Epílogo
2024
Judy nunca enviou uma mensagem para Ava, primeiro porque destruiu seu celular, onde a amiga anotou, ainda lá no Egito, seu endereço e a data em que devia visitá-la, de forma que não interferisse na sua viagem ao passado, no encontro das duas e no fluxo (nada) temporal que levou-as a se encontrarem.
Foi Ava quem enviou uma mensagem para Judy, e as duas, sem falar muito mais que datas e horários, combinaram de se verem. Pois, algumas conversas, só funcionam pessoalmente, não por mensagens.
Enquanto dirigia seu Fiat Palio vermelho rumo ao local, Judy tentava acalmar os ânimos, o coração batendo a mil por hora. O rádio tocava os hits do ano, no banco de trás, a intrusa Bastet mastigava a capa da revista que ela comprou na banca mais atrás.
A demanda por designers de games aumentou em 75% no último semestre. A popularização e inovação no entretenimento online cresce cada vez mais.
Essa era a matéria que a universitária queria mostrar aos pais. Ela mudou muito desde a última vez que viu Ava, tinha apenas 12 anos, agora já completara 18. Era engraçado pensar que, neste momento, era somente 1 ano mais nova que a amiga com quem se aventurou no Egito antigo. E o pior de tudo: para Judy já faziam 6 anos, para Ava alguns meses.
Terminou o ensino médio na mesma escola, sem repetir de ano e sem recuperação. Quase levou bomba em geografia várias vezes, sempre dando um jeitinho de se safar, recorrendo a pesca. Ninguém é perfeito.
Ela mudou, deixou o cabelo crescer, saiu uma ou duas vezes com Mark Rock e lhe deu grandes foras, fez muita terapia e participou da grande manifestação que limpou e trouxe novamente os patos ao lago Odyssey. Pode-se dizer que ativismo ambiental era seu segundo trabalho, o primeiro foi o de atendente numa loja de conveniência, e o próximo seria, pelo seu desejo, de uma talentosa designer de games. Era essa a faculdade que estava cursando, e os pais apoiavam tal empreitada, porque no final, tornou-se uma das profissões do futuro.
Todas as coisas horríveis que aconteceram em 2020 assombraram Judy: pandemia, gafanhotos gigantes, explosões... Foi, de fato, o fim do mundo. Contaria a Ava com satisfação que todos da família sobreviveram, até mesmo o irmão que trabalhou diariamente no hospital.
Todos, exceto o cachorro. Não culpamos 2020 desta vez, ele já era bem velhinho.
Judy Henderson não esqueceu de Oliver LeBlanc, nunca. De vez em quando, pegava-se fazendo pesquisas sobre a revolução francesa, documentos históricos, França, tudo para ter qualquer dica sobre o seu final, se sobreviveu a fome, a revolução, se Emma ficou bem. Este ciclo precisava ser fechado, e sentia que não seguiria em frente enquanto não tivesse uma resposta, uma pista.
O GPS a levou a uma rua estreita, com poucas casas e muito verde. Lá estava ela, sentada embaixo de um banco com uma pilha de papéis ao lado.
Ava, a mesma Ava. Os cabelos azuis de seis anos atrás, vestia um casaco e bermuda jeans. Não segurou as lágrimas quando o carro estacionou, e a garota que conheceu ainda criança correu para um longo abraço.
— Meu Deus, Ava!
— Judy, nem acredito que é você — exclamou com um grande sorriso, tomando nas mãos o rosto da menina.
— Para mim foram seis anos, seis anos desde o Egito e a última vez que nos vimos.
— O pior de tudo é que você não cresceu!
— Ei, não é verdade. Cresci mais alguns centímetros.
As duas riram e sentaram no banco de mãos dadas, sem saber ao certo como reagir diante de tal situação estranha.
— Bom, você cresceu alguns centímetros, está dirigindo um carro... E o quê mais?
— Fiz terapia por um tempo, comecei a faculdade de designer de games.
— Céus! Tudo que fiz foi comprar sapatos novos. Veja bem, para mim só fazem dois meses.
— Eu voltei para minha época, 2018. E você para a sua, 2024. E agora estamos aqui, com praticamente a mesma idade! — Mais gargalhadas e abraços se seguiram.
— Foi mesmo para a Roma antiga?
— Sim, e não foi tão ruim quanto eu esperava. Me dei bem, conheci pessoas legais e não fui perseguida para cumprir o paradoxo, felizmente.
— Quero saber tudo.
— Antes, eu sei que já fazem seis anos pra você, mas não está esquecendo de nada?
Ava pousou a não sobre os papéis ao seu lado. Documentos históricos. Judy queria conversar com a amiga sobre tudo, sobre como lidou ao reencontrar a família, seus ataques de nervos, a distância que manteve da tecnologia por um tempo. Tudo. Pela primeira vez, porém, ela sentia que tinha tempo, a coisa mais preciosa da vida. Sendo assim, segurou as lágrimas e levou a mão aos lábios. Ela lembrava.
— Eu te pedi para pesquisar sobre o Oliver, o garoto que conheci na França.
— E eu consegui. Sou historiadora em formação, se tem uma coisa que faço bem, é pesquisar registros, documentos e descobrir tudo sobre o passado. O que sei está aqui! — Ela pousou os papéis no colo e aproximou -se mais da amiga.
Judy não cogitou, quando o dia amanheceu, que saberia o que houve com Oliver, seu Oliver. Era um sonho, uma esperança já morta. Almas separadas por mais 200 anos de história.
— Você me forneceu o nome de uma hospedaria parisiense chamada Lune Rouge, em 1789, os nomes de Emma Gaubert e Oliver LeBlanc.
— Correto — confirmou com ansiedade.
— As informações foram escassas, mas suficientes. Essa hospedaria realmente existiu em Paris, ela sobreviveu por bastante tempo e depois foi vendida.
— Vendida?
— Calma, vamos por partes. — Sempre que falava, Ava punha um documento específico, impresso, no colo de Judy para confirmar. — Isso é uma certidão de casamento, Emma Gaubert casou-se em 1792 com Jean Vastine, tornando- se Emma Vastine. Eu sei que ela é a sua Emma porque neste mesmo ano a hospedaria Lune Rouge passou a ter os dois como proprietários.
— Perfeito! Isso significa que eles ficaram bem. — Ainda não era muito a se saber sobre Oliver, mas Emma era sua família, e com o Lune Rouge de pé, ele sempre teria um lar.
Todas as pesquisas, professores e colegas que Ava consultou valeram a pena pela paz e felicidade de Judy, tudo, até mesmo quando fingiu ser descendente de franceses para ter acesso a algumas coisas. Esse era seu trabalho como historiadora, e ela o fazia bem.
— Em 1797 temos uma certidão de nascimento: Rodolphe Vastine. Filho de Emma e Jean. Mais tarde, foi esse Rodolphe que vendeu o Lune Rouge, em 1877.
— 1877... O Oliver já teria mais de 100 anos.
— Os rastros acabam aqui, não se sabe muito sobre o comprador, e também não achei que valeria a pena investigar seu nome. Rodolphe já tinha 80 anos quando efetuou a venda, certamente seus pais já estavam mortos. E posso garantir que ele foi um homem que viveu bem, pois achei o registro de duas vendas de bebidas em seu nome.
— Então o Lune Rouge sobreviveu mesmo, e Emma o teve a vida toda!
A melhor parte chegou.
— Encontrei seu Oliver através de um detalhe, a certidão de casamento de Emma teve como testemunha do matrimônio um tal de Oliver LeBlanc. E, mais tarde, Emma Vastine também foi testemunha de um matrimônio.
— Como assim?
— Em 1798, Emma Vastine foi testemunha da união de Oliver LeBlanc com sua esposa, Laurete LeBlanc. Então segui mais pistas, não sei o que aconteceu com eles em questão financeira, mas os dois tiveram filhos.
Judy não sabia como se sentir em relação a isso, deveria estar feliz por saber que Oliver ficou bem, que teve uma família e não morreu de fome durante os conflitos. Mesmo assim, uma pontada de dor insistia em dominar seu coração, sem que entendesse o motivo.
— Então Oliver se casou e teve filhos...
— Antoine LeBlanc... E Judy LeBlanc, a mais nova.
— Judy LeBlanc? — Sobressaltou-se a garota, aproximando o papel do rosto para ler melhor.
— Judy Anne LeBlanc, 03 de dezembro de 1802! Só pode ser o seu Oliver.
— Ele deu o nome da garota do futuro para a filha. — Judy sorriu, fechando os olhos para relembrar o rosto do amigo, aquele sorriso que nunca pareceu distante em suas lembranças. — Ele chamou sua filha com meu nome.
— Sim!
Ava deu um tempo para ela digerir as informações, não era boa em compreender sentimentos.
— Você está feliz?
— Durante todos esses anos eu me perguntei se ele sobreviveu, se ficou bem. Quero dizer, eu sei que ele morreu. Poxa! Estamos em 2024. Mas se ela casou e teve filhos, isso significa que construiu uma família, que foi feliz. Saber que o Lune Rouge continuou por vários anos em posse de Emma também me alegra, tenho certeza que ela o amparou.
— Está bem mesmo? — Insistiu, pousando a mão sobre o joelho dela.
— Emocionada por ele ter dado meu nome à filha.
— Você nunca esqueceu ele, acho justo ele também nunca ter esquecido você.
Agora ela podia seguir, seguir o fluxo normal do tempo, sem voltar, sem paradas. Sem pensar durante longas tardes se o amigo morreu de fome em uma sarjeta. Judy podia enfim continuar, viver no presente. Uma lágrima escorreu por sua bochecha, uma última lágrima por Oliver, que foi substituída por alegria sincera.
No final, tudo ficou bem. Ela também queria que ele soubesse que sua garota do futuro sobreviveu e voltou para casa, mas isso seria impossível.
— Olha, se você quiser posso pesquisar mais sobre essa Judy Anne LeBlanc. Eu achei que não seria necessário, é que na maioria das vezes só chegamos a certidões de nascimento e casamento, entende? E mesmo essas são difíceis de conseguir. — Ava adiantou-se em dizer, percebendo o embaraço da amiga.
— Não precisa. Isso é suficiente. Tudo bem se eu ficar com essas cópias?
— Claro!
Indo até o carro, Judy soltou as folhas no banco traseiro, pegou Bastet no colo e a mostrou para Ava.
— Sim, é a mesma gata da sacerdotisa que nos perseguia.
— O quê!?
— Ela veio comigo, é uma longa história, Ava. Se você entrar no meu carro, podemos tomar um sorvete. Você me conta todas as suas aventuras no tempo e eu te conto as minhas, sempre tive curiosidade quanto aos guerreiros Astecas.
— Ah, sério? — A garota riu, sentando-se no banco ao lado da motorista logo após Judy pegar o volante. — E eu quero saber se você surtou e tentou provar aos médicos que viagem no tempo existia.
Com uma gargalhada divertida e meio desesperada a garota deu partida no carro, ligou o rádio. Tocava uma velha música da Melanie Martinez. Sua cantora favorita.
— Tem uma sorveteria aqui perto, vi quando passei.
— Quanto tempo nós temos para conversar?
— Até o fim do mundo, ou até a próxima revolução.
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