Infância Que Se Foi
Todo domingo eu, meu pai e minha mãe íamos para a praia de Boa Viagem, às vezes para tomar um banho de mar, comer algo em uma lanchonete, ou simplesmente dar uma volta e receber a brisa morna do litoral ensolarado no corpo. Como criança de dez anos na época, era uma das coisas que eu mais gostava de fazer no dia-a-dia.
Naquela manhã ensolarada em especifico, era um dia de sábado, e estava apenas eu e meu pai dando uma volta sobre a areia da praia, passeando calmamente de mãos dadas entre os banhistas e vendedores ambulantes. Estávamos vestidos apenas de sunga, meu pai com uma preta e eu com uma vermelha, e nos nossos pés calçávamos chinelos azuis claros da marca Morioka Modas.
— Sabe, Gilson... — falou Ramón Fernandes de Melo, olhando em volta com os óculos de sol, principalmente para o azul do mar, que espumava ondas em um vai e vem suave, onde algumas crianças brincavam na beirada, jogando água umas nas outras e soltando altas gargalhadas. — Eu tive um sonho ontem à noite que eu acho que tu vai gostar de ouvir...
— O que foi, papai?! — perguntei com um sorriso animado, segurando um picolé de morango na mão livre. — Sonhou que tinha virado o Coronel Fortitude e tinha salvado o mundo dos alienígenas?!
— Errr... Não, mas confesso que espero sonhar com isso um dia — ele soltou um riso. — Não, o que eu sonhei foi com uma coisa muito melhor. Eu sonhei que tinha voltado a ser criança, igual tu é agora, só que mais pequenininho e ingênuo. Lá estava eu no meio de um jardim ensolarado, a coisa mais linda, flores coloridas, gramado verde, terra molhada com cheirinho de chuva, passarinhos cantando por todo os lados. Lá eu corria, brincava e me soltava como nunca havia feito antes.
— E o que mais tinha nesse jardim? — soltei a questão, depois dei uma chupada no picolé.
— Tinha tudo! Tinha carrossel, roda gigante, árvores com pneus amarrados pra se balançar, palhaços dançando e malabarismo, nossa, foi lindo demais! Mas sabe por que eu tô te dizendo isso? — ele abaixou o rosto para me encarar.
— Não... Por quê?
— Por que eu nunca tive a chance de ter uma infância de verdade. De brincar, me divertir, assistir desenho na TV a hora que eu quisesse... Ao invés disso, eu passei a minha infância ajudando dona Rosimar, sua avó, com o comércio dela.
— E vocês vendiam o quê? — dei uma mordida no picolé.
— Vendia sapatos, peças de roupa. Quando podia a gente vendia quadros que ela mesma pintava dentro de casa. Era uns quadros feios da desgraça, mas pelo menos o povo comprava porque era vendido a troco de merreca, e eu ficava lá com ela batendo palmas e gritando pra chamar a atenção da clientela. A gente gritava: "Olha, a gente tem isso, a gente tem aquilo, venham comprar, venham comprar". Quando terminava o dia, eu chegava em casa com a garganta toda lascada.
— E o povo comprava nada não?
— Comprava. Às vezes era de má vontade porque a gente insistia muito, mas comprava. Rendia um bom dinheiro pra botar comida dentro de casa. Mas às vezes eu ficava cansado daquilo e só queria me divertir com os outros meninos da minha idade. Quando a gente ia vender tralhas na praça e eu via os meninos brincando de futebol, nossa, que inveja me dava ver aquilo... A vontade de estar incluído entre eles era como um sonho distante...
— Mas o senhor nunca brincou com ninguém antes? — chupei o picolé.
— Eu brincava com o papai quando podia, mas foram poucas vezes. O que eu sentia falta mesmo era de brincar com crianças da minha idade, porque não é a mesma coisa uma criança brincar com um adulto, pois eles impõem muitos limites e às vezes são bem marrentos, mas criança brincando com criança é uma coisa totalmente diferente. As brincadeiras são mais descontraídas e divertidas... Ei, quer que eu te conte como eu conheci a tua mãe? — sorriu para mim. — Garanto que tu vai gostar da história.
— Conta, conta — eu me empolguei naquele instante, mordendo o picolé com um sorriso, mastigando o seu sabor doce e gelado.
— No meu tempo de escola, eu era muito pegador. Oh, mas eu chegava logo agarrando! Levava as meninas lá pra perto da quadra e dava cada beijão de língua que deixava elas doidinhas — soltou um riso de nostalgia. — Assim foi seguindo, até que, quando fiz vinte e um anos, conheci a Andreza lá no Shopping Center, aquele que a gente comprou o teu videogame. Naquela época, o teu tio Ramalho ainda era vivo, aí eu cheguei até ele e disse assim: "aquela menina é linda". De todas as meninas que eu conheci, a Andreza foi a única que eu não tinha coragem de chegar perto pra puxar conversa que nem eu fazia com as outras, não, quando chegava perto dela eu simplesmente congelava! Não sabia como reagir! Ficava com medo de ela pensar ruim de mim, de não causar uma primeira boa impressão... Ali eu percebi que tinha finalmente me apaixonado.
— E o senhor chegou nela e deu um agarrão beeeeeem forte — falei aos risos. — Não foi?!
— Que nada! Se fosse depender só de mim, eu não chegaria pra falar com ela nunca! Quem juntou a gente mesmo foi o teu tio Ramalho, que viu que eu realmente tava apaixonado por ela como nenhum rapaz havia demonstrado antes. Sério, meu filho, a tua mãe era linda demais, meu Deus do céu, parecia uma deusa egípcia! Aí teve um dia que Ramalho pediu pra eu escrever bilhetes pra ela, dizendo que sou um admirador secreto, e que isso com certeza iria chamar a atenção dela de forma positiva. Eu escrevia e ele colocava em algum lugar pra somente ela encontrar. Ramalho era esperto demais. Tua mãe nunca chegou a desconfiar.
— E quando vocês dois se beijaram pela primeira vez? — perguntei com a boca melada de picolé.
— Foi no dia que a gente decidiu finalmente marcar um encontro. Foi bem atrás da Igreja Nossa Senhora do Carmo. Eu fiquei me tremendo todo de nervosismo e teu tio Ramalho lá me estimulando, dizendo: "Tu consegue, homem! Confia no teu próprio instinto de macho alfa". Então, quando ele se afastou, a Andreza apareceu toda linda com um vestido vermelho solto. Toda vez que eu olhava pra ela, ficava com a boca caída, derramando baba no chão. Quando ela chegou perto de mim, respirei fundo e me declarei pra ela. Não sei o que deu em mim, mas o meu medo sumiu pra sempre naquele instante, tudo graças ao teu tio Ramalho, que Deus o tenha... Daí eu e Andreza finalmente nos beijamos...
— E aí vocês se casaram — tentei adivinhar.
— Calma que também não foi assim tão fácil. Primeiro a gente começou a namorar e se conhecer melhor. No dia que eu conheci os pais dela, o jeito como o teu avô Josafá me olhava, Jesus do céu, parecia que o homem iria me esquartejar! O homem tinha dois metros de altura, cada lapa de braço que, se ele desse um murro, minha cabeça voava pro espaço! Tua avó, por outro lado, chegou logo me abraçando, me dando beijo na bochecha, apresentando cada canto da casa, mas a mulher era tão avexada que logo depois de apresentar a casa, já tava falando em casamento. Teu avô não gostou nem um tiquinho daquilo e já me olhou com cara de bicho ruim.
— O que ele fez? — naquele momento eu já estava perto de terminar o picolé. — Vocês dois brigaram pela mamãe?
— Graças a Deus, não. O homem me levou até o quintal da casa com a mão segurando na minha argola. Ele era tão brabo, mas TÃO brabo que, quando ele abria a boca pra falar, parecia um dragão cuspindo fogo! Não tinha quem não sentisse pavor naquela hora! Mas então, quando a gente chegou ao quintal, ele perguntou quais eram minhas intenções com a filha dele e tudo mais. Naquela época, isso era muito comum. Quer dizer, hoje ainda é, mas antigamente os pais eram muito mais linha dura. Hoje em dia as meninas ficam soltas por aí. Engravidam com doze anos e fica por isso mesmo, mas se dependesse do teu avô, a filha dele teria morrido virgem e tu nunca teria nascido!
— Mas o que aconteceu depois, papai?
— Depois, a gente conversou na mesa enquanto jantava e foi tudo se acertando. Com o passar dos dias, teu avô viu que eu realmente tava gostando da tua mãe e decidiu que tava na hora de marcar o casório. Agora não pense que foi casamento dentro de igreja, não, foi só casamento civil mesmo. Assinamos uns papéis aqui, trocamos as alianças ali e pronto, estávamos oficialmente casados!
— E daí eu comecei a crescer na barriga da mamãe — falei sorrindo, já tendo terminado de chupar o picolé. Estava apenas com o palito na mão.
— Exatamente, meu filhote! Cresceu na barriga da mamãe e vai virar um homenzarrão forte igual o paizão aqui! Vem cá, vem — soltou minha mão, parou na minha frente, agachou-se e enfiou as mãos embaixo dos meus braços. — OPA, GAROTÃO — levantou-me nos braços. — Tá ficando forte mesmo, hein?! Mostra os músculos pro papai!
E eu mostrei, erguendo o braço que segurava o palito.
— Vou ficar forte igual o Coronel Fortitude!
— É assim que se fala, meu garoto! Opa, o que é isso aqui na tua mão?! — tirou o palito do picolé da minha mão e atirou para longe. — Bora ver quem acha primeiro pra jogar na lixeira?!
— BORAAAAA!
Ele me abaixou de volta no chão e, juntos, começamos a andar pela praia em busca do palito, analisando cada pedaço do chão de areia. Ficamos uma hora inteira procurando, e no final eu terminei encontrando embaixo de uma sombrinha vermelha abandonada.
Vestidos com camisa e bermuda, caminhamos juntos pela calçada, indo na direção de uma lixeira pública que tinha um formato cilíndrico.
Nós dois paramos a três metros da lixeira.
— Joga lá, vai — ele apontou e eu joguei. O palito rodopiou e caiu diretamente na boca da lixeira. — Isso aí! Esse é o meu campeão — agachou-se e me abraçou fortemente, dando-me uma sacudida para um lado e outro enquanto eu ria calorosamente. — Muito bem, agora bora pra casa que hoje a tua mãe prometeu fazer aquela macarronada daquelas que a gente gosta!
— OBAAAAAA — gritei todo animadinho. Eu adorava as macarronadas que a mamãe fazia. Desde garoto, sempre foi o meu prato preferido. Porém, quando chegamos em casa, eu não almocei junto com eles na mesa, e sim sentado no sofá da sala, com o prato de macarronada com queijo ralado, ovos cozidos desfiados, verdura cozida com maionese e dois pedaços de carne de frango.
A televisão ligada a minha frente estava passando mais um episódio do Trio Pátria Mundo, que sempre começava com uma tela preta, na qual logo subia o título na cor verde e azul.
— Quando o mundo estiver em perigooooo — cantava uma voz masculina e jovial ao som de guitarra eletrônica. — Eles vão agir por todos nóóóóóós — Coronel Fortitude apareceu na tela, quebrando o título com um soco certeiro. — Fortitude, Irmã Garra e Sapo Milooooooo — Fortitude estufava o peito e levava às mãos à cintura em uma pose heroica, logo Irmã Garra aparecia à sua esquerda e Sapo Milo à sua direita. — Os heróis do mundããããããão — e todos se posicionavam para o combate. — É o Trio Pátria Mundo!
— No episódio anterior — um narrador fala e a imagem muda para o trio lutando contra uma horda robôs dentro de um corredor ultra tecnológico repleto de luzes de neon multicolorido. — O Trio Pátria Mundo finalmente se infiltrou na nave do Malvado Cabeção de Ovo para deter a sua invasão extraterrestre e colocar fim aos seus planos maquiavélicos de destruir a humanidade.
— Eles são muitos — bradou Fortitude, desferindo murros para todas as direções. — Não vamos aguentar muito tempo!
— Vamos sim — Irmã Garra rodava majestosamente seus dedos laminados como uma bailarina, saltando, esquivando e disparando ataques viscerais. — O mundo inteiro morrerá se não aguentarmos!
— É isso aí — Sapo Milo saltava de cabeça em cabeça, arrancando uma a uma com suas mãos pegajosas e os robôs iam explodindo no processo. — Somos nós ou eles!
O narrador voltou a falar:
— Depois dos nossos heróis derrotarem a horda de robôs de elite, acontece finalmente o grande confronto — na tela mostrou o Malvado Cabeção de Ovo sentado em um trono de metal roxo, com os dentões expostos num sorriso maléfico estampado na cabeça de bola branca, com o corpo humanoide revestido em uma capa verde escura com argolas pontudas em volta do pescoço. Na frente dele estava o Trio Pátria Mundo, encarando-o com olhos bravos. — Episódio de hoje: O Confronto Definitivo — o episódio então começou, mas não sem antes o narrador dizer: — Versão brasileira, Dublagens Royal.
— Acabou, Cabeção de Ovo — Irmã Garra apontou o dedo de garra pontiaguda. — Sua invasão termina aqui!
— É... Confesso que subestimei vocês — o alienígena se levantou do seu trono. — Mas agora chegou a hora de ver quem é o mais forte — rasgou a própria capa ao meio, revelando um corpo com músculos montanhosos. — E o mais poderoso!
— Vixe — Sapo Milo arregalou os olhos. — Agora ferrou de vez!
— Ferrou nada — falou Fortitude, cerrando os punhos. — Agora é que começou!
— Faz muitos milênios que venho esperando por uma luta descente — bradou Cabeção de Ovo. — Mil planetas eu destruí! Dez mil raças eu extingui! E sabem porque eu fiz tudo isso?! Pelo prazer de lutar uma batalha! Sozinho eu sou capaz de derrotar exércitos de trilhões! Vocês provaram que são capazes de lutar melhor do que muitos terráqueos deste universo de infinitos mundos, mas agora é a hora da PROVA FINAL — saltou e desceu um soco contra o trio, que esquivou a tempo, cada um para um lado distinto, logo os três saltaram juntos contra o Cabeção de Ovo e a luta prosseguiu entre saltos acrobáticos, golpes explosivos e disparos de raio laser da boca.
Eu assistia aquilo sempre com um sorriso no rosto e o entorno da boca melado de comida. Meus pais, por outro lado, almoçavam normalmente na cozinha... ou quase.
— Caramba, Ramón — ouvi a minha mãe gritar. — É sério que vai pegar na comida logo depois de passar a mão naquele cachorro nojento?! Tem uma torneira logo ali, sabia?!
— Deixe Berimbau em paz que ele também é da família — falou meu pai em tom risível. — Ele é como um segundo filho pra mim!
— Sei... Filho bastardo, só se for!
— Olhe, respeite Berimbau!
— Vai logo lavar essa mão senão eu meto uma mãozada nos dois!
— Oh, coisa boa! Berimbau vai adorar! É ou não é, Berimbau?!
Mesmo com os olhos travados na TV, ainda pude ouvir os latidos grossos de Berimbau ressoando do quintal.
— Ai, meu Deus — rosnou minha mãe. — Vocês não tem jeito...
— Tem mesmo não! Aliás, eu vou ver se acho uma cachorra fêmea pra Berimbau encher esta casa de filhote!
— O quê?! Nada disso! Nem se atreva a fazer uma coisa dessas!
— Eu tava brincando, mulher — meu pai caiu na risada. — Mas bem que eu podia...
— RAMÓN!
— Tá, tá bom! Já tô indo lavar as mãos!
Na televisão, o trio de heróis prosseguia com a luta entre explosões e pancadaria generalizada. A ingenuidade era o que me tornava uma criança feliz, descontraída e livre das preocupações cotidianas. Desde que me tornei adulto, sentia o desejo de voltar a ser uma criança apenas para esquecer os problemas que um adulto tem que lidar no seu dia-a-dia. O que eu não daria para viver numa cidade como Jardines apenas para escapar de tudo isso e voltar a ser feliz?
Tudo, talvez...
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