LILITH

Algumas vezes, algumas poucas vezes enquanto não recebia pessoas em sua casa, Lilith Hernández colocava música no aparelho de som e cantava, passeando pela casa. Quando estava inspirada, conjurava um feitiço e logo um microfone aparecia em sua mão. Este era um desses dias.

You don't own me / I'm not just one of your many toys / You don't own me / Don't say I can't go with other boys.*

Ela queria que essas palavras fossem verdadeiras, mas não eram. Existia algo que era o dono dela. Alguém, para ser preciso, como a mãe dela lhe ensinou quando ainda estavam juntas. Lilith não tinha certeza do por que isso aconteceu com ela e nem a mãe conseguiu explicar. Sabiam apenas que ela compartilhava o corpo com algum ser; um ser sobrenatural. E esse ser andava com Lilith.

Antes de Catrina Hernández falecer, a mãe dela, havia ensinado desde cedo sobre a condição da filha. Mas Lilith aprendeu na prática, enquanto estava no orfanato. A mãe ficou doente. Os médicos disseram que era câncer. Nem medicina nem magia puderam salvá-la, como Lilith descobriu. Ela estudou muito, incansavelmente procurou durante muito tempo por algum feitiço ou poção para a mãe. Tudo em vão.

Aos dez anos de idade foi mandada para um orfanato. Sempre fora uma criança tímida, por isso se mantinha longe das outras crianças, sempre em silêncio. Foi o bastante para pegarem no pé dela. Esquisita era o principal nome de Lilith. Depois passaram a chamá-la de aberração quando viram que ela não podia cair, não importava de qual altura fosse. Desde então, pediam para ela fazer demonstrações, enquanto os adultos não estavam por perto. Ela subia em uma cadeira e jogava o corpo para trás. Ela pairava no ar, como se alguém estivesse segurando-a. Muitas crianças adoravam, mas não ela. Ainda que estivessem admirados, a olhavam de maneira estranha, com medo e dúvida. Não era à toa que a chamavam de aberração.

Se ela não podia ser diferente, então aceitaria a sua condição. Passou a ler os livros de magia antiga, os que eram herança da família. Ainda enquanto morava com a mãe, aprendeu alguns feitiços, os simples, de ilusão. Descobriu que depois de decorar as palavras de feitiços que não exigia tanta energia mística, não precisaria repeti-las em voz alta. Bastava um movimento com as mãos e repetir em pensamento e pronto, estava feito.

Ao contrário dela, as outras crianças se machucavam ao cair. Uma garota havia se cortado e, para ajudar, Lilith tentou lembrar-se de algum feitiço de cura. Porém como nenhum havia funcionado com a mãe dela, decidiu não aprender mais nenhum. O sangue estava na palma da mão da garota. As duas escondidas, Lilith sugou o sangue da menina com a boca. A menina se curou, e as habilidades da garota aberração mudaram.

Quando descobriu que poderia criar portais no espaço, viu aí sua saída do orfanato. Nenhum casal queria adotá-la. Tímida demais, diziam, estranha demais. Ficou no orfanato até os dezoito anos. Em uma de suas saídas de dia, entrou em um banco — precisava ver como era por dentro. Quando a noite chegou, Lilith entrou no cofre sem abrir a porta. Pegou o que queria e saiu. Mais tarde, comprou a casa que era da mãe.

Mas tudo isso tinha um preço, todo esse poder novo exigia um preço, como ela descobriu mais tarde. Precisava de sangue para o feitiço do portal. E pior ainda, ficava com mais vontade de sangue. Poucas vezes depois dessa, ela abusou de sangue de novo. Agora, com vinte e três anos, era uma quiromante como a mãe havia sido. E estava bem assim.

O domingo era um dos melhores dias. Cuidava da casa e arrumava tudo. Depois de tudo isso, estudava. Devorava um livro por dia. Em uma das últimas viagens, ela comprou vários livros antigos de magia em latim.

O dia passou devagar, do jeito que ela queria. No entanto, quando caiu a noite, Lilith precisava conversar com uma pessoa. Pegou a roupa de sempre: um macacão longo, preto da cintura para baixo e vermelho cor de vinho para cima, com o pequeno decote em V trançado. Pegou as botas e, por cima de tudo, usava uma capa com capuz, tingida com o vermelho cor de vinho.

A porta dos fundos da casa dava acesso a um beco longo e escuro. Esta noite estava mais agradável do que as anteriores, com a lua redonda acima dos prédios, algumas nuvens rodeavam a bola prateada.

O apartamento do homem ficava no segundo andar. Lilith subiu pela escada de incêndio e entrou pela janela; o idiota nunca a fechava com o trinco. Esperou por ele durante duas horas, no escuro, sentada na poltrona.

A porta se abriu devagar. Ele entrou aos beijos com uma mulher.

— Vamos — ele dizia. A sala clareou quando ele bateu no interruptor. — Vamos direto pro quarto, meu amor.

— Com calma — pediu a mulher. Ela foi a primeira a ver Catrina. — Ah, meu Deus! O que é aquilo?

Ele virou-se.

— Ah, merda...

Catrina o saudou. O capuz abaixado, mostrando o rosto.

— Podemos conversar?

— O que é isso? — A mulher estava tremendo. — O que é isso, porra?

— Fique calma, mulher! — ele disse mais alto. Virou-se para Catrina. — Tudo bem, eu tomo conta disso.

Ele falou algumas coisas para a mulher com quem entrou. Ela olhou para Catrina, ainda assustada. A espécie de caveira no rosto dela sempre assustava as pessoas. Ao redor dos olhos totalmente pretos, a ponta do nariz, os lábios, linhas em vertical na boca e uma grande que ia de orelha a orelha, também passando pela boca. Todos esses detalhes (e mais alguns na testa e no queixo) em preto em um rosto extremamente pálido. Além de ter sido o nome da mãe, ela escolheu o nome e o visual quando viu várias pessoas fantasiadas na primeira visita ao México. A caveira da celebração do Dia dos Mortos.

A mulher foi embora com os olhos arregalados.

— Você tinha que aparecer aqui assim? — perguntou o homem, o tom de voz frustrado.

— Me perdoe por atrapalhar sua noite. Eu realmente não sabia que você tinha... uma pessoa. Mas bem, como estão as coisas?

— Eu estou limpo, se é isso o que está perguntando. — Ele continuou parado de costas para a porta. O olhar de dúvida, uma gota de suor na cabeça calva, os olhos pretos arregalados. — Olhe, Catrina, é verdade. Eu não me envolvi com aquelas pessoas. Não de novo.

— Ótimo. Parece que minha última visita trouxe resultados, não é? — Ela passou os olhos pela casa. Estava uma imundície. Garrafas de cerveja pelo chão, embalagem de comida, bitucas de cigarro aos montes. — Isso tudo não faz bem pra sua saúde. Na cadeia, eles tratam bem as pessoas. Prova disso é que todos os que eu mandei para lá não saíram até hoje.

— Por favor, por favor, Catrina, eu não fiz nada, eu juro. Juro pra você que estou limpo.

— Ótimo. — Virou-se para ele. — Sente aí. Agora, vai me esclarecer algumas coisas. Deve saber do caso do empresário que morreu na madrugada de sábado.

— Apenas o que todo mundo sabe — ele respondeu, erguendo as mãos, na defensiva. — Só o que passou na TV. Alberto, não era esse o nome...?

— Albertoni. Albertoni Moretti.

— Isso, isso mesmo. Que memória boa a sua, Catrina. — A linha preta na boca dela nem se moveu. — Certo, certo. Ele era empresário, rico pra cacete. Caiu do último andar daquele prédio, o infeliz.

— Bem, você sabe das coisas. Agora quero que me diga o que eu não sei. Você é das ruas. Deve ouvir boatos por aí.

Ele ficou em silêncio. Catrina o encarou por um longo tempo, até que as mãos começaram a brilhar com uma luz vermelha, e então bastou ela dizer:

Materialize. — As adagas vermelhas surgiram em suas mãos.

— Tudo bem! Eu falo. Disseram que uma mulher estava com ele, pouco tempo antes de morrer.

— A esposa?

Esposa? — ele repetiu, incrédulo. — Um cara daquele não leva a esposa em um hotel daquele, não naquela hora.

Não, não leva, Catrina se deu conta.

— Você conhece a mulher? — perguntou, as adagas ainda em punho.

— Apenas pelo nome que chamam por aí. Mary. — Ele fez uma pausa. — Não sei onde mora, mas...

— Sabe de alguém que sabe. Bom garoto. Albertoni estava metido com alguma coisa errada? Crimes, tráfico... de todos os tipos?

— Não que eu saiba. O cara era um empresário, não se sujaria com isso.

— Já peguei pessoas que se sujaram com menos. Última pergunta. Quem é esse tal Encapuzado que chamam por aí?

— Ah, esse cara é problema — ele disse, como se Catrina não soubesse disso. — Ele é encrenca. Maluco, psicopata. Soube que ele mata os caras que pega. E ainda o chamam de Vigilante. Isso deve ser ruim para você, não é? Não atrapalha os seus negócios? Já pensou se confundem você com ele? Vocês usam roupas parecidas. Mas ele não se pinta de caveira assustadora.

Não era pintura, era um feitiço de ilusão. Mas ela não explicaria isso.

— Ele usa um sobretudo preto, com duas bandanas pretas também. — Parou, pensando um pouco. — Uma cobrindo a boca e o nariz e outra na cabeça, cobrindo os cabelos. Soube também que ele é negro.

Catrina pensou por um momento. Fazia algum tempo que Encapuzado trabalhava, talvez há mais tempo que ela. Antes ele trabalhava na escuridão, pegando bandidos menores, sem muito alarde. Porém, cada vez mais, ele saía das trevas. Seus atos estavam chamando muito atenção e isso exigia mais atenção. Ela precisaria de mais do que explicações das roupas dele.

As adagas sumiram das mãos dela como fumaça.

— Ele é problema, Catrina, vai por mim. Isso é tudo o que eu sei dele.

Os dois ficaram quietos. Ele ainda estava sentado. Catrina foi até a janela, olhando para o beco lá embaixo.

— Alguém vai bater na porta — ela avisou, sem se virar.

— Alguém?

Deram três batidas na porta. Catrina fez um sinal para ele esperar. Ela foi para trás da porta, de modo que quem estivesse lá não pudesse vê-la. Fez um sinal para ele abrir.

— Pensei que você não estivesse em casa — disse a pessoa na porta, parecia um homem. — Cara, você me arruma uma daquelas? Só uma. Eu pago depois... Já fui em tudo quanto é lugar...

— Mas do que você tá falando? Eu não sei de nada disso, seu maluco. Vaza daqui, seu viciado, vagabundo. — Ele chutou o homem e fechou a porta. Catrina estava olhando fixamente para ele. Ele deu de ombros e soltou um risinho nervoso. — Não sei de nada do que aquele cara estava falando, eu juro.

Ela foi para a janela, escancarou-a e, ainda olhando para fora, disse:

— Ainda não terminamos. Quando eu voltar, quero o nome do seu informante e onde posso encontrá-lo. Sorte sua que tenho que pegar esse primeiro.

Ela subiu pela escada de incêndio até o terraço. Do outro lado do prédio havia outro beco. Correndo, ainda pôde ver o homem caminhando rápido. Catrina o seguiu por cima, pulando de terraço em terraço, de prédio em prédio. O cara parou pouco antes de chegar a uma rua aberta para a avenida. Ficou de cócoras, esperando. Ela também ficou esperando no telhado.

Uma mulher passou carregando uma bolsa. O homem pulou do beco, tomou a bolsa dela e voltou correndo pelo mesmo lugar. A mulher gritou por ajuda. Catrina correu de volta, pulou no espaço entre os prédios e disse:

Gradus. — Então, onde ela pisava, um degrau vermelho em formato de disco se materializou no espaço, com ela descendo a cada pulo. Quando chegou perto o suficiente, ela pulou em cima dele. Os dois caíram. Antes que ele pudesse correr, ela pegou uma barra de ferro do chão. — Oboediens erit — Catrina conjurou e dobrou-a, prendendo as mãos dele como se a barra fosse uma algema. — Você é rápido.

— Me deixa ir — ele pediu, se debatendo no chão. — Por favor, me deixa... — Ele parou de repente, olhando para ela. — Não, não, me leve. Não deixa ele me pagar, por favor, não deixa... ele não, ele...

Catrina olhou para cima, e no alto do telhado estava uma pessoa de sobretudo preto olhando para eles. Então é ele, pensou ela. A sombra voltou, desaparecendo do telhado. Sorte sua que tenho que pegar esse primeiro.


*"Você não é meu dono / Eu não sou só um de seus brinquedos / Você não é meu dono / Não diga que eu não posso sair com outros garotos". Saygrace feat. G-Eazy. You Don't Own Me. Suicide Squad. Atlantic Records e Warner Bros, 2016.

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