Terceiro Guardião

Sigo uma estradinha de terra até chegar ao começo da vila. As casas são pintadas em cores vivas e vibrantes: azul-claro, vermelho-sangue, rosa chiclete, amarelo ouro, verde-grama e outras cores, todas contendo portas de madeira redondas e altas, com maçanetas alguns centímetros mais baixos que as de uma porta comum, feitas especialmente para crianças. Não é nenhuma surpresa ver que o lugar está uma bagunça. Além dos corpos em decomposição enfeitando parte do chão, cacos de madeira estão jogados por todos os lados. Também há casas com tetos desmoronados, cujas paredes estão com marcas pretas de queimaduras, como se tivessem sido incendiados.

Olhando em volta, adentro a vila em passos vagarosos. O silêncio total me causa mais desconforto do que alívio. Sinto como se algo estivesse me espreitando. Na verdade, sinto como se tudo de Jardines estivesse me vigiando, buscando apenas o momento perfeito para acabar com a minha vida.

Adentro cada vez mais o vilarejo, passando por cima de um amontoado de corpos a beira da decomposição. Parece que voltei no tempo para o período da Peste Negra na Europa medieval. Ando sobre uma estrada de terra entre casas de madeira com tetos de palha simples, de madeira com chaminé, tetos formados por conjuntos de grandes morangos artificiais, há outro que possui a textura marrom de uma barra de chocolate, outro que é uma grande cabeça de cachorro sorridente de pelos brancos e grandes olhos de bolas castanhas.

As casas possuem paredes pintadas de azul, outras de vermelho, verde, dourado, rosa, roxo, preto e branco. Colado na parede à direita da porta de madeira de uma casa cor de rosa está um cartaz colorido que mostra um cenário de castelo com paredes de tijolos cinzentos. Bem no centro está um garotinho loiro sorridente vestido com manto vermelho e dourado de rei, com uma coroa dourada de pontas na cabeça e na mão um cajado vermelho com cabeça dourada de formato esférico. Ele está sentado em um trono de encosto, pernas e braços dourados, enquanto o cômodo é todo vermelho num formato de almofada. Em cada lado seu estão dois garotinhos vestindo armaduras prateadas com elmos fechados segurando alabardas com as duas mãos na frente do corpo, como se segurassem velas. Na parte superior do cartaz está escrito com letras vermelhas e contornos dourados: "Vida Longa ao Pequeno Rei Arthur".

Na ponta da borda frontal de um teto de barra de chocolate está hasteado um estandarte com uma bandeira vermelha com contornos dourados num formato de triangulo de cabeça para baixo. Bem no centro da bandeira está um grande J dourado cheio de pontinhos que oscilam um brilho tremeluzente sempre quando me movimento.

Passo na frente de um curral de ovelhas, e dentro do curral está um grupo de ovelhas robôs, todas caídas de lado no chão verde de gramado aparado. As ovelhas possuem pelos sintéticos marrons. Partes das suas mandíbulas foram arrancadas, deixando conjuntos de fios coloridos a mostra. Há algumas ovelhas completamente depredadas, sem pernas e sem cabeça. No meio dessas ovelhas estão alguns cadáveres ensanguentados de crianças vestidos com túnicas de camponeses e camisas de fazendeiros. Na estrada do outro lado estão algumas meninas de vestidos longos estateladas no chão, ensanguentadas e mutiladas.

Continuo andando em frente, olhando constantemente ao redor. Encontro um vagão branco de carroça no meio do caminho. Passo andando ao lado dele, percebendo suas rodas de madeiras quebradas e arrancadas. O cavalo é um robô de pelos marrons com a cabeça arrancada e caída no chão bem na frente das suas patas frontais, deixando os fios do pescoço do cavalo a mostra, fios que ainda piscam eletricidade tch tch tch!

Há uma estátua de dez metros de altura esculpida em pedra acinzentada que exibe um cavaleiro robusto de armadura e elmo com visor fechado portando uma espada em uma mão e um escudo redondo na outra. A estátua está bem no meio de um espaço circular formado por um chão feito de blocos coloridos, rodeado de pilares negros cintilantes altos e finos com topos no formato de uma estrela de cinco pontas. Ao redor da estátua estão alguns bancos de madeira e algumas bancadas de madeira para comércio totalmente vazias de produtos. Passo andando próximo à estátua, levantando os olhos para mirar a sua lateral de relance.

Póc póc póc. Som de passos vira o meu rosto abruptamente para a esquerda, com a respiração arquejante e o coração latejando. No interior escuro de uma janela verde, um rosto de diabo preto como carvão me observa sorridente, com os dentes brancos a mostra e os olhos claros bem arregalados. Por trás de um beco, entre duas casas azuis, um vulto salta seguido de outro vulto. Um terceiro para e me encara, revelando ser um garoto nu pintado de vermelho-sangue da cabeça aos pés, com dois pequenos chifres de diabo na frente da testa. Ao notar que estou olhando, corre e desaparece.

Mérnnnn. Uma porta range e abre de repente. Por trás dela, uma cabeça preta se inclina para me espiar, com dois chifres nos dois lados da cabeça, sobrancelhas bem levantadas e bocarra aberta num sorrisão macabro. Mais à frente, uma criança está arrastando um corpo pelo pé. Ele para e me olha com a boca aberta e os olhos quase fechando numa expressão sonolenta. Seu corpo está tão escaveirado quanto o cadáver que arrasta. Ele então retorna a arrastar, sumindo em poucos segundos junto com o corpo.

Meus olhos giram para um lado e outro, arregalados, tensos. Volto a andar em frente, mais lentamente, girando a cabeça constantemente. Partes das paredes frontais das casas estão esburacadas. Dentro de algumas com porta aberta, consigo ver corpos empilhados de crianças mortas em pequenas montanhas, totalmente nuas e pintadas com o vermelho do próprio sangue. Ao redor delas, um grupo de crianças nuas está se remexendo em cima de algumas crianças mortas, gemendo oh suavemente. Uma delas para e me encara, depois mostra os dentes em um sorriso largo.

Um fedor pútrido invade as minhas narinas, fazendo o meu estômago rodopiar e queimar. Vejo uma frase escrita em sangue numa parede azulada: "Deus Chato. Satã Nunca Chato". No interior de um beco, dois garotos magros e pálidos, um posicionado de quatro no chão e o outro sacudindo os quadris nas suas nádegas. Ambos estão pelados e gemendo.

Passo diante de uma casa cor de rosa de entrada aberta. No fundo do interior escuro estão cadáveres infantis com as costas grudadas nas paredes, com as pernas fechadas e os braços abertos para os lados em forma de cruz. Suas bocas são buracos cobertos de sombras, assim como os dois olhos, que parecem estar me seguindo. Vejo outra frase escrita em sangue numa parede branca: "Rei Arthur Traíra". Dentro das casas estão mobílias de madeira formando barricadas, tapando toda a entrada.

Tchórrrrrr! Meu fone começa a chiar, porém eu continuo andando em frente, suando frio. UÁRRRRRRR! O fone emite ruídos de gritaria aguda. VROÉRRRRRRR! AMOMÁRRRRRR!

Esconde — soa uma voz infantil e masculina. — Esconde aqui!

BRÁRC! BRÓRC! MOLÓRRRRRRRR! XIÉRRRRRRR!

Eles tão aqui — berra outra criança. — ELES TÃO AQUIIIIII!

Segura a porta!

Eles tão entrando!

SEGURAAAAAA!

REI ARTHUR TRAÍRA — esbraveja um eco de multidão. — REI ARTHUR TRAÍRA! REI ARTHUR TRAÍRA!

AAAAAAAAAH — chora uma voz fininha.

BRÓC! BRÓC! PRARC! Ecoa um som de quebra-quebra. PRAC! BLÓRC! PRIKSH! O som vem acompanhado de gritos selvagens e choros desesperados.

JARDINES AGORA É NOSSAAAAAAAA — esbraveja um garoto com toda a força da garganta. — AGORA SATÃ GOVERNAAAAAA!

ÉÉÉÉÉÉÉÉÉ — múltiplos gritos entoam. — DIABO É O MEU REI — cantam em uni som. — DIABO É O MEU REI! DIABO É O MEU REI!

Tchórrrrrr! O fone termina de soar.

Continuo andando em frente por alguns minutos, mirando para as casas ao redor, algumas com portas arrombadas ou esburacadas, e crianças vestidas de diabo me encarando a distância, sorrindo maliciosamente.

TCHÓRRRRRR! Um barulho de estática soa a minha direita e eu paro de andar. A visão periférica do meu olho direito nota uma sombra anfíbia se movendo em cima de uma casa. Viro o rosto lentamente para lá. Uma sombra humana me observa com olhos redondos da cor de abismo. Está de quatro em cima de um teto marrom de barra de chocolate, na posição de um cachorro sentado. Seu corpo humanoide é formado por uma pele escamosa verde escura bem próxima do azul. Seu queixo está todo destroçado, sem boca, o que o deixa com uma aparência mumificada.

Não tardo em reconhecê-lo.

— Sapo Milo...

Sua boca arrancada emana um ruído de estática de rádio com sinal defeituoso.

— Então é isso, Ricardo — ressoa uma voz de mulher abafada pela estática. — Depois de tudo, você me traiu...

— Não, meu amor, eu juro! Eu não te traí! Não é o que você tá pensando — ressoa um homem desesperado. — Aline, por favor, me escuta!

Subo a lanterna e ilumino Sapo Milo, que some na velocidade de um vulto.

— Desde o início você era o culpado por tudo que está acontecendo nesta cidade, Ricardo!

Olho para a esquerda e lá está ele, olhando-me atrás de uma parede cor de rosa, com o corpo inclinado como se fosse cair de lado a qualquer momento. Aponto-lhe a luz e ele se esconde. Meu coração começa a acelerar e minha respiração a falhar. Olho para a esquerda, para a direita. Viro-me para trás. Olho em volta. Encontro-o me observando em cima de um teto branco de pelos fofos, agachado na posição de uma gárgula.

— Você é o culpado — ressoa a voz feminina. — Você vai ser condenado pela justiça! Não adianta tentar fugir da cidade! Uma hora eles vão achar você!

— Não, Aline, por favor, me escuta! Não é o que você tá pensando!

— FICA LONGE DE MIM!

Depois disso, soa uma música lenta, tocada pelo sopro de várias trombetas.

— Fique agora com mais um capítulo da sua novela das nove — ressoa uma voz masculina e grave. — Mãos Injustiçadas.

Aponto a lanterna. Sapo Milo salta rápido como uma silhueta, caindo em outro teto. Sigo-o com a luz da lanterna e vejo-o saltando de teto em teto como o mais ágil dos sapos puladores. Em um momento eu pisco os olhos e o perco de vista. Viro os olhos esbugalhados e a luz da lanterna para um lado, para o outro, mas não o vejo mais.

O som de estática ecoa atrás de mim.

— Desta vez você não escapa!

Bato os pés e disparo correria frenética pelo vilarejo. Olho por cima do ombro e vejo sua sombra verde escura me observando de pé, sem se mover. Não demora muito e eu chego ao que parece ser a praça da vila, com chão de blocos coloridos, onde no centro está uma piscina redonda de pedra, e bem no centro da piscina está uma estátua colorida representando o pequeno rei Arthur vestido com um longo manto vermelho com listras douradas e uma coroa dourada na cabeça. Está segurando um cajado vermelho com esfera dourada no topo, mostrando um amplo sorriso de dentes brancos.

A praça é uma região circular, contendo cinco estradas para seguir. O caminho ao norte leva a um grande castelo de pedra com teto azulado circundado por uma muralha de vinte metros feita de tijolos vermelhos. Ao olhar para o caminho à direita, vejo dois diabos negros andando lado a lado para cá, ambos sorrindo e segurando pedaços de pau.

Pega ele — começam a correr.

Um diabo nu e vermelho salta de uma janela, correndo disparado na minha direção, com o pênis arriado como uma língua vermelha e carnuda toda ferida de bolhas.

Ele tem uma lanterna — mais satanistas põem as caras nas janelas. — Pega a lanterna dele — saltam das janelas em uma corrida alvoroçada.

Corro rumo ao norte, com o coração dando uma festa de cambalhotas dentro do peito. Uma pedra bate em meu ombro e eu solto um grunhido, sem deixar de correr. Faço uma curva para a esquerda. Brárc! Uma porta abre e um diabo negro sai, correndo para me agarrar de frente, rindo loucamente:

HIN HIN HIN HIN!

Faço um giro para a direita, indo de rumo ao castelo. Coronel Fortitude aparece e se interpõe na estrada.

Depravador detectado — seus olhos vermelhos me fitam. — Eliminando — caminha a passos largos na minha direção.

Meus pés escorregam e o meu traseiro bate no chão, porém apoio a mão livre no chão a tempo e eu me viro deum rodopio, correndo em direção contrária ao castelo. Mas um diabo vermelho colide um abraço em mim.

SATÃ É LUZ — agarra a lanterna e inicia um puxa-puxa. — SATÃ É VIDA — eu lhe acerto um chute e ele cai. Passo por ele e retorno com a fuga.

FORTITUDE CHEGOU — berra um garoto. — CORRE! SE ESCONDE!

Os satanistas começam a correr em direções randômicas, invadindo casas, trancando portas e janelas. Sapo Milo salta de casa em casa como uma sombra voadora, até que dá um salto maior e se agarra com um deles, ficando em cima dele no chão. Sapo Milo agarra os dois lados da cabeça do satanista e torce o seu pescoço, matando-o.

Acabou — grita um garoto que deambula com as mãos na cabeça e os olhos lagrimados. — A gente vai morrer — Fortitude agarra o seu pescoço e arranca a sua cabeça com a facilidade de abrir um pote. Solta o corpo decapitado e volta a caminhar ligeiramente.

Ao chegar a um espaço mais limpo e aberto, vejo Sapo Milo correndo como um lagarto frenético na minha direção. Corro sem pensar para a direita, seguindo reto. Uma sombra me encara com os olhos brancos. Atravesso o seu corpo e minha visão é tomada por um clarão branco ZINNNNNN! Minha visão é preenchida por uma imagem estática que mostra um campo de grama verde, onde o Coronel Fortitude está carregando um garotinho sorridente no braço e a colocando sentado em cima do próprio ombro. O garotinho ri, com as gengivas rosadas de fora, abanando as mãozinhas para cima.

O clarão pisca e eu volto à realidade. Meus passos se atrapalham e eu bato com o peito no chão. A lanterna escapa da minha mão e rola alguns centímetros para frente. Um garoto pega e sai correndo.

NÃO — levanto-me em uma rápida contorcida. O garoto invade uma casa vermelha, fechando a porta. Corro para lá e invado, batendo com o ombro na porta. O garoto revira uma mesa de madeira, depois salta por uma janela. Faço o contorno pela mesa, chego à janela e salto para o outro lado. A perseguição continua seguindo em uma linha reta, com os nossos pés em frenético bate-bate.

Ele escorrega ao fazer uma curva para a direita. Eu quase passo direto quando meus pés escorregam e eu caio com a bunda, mas evito a colisão ao bater a mão no chão, direcionar para o lado e prosseguir com a corrida. O garoto se atira de cabeça em uma janela aberta e cai dentro de uma casa de madeira com primeiro andar, levanta-se rapidamente e sobe uma escadaria. Eu salto para o outro lado da janela na mesma velocidade e subo os degraus de dois em dois, fazendo uma curva para a direita no meio do caminho. Entramos em um espaço quadrado cheio de esculturas de armaduras de plástico que imitam aço. O garoto se esbarra com uma e se esparrama todo no chão.

Não perco a oportunidade e me agacho em cima dele, agarrando a lanterna com ambas as mãos e puxando, mas ele puxa de volta e assim começamos uma briga pela posse da lanterna. Ele chuta o meu quadril e eu dou uma ligeira reclinada, mas eu continuo a puxar.

Solta, porra!

NÃO — ele volta a me chutar, até que acerta as minhas virilhas e eu recuo, soltando um gemido. Ele se arrasta para trás até bater as costas na parede. Aponta-me a lanterna bem na cara, jogando um clarão que me faz cerrar os olhos e esconder a frente do rosto com a mão.

— Como você pôde mentir para mim desse jeito, Ricardo?! — Sapo Milo entra pela janela como uma lagartixa. O garoto reage e vira a luz para ele. Sapo Milo some instantaneamente.

Eu tento avançar contra o garoto, mas ele percebe e atira a lanterna na minha cara.

Argh — minha testa é atingida. O garoto corre e me dá um abraço de urso, derrubando-me de costas e ficando em cima de mim. Suas mãos agarram o meu pescoço e começa a me estrangular. Eu me balanço, martelando as costas para cima e para baixo. Giro o corpo para a direita. Prendo minhas duas pernas na sua coxa direita e giro. O garoto grita e me solta, com isso eu me levanto, corro alguns passos, agacho-me e recupero a lanterna. Quando penso em descer as escadas para fugir, ouço passos pesados ressoando do andar de baixo.

Análise de objetivo — Coronel Fortitude está subindo. — Proteger o que ainda resta de pureza no mundo — ele quebra parte da parede e invade.

Olho para a janela e corro para lá. Ponho uma perna para fora, depois ponho a outra, sento-me no parapeito e assim me jogo para baixo. Meus joelhos dobram com a colisão e eu caio de frente com as mãos no chão. YARRRRRRGH! Os berros do garoto jorram da janela, sendo rapidamente silenciado.

Eu corro com uma perna mancando. Diminuo a velocidade ao ver uma vasta onda de drones voando por cima das casas; os drones de Mederin. Vejo uma casa vermelha com a porta de madeira aberta. Disparo para lá e invado, fechando a porta bum! Ouço fungados e gemidos atrás de mim. Quando me viro, uma garota de cabelos negros e pele clara jaz abraçada aos próprios joelhos, com a cabeça deitada em cima, ocultando o rosto.

É a menina que salvei na Cúpula Espaço.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top