Escolinha Liditas
No final das escadas, eu empurro o chão falso acima de mim como se abrira um alçapão. E assim eu subo, rangendo os dentes em uma careta de esforço. Encontro-me dentro de uma sala de aula toda bagunçada, com cadeiras arriadas, mesinhas depredadas, bonecas de fadas desmembradas, luzes quebradas, quadros manchados com sangue ressecado, projetores de hologramas amassados, e alguns cadáveres ensanguentados de crianças quase imperceptíveis no meio da bagunça.
O teto é inteiramente cor de rosa, com desenhos de flores brancas, exatamente como as paredes, com a diferença de que nas paredes não tem as flores. Um ambiente feito especialmente para as menininhas.
Tchórrrrrr! O fone volta a chiar. Tchic tchic tchórrrrrr!
— Muito bem, senhor Gilson. Está indo muito bem — é a voz distorcida. — O senhor já se encontra dentro da Cúpula Fantasia. Está muito mais perto da Cúpula Amazônia, agora. Mederin nem imagina que o senhor está aí.
— Espera aí — interrompo. — Como sabe que eu cheguei à Cúpula Fantasia?!
— Eu consigo rastreá-lo desde onde eu estou.
— E onde que você tá?
— Escute. Antes de sair deste ponto, abra a gaveta da mesa do professor. Lá, o senhor encontrará uma pílula que deixei exclusivamente para o senhor apenas por precaução. Dessa forma, as alucinações irão diminuir a frequência. Depois que engolir a pílula, busque a saída para este lugar. Obviamente não será fácil, mas eu confio nas suas capacidades. Quando sair, entrarei em contato com o senhor novamente para dar novas instruções.
— Ei, espera, fala onde você tá — mas ele desliga na minha cara. — Droga, me responde, caralho!
Rapidamente arranco a máscara de ar do rosto, jogando-a no chão e deixando-a ali mesmo. Olho para a mesa do professor à minha direita, uma mesa de pernas brancas e cabeça cor de rosa, com uma caixinha de música prateada com a boneca de uma fada em cima, uma fada de braços abertos e asas de mariposa nas costas. Ando para lá e puxo a única gaveta que há. O único que há dentro é uma pílula esverdeada. Com os dedos, eu pego a pílula e enfio na boca. Engulo num glup bem alto.
Viro-me para a saída da sala, suspirando alto. Dirijo-me para lá dando passos altos e cuidadosos. A bagunça é tanta que eu me reclino para os lados quase como se andasse sobre uma corda bamba. PÓC! PÓC! BUM! Estrondos ecoam acima do teto, e eu me encolho numa agachada de corpo, com os olhos arregalados para o teto. PÕBROGLÓC! Não sei o que é esse som, mas certamente é de algo sendo derrubado com violência.
Fico parado por alguns segundos, sem me mover. Não ouço mais nenhum som... Seja o que for, acabou de se aquietar.
Volto então a andar passos altos rumo à porta, dando rápidas olhadelas para cima de momento em momento. Chegando à porta, giro lentamente a maçaneta e puxo numa lentidão ainda maior. Inclino a cabeça para olhar. Vejo um grande pátio espaçoso todo envolto de escuridão e bagunça. Abro a porta completamente e passo para o outro lado, deixando os meus pés escorregarem no chão, que é todo dourado e liso.
Ilumino o local com a luz da lanterna. O primeiro que me deparo são corpos de menininhas, uma delas, a mais próxima de mim, está caída de frente, com a bochecha colada no chão. Seus olhos estão completamente revirados em branquidão, a bocarra aberta como uma cratera, o vestido preto brilhoso cheio de rasgos, e o rosto chupado e esquelético. Há uma varanda superior acima da parede do outro lado, com o parapeito amarelo intacto, mas com a presença do corpo de uma menininha completamente nua estatelada em cima, parecendo lençol pendurado em um varal.
A parede abaixo da varanda é todo pintado em linhas horizontais de arco-íris, porém está muito desmanchada, e em uma parte de desmancho maior, na forma de um círculo irregular todo amarelo queimado, está escrito a frase em sangue: "Mederin Observa".
Viro a lanterna para a esquerda e vejo uma vasta montanha de entulho bloqueando o que parece ser a saída. Pedaços de madeira, braços, pernas e cabeças decepadas, armários e estantes quebrados em vários cacos, bloqueando como uma cortina que se estende de uma parede à outra. Tirar tudo sozinho vai levar dias ou até meses. Vou ter que procurar outra saída. Talvez haja uma janela para saltar ou então uma porta dos fundos.
Viro a lanterna para a direita. Há uma larga escadaria de degraus dourados para subir, onde no fim estão duas escadarias mais estreitas, uma à esquerda e outra à direita. Na parede ao fim da escadaria maior está um pôster todo colorido, mas daqui não consigo ver o que é.
Não há cartazes ou bonecos com olhos por aqui, o que me dá um pouco de tranquilidade. Não sei para que lado ir. A voz me falou para sair daqui, mas não me apontou nenhum caminho. Espero não encontrar nenhuma criança lunática. Estou desarmado e, para piorar, está demasiado escuro. Sem a lanterna, não seria capaz de ver nem o meu próprio nariz.
BLING! Meu coração pula e eu me viro de um rodopio. BLING! BLING! BLING! A caixinha de música está reproduzindo uma melodia aguda. BLING! BLING! BLING! A boneca da fada está girando demoradamente para os lados. Hin hin hin! Uma sombra pequenina e azulada corre, ocultando-se atrás da mesa do professor. Hin hin hin! Sua cabecinha se inclina de lado, espiando-me com olhinhos brancos comprimidos numa careta feliz, soltando um risinho fino hin hin hin hin hin! Arquejo fortemente, tremendo dos pés à cabeça. Estico a mão, puxo a maçaneta e fecho a porta.
Sugo bastante ar para dentro dos pulmões, soltando uma longa baforada pela boca logo em seguida. Meus nervos dão uma ligeira acalmada. Recuo alguns passos, depois me viro para trás. Movo-me cuidadosamente para frente, desviando dos corpos estirados pelo chão, subindo e descendo os joelhos, inclinando-me para um lado e para o outro. Há portas que parecem levar para salas de aula à frente, todas feitas de madeira com maçaneta de cobre, mas todas estão bloqueadas por estantes derrubadas.
Dirijo os meus passos para a escadaria maior. O silêncio aqui é absoluto, e isso para mim não é bom sinal. Podem estar me espreitando de qualquer direção, e sinto que de fato estão. Sinto o peso de olhos ocultos me encarando, e não são os olhos de Mederin.
Viro a lanterna para a varanda superior à minha direita. Não vejo nada além de preto atrás do parapeito. Passo por cima de um corpo dando um passo alto após o outro. Levanto a luz da lanterna para o teto, que é cor de rosa com longas filas de lustres apagados. Desvio de dois corpos de meninas abraçadas uma em cima da outra, ambas completamente nuas e com a pele toda vermelho-rosada, sem olhos e com um buracão vermelho no lugar da boca.
Na parede à direita, vejo outra frase escrita em sangue: "Desligue o Superfantástico". Um pouco abaixo, o corpo de uma garotinha sem olhos e sem boca está sentado com as costas na parede. Está olhando direto para a minha alma. Ando um e outro passo. A cabeça da menina me acompanha. Eu pisco os olhos. Ela não está mais lá; sumiu. Fecho os olhos e chacoalho a cabeça. Abro os olhos. Delirando agora, Gilson? Sério?
Aproximo-me da escadaria principal após desviar de mais alguns corpos pelo caminho. Põ... põ... Detenho-me ao ouvir passos na varanda à esquerda. Viro a lanterna para lá, recuando passos. Uma sombra platinada se move com olhos pretos e pupilas brancas, aproximando-se calmamente do parapeito.
Sua cabeça vira para mim.
— Ah... — agacho-me e me escondo na lateral direita da metade dos degraus. Meu coração volta a se agitar, e agora os meus dentes ficam rebatendo dentro da boca tic tic tic tic! Ouço passos arrastados se afastando. Levanto-me um pouco para olhar, com a lanterna abaixada, iluminando o chão. Está tão escuro que me sinto um cego. Ergo a lanterna e ilumino. Tudo vazio e quieto.
Engulo a seco, puxando ar e soltando. Com os olhos ainda atentos ao parapeito, subo os degraus um a um, bem, bem devagar. Ao final, na parede ao fundo, está o pôster das Liditas, um grupo de fadas de vestido preto brilhoso e cabelos pintados em arco-íris voando rumo a um céu colorido com suas asas de mariposa aberta nas costas, levantando uma varinha de condão e jogando partículas brancas para o alto. Acima delas está escrito em vermelho: "Escolinha das Liditas".
Felizmente, o pôster não tem olhos, pois as fadas estão viradas de costas, olhando para o horizonte paradisíaco ao fundo, recheado de árvores e flores desabrochadas com rostinhos alegres e caricatos típicos de desenhos animados infantis, principalmente pelos olhos grandes e arredondados, que felizmente não parecem estar me vigiando. Fixo o meu olhar no pôster, analisando-o. Eu me lembro das Liditas. Era um grupo musical que foi fundado em 1981. Foi onde Alexia Mederin começou sua carreira como cantora e apresentadora. Algumas de suas músicas foram tocadas em festas no meu tempo de escola primária, e eu pulava e dançava com toda energia que uma criança saudável podia usufruir.
Eram seis meninas Liditas naquela época. Carla Jordana, Roberta Leandra, Jana Moura, Amanda Avenarthy, Alexia Mederin e Marcela Ditorres. Dentre todas, Alexia Mederin, Jana Moura e Marcela Ditorres foram as únicas que mantiveram uma carreira artística. Jana Moura virou uma atriz renomada em toda América Latina, atuando em novelas como Mãos Injustiçadas e Corações Robóticos. Marcela Ditorres virou atriz pornô e ficou rica vendendo revistas eróticas de si mesma, fazendo muitos marmanjos fantasiarem com ela até hoje. Como homem hétero, eu digo que até hoje ela é gostosa pra caralho. Curiosamente, mesmo tendo mais de cinquenta anos hoje, ela permanece com uma aparência de vinte... Adrenocromulum, talvez?
Amanda Avenarthy foi presa por tráfico internacional de crianças em 2002. Pouco depois, ela foi encontrada morta na sua cela particular em circunstâncias misteriosas. Mas Roberta Leandra foi a que teve o desfecho mais triste. Ela entrou para o mundo das drogas e virou prostituta nas periferias da cidade do Rio de Janeiro. Acabou morrendo numa troca de tiros entre traficantes e policiais do BOPE. Carla Jordana virou jornalista do Jornal Madrugador da Rede Ruptura, e continua sendo até hoje. Já Alexia Mederin criou o maior império de entretenimento infanto-juvenil de toda a América Latina, para depois construir uma utopia para crianças em outro planeta... Que maluquice...
Olho para os degraus à minha esquerda. Nem fodendo que eu vou subir com essa coisa vagando por aí. Olho para os degraus à minha direita. Esse parece um caminho mais seguro. Subo os degraus a direita, iluminando o caminho com a lanterna. Chegando ao final, olho de relance para trás, iluminando a varanda do outro lado. Nenhum sinal da coisa. Se o silêncio total já me deixa inquieto, agora é a hora de morrer de desespero.
Ando alguns passos para frente, seguindo por um corredor com várias portas em cada lado. Põ põ põ põ põ! Um som de corrida ecoa acima do teto. Subo os olhos, respirando alto. O silêncio faz um retorno abrupto. Com isso eu volto a seguir andando em frente. Tchic tchic! Minha lanterna dá duas piscadelas. Zinnnnnnn! Um zumbido agudo ressoa e eu imediatamente paro de andar. Zinnnnnnn! O zumbido está soando de todos os lados, como se saíssem das paredes. Viro a lanterna para a direita e para a esquerda. Nada.
Tchórrrrrr tchóc tchórrrrrr! O fone chia na minha orelha. Tchirrrrrr tchurrrrrr!
— Atrás de você — emite a voz de uma garotinha chorosa. — Ela tá... atrás de você...
Meus olhos se arregalam e meu coração vira uma bomba. Póc... póc... Passos batem perto das minhas costas, acompanhado de um suspiro grosso nhurrrrf! Com uma súbita coragem, rodopio o corpo inteiro. Nada. Não tem ninguém aqui.
Neste momento, o chiado do fone silencia. Era alucinação? Pergunto a mim mesmo em pensamentos, olhando fixamente o caminho por onde vim, com o peito subindo e descendo em respiração nervosa. Eram fantasmas de verdade? Viro-me para trás. Uma sombra infantil me encara ao fundo, com olhos de bolinhas brancas brilhando na escuridão. A sombra voa de um pulo e preenche a minha face. ZINNNNNNN! Minha visão escurece.
Ouço risos infantis... muitos deles... rodeando-me... Esses risos ficam graves, soando monstruosos e tristes... Eles estão flutuando... invisíveis... aproximando...
— Você vê — vozes espectrais e infantis ecoam, tristes. — Agora você vê...
Meus olhos se abrem numa arregalada; minha boca puxando ar para os pulmões. Com a visão levemente embaçada, levanto o corpo, ficando sentado. Ao lado da minha cintura está a lanterna caída. Pego-a de volta e ilumino o corredor à frente, agora vazio. Fecho os olhos e balanço a cabeça, sentindo uma pequena tontura. Volto a abrir os olhos, suspirando. Que porra foi essa...?
Dando um e outro suspiro pelo nariz, tomo esforço para me colocar de pé. Visões que podem ser fatais... Fixo os olhos no corredor à frente, vazio e escuro. Agora eu entendi... Com a lanterna iluminando, volto a andar em frente, piscando constantemente os olhos, com a cabeça ainda meio tonta, mas eu respiro fundo, conseguindo um ligeiro alívio. Tenho que sair daqui...
Paro em meio a dois corredores e ilumino para os dois lados. O corredor da esquerda leva a um caminho bloqueado por um amontoado de estantes e cadeiras. O da direita leva para uma porta bloqueada por um armário destroçado na frente. VRIRRRR! Suspiro de susto, olhando para o teto. Alguém moveu uma cadeira ou algo do tipo. Deve estar infestado de crianças lunáticas no andar de cima. Bom, pelo menos eu não estou lá em cima, e espero não precisar fazer isso.
Volto a caminhar em frente, dando passos mais arrastados. Tchic tchic. A lanterna volta a piscar. Olho para a lanterna e dou uma palmada na sua lateral. Anda, não vai dar defeito agora. Volto a iluminar em frente e caminhar pelo corredor. Encontro uma porta escancarada à minha esquerda. Passo por ela e chego ao fim do corredor, parando exatamente onde estava a sombra de olhos brilhantes. Ilumino o caminho à direita, vendo-o bloqueado por entulho. Ao olhar para a esquerda, vejo um caminho limpo.
A sombra prateada aparece andando ao final.
— Ai, droga — corro e paro perto da porta escancarada, abaixando a luz da lanterna e a escondendo. Põ... põ... põ... Seus passos estão se direcionando para cá. Vai me achar se eu continuar aqui parado.
Sem outra opção, eu empurro a porta e invado o que parece ser uma sala de aula, porém sem a presença de bancas ou cadeiras, invés disso estão pequenas bases redondas de superfície rosa com altura de poucos centímetros. Na frente de todas, bem ao fundo da sala, está um palco com cortinas brancas. Põ... põ... põ... Os passos da coisa se aproximam.
Corro para o palco. Atravesso as cortinas brancas e me agacho, apertando o botão superior da lanterna e apagando sua luz. Póc... póc... póc... Está vindo da porta. Puxo um pedaço da cortina com os dedos e abro uma fina brecha vertical, aproximando o olho direito para espiar. Uma mancha prateada passa como um espectro flutuante. Meus olhos se arregalam e meu coração martela violentamente no peito. Póc... póc... póc... A coisa prateada está se afastando. Póc... póc... põ... põ... O som vai diminuindo. Põ... põ... põ... põ... Vai diminuindo. Põ... põ... põ... E assim eu não ouço mais nada.
Fico parado por alguns segundos, sem mover um centímetro do corpo. No entanto, minha respiração falha não evita que o meu corpo dê uma e outra estremecida. O silêncio perdura durante longos e longos segundos. Não ouço outro barulho além da minha respiração. Movo a cabeça um pouco para o lado para ter uma melhor visão da parede pela brecha da cortina. Parece que é seguro sair agora... Espero...
Devagar, levanto os meus joelhos até ficar com as pernas totalmente retas. Fico parado por mais alguns segundos, atentando-me a ouvir algo, mas ouço apenas silêncio. Tic. Ligo a luz da lanterna. Olho para a esquerda e não vejo nada. Olho para a direita e vejo um vestido branco com asas brancas de algodão similar a uma fantasia de anjo. Olho de relance para trás e vejo o quadro de um cenário paradisíaco com um arco-íris cortando o céu. Aparentemente isto aqui era uma espécie de peça teatral, ou talvez algo mais. Só dá para especular.
Abro a cortina e saio. Caminho em meio às bases redondas de superfície rosada, porém me detenho bem no meio da sala e me viro para o palco que deixei com as cortinas abertas, deixando o quadro paradisíaco exposto.
Não, isto aqui não era um teatro. Estou na Cúpula Fantasia. Aqui deveria ser onde as alunas fadas aprendiam... magia? Não, não tem como ser isso. Magia não existe. Se existisse, Jardines não estaria na situação que está agora. O que então elas aprendiam aqui? Quem as ensinava? Existia uma mestra das fadas Liditas? Seria essa mestra uma das Liditas do passado? Tantos mistérios vão ficar sem resolução, mas a minha sobrevivência deve vir em primeiro lugar. Dane-se este lugar e dane-se mais ainda Alexia Mederin. Eu quero a minha vida de volta.
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