Capítulo 20
Ava e Judy esperaram por horas algo interessante acontecer nos arredores. Era certo que um evento importante se aproximava, as dançarinas se empenharam, Nadi juntou-se a elas. Com avidez, todo o povo se ajuntava com banquetas e cestas de pétalas, trajados em suas mais belas roupas para verem o faraó.
As meninas não encontraram nada para comer, um dos homens tentou afastá-las, preocupado com seus cabelos e possíveis infestações de piolho. O tempo passou, e com exceção das viajantes, já acostumadas com suas brincadeiras, alguns começaram a se retirar entre o meio da tarde.
— Ava, o que vai acontecer em 2020? — Judy questionou. — Não vai fazer diferença que me diga, eu acho. Preciso saber se minha família ficará bem.
— Eu não devia ter contado de 2020 para você. — Lamentou-se, estalando os dedos para aliviar o estresse — Não foi certo.
— É um apocalipse nuclear? Um evento de extinção em massa?
— Acho que 2020 foi um grande evento... Tantas coisas. Mas a raça humana não entrará em risco de extinção.
— Existe a possibilidade de eu perder alguém?
— Sim.
Judy cruzou os braços extremamente zangada. Pensou em Oliver, em como ele podia ter se sentido quando ela lhe contava sobre a revolução francesa sem fornecer informações úteis. A diferença é que Ava sabia muito bem o que aconteceria em 2020, só não queria falar.
— Como acha que vou viver em 2019 sabendo que o mundo está caminhando rumo aos seus últimos dias!? — Gritou. — Você é cruel, extremamente cruel!
— Certo, preste atenção: apenas fique em casa junto com seus parentes. Nada de aglomeração e... Use máscara e álcool em gel. Se tiver cuidado e aguentar firme até 2021...
— Máscara? — A imagem que veio a imaginação da menina foi a de uma imensa máscara de gás, como de filmes de terror. — Contaminação radioativa?
— Não, nada de nuclear, já disse.
— Uma doença? Um vírus que se espalha pelo ar?
O olhar que Ava lhe lançou respondeu tudo, o coração da criança disparou e cenários horríveis lhe ocorreram. Se pudesse, usaria seu celular para teletransportar-se com todos que ama para lá, o Egito, ou até mesmo a idade da pedra. Parecia mais seguro que seu próprio lar. Arrependida, Ava tomou uma de suas pequenas mãos.
— Todas as épocas têm seus defeitos, nós tentamos apenas superar os problemas.
— Quando acaba? — Judy perguntou bruscamente, recolhendo sua mão.
— Em 2021 a vacinação...
Um rebuliço aconteceu entre o agrupamento de pessoas próximas ao templo, todos se aceleraram, alguns correram em determinada direção. As meninas ficaram postas, prontas para uma confusão, qualquer coisa. Sacerdotes saíram de dentro da estrutura sagrada carregando estátuas de cinco deuses e pondo-as uma ao lado da outra, formando um círculo. Ava reconheceu-os, ao contrário de Judy. As sacerdotisas se organizaram em duas fileiras e dançaram lindamente, ganhando palmas. Nadi apresentava-se belíssima, seus profundos olhos negros cruzaram com os de Judy, trocando com ela um sorriso pequeno. Ela devolveu-lhe o celular em um momento de fragilidade, a menina não esqueceria.
O sol já descia velozmente no horizonte, um vento frio arrepiou a pele de todos, contudo, o medo da noite não os impediu de continuar no lugar para ver o faraó. Uns correram para buscar seus gatos e garantir a proteção. Os primeiros do cortejo que se aproximaram foram os guardas, depois mulheres com estatuetas de gesso nas mãos, crianças acenando e mais soldados armados até os dentes. O faraó e a grande esposa real pareciam duas grandes peças de museu, feitos de plástico, com mais joias e maquiagem do que parecia ser possível um corpo sustentar. Estavam sentados sobre uma espécie de carruagem grande e aberta, com seis rodas, puxada por um único cavalo branco e forte. Poderiam muito bem serem confundidos com estátuas, tendo em vista aquele porte surreal e o brilho dos enormes colares incrustados de pérolas e safiras.
Um dos guardas se dirigiu ao sumo-sacerdote, informando-o que a passagem do grande rei seria rápida por conta da noite, e que partiriam para um dos seus palácios imediatamente. O soberano foi presenteado com grandes pacotes embrulhados, tocou a cabeça de alguns bebês e cruzou dois cetros em sua mão, murmurando algo como uma benção. Todos vibraram de alegria.
— Acreditam que ele é um deus. — Ava sussurrou no ouvido de Judy, as duas ignoradas e esquecidas entre a multidão. — Um deus vivo sobre a terra.
As sacerdotisas se empenharam em uma dança elegante, calma e linda, com movimentos graciosos e impecáveis, como experientes artistas. Alguns se ajoelhavam perante o homem, chorando de emoção. Judy só conseguia achar aquele chapéu listrado em sua cabeça — a coroa —, engraçado e medonho.
— Isso parece importante, não é? Vamos fazer logo algo que mude a história — sugeriu, ansiosa em conseguir viajar para casa.
— O que recomenda?
— Jogar uma pedra gigante na cabeça dele. Acho que uma mudança de reinado é importante para a história.
Ava a empurrou, não pretendia explicar como seria altamente grave e indecente matar o deus daquelas pessoas. Sem contar que seriam exibidas em forcas na praça pública, não teriam nem dois segundos para escapar
— Nem preciso te explicar os motivos que tornam esse plano ridículo!
As damas intensificaram o ritmo da dança, dirigindo-se agora às estátuas dos deuses, a expressão indecifrável do faraó não mudou. Ava viu claramente quando um rapaz negro se aproximou do cortejo, tocando uma harpa gigante que era carregada por dois outros homens, fez uma linda melodia angélical. As engrenagens de sua mente giravam e giravam, se isto fosse um desenho animado, suas orelhas chiariam, despejando fumaça. Trabalhava em uma ideia.
O céu assumiu um tom alaranjado crepuscular lindíssimo, sendo iluminado por lapsos de luz de onde antes estava o sol. Ela se virou para Judy, um sorriso enorme, agitado, quase pulando de alegria.
— Sei como podemos criar um paradoxo. O que... — Ela franziu o cenho, a menina segurava Akibet, com seus grandes e vívidos olhos esverdeados.
— Ela estava esfregando a cabeça na minha perna, acho que me ama.
— Ótimo, isso nos dá uma dica!
— Como assim?
— Ligue o seu celular e escolha uma música da sua playlist.
Judy assentiu, largando a gata no chão. Não fazia ideia do que Ava queria.
— A bateria está fraca.
— Tem que dar certo.
— Ava, me explica por favor!
— A característica mais marcante da cultura egípcia é sua religião. Da arte à arquitetura, tudo que eles fazem é voltado aos seus deuses.
— E daí?
— Vamos usar isso. Escolha uma música da sua playlist e toque no volume mais alto.
— É para mudar a história mundial? Nossa qual música você escolheria para marcar o mundo?
— Precisamos nos aproximar o máximo possível do faraó.
Com empurrões — e chutes — as duas foram para o lado esquerdo do rei, logo atrás da estátua da deusa Bastet, há alguns metros de distância. Ver Akibet deu essa dica a Ava, e ela compreendeu que deveria escolher a deusa com cabeça de gato, embora Osíris pudesse causar bem mais impacto entre os egípcios.
— Já escolheu a música, Judy?
— O que vamos fazer?
— Efeito borboleta, querida, mas se der certo esta borboleta será uma garça. Asas maiores, entende? Esse cortejo nunca será esquecido.
Uma vertigem atingiu Judy com força, sua vista escurecendo. Cansada após passar várias horas sem comer ou beber, a menina sofria as consequências. Não era forte, decidida, jamais teria aquela ideia sozinha. Talvez por isso o tempo as juntou, naquele contexto Judy precisava muito de Ava, e o Egito precisava de dois celulares; um ainda com bateria suficiente para ligar a lanterna, de preferência.
— Aperta o play!
A música que Judy escolheu para mudar o mundo foi Milk and Cookies da Melanie Martinez, porque era sua cantora favorita do futuro e de todos os tempos. Ela aumentou o volume até o máximo enquanto Ava ligava a lanterna do seu próprio smartphone apontando a luz para a estátua da deusa Bastet. Todos exclamaram, surpresos, o material com o qual a estátua foi fabricada brilhou , a luz cálida dos últimos raios solares, fraca na iminente escuridão, permitiu isso. Abismado, o faraó deixou seus cetros caírem e escancarou a boca, as sacerdotisas se amontoaram e abraçaram-se, a graciosa esposa real jogou-se de joelhos, erguendo os braços.
Fizeram silêncio para ouvir a música, logo, todos se prostaram ante Bastet, e o fato da noite ter chegado reforçou a ideia de que, o que ela fazia, era um ritual de proteção aos pobres humanos. As pernas de Judy cambaleavam enquanto Melanie Martinez cantava seu hit para todas as pessoas antigas, a voz gravada no celular. Ava contou de um até 20 antes de desligar a lanterna, alguns egípcios procuravam a fonte da luz, tendo passada a admiração inicial pelo brilho da deusa, outros já a encaravam. Com um gesto da mulher, Judy desligou também sua música.
— Está consumado. Vamos.
— Espere!
— Judy...
O clamor era geral, pessoas gritavam, choravam, rasgavam suas vestes por terem visto tamanha apreciação divina na presença do faraó. A grande esposa real desmaiou e ninguém se importou.
— O efeito borboleta pode mudar o mundo, não é? Será que ele também pode mudar somente o mundo de uma pessoa, sem causar estragos ou grandes revoluções?
— Do que está falando? Precisamos ir.
— Aponte a lanterna do celular para aquela garota. — Mostrou-lhe Nadi, que se jogara ao chão adorando Bastet e clamando. — Só dois segundos, por favor. Ela é importante, viajei por diferentes séculos e civilizações, e não conheci ninguém que não fosse importante.
— Está bem.
Quatro segundos. Ava ficou na ponta dos pés e apontou a lanterna para Nadi, que gritou e chorou de tanto júbilo quando aconteceu. As garotas deram as mãos, ambas segurando firme os celulares. Correram, a missão foi cumprida.
Pararam já próximas do rio Nilo, no mais profundo breu. O clamor da população ainda era ouvido ao longe. Sem enxergarem uma à outra, as duas sentaram à beira da água, sob a lúgubre iluminação das estrelas. Estavam conscientes de que podiam usar a câmera e tentar viajar em sua melhor chance. O alvoroço foi realizado com sucesso.
— Ela foi gentil comigo, pensava que eu era especial — Judy justificou-se. — Só queria agradecer por tudo, saber que ela será feliz e admirada...
— Isso foi legal.
— Bom, agora já podemos ir?
— De acordo com minha teoria das viagens estarem relacionadas as notas das provas, sim.
— Ou eu posso ir para qualquer época e lugar. Isso seria terrível — lamentou-se Judy, contendo um soluço. — Odiaria acordar na Alemanha nazista.
— Precisamos tentar.
Por alguns momentos, a respiração das duas somada ao barulho longínquo e o calmo passar de águas do rio, foi o único som. O céu era uma obra de arte, assim como na idade da pedra, várias constelações podiam ser percebidas, ou melhor, não podiam, tudo era uma perfeita bagunça de estrelas. Um punhado de açúcar jogado sobre um tecido preto exibiria menos pontinhos brancos que aquele céu.
— Não tenha medo de 2020...
— Atualmente estou com medo de 1939, se é que me entende.
— Ei, você sabe as datas da guerra! — Ava gargalhou, dando tapinhas em seus ombros — Significa que não é tão burra em história.
— Aprendi em um game.
— Quando fizer sua prova em 2018, vai arrasar. Aprendeu bastante com as viagens.
— Suspeito que reprovar seria melhor.
O riso das duas era triste, amedrontador, principalmente o de Ava.
— Vou para a Roma antiga, pelo menos você tem uma chance de reencontrar sua família.
— Volto pro exato ponto do qual saí?
— Eu não sei.
— A NASA vai acreditar em mim se eu contar tudo?
— Não, e é melhor ficar calada, ou será internada num hospício. Também não me procure nas redes sociais e nem mande mensagens.
— Como assim?
— 2018... Seu presente é meu passado. Eu ainda estava no ensino fundamental me escondendo de Jenna Rezek e da turma do bullying na sala dos professores. Se você me enviar uma mensagem falando sobre viagem no tempo, vou te bloquear.
— Acho que eu pensaria em fazer isso — Judy admitiu. — Mas eu gostaria de te encontrar outra vez, és a única que me entende.
— Então encontre, em 2024. — Ela pediu o celular de Judy, que desbloqueou a tela, anotou um endereço e uma data no bloco de notas e a devolveu.
— Essa data é de algumas semanas após a minha viagem, eu espero estar lá, de alguma forma. Não vá antes, caso contrário complicará ainda mais o paradoxo. Nem sequer pense em ir me alertar, ou tudo aqui será alterado.
— Já serei adulta... — Judy sorriu, constatando que a cidade de Ava não ficava tão longe. — Então, te vejo no futuro?
— Nos vemos no futuro. Vou esperar por você.
Judy sentiu medo, pois lembrou-se de 2020. Talvez não tivesse um futuro para ver Ava, mas logo afastou esses pensamentos, recorreria a positivismo tóxico, a qualquer coisa. Não queria enfiar sua mente nesse assunto nas vésperas de sua despedida.
— Você é universitária de história, não é? — perguntou, almejando um pedido especial.
— Ironicamente, sim.
— Pode descobrir uma coisa do passado para mim?
— Talvez.
— Eu quero saber o que aconteceu com as pessoas que conheci na França, mas eles são anônimos.
— Documentos históricos servem para isso, se alguém viveu neste mundo após a invenção da escrita e da burocracia, tem algo escrito sobre ele.
— O nome dele é Oliver LeBlanc, infelizmente não tenho muito a dizer. — Se esforçou para relembrar alguma informação sobre o amigo, mas nada tinha. Era só um garoto pobre, órfão. — Emma Gaubert, proprietária de uma hospedaria chamada Lune Rouge em Paris, 1789. Não muito longe de onde ficava a bastilha. É tudo que tenho.
— Pode ser suficiente, estabelecimentos precisam de registros, assim como certidões de casamento, nascimentos... Vou fazer o que posso, Judy.
— Obrigada.
— Bom, é melhor você ir antes que a bateria acabe.
— Sim... Como está sua bateria?
— Digamos que fui mais prudente quanto ao seu uso. Agora vou te iluminar para que bata a foto... Boa sorte.
— Te vejo no futuro.
A luz da tela do smartphone de Ava iluminou a garota e ela ergueu seu próprio celular, abrindo a câmera. Nenhuma das duas tinha certeza, tremiam, quase choravam. Judy fechou os olhos com força, clicou na tela e sumiu, o paradoxo se realizou. Ava gritou, saltou e começou a rir, feliz pela criança, imaginando-a ao chegar em casa.
Não sabia com total convicção se ela não iria mesmo aparecer no meio da Alemanha nazista, mas preferia pensar o melhor. Esperou mais um pouco para bater sua própria foto, tentando reunir mentalmente o máximo de informações que lembrava sobre a Roma antiga.
No Egito, as coisas mudaram.
Agora, os gatos seriam mais adorados do que nunca, Bastet considerada a deusa da música, mais adorada e estimada, os gatos ganhando fama.
É realmente uma grande pena que o desenho da garota segurando um retângulo negro mágico tenha sido soterrado ao longo dos séculos, junto com o desenho da garota de cabelos azuis. Talvez, um dia, um arqueólogo os encontre.
Quanto a Nadi, podemos dizer, foi uma das grandes sacerdotisas de Thóth e Bastet. E ela mudou o mundo sim, de diversas formas. Pequenas gentilezas e diferenças, como apresentar Tafnis a um dos príncipes egípcios que seria seu marido, tornando-se melhor amiga da irmã.
O pai tratou-a com respeito, e ela nunca esqueceu da mensageira divina que os deuses lhe mandaram.
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