Capítulo 01
Duas vezes. Ela ia ser reprovada duas vezes.
— Judy, o que exatamente você espera da vida? O que você quer ser quando crescer? — perguntou a mãe.
Assim como ela, Judy possuía lindos olhos azuis, era baixinha para a idade e meio desleixada com a aparência. Seu cabelo castanho era mal cortado, repicado acima do ombro como se um vento forte tivesse projetado os fios rebeldes para cima. As bochechas estavam bronzeadas demais, avermelhadas, eu diria, isso porque passara a última manhã chorando ao sol do meio dia.
Naquela tarde trajava uma camiseta rosa desbotada e uma saia preta na altura dos joelhos, calçou seus tênis da ladybug, que traziam sorte, e compareceu à infeliz reunião. O cachorro marcou presença, e os pais, sentados a sua frente na mesa, de rosto muito feio e braços cruzados, aguardaram à resposta.
— Quando crescer eu quero ser Youtuber.
A mãe enfiou a face entre as mãos, soluçando. O pai a olhou com profunda desaprovação, e ela não entendeu aquilo, tendo em vista que os Youtubers eram profissionais promissores e milionários, alguns ganhavam mais que médicos. Ela tinha certeza que quando ganhasse milhões por jogar online, eles mudariam de opinião.
— Ano passado você disse que seria designer de jogos — disse o pai, pois considerava aquela profissão menos grave.
— Sim, mas prefiro ganhar dinheiro por jogar do quê por produzir os jogos, entende?
A mãe puxou o vasinho de barro de cima da mesa, e derramou todas as miçangas coloridas. Descontava o nervosismo nesse tipo de coisa.
— Não tem vergonha? Depois de toda a educação que te demos! Depois de tudo que fizemos por você! Na sua idade, o seu irmão...
— Não! — Judy odiava quando a comparavam com Joseph, ele foi o filho perfeito que ela jamais seria. — Eu sei que me acham burra, mas eu apenas não consegui acompanhar a matéria de história!
— Não te achamos burra. — O pai, que ainda conversava um pouco de controle, rebateu calmamente. — Te achamos irresponsável.
— Eu vou passar, vou estudar e tirar nota máxima na recuperação. Prometo! — No momento, ela não podia dizer nada mais do que aquilo e torceu para que fosse o suficiente.
— Judy, se você for reprovada de novo esse ano, eu e sua mãe a mandaremos para um internato.
— O quê!?
— É um lugar onde você vai se concentrar nos estudos e atividades educativas, e virá para casa no final de semana.
— Mas, pai...
— É apenas uma rota de fuga, caso falhe na prova final.
— Isso é chantagem emocional!
Zangada, a mãe levantou-se da cadeira e se aproximou de Judy. Segurou seus ombros, e desafiou a filha somente com o olhar a contradizê-la mais uma vez.
— Você vai aprender a definir suas prioridades de um jeito ou de outro, porque eu não criei uma filha para ela ser reprovada, passar o dia no sofá e ainda sair impune. Então, vá para o seu quarto e só saia quando souber tudo de história!
Judy retirou-se da sala tropeçando na comida do cachorro, as lágrimas mancharam suas bochechas. Abriu a porta do quarto e se trancou, baixando a cabeça sobre a escrivaninha. A mãe tinha razão, ela era uma incompetente que falhou na única obrigação da sua vida: estudar.
Judy até abriu o livro de história e o caderno, os assuntos que a professora passou para o estudo foram 3, os mais chatos possíveis. Ela os devia ter visto com clareza ao longo do ano, mas viajava na batatinha durante as explicações no quadro e documentários.
Eram eles: Idade da pedra, Revolução francesa e Egito antigo.
Não escreveu nem um resumo, a única coisa que usou do material escolar foram os adesivos. Enviou uma mensagem de voz para Mark, decepcionada e pedindo socorro para estudar.
— Qual é o sentido de saber sobre o Egito antigo? Estão todos mortos! E essa coisa de idade da pedra? Me explica quando vou usar isso na minha vida, por favor!
Mark enviou uma única mensagem, nem mesmo escutou o áudio de 10 minutos de reclamações, pois divertia-se no acampamento de férias, um aluno exemplar que passou de ano.
Você vai usar na prova, e a prova faz parte da sua vida.
Judy atirou o livro no chão, tinha na capa a pintura de Eugène Delacroix: A liberdade guiando o povo. Abriu o bloco de notas no celular e anotou os conteúdos, deitando-se na cama logo em seguida.
Estudaria na cama, sim, com a cabeça bem aconchegada no travesseiro e as pernas aquecidas pelo edredom. Era totalmente possível e rendia mais estudar deitada, jamais se concentraria na cadeira dura da escrivaninha, com dor nas costas e frio.
Primeiro, antes de pesquisar sobre idade da pedra na Wikipédia, admirou o belo padrão de flores verdes do edredom, reclamou ao ver o lugar em que antes ficava o video-game, vazio e terminou contando quantas rachaduras tinha na parede. Quase abriu a Wikipedia, mas seu Youtuber favorito logou um vídeo, alguém enviou uma mensagem no Facebook e lembrou-se sobre os episódios novos da sua série. Anoiteceu e Judy não estudou.
O pai entrou no seu quarto, demonstrando genuína preocupação, e ela escondeu o celular embaixo do travesseiro e fingiu dormir. Ele viu o livro de história atirado no chão, mas não tinha o intuído de brigar. Sentou-se ao lado da filha e alisou seu cabelo.
— Eu sei que está acordada.
— Pai, eu vou conseguir, juro! Você e minha mãe ficarão orgulhosos quando eu passar de ano, não precisa me mandar pra internato nenhum.
— Não vai conseguir se jogar o livro no chão e ficar no celular.
— É que eu só estava me despedindo da minha vida, antes de enfiar a cara entre as páginas - mentiu.
Sorrindo tristemente, o pai tentou convencer Judy a escolher outra abordagem.
— Desligue o celular, abra seu livro e leia os textos, marque o importante, escreva resumos e responda as atividades. Faça isso por uma hora, depois descanse por 15 minutos fazendo o que quiser. Não adianta tentar estudar com o celular na mão.
Judy apertou o aparelho com força por baixo do travesseiro, já temendo o pior.
— Vai tirar ele de mim? O que será de mim sem meu celular?
— Fiz isso ano passado e não adiantou. Você já cresceu, sabe discernir o certo do errado. Confiscar seu celular não vai te fazer levar as coisas a sério. Mas o que falei sobre o internato foi bem verdade.
— Você realmente me mandaria pra um prédio longe de casa onde vou ficar com crianças igualmente abandonadas, sem você e a mamãe? — Tentou usar a psicologia, pois era seu único recurso.
— Se for para o seu bem, sim. Desça para jantar.
— Antes vou estudar.
Quando o pai saiu, Judy colocou o celular na tomada para carregar e fez o que ele aconselhou. Abriu o livro de história e leu por uma hora, anotando e respondendo às questões. Claro, algumas vezes a distração tomou conta do seu cérebro e rabiscou as páginas, desenhando carinhas e bigodes nas gravuras de figuras históricas importantes, rindo. Mas, pelo menos durante 40 minutos, ela se concentrou. Só parou para jantar quando a mãe levou o prato no quarto, e a parabenizou por estar se empenhando.
Na pausa de 15 minutos, ela baixou aplicativos sobre runas antigas para interpretar alguns textos e ouviu uma música para relaxar. Quando voltou, achou estar pronta pelo menos para responder sem a ajuda do livro questões sobre a revolução francesa, e pesquisou por um quiz sobre o assunto na internet.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top