Capítulo 2 - O Desejo de Gabriela
Devido a intensa chuva, Gabriela precisou chamar um Uber via aplicativo. Voltar para casa não foi uma distância grande, porém, demorou um pouco para o carro chegar.
Conversou um pouco mais com Pi, ouvindo sua conversa, tentando saber se seus pais haviam mesmo a abandonado. Pelo pouco que pode entender, Pi misturava fantasia com realidade. Gabriela começou a se perguntar se o fazia como mecanismo de defesa para uma realidade que sua cabecinha de criança ainda não podia lidar.
Pi havia alegado que morava em um planeta chamado tıŒlØ-42, do qual Gabriela não entendeu em nada a pronúncia. Afirmou com certa irritação de criança que os pais eram maus, e continuou dizendo aquilo. Só não especificou os motivos dos pais serem tão maus.
Quando entrou no carro, Pi ficou tão empolgada como se nunca tivesse entrado em um antes. Ela se escorou na janela, empolgada.
— Isso é um veículo primitivo dos hŲmÆ4Øs-65, nunca extive em um antes — falou ela, e por um momento Gabriela pensou que ela aparentava mais idade do que dissera. — Ixo é tão fascinante!
Assim que automóvel se moveu, Pi sobressaltou e agarrou o braço de Gabriela, olhando para todos os lados.
— Ah, tá mexendo — disse, endurecendo o corpo com medo.
Gabriela sentiu que ia morrer por tamanha fofura. Sentia vontade de rir das reações tão lindas, mas ficou muito curiosa, se perguntando se os pais de Pi nunca a levaram em um passeio. Que tipo de vida uma garotinha como ela estava levando?
Chegaram rapidamente em casa, já que a distância não era muito longa, embora fosse mais econômico usar o transporte público. O carro os deixou na frente do prédio onde Gabriela morava, uma edificação de dois andares com muitos apartamentos pequenos para solteiros.
Assim que saíram do carro, Gabriela se apressou em subir as escadas até seu apartamento, evitando o olhar curioso de Fernando Werneck. Encontra-lo seria um problema, pois Gabriela estava determinada a cuidar da criança abandonada, e não tinha outro lugar para ir. Na dependências do prédio era proibido crianças, animais (sem pagar a mais no aluguel) ou visitas fora do horário.
Além disso, Gabriela não estava com disposição para lidar com Fernando Werneck naquela noite. Ela tinha uma criança que precisava ser ajudada, e não estava com vontade de ouvir as piadas sem graça e os flertes inconvenientes do dono do prédio.
Entrou em casa, ligando a luz e imediatamente escutando os miados de recepção de Pandora e Atena. As duas gatinhas apareceram do único quarto, olhando para dona, entretanto, recuando desconfiadas assim que viram as visitas inesperadas. Pandora se revoltou, espichando todos os pelos para o gato que estava no colo de Gabriela. Atena, desconfiada, deu meia volta e se escondeu.
Gabriela suspirou, fechando a porta assim que Pi entrou, trancando e logo deixando o gato cinza no chão.
— Vamos lá — disse a moça, passando a mão nos cabelo frios de Pi. A menina ainda estava gelada da chuva. — Preciso de dar um banho!
— Igual do gato? ÆtØı4-94 toma banho xe lambendo — perguntou Pi.
Gabriela tentou com muito esforço não ri.
— Não, vai tomar banho como uma criança — ela falou, empurrando-a de leve em direção ao banheiro. — Está muito fria, não sei quanto tempo ficou na chuva.
— Cinco dias — disse a menina.
— O quê?
— Eu fiquei cinco dias esperando o papai e mamãe.
Gabriela quase desmaiou ao ouvir aquilo. Franziu a testa, se perguntando como uma criança fica cinco dias em um lugar e ninguém viu, inclusive a polícia que fazia muitas rondas pela redondezas de seu trabalho. Ela teria visto, afinal, dois dias atrás voltou para casa andando.
— Como é que ninguém te viu? — perguntou para Pi, passando a mão no rosto.
— Por causa da minha veste "ilusória" — respondeu Pi, abrindo os braços. — Ela é uxada para nos disfarxar entre os hŲmÆ4Øs-65.
Gabriela ergueu uma sobrancelha, por um segundo, quase acreditou na fantasia de uma criança. Provavelmente, Pi estava inventando uma linguagem nova e perdeu a noção do tempo pelo trauma em ser abandonado. Nenhuma criança ficaria tanto tempo sem comer ou beber água sem sofrer danos.
— Bem — a moça suspirou. — Acredito que precisa comer mais do que tomar um banho.
Puxou-a de leve em direção a bancada da cozinha, segurando por debaixo dos ombros, erguendo até a cadeira alta. A confortou na cadeira, passando em direção à geladeira.
Gabriela tinha uma refeição muito balanceada, aprendeu trabalhando como auxiliar de cozinha em um dos seus primeiro emprego após terminar a escola. Havia um cozinheiro que também foi um afeto, que lhe ensinou como economizar e comer bem. Ela tinha o que poderia ser saudável para um criança, brócolis, beterraba, cenouras e outros itens da feira; mas desconfiava que Pi não teria uma boa primeira impressão se oferecesse algo saudável.
Espiando para a menina por cima do ombro, notou que Pi olhava ao redor como se estivesse em parque de diversão. Seus olhos estavam brilhando. Talvez, ela continuaria com aquele olhar se Gabriela oferece carinha de batata, sua refeição favorita quando era criança — e até hoje preparava na fritadeira elétrica, sem óleo, o ideal para o paladar de um bebê.
Apanhou uma tigela cheia de carinhas-de-batata, separando na pia junto com alguns molhos suaves de queijo, uma salada de cenoura raladas e beterraba. Talvez a mocinha fosse gostar, pois Gabriela não tinha ideia do que dar uma criança.
— Espero que goste — disse ela, separando um copo com aba e enchendo-o com água. — Tome, beba um pouco de água.
Pi com suas mão pequeninas pegou o copo, olhando para a água. Em seguida, sorriu.
— Os tıÇŒlÆi7-60 podem ficar semanas xem beber água, mas eu já estava ficando com xede — disse ela, saboreando um gole. — Muito obligada!
Parecia óbvio que estaria com sede, quem ficava dias sem beber água? Era um milagre que não teve um colapso.
Encostando o cotovelo na bancada, e observando a menina, Gabriela a achou muito fofa. Se perguntou se aquela era a sensação que todas as mães sentiam quando olhavam para seus filhos.
Bem, ela não era a sua criança. Depois de abrigá-la, lhe dar alimento, a realidade era que Gabriela seria obrigada a levá-la até a polícia.
Se fizesse aquilo, o que eles fariam com uma menina tão linda?
Um calafrio desceu pelos braços de Gabriela, recordando quando sua mãe morreu, aos seus nove anos de idade. Seu pai era um bêbado, que não apareceu por dias após a morte da esposa. O que levou o Conselho Tutelar tentar levar Gabriela para instalações do Governo. Até o seu pai reaparecer, Gabriela passou por muitos apuros.
Não era geral, mas havia pessoas muito más no mundo, e talvez tivesse sido aquele o motivo de Gabriela ter levado a menina para sua casa. Normalmente, não era o correto a se fazer. O certo era levar até a polícia. Mas recordando de sua infância, Gabriela foi acolhida por um velho maluco do Conselho Tutelar, que mais tarde foi acusado de tentar vender crianças órfãs para o tráfico humano. Inclusive, pela inocência de uma criança, Gabriela quase esteve envolvida naquele pesadelo.
Para sua sorte, seu pai reapareceu no último momento, pedindo desculpa a filha e dizendo-lhe que jamais iria lhe abandonador outra vez: e jamais a abandonou, voltou a ser um homem digno e trabalhador.
No fim, ouviu dizer que o velho do Conselho Tutelar foi morto pelo Tribunal do Crime, fosse lá o que aquilo queria dizer. Arrepiava Gabriela pensar que Pi poderia ter um destino como aquele.
Não sabia o que fazer, porém, assim que a levasse até os órgãos competentes, certamente, acompanharia a jornada da menina até sentir que acharia um abrigo seguro.
Ouvindo o "plim!" do aparelho de fritar sem óleo, Gabriela despertou das lembranças, percebendo que as batatas não podia estar prontas tão cedo. Havia errado a temperatura, e voltou a reaquecê-las. Em seguida, preparou um prato reserva para o gato cinza de Pi.
— Se esperar um pouco, a comida logo estará boa — disse, apanhando comida de gato dos armários ligeiramente trancado.
Pandora era terrível, sabia como abrir os armários para roubar comida. Gabriela havia perdido as contas quantas vezes chegou do trabalho, e havia ração por todos os lados, e Pandora e Atena esticadas no chão, satisfeitas com as barrigas estufadas.
Encheu os pratos para os gatos, notando que Pi a olhava com curiosidade.
— Gatos dos hŲmÆ4Øs-65 comem ixo? — perguntou a moça, as perninhas curtas balançando na cadeira.
— Ah, sim, é o mais saudável, porque gatos tem um paladar e um estômago sensíveis — sorriu Gabriela. — Eles precisam de uma ração com fibras e elementos especiais para o trato urinário, pois também tem a tendência a ter problemas para fazer xixi.
— É mexmo? ÆtØı4-94 não goxta da comida que deram pa ele — Pi respondeu. — Axo que ele goxta de carne crua.
— Bem, todos os animais gostam, é coisa dos instintos deles — Gabriela sorriu.
— Ou ele não comeu, porque estava guardando pa mim. Eu não como raxão...
— Claramente que não.
Olhou a menina quando deixou o pratinho para o gato dela. Em seguida, procurou por Pandora e Atena. As duas estavam famintas. Apesar de se esconderem, ao ouvir o som da ração caindo no pratinho, resolveram enfrentar o medo para comer.
— Minhas meninas! — Gabriela fez uma vozinha que se usa com animais e criança. — Vem aqui, lindinhas!
Encheu os pratos delas, e simplesmente, enfrentaram o medo dos estranhos, correndo em direção à ração. Gabriela sorriu para ela. Então, ficou ainda mais impactada, como se estivesse no paraíso, assim que Pi pulou da cadeira, para observar os gatos comerem.
A menina abaixou entre os joelhos, olhando para os gatos, rindo. Apontando.
— Olha, eles xão muito fofos! — olhou em direção a Gabriela. — Olha, olha, eles abanam os rabos enquanto comem! Que lindinho, Gabi!
O que diabos era aquilo? O coração de Gabriela não conseguia aguentar tanta fofura. Estava decidido:
— Ah, não, quando eu crescer quero pelo menos uns dez filhos! — ela disse, levando a mão até o coração, quase enfartando por tamanha fofurinha.
Pi lhe olhou ao dizer seus pensamento em voz alta.
— É mexmo? — inclinou a cabeça, curiosa pelo que Gabriela disse. — De acordo com meu sıstŒ5ÆaŲƔiliar-23, Gabi tem idade para ter filhos.
— Seu o quê? — Gabriela havia desistido de entender as palavras estranhas que ela falava. Uma criança muito imaginativa. — Esquece — riu. — Tenho idade, mas não a maturidade.
— Em seu planeta, mulheres tem filhos mais novas que a Gabi, e conseguem lidar com a maternidade — Pi inclinou a cabeça ainda mais.
Ao falar daquele jeito, Gabriela sentiu como se fosse um pouco mais velha do que alegava. Ou era muito inteligente. Por um segundo, quase acreditou que era de outro planeta.
— Bem, ainda não sei se estou pronta para ter filhos — Gabriela riu. — Na minha atual situação, só teria bebês se meus gatos virassem crianças. Ou se pudesse reproduzir com um toque, transformando todos os gatos do mundo em crianças. Não tenho namorado, e nem previsão de um para ter filhos.
Ela riu, observando o rosto curioso de Pi.
— Gabi deseja ixo? — questionou a criança.
— É brincadeira — Gabriela corou. — Também tenho alguma imaginação.
Colocou a mão nos braços de Pi, erguendo-a do chão, onde estava abaixada.
— Vem, vamos te secar um pouco — disse, alisando os braços frios da criança. — Não tenho roupas de crianças, vamos ter que adaptar alguma coisa para você trocar essas roupas estranhas.
— Xim! — Pi sorriu, abraçando Gabriela.
A moça ajudou a criança a se secar, pensando em lhe dar um banho depois de descansar do jantar. Pelo menos, tirou-lhe as roupas molhadas, vestindo-a em uma de suas camisetas, que ficou grande e fofo no corpinho da menina.
Depois de vestir Pi, Gabriela a levou para a cozinha e começou a lhe servir o jantar. A menina observava tudo com olhos curiosos, nunca havia presenciado uma coisa tão boa. A expressão lindinha que fez ao saborear a carinha de batata novamente fez Gabriela quase morrer por tamanha fofura! Como podia ser tão fofa?
— Nunca ninguém fez isso por mim antes. Sempre tive que fazer tudo sozinha — disse Pi, com lágrimas nos olhos.
Gabriela parou de servir seu próprio práto, olhando para a criança. Como diabos uma criancinha de cinco anos podia fazer tudo sozinha? Quem diabos eram os pais dela, e onde os encontrava para lhe dar um soco?
Suspirando com a indignação no topo, ela acariciou seus cabelos.
— Não se preocupe, agora você tem alguém para cuidar de você — disse ela, colocando o restante do jantar na frente da menina.
Incrivelmente, Pi não reclamou da salada de cenoura e beterraba, comeu tudo e pediu mais. Não era mesmo uma criança normal.
Depois de jantarem, Gabriela levou Pi para o banho, e depois do banho para o quarto e as duas se deitaram na cama juntas. Pi adormeceu em poucos minutos, agradecida pela noite quente e aconchegante.
Gabriela ficou acordada por um tempo, pensando na desumanidade de deixar uma criança tão jovem sozinha na rua. Pior ainda, tinha medo de entregá-la ao Conselho Tutelar, mas sabia que era a coisa certa a fazer.
Dormiu com o coração abalado, a cabeça acelerada com ideia de que pessoas podiam abandonar uma menina tão linda. Tinha uma imaginação tão fértil, que se perguntou o que Pi escondia atrás de tantas palavra inventadas e uma história que veio de outro planeta. Talvez, aquilo fosse seu mecanismo de defesa, e honestamente Gabriela não queria saber o que aconteceu a ela. Tinha certeza que a sua revolta ficaria pior, ficando sem dormir direito por meses!
Meio adormecida, no meio da noite, de repente, Gabriela escutou Pi sussurrar algo:
— Eu vou realizar seu desejo de ter uma grande família — disse ela.
Fechou os olhos, sem certeza de escutou alguma coisa. A imaginação fértil estava mesmo contaminando o cérebro de Gabriela.
Mas na manhã seguinte, Gabriela foi acordada por duas crianças. Duas crianças!
De onde diabos saíram duas crianças?
Pularam ao redor da cama, fazendo Gabriela sobressaltar e cair da cama, assustada, gritando de medo. A moça se arrastou para trás, batendo as costas contra seu guarda-roupas. Ergueu os olhos, notando que mais crianças havia invadido sua casa. E não estava sonhando!
Elas pareciam ter sete anos e estavam pulando, fazendo Pi ser arremessada alguns centímetros no ar, embora não acordou totalmente. Eram idênticas como gêmeas.
— Gabi, eu tô com fome! — disse uma das crianças.
Gabriela se sentou no chão, boquiaberta.
— Que? Como...?
— Nós somos Pandora e Atena. E agora, graças a Pi, ela conseguiu realizar seu desejo — disse a outra criança. — A Pi disse que nós somos irmãs!
Gabriela ficou sem palavras, vendo Pi dormir pacificamente na cama, enquanto as duas crianças pulavam ao seu redor, pedindo... ração?
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