Capítulo 15

Egito, 2480 A.C.

Judy não queria ter viajado naquele momento. Quando abriu seus olhos estava estirada no chão, em um piso de pedra branca dentro de alguma estrutura, já que não enxergava muita luz. Seu primeiro ímpeto foi o de chamar Oliver, depois, levantou-se, queria ver algo, entender onde e quando estava.

Egito, guerra, casa. Várias coisas passavam bagunçadas por sua cabeça sem qualquer raciocínio lógico, apenas dúvidas e constatações vagas e desordenadas. Ia gritar, chorar, mas a voz ficou presa em sua garganta quando uma mão grande tapou sua boca e a puxou para trás de um grande bloco de pedra amarelada. Seus gritos foram abafados, tentou se soltar, seja lá qual estúpida e maldosa pessoa a havia atacado. Largou o celular para proteger a vida, tentou arrancar a mão que cobria sua boca e agitou as pernas o máximo que pôde para fugir. Se fosse para morrer ali, preferia ficar na França com Oliver e Emma eternamente.

— Eu vou te largar agora — uma voz feminina falou perto do seu ouvido em um sussurro e Judy, surpresa, até cessou as tentativas de fuga.  Pessoa falava em seu idioma. — Por favor, não faça escândalo.

A garota puxou o ar com força quando foi liberta, sentindo um alívio enorme. Arrastou-se pelo chão e agarrou o celular novamente. A pessoa que lhe pegou era uma mulher adulta, corpulenta e de feições avantajadas, cabelos coloridos de mechas azuis como o céu. Os olhos castanhos espreitavam tudo ao redor, cautelosa O que lhe chamou atenção foram as roupas: uma saia rosada na altura dos joelhos, tênis colegiais e jaqueta jeans decorada com bottons diversos no peito. Seu coração explodiu em alegria, estava no futuro.

— Venha, venha cá. Oh, claro! Você não consegue me entender...

A garota fez um sinal com a mão para Judy se aproximar, e para sua surpresa ela obedeceu. As duas se encolheram atrás do pedestal da estátua, não prestaram atenção nos desenhos entalhados, ou mesmo nas outras estátuas medonhas ao seu redor. Tremiam demais, as viagens foram abruptas, cansativas.

— Onde e quando nós estamos? — Judy perguntou após alguns minutos torturantes, arrancando um sorriso da mulher.

— Você me entende?

— Sim!

O sotaque era um pouco pesado, diferente, mas indiscutivelmente a moça de mechas azuis e jaqueta falava inglês como ela. As duas se olhavam, incrédulas. Ambas pensavam que eram as únicas no mundo passando por tais situações.

— Eu vi... Estava aqui escondida, te vi aparecer com o celular.

— Quando e onde nós estamos? — Insistiu. Queria saber logo a boa ou má notícia.

— Egito, tenho certeza. Não sei o ano.

Assentindo, Judy observou o local com mais atenção. O pedestal em forma de bloco às suas costas possuíam desenhos entalhados, figuras egípcias com aqueles típicos personagens de vestes brancas e braços retos. Notou que o ambiente, pouco iluminado, possuía muitos outros pedestais como aqueles, estátuas assustadoras. Pequenas mesas cobertas por toalhas de seda continham frutas, flores e outros sacrifícios aos deuses. Escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar descompassada.

— Ei, tudo bem. É sua primeira vez? — A garota deu tapinhas em suas costas em um gesto de consolo.

— Não.

— Eu sou Ava, Ava White. Muito prazer. Também é do futuro?

— Me chamo Judy, já não sei mais de onde sou!

Ava tentou acalmá-la, passos foram ouvidos ecoando pelo templo de adoração, e ele teve que implorar para Judy se calar. Sua última experiência foi surgir misteriosamente em um zigurate da civilização asteca, situação nada agradável. Por isso, não pretendia ser considerada novamente uma aberração ou saqueadora que invadia templos politeístas sagrados.

O vestido de Judy dava-lhe uma dica de que vinha de outra viagem, outro ponto da história. Não era sua primeira vez, de forma que não se ocuparia tanto explicando aquele absurdo. Não esperava encontrar outro viajante, ainda mais uma criança medrosa e indefesa. Poderia até ser um problema a mais. Ainda assim, era um pouco reconfortante saber que não era a única no mundo.

— Eu também sou de 2024. Não se preocupe, formulei algumas teorias e acho que vamos conseguir voltar.

— 2024! — Desta vez ela não seria a garota do futuro, como Oliver a chamava. Seria do passado.

Oliver. As lágrimas salgadas voltaram a escorrer por suas bochechas ao lembrar do amigo.

— Por favor, faça silêncio — Ava pediu. — Não sabemos quem são essas pessoas, podem nos matar.

A sacerdotisa fez uma reverência a alguma das estátuas, arrumou a bandeja de framboesas e uma vela num pratinho dourado, afastando-se.

Uma das pesadas cortinas de mandalas foi afastada da janela e a luz do sol adentrou o local, permitindo que as duas forasteiras se vissem melhor. Quando consideraram mais seguro, voltaram a conversar em tom baixo.

— Acho que está um pouco adiantada, eu venho de 2018.

— Nossa, isso torna tudo ainda mais confuso.

— Na verdade, há algumas horas eu estava presenciando a queda da bastilha, lá na revolução francesa.

— Estive fugindo de um grupo de guerreiros astecas furiosos.

Elas se entendiam. Sabiam tudo e todas as emoções de se viajar no tempo.

— Por que isso está acontecendo? 

— Eu não sei.

Nadi, a jovem sacerdotisa, uma das esposas humanas do Deus Thóth, abriu as portas do templo de adoração. Um grupo de servos fiéis saudaram-na em seu idioma, que Judy considerou mil vezes mais estranho que o francês. Uma língua antiga demais, o google tradutor não auxiliaria.

— Temos que sair daqui. Vamos aproveitar que abriram a porta. Quando todos passarem nós vamos, está pronta?

— Acho que sim.

O plano das duas foi por água abaixo, pois escondiam-se justamente por trás da estátua do grande Thóth, com sua cabeça de ave, o íbis sagrado; Deus a quem Nadi prestava adorações diariamente. Ela deu a volta pela escultura colorida de bico longo e curvo. Uma obra de arte produzida na época, assustadora para as garotas do futuro. O olhar das três se cruzaram, Ava levou as duas mãos aos lábios, pronta para correr.

— Akibet?

No Egito antigo, as pessoas eram extremamente ligadas à religião, um espetáculo de arte e cultura. O gato era um animal sagrado, representantes da deusa Bastet na terra. Tinham a crença de que os felinos protegiam humanos de forças malignas, por isso eles foram adorados como senhores dignos de glória. Um egípcio não saía a noite sem a companhia de seu gato protetor. Temiam Apófis, o Deus e senhor do caos, governante da escuridão. 

Akibet, a gata preta e protetora de Nadi, dona de grandes olhos verdes, simplesmente balançou sua cauda, ronronou e acomodou-se no colo de Judy, uma completa estranha. Ava ficou de pé, pronta para correr.

— O que vocês querem? — Nadi perguntou. — Por que ela está te protegendo e o que fazem no templo sagrado?

Judy achava que a voz da moça soava como um garfo arranhando um prato de porcelana. Ela afastou Akibet, ficando de pé também. Preparou-se para usar sua melhor arma, ligaria a lanterna do celular bem no rosto da jovem. Sempre funcionava. Num pé e noutro, Ava dividia-se entre empurrar os outros sacerdotes e ir embora ou esperar a reação de sacerdotisa.

Quando Akibet começou a dar voltas ao redor das pernas de Judy, Nadi teve ainda mais certeza de que as duas tratavam-se de protegidas da deusa Bastet. Ela era uma mulher de pele escura, maquiagem forte nas pálpebras e delineado exagerado. Seus braços estavam repletos de pulseiras douradas, e um colar de ouro e ametistas adornavam o pescoço, muito ouro e joias em somente um corpo, até mesmo nas pontas da peruca. Analisava com suspeitas as roupas das estranhas. Judy pelo menos trajava um vestido longo, enquanto Ava mostrava as pernas descaradamente. Uma indecência no templo sagrado. Mas e os cabelos azuis? Quem em todo o mundo dos vivos teria cabelos azuis? Será que a poderosíssima deusa Ísis abençoou sua cabeça com as águas sagradas do Nilo?

— São estrangeiras?

A troca de olhares não se prolongou mais, pois a traumatizada universitária, Ava, foi perseguida por guerreiros astecas furiosos e não iria arriscar sacerdotes egípcios.

— Corra pela sua vida!

As duas voaram como dois raios para fora, passando por todos os senhores que viraram as cabeças para ver. A luz do sol as atordoou quando saíram, mas não pararam. Tropeçando, Ava segurou o pulso de Judy para não separar-se dela. Os tênis das duas enfiavam-se na areia suja, dobravam-se. Era impossível não chamar atenção com as roupas e o desespero. Passaram por um amontoado de barracas, onde senhores carecas vendiam tecidos, joias, comida e animais.

Ava, que não era burra e já tinha literalmente corrido bastante através dos séculos, surrupiou um cacho de uvas para não morrer de fome, cacho este que perdeu quando, apesar das advertências de Judy sobre o caminho, tropeçou em um bode.

— Pare! — Judy implorou. Não aguentaria ir muito mais longe. Seu rosto ardia e as pernas latejavam. Nunca sentiu tanto calor em toda a sua vida. — Não temos para onde ir!

Mas somente quando um barulho chamativo de água corrente apareceu, as duas pararam, cada uma com seu celular e vários traumas. Se aproximaram da margem do grande rio Nilo, Judy caiu de joelhos quando viu, ao longe, as grandiosas pirâmides de Gizé apontando para o céu. Lindas, magníficas. Em 2018 ainda estariam lá. Ava não deu atenção, correu para o rio para refrescar a garganta. Naquela região, especificamente, não havia ninguém, exceto por umas crianças se banhando do outro lado.

A cidade a sua frente era completa, perfeita, mais interessante que Paris. Casas, pequenos prédios, comércio movimentando e, claro, grandes templos construídos de acordo com a maravilhosa arquitetura da época. Pequenas pirâmides com escadas e portinholas. Era como visitar outro mundo.

— Egito... Tenho uma prova sobre isso dentro de milhares de anos.

— Venha! — Judy engatinhou até a margem, juntando as mãos em uma concha para beber. Ava analisou o celular que ela deixou de lado. — O que falou?

Depois de vários goles e longos suspiros as duas retornaram a conversa.

— Falei o quê?

— Agora, antes de beber.

—  Tenho que fazer uma prova sobre o Egito daqui há milhares de anos.

— Que coincidência, eu também. 

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