Capítulo 07

Oliver tentou continuar seu dia com normalidade, oferecendo seus serviços para algum comerciante ou senhora que não conseguia carregar as compras para casa. Entretanto, quanto mais se afastava do local onde encontrou Judy, mais seu coração pesava. Um dia também foi um garoto abandonado e faminto, não do tipo que dizia maluquices como futuro e revolução, mas alguém o amparou; caso contrário estaria morto por inanição como muitos terminavam na França por aquelas épocas.

Seus pais eram inteligentes, ensinaram ele a ler, escrever e até outros idiomas, porém, enquanto a nobreza esbanjava riqueza da cabeça às pontas dos sapatos, os camponeses pagavam mais impostos e sofriam mais com as colheitas escassas e misérias. A única saída para Oliver foi sair de casa, porque teria mais chances de sobreviver pedindo esmolas pelas ruas de Paris ou Versalhes do quê sob os mesmo teto que seus irmãos menores.

O tempo passou, Oliver foi acolhido por alguém que tirava sustentos com dificuldades, mas que, de alguma forma, garantiu sua sobrevivência e também de outras crianças. Ele ouvia todos os dias notícias sobre mortes, abandonos e fome. Escolheu o benefício da dúvida, porque acreditar que sua família estava bem era melhor que saber a dura verdade.

Oliver deu meia volta, revirando os olhos e enfiando as mãos nos bolsos rasgados. Era hora do almoço, mas como a maioria não tinha o que comer, a movimentação ainda mantinha-se acelerada pelas ruas de pedra e areia.

Judy continuava no mesmo lugar que ele deixou, segurando a telha brilhante que chamava de celular e pedindo ajuda a um e a outro, que só a respondiam com empurrões. Quando apareceu no campo de visão dela, foi recebido com um forte abraço de agradecimento da menina.

— Você voltou!

— Bom, sim! Mas por favor, me solte. — O sotaque conservava as sílabas fortes no final das palavras, tão característico do francês.

Judy não sabia ao certo o que dizer, não adiantava convencê-lo naquele momento sobre o futuro ou a revolução, isso podia afastar Oliver novamente, então ela decidiu pedir ajuda com coisas mais fáceis e urgentes.

— Conhece um lugar onde eu possa ficar e comer?

— Sim, por isso voltei. Minha amiga Emma pode ajudar.

Oliver agarrou a mão de Judy e a guiou entre a multidão. Se surpreendeu pela falta de resistência da menina em se deixar ser levada por um estranho.

— Quem é essa Emma?

— A questão aqui é: quem é você? Eu sei que sua cabeça está fora do lugar por causa da fome. Mas se quiser mesmo ajuda, vai ter que falar alguma coisa.

— Você não acredita em nada do que eu falo! 

Passaram por ruelas estreitas com esgoto a céu aberto, outras mais movimentadas e com casas bonitas. A coisa era bem feia naquele lugar, algo quase medieval, nada bom para se viver. Até mesmo as casas maiores e comércios arrumados não tinham um pingo da limpeza ou conforto que seu futuro trazia. Como tinha saudades de 2018...

Oliver parou com ela em uma rua mais larga, longe da movimentação constante dos burgueses, mas com o trotar regular de cavalos que passavam. Em um jardim mais atrás, um torneio de galos de briga enchia o ambiente com o grito estridente de homens barbados e sujos. Camponeses, que apesar de tudo faziam de conta que tudo estava bem no seu país.

— E agora? — Judy questionou, apertando a mão dele com mais força para o caso de tentar fugir.

— Bom, você vai conhecer Paris.

— Fica muito longe?

—  Olha, antes que diga alguma bobagem, Paris fica na França assim como Versalhes. Nós não vamos para a Itália!

— E como vamos? De ônibus? Não existem ônibus ainda, não é?

— De carruagem. São essas caixas de madeira com rodas, amarradas aos cavalos, entende?

— Ei! — Deu um soco no braço de Oliver. — Eu sei o que é uma carruagem. — Ela ligou o celular e abriu o mapa, Oliver arregalou os olhos sem entender praticamente nada sobre a telha brilhante em que seus dedos deslizavam. Judy não sabia sua localização exata e nem tinha internet, mas pesquisou por Versalhes e usou as ferramentas do aplicativo para calcular a distância até Paris. — Bom, de carro levaria uns 40 minutos. Quanto tempo na carruagem? Uma hora mais ou menos, não é? Cavalos são bem rápidos e acho que ainda não existem semáforos ou leis de trânsito.

— Essa sua telha é tipo um mapa que mede distâncias? — O garoto coçou a cabeça meio sem jeito, com vergonha por não conhecer tão útil e maravilhoso objeto superior ao papel.

— Na verdade ele tem outras utilidades. — Talvez fosse um pouco cansativo explicar para uma pessoa do passado como um celular funcionava, então se calou. — Depois eu posso te mostrar outras coisinhas.

— Você é rica, não é? Isso só pode ser coisa de burguês ou de um nobre desgraçado! — Ele não gostava de se envolver de jeito nenhum com assuntos relacionados à política, mas isso não significava que seria amigo de uma dessas pessoas malvadas e interesseiras. — Fala logo!

— Não, eu não sou. Meus pais nem estão aqui, eu não tenho ninguém. É um terrível engano, juro! Nem devia estar aqui!

— Eu não quero levar problemas para a Emma! Se até hoje a noite você não contar a verdade, vamos te largar na rua! Compreende?

— Emma é a sua mãe? Ela que vai vir nos buscar na carruagem?

— Não! — Detestava falar da sua família. — Meu amigo Pavard, ele não cobra nada para me levar e trazer até aqui.

— Como é Paris?

— Para de fazer perguntas, Judy. Você é irritante!

Judy se calou, consciente de como era uma intrusa naquele lugar no espaço-tempo. Não havia nada para ela ali. Em breve a situação ficaria mais crítica, Oliver exigiria uma explicação lógica para continuar a ajudá-la. Mas ajudá-la com o quê? Depois de comer alguma coisa e quem sabe descansar, ela ficaria tão perdida e sozinha quanto na idade da pedra. Ninguém jamais acreditaria na sua história sobre o futuro. Tudo aconteceu rápido demais, sem lógica ou explicação. Em um minuto estava na caverna, no outro na França. Poderia muito bem fechar os olhos e quando abrir estar no meio da segunda guerra mundial. Isso a deixou com medo até mesmo de piscar.

Será que um bruxo ou vidente poderia ter uma resposta? Nunca acreditou muito nesse tipo de magia, mas certamente iria procurar uma dessas pessoas, se já existissem no passado.

A carruagem de Pavard parou raspando na calçada de pedra. Não era nem de longe bonita e gloriosa como as que viu próximas ao palácio, era mais um caixote velho e apodrecido de madeira puxado por um cavalo marrom desnutrido e sujo, do qual se podia ver as costelas. Um homem velho, de grande bigode e boina na cabeça acenou para Oliver, e os dois conversaram entre gargalhadas e apertos de mão sem que Judy entendesse. O velho Pavard sorriu para a menina que pulou para dentro da velha carruagem sem bancos seguida de Oliver, ignorando todos os avisos do pai sobre aceitar carona de estranhos.

Os dois sentaram-se no chão sujo e Pavard partiu ao relinchar do cavalo. Judy pousou o celular delicadamente sobre seu colo e cravou as unhas nas tábuas, a sensação era estranha e apavorante. Era jogada para trás, e o chacoalhar combinado ao som da madeira e dos cascos do animal pioravam tudo. Fechou os olhos com força, esperando que o cavalo soltasse a carruagem e ela despencasse rolando dentro daquele cubículo até morrer. Oliver não segurou a risada.

— Definitivamente, você é bem estranha.

— De onde eu venho os veículos são caixas metálicas com quatro rodas e sem cavalo, para sua informação.

— O mundo que criou na sua cabeça oca é bem esquisito.

A menina não riu, cravou ainda mais as unhas na madeira. Enjoada, teria vomitado qualquer coisa que tivesse no estômago a cada solavanco. Ia chorar de novo, sem qualquer incômodo com a visão de Oliver sobre sua decadência. O que se podia fazer além de chorar, gritar e pedir socorro?

Foi um pouco mais de uma hora até chegarem ao destino, Judy fechava os olhos e abria esporadicamente, consciente de que Oliver e Pavard conversavam sobre ela com tranquilidade, salvos pelo benefício de sua burrice por não entender francês.

A carruagem parou de uma vez atirando Judy para frente, enviando todos os seus devaneios para longe. Os dois desceram e ela cumprimentou o senhor com um aceno de mão, que retirou o chapéu para ela e seguiu o caminho. Era ainda mais amedrontador ver como sua velha carruagem se afastava remexendo.

— Essa é a hospedaria Lune Rouge, eu moro aqui. Emma é a dona atualmente, seja gentil e conte a verdade e certamente ela terá gosto em ajudar.

A rua era um descampado quase total, exceto por umas casinhas pobres e pequenas com os muros sujos e esburacados. Alguns cercados guardavam galinhas, porcos e outros animais para a subsistência dos moradores. A hospedaria de Emma era uma espelunca de dois andares com duas janelas na parte de cima, grande, se comparada às residências ao redor. Oliver abriu a porta para Judy, convidando-a a entrar. No salão mal iluminado por tocos de velas, dois homens ocupavam uma das mesas jogando cartas e bebendo. Uma escada mais atrás levava ao andar superior, e atrás do balcão grande havia prateleiras com garrafas de bebida e armários fechados. 

Uma porta ao lado dos armários se abriu e um cheiro delicioso invadiu o ambiente para o deleite de Judy.

— Saindo duas canjas, senhores. — A linda moça de cabelos loiros e olhos cor-de-mel sorria equilibrando a bandeja onde trazia as tigelas. Ela deu a volta no salão e piscou para Oliver, que imediatamente mudou sua postura. Seu vestido era azul escuro, remendado nas mangas mas bastante elegante. Devia ter um pouco mais de 20 anos. — Quem é a mocinha?

Oliver e Emma trocaram frases e mais frases que Judy não entendeu, limitando-se a ficar quieta e acenar ao entender seu nome ser pronunciado por eles, que se debruçaram sobre o balcão para dialogar. Ela queria pedir comida, já desejando atacar um dos homens e roubar a canja. Ligou a tela do celular para ver a hora, que não estava correta, e uma ideia muito boa brilhou como uma lâmpada sobre sua cabeça.

Google tradutor.

Judy abriu rapidamente o aplicativo e selecionou os idiomas inglês e francês. Para sua sorte, o download dos dois para o uso offline tinha sido feito em algum momento. Ela apenas tocou no microfone, fazendo Emma e Oliver se sobressaltarem em um susto gigante com o som que foi feito. Aproximou os lábios do celular e falhou.

— Eu estou com muita fome, por favor me traga algo para comer.

Outro barulhinho e a voz de Judy foi traduzida para o francês. Os homens na mesa largaram as cartas e saíram apressados do local, deixando Oliver de cabelo em pé e Emma mais pálida que uma folha de papel.

— O que é isso? — Perguntou, olhando para o smartphone. Segurou um grito e ficou vermelha quando sua voz foi traduzida para Judy.

— É um celular, ele faz muitas coisas e uma delas é traduzir a voz. Por favor, tenho fome. Me ajuda aí.

Emma deu vários passos para trás, batendo as costas contra as prateleiras de garrafas de vidro. Tateando a porta, ela correu para dentro da cozinha.

— Eu pensei que isso era um mapa que media distâncias! — Oliver gritou e Judy desativou o tradutor.

— Eu disse que tinha várias utilidades.

— O que mais isso faz?

A vontade dela era de mostrar a lanterna e a câmera, facilmente poderia até mentir apresentando-o como uma arma capaz de transformar humanos em pó, mas não quis abusar da sorte.

— Eu já disse que venho do futuro! Se isso não prova nada pra você...

Emma trouxe consigo um prato bem grande de sopa de frango, acompanhado de pedaços de pão velho e bolorento e um copo de água. Judy apenas afastou o celular para um canto e começou a saborear o que era, de certa forma, sua primeira refeição em 10.000 anos. Emma fitava o aparelho ao seu lado com uma mão no peito.

— Emma, a Judy é mais complicada do que pensamos. — Oliver sorriu sem graça. — Preciso te contar melhor sobre como eu a encontrei e o que ela me disse. 

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