Prova Final III

Corro na direção do Superfantástico, descendo uma escadaria larga, chegando a um campo amplo circular de solo metálico recoberto de pequenas lentes redondas emitindo luzes amareladas. Olho para a grande esfera transparente em cima do cilindro metálico. A esfera é feita de cristal puro. O pontinho vermelho e brilhante que flutua bem no centro da esfera se trata de uma bolinha minúscula que hora gira na horizontal, hora na vertical e hora na diagonal, sempre alternando quando os braços mecânicos lançam faíscas de eletricidade nele, indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo. Este é o núcleo da cidade?

— Impressionante, não é? — a voz de Mederin ecoa atrás e eu me viro. A sombra voadora flutua para perto de mim, encarando-me com os olhos de bolas brancas. — O Superfantástico foi criado especialmente para reger a cidade e mantê-la estável, mas agora querem destruí-lo para transformar Jardines em um campo de selvageria. Oh, por que faz essa cara? Achava mesmo que o seu amiguinho queria o bem para esta cidade? Você não passa de um peão, Gilson Fernandes. Você não é NINGUÉM — voa para mim e agarra o meu pescoço, levantando-me um metro acima do chão. — VOU FAZER SE ARREPENDER DE TER PISADO NAQUELE FAROL! VOU GARANTIR QUE AQUELE TENHA SIDO O MAIOR ERRO DA SUA VIDA — ela voa contra o chão e faz as minhas costas doerem com a colisão. Seus olhos brancos me encaram bem de perto. — Agora, feche bem os olhinhos, porque assim vai doer bem menos — suas mãos começam a apertar o meu pescoço de modo a tapar a minha respiração. Como reação, eu abro a boca numa tentativa desesperada de sugar ar, retorcendo braços, pernas e cabeça.

NÃÃÃÃÃÃO!

Mederin é empurrada por uma segunda sombra voadora. Com o pescoço solto, eu puxo ar para dentro da boca. Mederin e a sombra misteriosa batem contra o cilindro metálico. Olho para isso com os olhos arregalados. A sombra de Mederin golpeia o rosto da sombra misteriosa e o faz recuar um voo rápido.

— Quem diria... — diz Mederin. — Você aparecendo para me enfrentar nessa forma?!

Vim pra acabar com isso — brada a sombra misteriosa. — É um sacrifício que eu tô disposto a fazer!

Venha, então — Mederin abre os braços. — Venha e enfrente a deusa do mundo que te acolheu!

As duas sombras voam uma contra a outra e iniciam uma troca constante de socos, com os corpos recuando e avançando, recuando e avançando. Eu me levanto do chão, mirando boquiaberto para a batalha, mas eis que passos estrondam fortemente atrás de mim, e eu rapidamente reconheço de quem são. Viro-me de costas e comprovo o então previsto.

Depravador detectado — Coronel Fortitude, Irmã Garra e Sapo Milo estão reunidos no início da descida para a escadaria larga. Eu lanço para eles uma expressão de coragem, franzindo a testa e tomando uma postura ofensiva. — ELIMINANDO — o trio avança contra mim e eu recuo vários passos.

Sapo Milo pula para o chão em que piso e dispara na minha direção como uma lagartixa frenética. Aponto-lhe a lanterna e ele corre para a direita, sumindo do meu campo de visão. Irmã Garra termina de descer as escadas e dispara na minha direção. Aponto-lhe a lanterna e pisco sua luz repetidas vezes. Irmã Garra sofre uma reação imediata, dá as costas para mim e corre na direção oposta, subindo as escadas que havia acabado de descer, passando ao lado de Coronel Fortitude, que já terminou de descer os degraus e está caminhando a passos largos na minha direção. As duas sombras voadoras trocam golpes a partir de uma altura superior, voando ao redor da grande esfera cristalina.

Dois minutos para a explosão — anuncia a voz eletrônica do Superfantástico. Fortitude se aproxima e eu recuo vários passos, recuando, recuando, até sentir as costas beijarem a parede metálica do cilindro. Fortitude avança um murro e eu esquivo para o lado. BRÉRRRRC! O punho de Fortitude atravessa a parede metálica do cilindro e agora ele está tremulando, recebendo uma descarga elétrica muito intensa. — Alerta! Falha no sistema operacional! Solicitando drones de reparação — os braços mecânicos dentro da esfera agora se movimentam com mais rapidez e frequência, lançando mais faíscas de energia para a bolinha vermelha brilhante, que está girando com mais e mais rapidez.

Começo a ouvir múltiplos sussurros:

Você sabe o caminho que está seguindo — são vozes infantis. — Mas não enxerga as consequências... É tarde demais...

Sapo Milo aparece e salta, derrubando-me de costas.

Chegou a hora do julgamento, Ricardo — suas mãos agarram os dois lados da minha cabeça. — Você sabe qual será a sentença!

Giro a mão e aponto a luz da lanterna para a sua cara. Ele some feito um vulto. Eu me ponho de pé rapidamente e, quando me dou conta, ele não está mais aqui. Olho de relance para cima. As duas sombras estão com as mãos entrelaçadas, um empurrando o outro. Olho para Fortitude, que continua a receber descargas elétricas no corpo. Olho para as escadas e vejo Irmã Garra descendo os degraus.

Fortitude tropeça para trás em uma explosão elétrica e parte de sua armadura estoura no chão, deixando seu peito cinza-metálico a mostra. Irmã Garra também reage e começa a tremer, como se sofresse uma descarga elétrica também. Olho para o lado e vejo Sapo Milo também estremecendo. A máscara de Irmã Garra estoura no chão, deixando a mostra um rosto escuro com olhos pretos contendo um brilhinho branco no centro e uma larga dentadura branca, assim o seu rosto toma a forma de uma caveira. Sapo Milo tem os dois braços separados do corpo, logo o seu corpo deita todo retorcido no chão, não voltando mais a se mover.

Depravadorrrrrr — Fortitude se vira para mim. — Depravad-d-d-d-dorrrrrr — caminha com mais rapidez.

A sombra de Mederin tenta esvoaçar contra mim, mas a sombra misteriosa a agarra pelos ombros e a puxa contra si.

Isso — grita a sombra misteriosa. — Faz ele destruir o computador até desligar tudo! Quando os drones repararem, o sistema vai ser reiniciado!

Minha Jardines não vai cair — Mederin agride a sombra misteriosa e assim os dois voltam a trocar golpes no ar. — Vocês não vão ganhar nada tirando tudo de mim!

Coronel Fortitude se aproxima e eu recuo vários e vários passos rápidos. Irmã Garra corre para mim e eu aponto a lanterna, piscando sua luz. Irmã Garra dá meia volta e corre para a minha direção oposta. Enquanto recuando, eu me aproximo do cilindro metálico de modo que as minhas costas voltam a tocá-lo. Coronel Fortitude se aproxima, avança um murro e eu esquivo para o lado. BRÉRRRRC! Ele cria mais um rombo no cilindro e recebe mais uma descarga elétrica que o faz tremer e balançar.

Alerta! Alerta — anuncia o computador. — Danos severos no sistema operacional... operacional... operacional...

Irmã Garra sacode o corpo inteiro numa dançada frenética, com faíscas elétricas piscando para todos os lados. POUNF! Sua cabeça estoura e seu corpo desaba, ficando estirada como um cadáver. A iluminação de todo o ambiente se apaga repentinamente, dando lugar a um piscar frenético de luzes vermelhas giratórias, além do som do alarme ainda estar ressonando PÉN PÉN PÉN PÉN!

Podem tentar o que quiser — esbraveja Mederin, acertando um murro na sombra misteriosa. — Mas nunca irão roubar o meu mérito!

Ninguém quer a porra do teu mérito — a sombra misteriosa esquiva um golpe e tenta revidar um soco, mas Mederin esquiva com um recuo. — É contra a tua tirania que a gente luta!

Ah, pelo amor de Deus, que coisa mais clichê! Eu sou a malvada da história e vocês os bonzinhos, não é?! Que coisa patética! Mesmo que me matem, vocês não serão NADA!

Coronel Fortitude volteia dois passos e a armadura dos seus braços se despedaça no chão, deixando a mostra o metal cinzento e reluzente. Seus olhos vermelhos viram para mim, com um brilho bem maior do que antes, mais enfurecido.

DEPRAVADORRRRRRR — ele anda para mim com uma rapidez triplicada, os passos batendo com mais frequência e o corpo, agora mais leve, movendo-se com mais agilidade. — D-D-DEPRAVAD-D-D-D-DORRRRRRR — golpeia um murro no chão e eu recuo. Ele gira o braço e me acerta na barriga, fazendo-me esvoaçar e quicar as costas na parede. Caio de frente, com a cara no chão.

Você sabe por que está aqui — ecoam vozes infantis na minha cabeça. — Não pode cair assim... Não agora... Não aqui...

Movo os braços sobre o chão. Levanto a cabeça e vejo a minha lanterna caída alguns metros à frente. Coronel Fortitude, andando rapidamente para cá, pisa e esmaga a lanterna. Viro os olhos um pouco para a direita e avisto uma figura humana me observando, uma mulher de cabelos castanhos, roupas casuais e olhos completamente negros estendendo a mão na minha direção como um símbolo direto de compaixão.

— Mãe... — tusso, remexendo o corpo no chão num esforço para me colocar de pé novamente. Quando consigo, Fortitude avança a mão, mas eu corro a tempo e consigo esquivar, ainda que dando vários tropeções no meio do caminho, insisto em correr mesmo com o corpo doído. Um sorriso emocionado e trêmulo cresce na minha boca, ao mesmo tempo os meus olhos começam a lagrimar e arder. Estendo a mão para frente, balançando-a enquanto corro desajeitadamente na direção da minha mãe. — Mãe... Mãe... — balbucio como uma criança, lacrimejando, molhando toda a pele da face. Mas a minha mãe desaparece como fumaça se desvanecendo. Meus olhos mudam de expressão e os meus passos se embaralham, fazendo o chão subir e me dar um murro.

Ao mover o queixo sobre o chão gelado, percebo o crucifixo prateado que tenho no meu pescoço, a que peguei na Cúpula Evangelho. Meus olhos fixam no brilho platinado da cruz, cuja parte de baixo é pontiaguda, deixando-a idêntica a uma espada virada de cabeça para baixo. Quando tudo parece perdido, é a fé que nos mantêm em movimento. Recordo a frase de Adão. A fé... Imagens de momentos da minha infância piscam na minha visão como uma série de fotografias passando simultaneamente uma após a outra. Foi tudo o que me restou... O monstro que reside em mim vai morrer hoje... Aqui...

Bato as duas mãos no chão. Com a força dos braços, levanto a parte superior do corpo, em seguida levanto um joelho e depois o outro, por fim levanto o restante do corpo e me ponho novamente em pé. Viro-me para trás. Coronel Fortitude anda passos largos para cá, com os olhos vermelhos me encarando como um demônio obsessor.

Respiro fundo uma e outra vez, encarando-o da mesma forma.

— Tu quer um depravador, filho da mãe?! — rosno por entre os dentes. Fortitude prepara o punho para me golpear, fechando dedo após dedo. — EU TE MOSTRO O DEPRAVADOR!

Fortitude levanta o punho e avança. Eu inclino o corpo para o lado em uma reação imediata, permitindo-me a cair com o braço no chão através de um tropeço. A queda diminui a velocidade, fazendo tudo correr em câmera lenta. Tudo se volta escuro, deixando-me em meio a um vazio infinito feito de preto puro, ao som de um zumbido agudo zinnnnnn! Olhos brancos e brilhantes se abrem de todos os lados que o meu campo de visão consegue enxergar. Todos estão olhando diretamente para mim, para o fundo da minha alma.

Quando você entrou naquele farol — ecoam as crianças. — Recebeu um propósito maior — os olhos começam a se aproximar de mim em uma sincronia única. — Seus erros cometidos em vida — suas mãos ficam visíveis aos meus olhos, todas se estendendo para o meu rosto. — Foram expurgados pelo auto perdão — as mãos tapam a minha visão por inteiro. — O perdão que a alma presenteia ao corpo... Nós te entregamos.

O meu próprio corpo se projeta no meio da escuridão, completamente nu, com o corpo limpo e coberto de iluminação branca, de modo que apenas o rosto fica visível. Uma grande luz se expande atrás do meu corpo, que abre os braços em um formato de cruz, e sem tirar os olhos de mim, lentamente começa a voar para trás, adentrando o mar de luz, até que tudo se vê tomado pelo branco, e assim a luz se expande de forma a preencher cada pedaço da minha alma.

Quando a luz se desvanece, eu me vejo deitado com as costas no chão, de volta à sala do Superfantástico, que pisca faíscas de eletricidade contra todas as paredes com explosões brancas atrás de explosões brancas. Coronel Fortitude tem o braço enfiado dentro do cilindro metálico. Seu corpo inteiro treme freneticamente, jorrando faíscas em um intenso pisca-pisca. As peças da sua armadura esvoaçam despedaçadas para todos os lados, rodopiando no ar e quicando no chão. A sombra de Alexia Mederin flutua no ar e, dando uma última olhada no Superfantástico, dá meia volta e dispara voo para fugir, sumindo ao passar pela porta que eu havia vindo. A sombra misteriosa, no entanto, voa na minha direção.

Gilson — sua voz ecoa abafada e baixa, mesmo ele gritando. — Levanta... Corre... — puxa os meus dois braços e me coloca de pé novamente. — Vamos — faz sinal com a mão e voa na direção da porta.

Sem ouvir nenhum som, com a mente confusa e pesada, eu bato os pés e desato a correr, porém tudo está se movendo de maneira mais lenta que o comum, ainda assim eu sigo a correr, acompanhando a lentidão. Subo as escadas que havia descido para chegar aqui. Mas, antes de passar pela porta, dou uma última olhada para trás e vejo Coronel Fortitude sendo mutilado por explosões brancas que piscam por todas as partes do seu corpo. Primeiro caem os seus dois braços, depois uma perna explode, logo explode a outra, o torso rola no chão e assim termina de ser destruído aquele que um dia foi o meu herói favorito da infância.

Volto a correr para a porta e atravesso o outro lado, sendo acompanhado por uma grande explosão branca que vem como um tsunami de eletricidade atrás de mim. Mas eu consigo chegar ao outro lado a tempo. Tudo escurece quando todas as luzes giratórias se apagam.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top