?
Jon ficou irritado pelo assunto do lanche voltar. Ele foi dirigir um olhar inquisitório para o amigo, mas foi difícil ao ver honesta preocupação nos olhos dele.
Lucas Antônio Perrone, um garoto tão focado em seus objetivos que Jonathan se perguntava se alguma vez já havia conhecido alguém com sua determinação. O garoto merecia a admiração do capitão, e ele tinha certeza de que o negócio dele um dia seria mundialmente reconhecido. Jon brincava que a empresa de Perrone patrocinaria seu time de vôlei, e Perrone também confiava que Jonathan um dia seria um grande jogador.
— Que nada, estou só me aquecendo — Jon respondeu com um leve sorriso.
Ele não pareceu convencido, mas não disse nada.
— Você foi mais para o perto do quadro hoje para anotar o que estava escrito. Estava tendo problemas para enxergar.
— A luz estava batendo no quadro e eu não conseguia ler.
Jon corria pela quadra de um lado para o outro para alcançar a bola. Lucas alcançou a bola em uma das jogadas.
— Jonathan, seu daltonismo está voltando?
O garoto tentou não transparecer o quão importante era a resposta que ele estava prestes a dar. Quando Perrone não chamava o amigo pelo apelido, a coisa era séria.
Jonathan chegou à conclusão de que ele era o único de seu grupo sem o feitiço. Uma pulseira de macramê em seu pulso escondia o local onde antes estava a marca. Todos os outros ainda tinham a tatuagem do sol escuro.
— Não, o sol estava batendo no quadro — ele afirmou novamente, pegando com dificuldade a bola que Lucas havia jogado. Sentia-se mal mentindo para o amigo, o laço entre os dois se formou muito rápido desde que se conheceram. Ele fora o único para quem Jon havia contado sobre o daltonismo.
Perrone novamente não respondeu. Jonathan ficou preocupado. Não sabia o quanto poderia falar para seus amigos. Se o que a garota havia falado estava correto, que as pessoas ficavam no controle do fantasma, então a reação deles era imprevisível.
— Pensa rápido — O capitão disse de repente, jogando a bola na direção de Perrone. Ele quase deixou a bola cair, mas não deixou isso acontecer. Talvez distrair o amigo com outra coisa fosse uma maneira de fugir do assunto. Assim que encontrasse a garota, pediria para que ela removesse o feitiço de seus amigos.
Por coincidência, ele logo avistou Kely ao longe, conversando com Gael.
A apreensão voltou a assombrá-lo. Ainda guardava um pouco de rancor da garota, mesmo assim tinha que se certificar que o loiro não estava fazendo mal a ela.
Ele se lembrou da conversa que tiveram assim que ele a deixou no condomínio dela, e pela primeira vez percebeu que havia defendido um stalker. Ele já tinha tido problemas com uma pessoa assim, e mesmo assim, não a ajudou, mas dessa vez não seria assim.
— O que foi? — Perrone perguntou. Ele virou-se na direção em que Jon estava focado— Essa não é aquela garota que você disse que estava ensinando a jogar vôlei?
— É ela sim. Já volto, vou dar uma olhada nela — Mas ele tinha certeza que seu amigo perguntaria o porquê. Tinha que confirmar uma suspeita, mas ainda não podia contar a ele — Ei, poderia trazer meu celular lá da sala? Acho que deixei ele lá.
— E eu sou seu criado agora? Por que não vai você?
— Poxa Luquinhas, faz isso por mim, por favor — replicou, mostrando um sorriso e tentando ser convincente.
Perrone encarou seu amigo com desgosto.
— Luquinhas!? Você tá me estranhando!?
Jon apenas continuou com o olhar suplicante, e Perrone cedeu.
— Tá bem, eu já volto, e nunca mais me chame de Luquinhas, ou eu quebro a sua cara!
Ele foi para o outro lado, e Jonathan começou a pôr em ação o seu plano.
Foi andando calmamente até uma árvore próxima aos dois jovens. Assim que chegou até ela, deitou-se de costas para a árvore e para o par, bem escondido entre os arbustos. Era o esconderijo perfeito, ouvia bem o que os dois conversavam.
— Eu só queria dizer que eu gosto muito de você, mas do que qualquer um poderia.
Um silêncio pesaroso se instaurou ali, a atmosfera era como uma cobertor pesado e sufocante. A garota ficou em silêncio, como se as palavras tivessem sido arrancadas pelo choque.
— Por favor Kely, eu serei um bom namorado — Gael continuava, sua voz doce como mel produzido de uma flor venenosa, mas firmava com ela um olhar frio e indiferente, uma contradição assustadora de se assistir.
— Não, não diga isso! Você nem me conhece! — estar na pele dela naquele momento parecia doer um pouquinho. Ela conseguia ver a expressão do outro?
— Não há nada que o tempo não faça, e aposto que ele nos fará fortes, mais do que qualquer...
— Chega, por favor!
Gael parou de insistir, e em sua próxima sentença, ele não se preocupou em manter o tom meloso.
— Eu não entendo, não faz sentido. Isso não deveria acontecer. Por que o acordo não funciona com você!? — exclamou, numa voz tão áspera que parecia arranhar a própria garganta.
Ouviu passos. Um som agudo foi arrancado da garganta de Kely. Jon deu uma espiada. Gael estava agarrando o braço da garota.
— Você não quer ficar comigo porque está com aquele jogador de vôlei, não é? Como se você fosse conseguir alguma coisa dele. Ele é um daqueles que prefere ficar chorando por algo que aconteceu, e não vai ser você que vai fazer ele seguir em frente. Acha que é diferente de todos os outros? Ora, por favor, você não é especial.
Jonathan tinha certeza que seu rosto estava vermelho, ardente, e queria dar a mesma sensação para o sujeitinho enchendo a cara dele de tapas. Sentia que deveria fazer algo a respeito, mas não podia abrir mão de seu esconderijo. Era provável que isso o encorajasse a espalhar boatos sobre os dois.
— Não, eu não gosto dele. Ele só estava me ajudando. Nunca mais iremos nos falar.
O tom da garota ficou triste ao falar a última frase. Ainda estava bravo, então tentou ignorar a pontada de culpa. Gael ficou em silêncio por um tempo, ponderando sobre o que ela havia dito. Após outra exclamação de Kely, ouviu-se algo caindo na grama. Gael estava começando a ficar bruto.
— Mesmo que você gostasse dele, isso não faz sentido. Você deveria estar dizendo sim, sim e sim. O chefe me garantiu que eu teria qualquer coisa.
Jonathan não podia ver nada do que acontecia, mas manteve-se atento a tudo. A conversa começava a tomar um rumo interessante, especialmente por conta do acordo de Gael com Marcus ser desconhecido. Os pedidos dos alunos populares criavam certa curiosidade.
— Não há sentido em você estar desencantada. Não vejo o porquê o fantasma faria isso, não há nada em você que justifique. Como gerenciadora você passa despercebida e só incomoda. No meio dos gaviões, você é um mosquito, não tem nada a oferecer para ajudar. Seu lugar não é em meio a nós. Marcus deveria ter escolhido outra pessoa bem mais capaz que você.
A garota não disse uma palavra em troca. Porque ela não revidava? Chegava a ser irritante.
De repente, alguma coisa pousou no colo de Jon, e ele não pode conter o começo de um grito. Fechou a boca logo depois, mas o grito havia escapado. Gael também ficou em silêncio. Havia percebido o grito, mas não deu importância.
— Eu vou te denunciar para Marcus — Gael deu a palavra final.
— Porquê? Eu não estou entendendo nada. Você é uma pessoa tão boa, porque está me acusando assim? — A garota finalmente respondeu algo, com a voz carregada de tristeza contida. Gael respondeu com um silêncio confuso.
O sapinho se acomodou no colo de Jon. Era um camaradinha gente-fina. Jon nunca teve medo de sapos, pegou-o com a mão confortavelmente. Ele teve uma ideia.
— Me desculpe sapinho. Espero que um dia você me perdoe.
— Quem está aí — O veterano vociferou, decidindo não ignorar o barulho novamente.
Kely, aproveitando a brecha, rapidamente moldou a magia no formato de uma lâmina, que desequilibrou Gael e ele caiu para o lado. Tentou levantar e fugir com a abertura, desfazendo a pose de donzela em perigo, mas Gael agarrou seu tornozelo com uma força que o fez doer e ela caiu, e o loiro puxou-a para perto de si novamente.
— Kely, escute — ele agarrou o pulso dela também, e a garota parou de lutar — você não precisa ficar comigo de verdade. Só pense que você teria algumas facilidades andando junto comigo. Até ser gerenciadora ficaria mais fácil.
O sapo pousou perfeitamente nas costas de Gael, sobressaltado com o peso que o acertou. Mas nada faria o dia de Jonathan melhor do que o berro que Gael deu quando percebeu que era um anfíbio. Soltou a garota e começou a se debater na grama. Ela hesitou em correr, parecendo preocupada. Não era possível que estivesse pensando em ajudá-lo.
Jonathan apareceu atrás dela, e ela pulou de susto. Seu olhar era aterrorizado, o que o deixou um pouco magoado, apesar disso, manteve sua expressão firme, e retribuiu com uma piscadela, seguida de um sorrisinho maroto.
— Oh não! Gael, você está bem? — Jon tentou erguer a voz em meio aos berros do loiro.
— Chama alguém pra me ajudar, POR FAVOOOOOOOOOOOOOOR!!!!!!!!
Ele se segurava para não cair na gargalhada, o que estava difícil.
— Eu e a Kely vamos chamar alguém para te ajudar, não se preocupe.
Ele ofereceu a mão para a garota, e os dois correram em direção à cantina, deixando o veterano no chão em posição fetal, controlando até mesmo a respiração, o pequeno soldado sapo personificando um tigre que a qualquer momento o abocanharia. Assim que os dois estavam longe, a gargalhada foi inevitável.
—Você está bem?—perguntou o jogador de vôlei, quando estavam mais calmos.
—Sim. Que bom que aquele sapo não pulou em mim.
—Minha mira é muito boa.
Ela virou a cabeça rapidamente, e o fitou extremamente surpresa.
—Você jogou o sapo?
—Pois é. Espero que um dia o bichinho me perdoe.
Ele disse muita coisa sobre você, e você não se defendeu. A frase ficou retumbando na mente de Jonathan. Muitas pessoas ficam paralisadas sob pressão, poderia ser o caso dela, não tocaria desnecessariamente em uma ferida. A expressão da garota já havia voltado ao estado padrão de melancolia. Não queria pressioná-la, mas a questão era inadiável.
—A gente pode conversar em outro lugar?
⌁₊˚⊹˚₊⌁
Os dois se esconderam em um lugar nada confortável, mas o único que não tinha câmeras equipadas com microfones, com exceção dos banheiros. A sala dos zeladores parecia ter sofrido um furacão, uma ironia engraçada. Jonathan repousou sobre o ombro, inclinado sobre uma das estantes de aço.
—Então, eu queria te perguntar uma coisa: desde quando você não está mais enfeitiçada?
A repentina pergunta a sobressaltou. Ela pensou um pouco antes de responder.
—Desde...uma semana depois que Marcus...que fiz o acordo com Marcus.
—E como você se libertou dele?
A garota esfregava a mão ao redor do punho.
—Eu fiz um acordo com outro fantasma.
Jonathan ficou surpreso e confuso com a resposta. A ideia da garota não era das melhores.
—E a partir daí você também consegue remover a marca de outras pessoas? E teve que fazer mais um acordo?
Na sua expressão houve um lampejo de surpresa, como se aquele detalhe tivesse surgido apenas naquele momento.
—Sim.
Ela algumas vezes parecia duvidar das próprias palavras, mas não cobraria muito dela desde que conseguisse o que queria.
—Sabe, eu queria que você tirasse a marca dos meus amigos também. Parece que isso está deixando eles presos em uma ilusão. Me diga uma coisa, os professores novos não são humanos, são?
— Tenho medo de te contar e você me achar doida — Ela parecia preocupada — Mas não, eles não são humanos, pelo menos não totalmente... Bem, eles são a razão de eu jogar vôlei com você todo esse tempo. Tente não comentar nada do acordo com Marcus na frente deles, e nem mostrar que você não está enfeitiçado. Vai acabar com os mesmos problemas que eu — Ela terminou a frase com uma risadinha de desespero.
— E meus amigos? Você vai libertar eles também?
Ela mostrava um sorriso que era mais de desespero do que animador.
— Eu estava pensando que talvez...
— O que foi? Fala mais alto! — Jon queria ser paciente, mas às vezes irritava não conseguir ouvir o que ela falava.
— Eu vou me aprimorar primeiro. Pra conseguir fazer certo.
— Do q...
Então ele entendeu. Ela se sentia mal
— Ah.
— Me desculpa pelo que aconteceu. Eu não queria ter tirado a sua parte do acordo. O meu desejo e o do outro menino que eu tirei a maldição...
— Que outro menino?
— Um garoto de cabelos laranja e bem magrelo. Logan... não. O nome dele começa com D, Denis...
— Daniel?
— É, esse mesmo.
— Você tirou a maldição dele também? — Era a última pessoa que ele esperava ter algum envolvimento naquilo. Daniel tinha uma boa posição entre os trabalhadores de Marcus, atuando junto com outros no planejamento da máquina. Era um garoto reconhecido por ser um aluno exemplar sem muito esforço, meio nerd, parecia desesperado de vez em quando e muitas vezes era cabeça-dura. Mas sempre fora gente boa, até que seu melhor amigo foi embora do colégio e Daniel começou a se retrair em seu próprio mundo.
— Sim. Na verdade, tirei a maldição só de nós três, mas nenhum problema apareceu nem pra mim e nem para ele — ela fez uma pequena pausa — talvez porque nossos desejos fossem algo mais... pra resolver na hora! Quer dizer, não tenho certeza, não sei o desejo dele nem o seu...
Jonathan ficou em silêncio, ponderando se valia a pena revelar o segredo, o que a encorajou a continuar falando.
— Mas pelo jeito que você falou aquele dia, foi algo que você percebeu na hora, como uma dor ou... alguma condição — sua voz baixou consideravelmente de volume ao proferir aquela última palavra, na vergonha de todas as pessoas tímidas em falar de algo mais grave.
— Vamos fazer assim — Jonathan começou sua proposta — Eu conto o meu desejo e você conta o seu, beleza?
A atenção da garota foi toda para ele. Sabia que a informação poderia ajudá-la e também estava curioso quanto ao desejo dela. Os calouros estavam guardando seus desejos entre eles, pois já sabiam que aquilo era novidade para os outros.
— Então tá — ela concordou, meio sem graça.
Mesmo sabendo que não havia mais ninguém para escutá-lo além dela, ele procurou pelos arredores.
— Bem, eu pedi pra ele curar meu daltonismo.
A informação foi um choque para a menina, e agora a emoção estava estampada no rosto dela.
— Eu...não sabia — foi o que ela conseguiu proferir. Ele esperou pela resposta dela, quieto. Kely começou a gesticular exageradamente, procurando as palavras, ou a coragem.
— Eu... pedi o posto mais alto. Pedi para ser gerenciadora — ela finalmente disse.
— Sério? — o jogador de vôlei ficou genuinamente surpreso — Você quebrou o sistema. Agora eu entendo melhor o que você queria dizer.
— É, eu pedi algo que tipo, é só me colocar lá. Você pediu por um feitiço que tem que ser duradouro. Você sabe qual foi o desejo do Daniel?
Jon balançou negativamente a cabeça.
— Ah, então eu não sei. Só estava pensando que talvez tivesse mais alguma exceção.
— Vamos perguntar pra ele.
Kely ficou alarmada demais frente a solução tão simples.
— Perguntar?
— Claro. Estou louco para sair dessa sala, não aguento mais esse cheiro de desinfetante.
Ela deu um sorriso esquisito, mas não protestou e foi atrás dele.
— Você que já falou com ele antes, tem alguma ideia de onde ele possa estar agora? — Jonathan tateou seu bolso para pegar o telefone, mas então se lembrou que o havia deixado na sala. E também que mandou Perrone ir atrás dele, e ainda que Perrone já devia ter voltado e ficasse louco com o seu sumiço — E pode me dizer a hora?
— Eu, bem, última vez que o vi no recreio foi em uma pedra perto daqueles banquinhos onde o pessoal fica para lanchar. E faltam três minutos para acabar o recreio.
— Então não temos muito tempo — Conclui e apertou o passo, até começar a correr. A garota havia ficado para trás, mas tentava alcançá-lo. Infelizmente, ela não tinha um porte atlético igual ao dele, então ele teve que fazer várias pausas em suas corridas. Assim que ela chegava, ele apertava o passo novamente, e ela reclamava de sua falta de resistência. No meio do caminho, o sinal tocou, e os dois pararam de correr, Jonathan ofegante e Kely mal conseguindo manter o próprio peso apoiado nas pernas.
— Não deu tempo — o garoto lamentou — mas eu posso falar com ele na aula.
— Você não precisa se incomodar, eu falo com ele — Ela respondeu, mas o tom dela não era confiante.
Não que ele não confiasse nela, mas ele duvidava. Agora que refletia sobre, nunca a via no recreio, nem andando com ninguém.
— Não é incômodo, a gente se dá bem — ou pelo menos tinham uma convivência sem atritos — Depois da aula a gente se encontra no pátio, beleza?
— Tá bem — respondeu, choramingando. Suas pernas quase sucumbindo tornavam o motivo óbvio.
— Você tá bem?
— Acho que não vou conseguir subir até a sala.
O garoto soltou um riso.
— Vamos ter que treinar a resistência na próxima vez. Cinquenta agachamentos com salto, cem polichinelos...
— Você tá brincando, né? — ela perguntou, suplicante.
—Sou seu treinador, novata. Eu vou nos levar à vitória, cara.
A última palavra foi pronunciada com um sotaque forte, curioso. Ele subiu e a deixou no pé da escada. Também precisava voltar para a aula. Ela ficou ali parada, sem saber porque seu fôlego havia ido embora junto com o garoto e porque sua face ficou quente de repente.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top