Capítulo 5 - Um cantinho na chuva

Respirando fundo, Gabriela levou algum tempo para se acalmar. Estava tremendo, e começou a se sentir assustada depois, quando pensou no perigo de um cara com Fernando tendo a chave de sua casa. Quantas vezes aquele louco invadiu se apartamento quando não estava em casa?

Pelo menos, aquilo tudo serviu de alguma coisa.

Sentada no sofá, sentindo a sacola em sua mão, lembrou-se das crianças. Trêmula, olhou para eles, e elas continuavam explorando a casa. Atoide parecia decido a escalar as cortinas, uma das gêmeas a derrubar os enfeites de Gabriela, como se tentasse escalar as prateleiras igual Pandora estava acostumada. A outra gêmea parecia ficar verde.

— Gabi, Gabi — disse ela, com uma voz tensa. — Quero fazer xixi...

Gabriela pulou do sofá, agarrando-a pela roupa, arrastando-a direto para o banheiro. Ela vestia uma das camisetas dela, que estavam grandes e arrastando no chão. Gabriela a ajudou a usar o assento, já que parecia querer usar feito um gato.

— Não, você não vai enterrar, tire a mão daí! — a menina quase enfiou a mão no dentro do vaso, ao usá-lo. — Tem que apertar o botão da descarga.

— Ah! — a pequena olhou a água descer em um rodamoinho, olhando com olhos grandes e verdes feito de sua gata, Atena. Se escurou no vaso, olhando com a mesma curiosidade de sua gata. — A água tá girano, mamãe!

Era verdade, aquilo tudo era verdade! Aquelas crianças foram gatos! Gatos!

Gabriela sentiu a cabeça rodar feito a água no vaso sanitário. Sua cabeça estava doendo. Que inferno, pensou, vamos resolver isso tudo! Vou levar essas crianças até a polícia!

Decidida, ela não pensou muito bem, exceto que alimentou as crianças, e procurou na internet enquanto todos eles estavam sentados à pesa, comendo as bolachas e biscoitos, sugando com barulho e dando risadas, trocando as caixinhas de suco, curiosos se o sabor de um do outro era melhor. Até Pi, que ainda estava meio dormida, comia com dificuldade de se manter acordada. Havia uma delegacia ali perto, Gabriela decidiu levar elas para lá, e deixar tudo nas mãos das autoridades.

Assim que todos terminaram de comer, Gabriela percebeu que nenhum deles estavam bem vestidos. Pegaram suas roupas, suas camisetas e tentaram se vestir. Talvez foram orientados por Pi?

— Onde nós vamos? — Pi perguntou, segurando a mão de Gabriela, bocejando com muito sono. — Eu ainda não recuperei... Awhhhhhh!

— Vou levar todos vocês para um lugar melhor — sorriu Gabriela, sentindo-se mal por mentir.

Ela havia saído para o corredor, para conversar com um policial, pedindo orientação antes de sair. O homem disse-lhe para levar as crianças depois de uma hora, pois iriam chamar um assistente do Conselho Tutelar, assim que chegasse lá, já estaria prontos para fazerem as assistência e investigações.

Gabriela estava angustiada e com medo como se estivesse prestes a abandonar os próprios filhos, mas sabia que precisava seguir em frente. Ela levou as crianças até o ônibus, que já estava cheio de passageiros. Quando o ônibus começou a se mover, começou a chover e Gabriela precisou segurar Pi em seu colo, enquanto as gêmeas faziam muito barulho e incomodavam os outros passageiros. Atoide, o menino, estava sentado quieto ao lado de Gabriela, parecendo compreender a situação difícil em que ela se encontrava.

A viagem no ônibus estava sendo agitada, as gêmeas estavam correndo de um lado para o outro, brincando e rindo alto, enquanto Pi estava dormindo no colo de Gabriela. Atoide estava calmo e silencioso ao lado de Gabriela, acompanhando a movimentação do lado de fora da janela com olhos curiosos.

De repente, uma senhora idosa sentada em frente a eles, se inclinou para perguntar:

— São suas as crianças?

Gabriela, ainda angustiada com a situação, respondeu com um sorriso tímido:

— Ah, não, mais ou menos. Não sei — ela respondeu confusa. — Talvez.

— Como é que você consegue cuidar de tantas crianças sozinha? — perguntou a senhora, com admiração na voz. — Está precisando de ajuda, querida? As roupas delas...

— Bem... — respondeu Gabriela, sentindo-se ainda mais angustiada. — Sabe como são as crianças, tentei vesti-las, mas elas se sujaram e agora não querem colocar as próprias roupas. Vestiram minhas camisetas e queriam usar meus saltos altos, dizendo que querem se parecer comigo.

— Sei bem como são. Já criei três filhos — a senhora riu docemente. — Mas não perca o controle. Deve sempre frear os caprichos deles!

— É que, bem... Crianças são difíceis...

A senhora notou o olhar preocupado em seu rosto e sorriu, colocando a mão em seu ombro:

— Você é uma guerreira, querida. Deus a abençoe!

Enquanto conversavam, Pandora chamou a atenção da senhora, com sua alegria e risadas. A senhora se aproximou e começou a brincar com ela, fazendo as crianças rirem ainda mais alto. Gabriela respirou fundo, agradecendo pela pequena distração. Sua cabeça estava doendo e muito!

Mas logo a angústia voltou, e ela se perguntava o que aconteceria com as crianças. Será que ela estaria fazendo a coisa certa, levando-as até a polícia? Será que ela estaria abandonando-as? Ela não sabia, mas sabia que precisava confiar em si mesma e em Deus, para fazer o melhor para eles.

Logo, desceram do ônibus, com Pi no colo de Gabriela e Atoide segurando a barra de sua camiseta assim que a outra mão segurava um guarda-chuva, enquanto as gêmeas brincavam com um guarda-chuva reserva. Eles seguiram para a delegacia, onde Gabriela recebeu olhares de reprovação mal havia passado pelas portas de vidros. Ela parecia uma mãe louca no olhar das pessoas, que viam as crianças vestidas de qualquer jeito. No entanto, ela estava determinada a fazer o que era certo.

Mas ao se situar com o hall de recepção, ela viu um velho conhecido. O coração de Gabriela começou a acelerar, enquanto sentiu um suor frio descer por suas costas. Era o mesmo assistente social que havia tentado sequestrá-la quando era criança.

— Oh, meu Deus — pensou Gabriela. — O que ele está fazendo aqui?

Ele estava parado, conversando com um policial, como se havia acabado de chegar. Gabriela se lembrou que o crime organizado havia lhe tirado a vida, segundo ficou sabendo. Era, então, mentira?

Sentiu outro calafrio descer por ela, recordando da sensação horrível que experimentou ao lembrar de sua situação, e qual poderia ter sido o seu destino.

Olhou para os pequenos, sentindo um aperto no peito.

As gêmeas ainda brincavam com o guarda-chuva, despreocupadas.

— Ei, Gabriela, acha que a gente pode fazer uma piscina com esse guarda-chuva? — perguntou uma das meninas.

Mas Gabriela não estava prestando atenção. Ela estava concentrada no assistente social, que agora a notou olhando-o com desprezo. Gabriela sentiu a raiva subir. Ela não ia deixar que aquelas crianças fossem parar justo na mão daquele homem mau.

— Vamos embora, crianças — Gabriela pediu, sentindo a voz estremecer.

Gabriela saiu da delegacia com as crianças, sem saber para onde ir. Lembrou-se que tinha que estar no trabalho, mas não podia deixar as crianças sozinhas. Se dirigiu para lá, sem ideia do que fazer. Quando chegou ao restaurante, o chefe apareceu justo naquele dia. Gabriela tentou explicar sua situação, mas o chefe não podia ajudar.

— Desculpe, Gabi, mas não posso ajudar hoje — disse ele. — Não tenho como deixar as crianças sozinhas aqui, são muito pequenas. Além disso, o restaurante está ficando cheio. É perigoso para elas, e pode incomodar os clientes.

Gabriela sentiu uma lágrima queimar nos cantos de seus olhos. Ela precisava daquele trabalho, mas não podia deixar as crianças sozinhas. O chefe notou a sua tristeza e colocou uma mão no ombro dela.

— Não se preocupe — ele sorriu com compaixão. — Eu vou te pagar por hoje, e você pode ir para casa em um taxi. Tome, aqui está o dinheiro. Encontre alguém para cuidar das suas crianças.

Gabriela agradeceu, agarrou as crianças e correu para o taxi. Quando chegaram em casa, Fernando Werneck estava lá, mexendo novamente na porta de sua casa. Ao lado dele, ela viu um homem vestido em um macacão azul com um logotipo de chave no meio das costas.

— O que você está fazendo aqui, Gabriela? — perguntou ele com raiva. — Achei que já tivesse ido com o pai dos seus filho! Troquei a fechadura do apartamento, não vou abrir exceções nem por um dia!

Gabriela tentou explicar, mas Fernando não a deixou falar.

— Não me importo — disse ele. — Tem mentido, e tem filho que jurou que não tinha!

— Você me conhece a vida inteira, idiota, quando é que me viu grávida? — Gabriela questionou.

Wermeck, o apelido de Nando quando eram coleguinhas de classe, apertou o lábio, tentando lembrar.

— Não posso abrir exceções! — ele insistiu. — Vá! Leve suas crias. Vá com o pai delas, e quando puder me chame para pegar suas coisas.

— Isso é um crime, seu maluco!

Wemeck sacudiu a cabeça. Bateu no ombro do chaveiro, sorrindo.

— Muito obrigado, Luís — agradeceu, caminhando até Gabriela.

Ela pensou que não deixaria tão barato. Mesmo com Pi em seu colo, observando o rosto distraído de Wermeck, um apelido muito correspondente ao que ele era, fechou o punho e acertou um sono direto no nariz do bastardo.

— Você é nojento, Wermeck! — gritou, sacudindo a mão, tomando cuidado para não derrubar Pi.

— Sua estúpida! — reclamou Wermeck, levando a mão no nariz que inflou feito um balão vermelho. — Isso é agressão, está querendo que eu chame a polícia. O Conselho Tutelar por deixar seus filhos seminus feito índios na chuva?

— Pode chamar, eles vão gostar de ver um idiota feito você, despejando uma "mãe" com crianças pequenas...

Wermeck ficou vermelho. Ele estufou o peito e ergueu o punho. Luís, o chaveiro, imediatamente segurou o homem.

— Calma, cara, é uma mulher com uma criança no colo — disse ele. — Está ficando louco?

— Vá embora, sua vadia!

— Calma, Nando — implorou o chaveiro.

Gabriela, já com as emoções subindo até o topo, sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto. Estava tremendo, inapta para gritar todos os palavrões que queria gritar. Segurou o ar, e virou-se, levando a mão que doía até a cabeça de Atoide. Pandora e Atena estava abraçadas, assustada com os berros de Wermeck.

— Vamos embora, crianças...

Gabriela sussurrou, com lágrimas em seus olhos. Ela segurou Pi no colo, com Atoide de mãos dadas com ela, e as gêmeas se agarrando à sua saia. Caminharam pela rua, tentando encontrar um abrigo da chuva, mas tudo parecia fechado. O vento soprava forte, fazendo com que a chuva atingisse seus rostos. Gabriela começou a sentir o desespero aumentar a cada passo. Ela não sabia para onde ir, o que fazer.

As crianças começaram a chorar, sentindo o medo e a insegurança. Gabriela tentou consolá-las, mas sua voz estava fraca e trêmula. Ela se perguntou se havia feito a coisa certa, se havia abandonado seus filhos. Mas ela sabia que não tinha escolha, ela precisava protegê-los daquela vida.

De repente, Gabriela avistou uma igreja com as portas abertas. Ela se dirigiu para lá, com as crianças correndo atrás dela. Entraram na igreja, procurando abrigo da chuva. Gabriela olhou ao redor, vendo pessoas rezando e se acalmando. Ela sentiu um pouco de conforto, de paz. Ela se sentou em uma das bancadas, colocando Pi em seu colo e segurando as mãos das gêmeas. Ela fechou os olhos, rezando para que tudo desse certo.

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