Capítulo 04

Um manto peludo foi atirado sobre o corpo pequeno de Judy, que adormeceu por poucos minutos, tremendo de frio, ainda agarrada fortemente ao celular. A noite poderia durar eternamente dentro da caverna, nenhuma luminosidade ia incomodar na escuridão sufocante. Gotículas de umidade formaram-se na ponta do seu nariz, e se um dos homens não estivesse tão fascinado e intrigado com a garota que segurava estrelas, teria o privilégio de aproveitar mais alguns minutos do sono.

A intenção dele em cobri-la era das melhores, porém, seus braços começaram a coçar com o contato do manto, e quando abriu os olhos, levou a mão aos lábios para não berrar, deparando-se com a silhueta do homem bem a sua frente, que correu para longe ao mínimo movimento que percebeu.

Judy, como em todas as vezes depois de acordar, ligou o celular, mas dessa vez não encontrou notificações novas, mensagens ou mesmo notícias bombásticas dos blogs que acompanhava. Apenas nada, o vazio, o triste vazio melancólico da ausência do wi-fi.

Obrigando-se a ficar de pé, a assustada garota demorou alguns segundos para conquistar a confiança nas pernas, que mal sustentavam seu corpo dolorido. Queria continuar chorando, claro, mas sabia que de nada adiantaria naquele momento. Sua melhor chance, e a única ideia que lhe ocorreu, foi explorar o lugar, ir para longe dos homens e escrever na areia um SOS bem grande, só para o caso de algum avião, satélite, helicóptero ou anjo da guarda sobrevoar aquele fim de mundo.

Eram quase oito horas da manhã, afastando-se do amontoado de pedras que marcaram seu corpo enquanto dormia, ela viu a luminescência que entrava pela boca de pedra da caverna. Com alguns passos adiante, conseguiu ouvir o som das atividades que realizavam lá fora. Uma parte de si queria enfiar-se novamente entre os pedregulhos, a outra insistia para pelo menos andar até a luz, e quem sabe correr um pouco para qualquer lugar.

Então, seguindo o que considerou mais racional, Judy foi para fora. As barracas que viu a noite realmente eram feitas com ossos longos e brancos de algum animal, sustentando palha, folhas de bananeira e tecidos peludos na parte de cima, como teto. Enxergou três dessas barracas na proximidade, e 4 seres humanos, bichos, ou experiências alienígenas — ela não sabia bem como os chamar — sentavam-se entretidos no chão, cuidando dos seus afazeres. Se olhasse bem, Judy podia distinguir com clareza suas faces, mas não lembrava de ter se deparado jamais em sua vida com pessoas tão desleixadas, e com traços de expressão tão pesados. Era como se seus rostos fossem achatados demais, esmagados, e o senso higiênico não era grande.

Eles, que na verdade eram elas, viram a sua garota-deusa observando, e puseram-se a ranger os dentes e trabalhar com ainda mais fervor. Moíam em alguns recipientes improvisados, como cascas de coco e até mesmo crânios, sementes de milho e outros alimentos, molhando, mastigando, cuspindo e voltando a esmagar tudo com uma pedra.

Enjoada, Judy se afastou e olhou ao redor com mais cuidado. Só havia terra, floresta, e alguns picos de montanha ao longe, que tocavam as nuvens, iguais as que desenhava nas aulas de expressão artística. Não tinha montanha em sua cidade, o que significa que estava bem longe. Embora não soubesse que sua distância temporal era infinitamente maior que a espacial, pressentiu que jamais em sua vida tornaria a ver os pais, e o pior é que a última coisa que fez foi decepcioná-los, sair de casa no meio da noite e brigar com Joseph.

Imersa em seu sofrimento, Judy deixou de lado todo o temor que sentia pelos seres ao seu redor. Subindo em um montante de areia, forçou sua vista até onde conseguiu, e estava, sem sombra de dúvidas, cercada por uma floresta enorme, quase infinita, como em uma grade; não teria para onde ir, nunca.

Outras cavernas e grutas despontavam nas proximidades, mas ela não teria coragem de se aproximar. Os nós dos dedos doíam de tanto pressionar o celular. Virou-se em um ímpeto para os seres que continuavam tranquilamente a moer seus grãos.

— Onde eu estou? — Recebeu apenas olhares assustados. — Vocês não sabem falar!? — Sua voz embargou-se quando eles apenas gemeram de forma animalesca. — Vocês são animais? São homens da caverna, não é?

A suposição soou ridícula aos seus ouvidos, quase gargalhou das próprias palavras. Não existiam mais homens que moravam em cavernas no século XXI, e as evidências de alienígenas e experimentos brutais em pessoas também não foram comprovadas.

Viu um dos seres estranhos seguindo por um pequeno caminho entre as árvores, e como não pretendia voltar para a caverna ou jogar-se no chão e chorar, correu para segui-lo, em distância segura para evitar incidentes.

Ele andava meio encurvado mas determinado, e por isso talvez a levasse a algum lugar. O que a assustou é que carregava uma lança, mas ela tinha um celular: um celular com lanterna que o assustou na noite anterior. A cada passo entre as folhas mortas e galhos secos, o som que seu tênis fazia denunciava sua posição ao ser, mas ele, ou não queria olhar para trás ou confundia o barulho com seus próprios passos. Judy afastou os fios de cabelo do rosto suado, a folhagem densa das árvores tapava em parte a luz do sol, e espinhos soltos perfuravam sua pele, além dos mosquitos que incomodavam.

O barulho de água corrente foi ficando mais intenso, até que chegaram a um riacho, e Judy sentiu a garganta seca implorando por algumas gotas do líquido. Por conta disso, ela não acompanhou o homem quando ele pulou por cima das águas, prosseguindo sua caminhada. Se escondeu atrás de um tronco e, quando se considerou sozinha, saltou entre as pedras extremamente contente. Ajoelhando-se na beira do riacho, juntou as mãos em formato de concha e se refrescou. Feliz, um pequeno sorriso formou-se em seu rosto.

Observou ao redor, a floresta era escura, úmida, as árvores quase do tamanho de prédios com cipós grossos pendendo acima de sua cabeça. O celular, que estava preso na cintura pela cinta da saia, foi parar em sua mão, e bateu uma série de fotos do ambiente ao seu redor.

As palavras "pré-história" e "homem das cavernas" gritavam em sua mente, mas Judy conseguia silenciá-las com o esforço da razão. Não acreditava em nada que não tivesse uma explicação lógica. Pensou em correr de volta para a área descampada, pois não seria difícil uma cobra agarrar seu tornozelo ou algum animal selvagem devorá-la ali.

Infelizmente, foi o que quase aconteceu.

Um animal medonho passou correndo entre as árvores, as patas enormes deixando pegadas lamacentas. Era uma barulheira por onde passava. As pupilas de Judy dilataram, e ela apenas se agarrou ao tronco mais próximo, tentando escalar a todo custo, mas apenas se ferindo e escorregando.

Não sabia que o animal era um porco selvagem, um gordo javali. Os homens com suas lanças corriam pela mata para caçar, soltando rugidos guturais que assombravam todas as aves.

Durante o desespero, o celular escapuliu dos dedos de Judy, e ela até ignorou o medo e a tremedeira por um segundo, largando a árvore, o coração quase rasgando seu peito de tão forte que batia. Se esparramou no chão e tateou como maluca, feliz por encontrá-lo com apenas um pouco de terra e uma rachadura superficial na película.

A correria dos homens ao seu redor, que caçavam o animal berrando como macacos loucos aumentou, e ela começou a gritar junto, até o ar se esvair de seus pulmões, e precisar recuperar o fôlego com longos suspiros.

— Lá, ele tá lá! — Eles, claro, não compreendiam nada do que ela dizia, entretanto, uns dois viram sua mão apontada para uma direção aleatória, próxima do riacho, e de gestos eles entendiam bem. — Pra lá, vai! Agora! Moço, ele foi pra lá!

Quando notou que a obedeciam, apontou com mais fúria e uma ideia bem maluca brotou em sua mente. Acendeu a lanterna do celular, no meio da mata, onde a luz solar penetrava com dificuldade. Os homens que ainda corriam desorientados todos juntinhos na mesma região, viram bem quando a "estrela" brilhou na mão da menina.

— Pega ele, moço! Pega o monstro! — Apontou a lanterna para onde viu o javali ir, e os homens, que jamais contestariam a ordem da deusa que segurava estrelas, correram pra onde ela mandou, mais animados por terem captado a comunicação do que pela possibilidade de conseguir carne.

Um guincho assustador se seguiu, ressoando no crânio de Judy de um jeito aterrorizante. Algo que ela nunca ouvira e fez seu sangue gelar.

— É só um pesadelo, eu vou acordar. Já vou acordar! —  Suas pernas bambas perderam a capacidade de sustentação e caiu de joelhos.

O segundo barulho alto foi o de comemoração pela caça bem sucedida, para a garota somente mais um som agudo, como se uma faca fosse enfiada em seu cérebro exatamente na região que paralisa os músculos. A carne estava garantida por mais uma semana para a sobrevivência dos que ali habitavam.

Uma dezena de áudios agonizantes, que nunca chegariam, foram enviados a cada contato de Judy, pedindo socorro e contando histórias absurdas sobre florestas, monstros, caça, alienígenas e planos secretos do governo. 

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