Capítulo 08

Emma ouviu tudo que Oliver tinha a dizer com o coração disparado, assustada. Nem um dos dois acreditava na história de futuro e viagem no tempo, mas, diferente de Oliver que buscou uma explicação atribuindo loucura a garota, Emma supôs que ela só podia ser uma bruxa ou o próprio diabo disfarçado de criança.

— Oliver, você é maluco? Como pode trazer uma criatura tão perigosa para nossa casa? — Emma gritou, os dois estavam sozinhos nos fundos da cozinha.

— Eu sei... — ele demorou para encontrar as palavras certas, pois sentiu uma pontada de culpa em decepcionar a amiga. — Veja, ela não é perigosa. Olhe bem para o rostinho, é só uma criança!

— Não se faça de bobo! Ela roubou a minha voz. Você viu bem como ela roubou minha voz com aquele treco maligno. Já viu isso antes? Deus sabe o que ela vai fazer com minha voz agora! — Emma tremia tanto que precisou se apoiar contra a parede, lembrando-se de todos os alertas do padre.

— Tenho uma explicação melhor: ela roubou esse aparelho... Encontrei a Judy em Versalhes, tem bastante gente rica lá que pode colecionar esse tipo de...

— Você está cego, Oliver. Ela já te enfeitiçou. O mal nunca vem com sua cara verdadeira, ou teria ajudado um bicho de chifres que encontrasse caído? Não, senhor. O mal vem disfarçado para enganar os mais inocentes. E qual a melhor forma de se passar por bonzinho se não por baixo da pele de uma criança?

Todas as superstições e temores de Emma estavam corretos para o contexto histórico da época, afinal, o medo descompassado de bruxas e feitiçaria ainda era forte entre a população mais pobre. Ela foi ensinada por seu avô a sempre ajudar o próximo, especialmente nos anos sombrios que seu país presenciava. Por isso oferecia abrigo a Oliver e outras crianças de rua na hospedaria, contanto que ajudassem pelo menos um pouco com as despesas, limpeza e mantimentos do local. Também aprendeu com o vovô Gaubert a ficar longe das coisas malignas, e agora que ele deixara a administração do Lune Rouge por sua conta, não permitiria que uma pequena bruxinha fantasiada de anjo danificasse seu lar.

— Podemos tirar a prova se ela é ou não uma bruxa, busque um pouco de água benta no seu quarto e jogue sobre a pele dela. — A ideia de Oliver foi boa, e certamente, se a pele de Judy não queimasse, Emma poderia deixar o medo para trás. Ele apenas não entendia porque se preocupava tanto com a menina, quase como um sentimento fraternal, protetor.

Emma assentiu, pois seria mesmo injusto tirar conclusões precipitadas. Os dois saíram juntos da cozinha. Enquanto Emma passou direto para as escadas sem ousar encarar Judy, Oliver afastou a tigela de sopa para o lado, debruçando-se sobre o balcão para ver a menina melhor. Os olhos dela estavam mais tranquilos, parecia ter recuperado um pouco da cor das bochechas após se alimentar. Balançava as pernas no banco, desconfiada.

— E agora? — Perguntou a Oliver, tal qual fazia com sua mãe quando não sabia o que fazer.

— Guarde o seu treco mágico, garota do futuro. O mundo ainda não está preparado para isso.

Judy pegou o celular do balcão e o tirou de vista ao mesmo tempo que ouviu as solas dos sapatos de Emma baterem contra os degraus de madeira . A moça não fez perguntas, somente atirou um copo de água sobre o rosto da criança.

— Ei!

— Viu, não aconteceu nada! — Oliver exclamou.

— Por que você fez isso!?

— Tire ela daqui — Emma ordenou um pouco mais calma. — Leve para um dos quartos vazios, dê roupas novas e explique como nossa casa funciona. Tem três dias para fazê-la contar a verdade sobre sua origem, caso contrário é rua!

— Obrigada, Emma. Você é perfeita. 

— Não deixe o vovô Gaubert ver ela.

Oliver segurou a mão da menina, feliz pela aprovação de Emma. Levou ela pelas escadas até um dos quartos vazios da hospedaria. Judy não mostrou resistência. Lá dentro, encontrou somente uma cama de ferro com colchão esburaco, um criado-mudo quebrado e um papel de parede velho e desgastado. Não tinha janela, as tábuas do assoalho despregavam e rangiam, ela também teve certeza de ouvir guinchos de ratos.

— O Lune Rouge já teve sua época de ouro. — Oliver justificou, mal sabendo que depois de dormir em uma caverna, Judy achava aquele lugar um verdadeiro tesouro. — Vou te dar um tempo pra descansar, mais tarde traremos roupas novas. O vovô Gaubert ficaria furioso em ver uma jovem exibindo as canelas.

— Obrigada. — Judy se atirou sobre a cama e suspirou.

— Na última porta tem um quarto de banhos...

— Que saudades de um chuveiro!

Oliver não sabia o que era um chuveiro, mas não discutiu. Ela saiu fechando a porta atrás de si e virando a plaquinha de ocupado na maçaneta. Três dias. Ele tinha três dias para descobrir tudo sobre o passado de Judy. Era muito tempo, se os dias fossem monótonos poderia até achar os pais da garota e tirar satisfações com eles. Decidiu-se em fazer isso, nada no mundo iria impedi-lo de descobrir quem era Judy Henderson. O que poderia acontecer de tão grave na França em três dias que desviasse sua atenção?

Judy recebeu um vestido mais tarde, passou a maior parte do tempo dormindo, aproveitando sua cama esburacada. O celular foi posto dentro da gaveta do criado-mudo. Sem cerimônias, Emma escancarou a porta e a obrigou a ficar de pé.

— Vamos! Não estou disposta a ouvir o vovô falando dessas suas vestes horríveis.

Ela se virou enquanto Judy vestia uma de suas velhas roupas, de quando ainda era criança.

— Ficou mediano, eu diria. Pena que não é mais alta. — Usando o kit de costura, Emma fez ajustes nas mangas e na barra do vestido que era grande demais. Teria que ficar ótimo, pois duvidava que Judy fosse conseguir outro nas próximas semanas. — Não vai me falar nada? Sabe, estou sendo legal agora!

As mãos da garota foram até o celular, queria pelo menos agradecer Emma pelo cuidado, e o tradutor poderia ajudar com isso. Suas mãos vacilaram quando recordou o aviso de Oliver sobre o mundo ainda não estar pronto para um smartphone. Como não entendia meia palavra do que Emma dizia, somente baixou a cabeça para ela.

A comoção quase tomou o coração de Emma por completo, todavia ainda duvidava da inocência da menina que roubara sua voz. Afastou-se dela velozmente ao lembrar-se do fato.

— Escute, eu não sei o que fez mas quero que devolva minha voz, está ouvindo?

Judy virou-se para o outro lado. Compreendia pelo tom de Emma que ela estava zangada.

— E nem pense em usar sua magia na minha boca para falar asneiras!

A porta bateu com força e ela saiu. Considerando-se segura, Judy rolou várias vezes na cama até ter coragem de pegar o celular. Dessa vez não tentou enviar mensagens de socorro ou áudios, apesar de checar se as primeiras haviam chegado. Que felicidade seria se seus pais respondessem ao menos um dos áudios que enviou no grupo da família. Mas eles não existiam. Nada existia.

A bateria em 60% a assustou. Não usou muito na idade da pedra para fazer mais do que enviar mensagens inúteis e ligar a lanterna ocasionalmente.  Sorte que ele possuía uma das melhores baterias disponíveis no mercado quando comprou. A noite vinha caindo, e a escuridão tomou conta do quarto. Uma vela bruxuleante iluminou o ambiente quando Oliver entrou.

— Oi, como está? A Emma disse que veio aqui. Trouxe um cobertor. — Atirou o manto quentinho para ela. — Quer conversar comigo?

Oliver sentou-se na ponta da cama e deu início a seu plano infalível de descobrir o passado de Judy, ou melhor, o futuro.

— Eu não sei.

— Me conte como foi parar no beco. Não tenha vergonha, independente do que tenha acontecido não vou julgar. Também saí de casa por falta de comida.

— Ninguém vai acreditar em mim!

— Eu vou.

— Certo! — Com raiva, Judy contou para Oliver tudo que vinha formando um nó na sua garganta, e também em sua mente. — Eu estava em casa, era noite. Lá no futuro, em 2018. Briguei com os meus pais por causa de uma prova idiota de história e fui na casa do meu irmão pedir ajuda, mas ele também me repreendeu. Então corri até o lago dos patos, que não tem patos porque a poluição matou eles, de repente apaguei e acordei na idade da pedra, com uns homens que mais pareciam macacos. Caçamos um javali, juntos.

— Eu não estou brincando com você! — Oliver pousou a vela no criado-mudo, projetando sombras pelo quarto.

— Nem eu! Depois de todas essas coisas apareci num lugar chique, naquele palácio lá. Tinha uma mulher feia que abracei, confundi ela com a mamãe. Um guarda me levou para fora e eu parei lá naquele beco que me encontrou. É isto.

— Bateu a cabeça em algum momento?

— Não!

— Certo, garota do futuro, mas por que apareceu justamente na França, em? Existem tantos lugares e épocas para você viajar. Por que justo aqui? — Com deboche, Oliver entrou no "joguinho" dela. — Nossa, será que é porque seus pais são franceses e você é maluca?

— Em que ano nós estamos?

— 1789! — Oliver berrou.

— É que daqui há 229 anos tenho uma prova de história sobre a revolução francesa. — Respondeu instantaneamente, por ser tão boa em matemática. — Aliás, acho que devia estar estudando pra essa prova.

O garoto simplesmente levantou-se, ia pegar sua vela e sair, cansado de tanto discurso incoerente.

— Eu posso provar.

— Com o seu treco que rouba voz?

— O treco que rouba voz é meu celular, ele veio comigo. Daqui há 229 anos o treco que rouba voz será o melhor amigo de crianças como nós. Inseparáveis.

Oliver sentou-se novamente na cama ao lado da menina. Sua raiva era grande e a curiosidade maior.

Judy pegou o celular e o acendeu, ofuscando a iluminação fraca que a vela fornecia. Os olhos do garoto lacrimejaram, impossibilitando que enxergasse bem. Judy abriu a galeria e começou a passar as fotos para ele ver. Parou em uma em que estava no sofá com seus pais, diminuindo o brilho de tela.

— Veja!

O coração de Oliver quase pulou pela garganta quando reconheceu o rosto de Judy.

— Mas... Você está lá dentro! — Reconsiderou a opinião de Emma sobre ela ser uma bruxa disfarçada. — Como pode estar lá dentro e aqui fora ao mesmo tempo? E como ficou pequena para caber ai?

— Não estou lá dentro, seu burro. — Revirou os olhos. — Isso é uma foto. É como... Como um registro, como uma pintura instantânea que fica dentro da tela. — Um sorriso orgulhoso brotou no seu rosto por ter encontrado uma forma simples de explicar. — Uma pintura instantânea que fica dentro da tela!

— Você pintou? — Oliver observou os detalhes com cuidado, nenhum artista seria tão milimétrico e realista.

— Não, o celular faz isso. Você aperta um botão e... Posso tirar uma foto sua agora, se quiser.

— E aí eu vou parar aí dentro!?

— Basicamente, sim.

— Não obrigado, estou bem aqui fora. Muito bem. — Ele levantou-se novamente, morrendo de medo da menina, estivesse ela mentindo ou não, não conseguiria vir do futuro se não fosse bruxa. — Boa noite.

— Espera, eu posso te mostrar outras coisas. Minha casa, meu quarto, o mundo...

— Não precisa, já acredito em você.

— Isto é um vídeo.

Exibiu na tela do celular um pequeno vídeo, de uns 30 segundos, em que seu pai dava tchau para a câmera enquanto mexia a panela no fogão.

— ELE TÁ AÍ DENTRO!

— Oliver, não.

— Está sim! — O pratinho com a vela quase escorregou da mão de Oliver.  — Ele se mexeu, acenou pra mim. Está aí dentro.

— Não, por favor!

— Bruxa!

— Ele não está aqui, isso é como uma pintura instantânea que se mexe! — Gritou, mas Oliver já tinha corrido para longe.

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