Capítulo 21

10 de junho de 2018, lago Odyssey, 3 horas após a primeira viagem.

Antigamente, quando Judy ainda não estava atrasada em relação aos seus colegas e passava de ano às custas dos amigos e subornando outras crianças com balas Fini, o lago Odyssey era um agradável espaço de entretenimento, onde as famílias montavam piqueniques, estendendo toalhas quadriculadas no chão, fingindo que não se odiavam e contando fofocas sobre os parentes que ousaram faltar a tão sincera confraternização. Também era um espaço onde se podia passar uma tarde com bons livros, fazer baderna com caixinhas de som, brigar, namorar, assinar acordos hipotecários. Nesse tempo, os patos viviam por lá, batendo suas patinhas alegremente por baixo da água cristalina, emplumadas aves fofas, para quem velhinhos jogavam lascas de pão.

Em 2018, o lago Odyssey não tinha mais patos. Morreram. O século XXI era uma época um tanto quanto sombria e difícil. Os velhinhos jogaram mais pão do que eles suportaram comer, porque sentiam-se sozinhos e precisavam sair. A toalha quadriculada, a casca da melancia, a cesta de frutas que cedeu ao peso no meio do caminho, a caixa de música quebrada e os deveres negligenciados de Judy Henderson afundaram e afundaram até que a poluição levasse todos os patinhos embora.

De todas as histórias que o lago presenciou, desde os anos de ouro até a degradação total de seu espaço, nada tão grandioso como uma viagem no tempo havia acontecido ali.

Isso não é importante, o pobre lago não tem culpa. Lagos não são seres conscientes ou mágicos, achamos, e se ele fosse, não teria enviado Judy aos confins da pré-história só por uma ou duas folhas de papel almaço que se diluíram na água. Mas, por algum motivo, foi lá que ela desapareceu e reapareceu, três horas depois, aproximadamente às 00:30 da noite.

Semiconsciente, Judy passava por segundos de atordoamento e tontura antes de surtar. Ela abriu os olhos devagar, e a primeira coisa que viu foram os grandes olhos verdes e curiosos de Akibet, que por acaso havia seguido a menina e sido enquadrada pela câmera, saindo de sua aconchegante e respeitável vida no Egito antigo direto para o século XXI. Para sua sorte, algumas pessoas ainda adoravam gatos nessa época.

— Onde estou? Quando estou? — Com bastante esforço, Judy conseguiu sentar-se. O choque térmico a estremeceu, teria vomitado os próprios órgãos, caso fosse possível. Voltou os olhos para o céu, sentiu falta das estrelas, do braço da Via-Láctea já não visível, culpa da poluição visual. — Bombas, guerra, Alemanha! Bombas! Bombas, por toda a parte...

A buzina de um carro a despertou, o coaxar de um sapo, um miado despreocupado de Akibet. Sem bombas, apenas escuridão e silêncio.

— Será que estou no laguinho? — Suas expectativas confirmaram-se, um sorriso maluco brotou em seu rosto e ela gargalhou até as bochechas doerem.

Chorou, sem acreditar que havia mesmo vivido tudo aquilo, mais parecia uma daquelas séries de humor que seu pai gostava, nas quais crianças desastradas faziam travessuras e aprendiam uma importante lição de moral. Cogitou que fosse um sonho, mas tudo que viveu com Oliver e Ava era tão real e palpável quanto o celular totalmente descarregado em sua mão.

O celular, o maldito e energúmeno celular. Judy ficou de pé imediatamente, jogou-o no chão, fez o impensável, o que nenhuma criança ou adolescente da tal geração Z faria em perfeito estado mental. Pisou nele, pisoteou até a tela se despedaçar, até os pedacinhos do aparelho se espalharem sobre a grama. Pulou em cima, quase reduzindo-o ao pó, gritava de raiva. Era tudo culpa dele.

Quando teve certeza que aquele maldito jamais enviaria ninguém ao passado, recolheu os estilhaços com as mãos, cortando-as com o vidro da tela e pedaços pontudos, despejando tudo no lago, só para ter plena certeza de que ninguém iria varrer para qualquer lugar os fragmentos do objeto amaldiçoado, que apodrecesse para sempre embaixo da água suja. Depois de tudo isso, Judy se ajoelhou, estendendo as mãos feridas à frente do corpo.

Naquela hora, sua família, reunida na casa de Joseph, ligava para os parentes, amigos, brigava com a polícia, desesperados pela sua falta. Ela colocou tudo para fora, e quando sentiu-se pronta para ficar de pé novamente, deu atenção a Akibet, que esperava pacientemente sua nova dona voltar a si.

— Espere... Você não veio. — Os olhos verdes não enganavam, Judy sorriu. — Como era mesmo o nome da deusa egípcia com cabeça de gato, a Ava contou.. Bastet, não é? Obrigada por me acompanhar, Bastet.

Bastet recebeu o novo nome com um miado satisfeito, e seguiu Judy até a rua iluminada pelos postes. A lamentável cena se seguiu: uma garota suja e debilitada, viajante do tempo, trajando uma túnica egípcia de milhares de anos, mãos ensanguentadas, uma gata preta a seguindo, os tênis vermelhos com os cadarços desamarrados arrastando pela rua. O pequeno Harry Miller a viu, o menino de cinco anos dos vizinhos, que teria que ver vários psicólogos mais tarde para tentar se livrar dos pesadelos da fantasma de branco. A senhora Diaz também a viu, e o testemunho da idosa iria colaborar para a criação da lenda urbana local: a menina de branco. Um canal no Youtube faria um vídeo, explicando de forma sensacionalista que o espírito de uma criança que foi afogada no lago Odyssey saía em algumas noites com as mão ensanguentadas, em busca de vingança. Mas é claro que a história real era bem mais complicada que isso, e teria rendido mais visualições nas postagens na internet sobre a falsa lenda.

Joseph ligou para os pais, contando que a irmã havia ido até sua casa tarde da noite, os dois saíram angustiados em busca da filha. Não a encontraram. O pai culpou-se por ter ameaçado a menina com o colégio interno, se arrependeu. A polícia recusou iniciar uma busca, pois não poderia notificar um desaparecimento em apenas 3 horas. A mãe tinha certeza que a filha fugira para longe, amedrontada, com raiva. Por fim, foram para a casa de Joseph investigar sozinhos, já que havia sido o último lugar em que foi vista. A porta da casa foi deixada aberta, caso voltasse de surpresa.

Nenhuma mensagem de Judy chegou para os pais, pois ela destruiu o smartphone antes mesmo que ele se conectasse à internet em 2018, seja enviar mensagens ou salvar fotos do passado na nuvem. De qualquer forma, embora os físicos e engenheiros ainda não possam constatar e escrever artigos científicos sobre o caso, não é possível enviar uma mensagem da idade da pedra para 2018 e esperar que ela resista ao caminho. Ela entrou em casa, passou pela cozinha direto pro quarto, chamou a família e não obteve resposta.

— E se eu voltei a época errada? — Quase desmaiou só de cogitar tal possibilidade, mas quando viu o calendário na geladeira e o cachorro dormindo preguiçosamente sobre o tapete, respirou fundo, tudo estava no lugar.

O ano poderia estar certo, mas e quanto a data e hora? Buscou o relógio, não lembrava de quando tinha viajado. Na verdade, sentia vontade de quebrar o relógio e qualquer coisa que a lembrasse da palavra "tempo."

— Não devíamos ser tão duros com ela! — exclamou o pai. — Foi tudo minha culpa, faltou compreensão e cuidado.

— Pai? — Chamou baixinho, a voz falha.

— Você tem razão, nossa filha fugiu — a mãe falou entre soluços. — Ela estava muito apavorada e coagida por nós.

— Mãe?

Quando viram a situação da criança na porta do quarto, os dois desabaram. A mãe se jogou e abraçou a filha, o pai levou as mãos à cabeça, chorando. Mil coisas lhe passaram pela mente, mil situações terríveis pelas quais sua menina deveria ter passado.

— Minha filha! O que aconteceu? — perguntou a mãe, tremendo ao ver o sangue nas mãos da criança. — O que te fizeram? Onde esteve? Alguém te machucou?

— Não... Eu viajei no tempo, mãe.

— Judy! — O pai juntou-se ao abraço. — Me perdoe, por favor, me conte tudo.

— Eu viajei no tempo, idade da pedra, revolução francesa e Egito antigo.

A mãe nem mesmo conseguia entender as palavras da menina, apenas a apertava contra o peito, feliz por revê-la. O pai, preocupado com o que poderia ter acontecido, insistiu.

— O que aconteceu?

— Eu pensei que nunca mais fosse ver vocês... – O pranto de Judy recomeçou, e logo Joseph entrou na casa, respirando fundo, aliviando-se de um peso enorme no coração por não ter ajudado a pequena irmã antes.

— Judy, o que aconteceu!?

— Eu viajei no tempo, estou dizendo, pelo celular... Viajei pela câmera do celular.

Joseph pousou a mão gentilmente no ombro do pai, entendia as preocupações. Ela desaparecera por três horas, e agora ali estava após claramente ter sofrido um bocado, delirando.

— Tenha paciência com ela, vamos até o hospital e chamar um policial, não force a barra ainda.

O médico solicitou todos os exames e Joseph conseguiu uma maca em um quarto para Judy no hospital, todos amedrontados com a possibilidade de traumas graves. Ela não parou de balbuciar sobre viagens no tempo, Oliver, Ava e todas as histórias malucas que vivenciou. Mostrou uma extrema aversão por aparelhos tecnológicos, como a máquina de medir pressão, e chorou copiosamente quando a mãe lhe mostrou o aplicativo de mensagens, provando que nenhuma foto, áudio ou mensagem havia chegado até ela.

O doutor apresentou o resultado dos exames aos pais.

— Não há sinal de nenhum tipo de agressão física, o corte nas mãos foi feito por vidro, provavelmente por algum objeto que ela mesma segurou, como pedregulhos. Os níveis de cortisol estão alterados, os músculos cansados, como se tivesse corrido muito.

— Você fugiu de alguém? — perguntou o pai. A garota já estava banhada e vestida com uma bata de hospital, no pequeno quarto aconchegante com cortinas floridas e adesivos de animais nas paredes, típicos da ala pediátrica.

— Corri muito dos revolucionários.

— Ela está em choque — disse o médico.

— Meu amor, alguém te levou pra algum lugar longe e você teve que fugir?

A ausência de respostas levou a mãe ao choro novamente, e somente a garantia do médico da inexistência de traumas físicos a consolou.

— Quem te deu aquele vestido branco?

— Uma moça egípcia.

— Senhores, eu recomendo que não a pressionem agora. Sua filha deve falar com um psicólogo.

— E com a polícia! — a mãe gritou. — Para mim está claro que algum maníaco a sequestrou e ela fugiu. Judy, você consegue falar com a polícia agora?

— Mamãe, o mundo acaba em 2020.

— Se insistirem em incomodar a paciente, terei que pedir que se retirem. Entendo sua posição de mãe, mas nada do que ela diga agora fará o menor sentido.

Os dois assentiram, abraçaram a filha e tentaram acalmá-la. Ficou combinado que após descansar a psicóloga hospitalar conversaria com ela. Em nenhum momento durante aquelas primeiras horas, ocorreu a Judy que seus relatos eram ridículos, que ninguém jamais acreditaria nela. A felicidade que sentia por rever os pais se equiparava com a urgência de provar a verdade sobre seu sumiço. Ela dormiu e sonhou com Oliver, com o Lune Rouge e a queda da bastilha.

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