Encontro Com a Esperança II
Após uma longa caminhada pela cidade, finalmente havia chegado na Comunidade do Pilar, um dos bairros mais pobres de Recife, formado por vielas estreitas feitas de estradas lamacentas, ainda mais que o lugar sofreu com chuvas fortes e alagamentos recentemente. Por causa disso, o céu ainda estava fechado por nuvens cinzentas, e os meus sapatos pretos já estavam manchados com o marrom da lama.
A visão do lugar era deprimente. A grande maioria das casas tinha suas paredes esburacadas e alguns tetos desmoronados. Os prédios históricos estavam em ruínas, parecendo que a qualquer momento iriam desmoronar em uma explosão de poeira, além de barracos de madeiras simples para abrigar os sobreviventes dos alagamentos, porém que mostravam as condições precárias de parte dos moradores da comunidade.
Por ser um lugar com pouco policiamento e possivelmente dominado por criminosos da pior espécie, eu não fui louco de andar com roupas sofisticadas. Dei preferência por vestir uma simples camiseta regata branca, bermuda marrom, e o fato dos sapatos estarem sujos de lama foi totalmente proposital. Fiquei andando com os pés arrastando na água da lama para me deixar com cara de miserável, o que não era uma completa inverdade. Também deixei o meu celular em casa.
Garotos andavam de bicicleta pela estrada. Idosos se sentavam na frente dos barracos com cadeiras brancas de plástico e tamboretes velhos de madeira. Donas de casa penduravam roupas e lençóis em varais que ficavam bem na porta de suas casas, enquanto os homens andavam sem camisa, fumando cigarro. As mulheres, especialmente as adolescentes, andavam praticamente seminuas, com a barriga de fora e usando shorts jeans muito curtos. Os que tinham celular com internet ficavam escorados perto de alguma parede, com os olhos vidrados na tela e um cigarro aceso na boca.
Cachorros corriam aos latidos um atrás do outro. O que corria mais na frente tinha um pedaço de osso na boca e disparava como um projétil enquanto os outros tentavam abocanhar sua calda. Um eletricista vestindo macacão verde subia calmamente uma escada de mão para ajeitar um fio partido de um poste. Uma senhora de idade observava abaixo, tagarelando.
— Foi um furacão terrível! Parecia que o mundo tava se acabando! Era lixo voando, tetos desmoronando, gente gritando... Nossa, mas foi um horror que você nem imagina! E o governador até hoje não enviou nenhum tipo de ajuda pra nós! É um absurdo ou não é?!
— Com certeza — o eletricista sacou a chave de fenda para tirar os parafusos. — Nesse governador aí eu não voto mais nunca!
No interior das vielas estreitas, grupos de crianças estavam agachadas, acendendo maços de cigarro com isqueiros, soprando fumaça da boca e brincando com bolinhas de gude no chão.
Eu parei no começo do beco e olhei para eles.
— Ei — chamei e todos viraram as caras. — Vocês sabem onde fica a garagem de Miguel Rodrigues?!
— O Pistolado?! — perguntou um garoto de pele morena e corpo fino. — É dele que tá falando?!
— Sim, o Pistolado... Sabe onde fica a garagem dele?!
— Tu segue essa mesma rua e vira pra esquerda. Tu logo vai ver a garagem dele aberta lá.
Agradeci com um aceno e segui em frente pela estrada lamacenta. Ao virar um caminho para a esquerda, dei de cara com uma estrada um pouco mais larga, porém tão lamacenta quanto a anterior e bem menos movimentada. A garagem de Pistolado ficava ao lado de um barraco de madeira de formato cubico. Não tinha porta, e dentro estava um garoto de doze anos vestido com uma camisa branca e vermelha da marca Pilotagem. Na parte de baixo ele vestia uma bermuda branca cheia de bolsos. Nos pés usava um par de tênis brancos e na cabeça usava um boné preto virado para o lado.
No momento em que me aproximei, Pistolado estava passando pano molhado num dos pneus traseiros do carro, um tipo preto cuja parte frontal da lataria estava arranhada. Um dos faróis estava rachado, como se houvesse sido golpeado por um vândalo. Não era grande coisa, mas pelo menos era um carro que eu podia adquirir por um preço acessível.
— E aí, meu comparsa?! — Pistolado se levantou com um sorriso de dentes tortos. — Chegou na hora certa — bateu na minha mão e apertou, depois apontou o carro com a mão. — Tá aí um carro prontinho pra tu levar. Terminei de limpá-lo agora. Tá funcionando tudo, tudo mesmo, e quem garante é o seu amigão Pistolado aqui, morô?!
— Tá, eu já entendi — olhei de relance para trás com insegurança. — Tu falou que vendia esse carro por... setecentos reais, certo?
— Isso mesmo! Tá com o dinheiro aí?!
Enfiei a mão no bolso lateral e puxei um rolo de cédulas de cinquenta e cem.
— Tá aí — depositei na sua mão. — Mas me diz aí, como foi que tu conseguiu esse carro?
— Oh, rapaz, vai começar a me interrogar agora, é? — ele enfiou o dinheiro no bolso, sem deixar de me encarar com os olhos verdes. — Tu é policial por acaso?
— Eu só quero saber aonde foi que tu conseguiu o carro... Custa falar?
— Tá bom, eu vou falar. Agora, se tu falar pra policia, meus irmãos vão na tua casa te encher de bala, morô?! — apontou-me o dedo na cara. — Tá dado o recado — enfiou a mão no outro bolso da calça e puxou a chave do carro. — Toma aí a chave — entregou na minha mão.
— Eu não vou sair daqui enquanto não contar como conseguiu esse carro.
— Tá bom, se quer tanto saber assim, eu conto, mas fica na tua, tá ouvindo?! O que aconteceu foi o seguinte — ele começou a contar entre gestos de mãos e de dedos. — Tava eu e meus irmãos aqui na quebrada. A gente preparou as armas, pegou as máscaras e saímos pra praticar uns assaltos. Este carro aqui a gente pegou foi no segundo assalto. O motorista era um casal com uma filha. A gente apontou a arma, pedimos pra eles sair do carro e deixar a gente levar numa boa, mas então...
Seu silêncio repentino me fez questionar.
— Mas então...?
— O assalto tava correndo tudo bem, mas aí o panaca do meu irmão, Pauleira, achou a filha do cara muito gostosa e disse que ia tirar o atraso naquele instante...
— O quê?! — meu espanto foi imediato. — Pera aí, vocês estupraram uma mulher dentro desse carro?!
— Mulher porra nenhuma! A menina tinha nove anos! Era uma criança!
Levei as mãos à boca, perplexo e enojado.
— Não acredito que tô ouvindo isso...
— Mas eu fiz nada não, tá ligado? Eu tava na minha, de boa. O pai da menina saiu do carro conforme a gente mandou e o que o Pauleira fez? Deu dois tiros na cabeça dele e mais dois na cabeça da mulher, aí a gente teve que entrar no carro e sequestrar a menina.
— Hum... — soltei um bufo pelo nariz, desconfortável. — E vocês fizeram... o que... com a menina?
— A gente trouxe o carro aqui pra um beco e teve que deixar o Pauleira tirar o atraso com ela.
— P-pera, como é que é?! Vocês ESTUPRARAM uma menina dentro desse carro?!
— E eu ia fazer o quê?! Pauleira era o mais velho da família, pô! Era ele o chefe do esquema todo! A gente não podia fazer nada!
— Meu Deus do céu — levei a mão à boca e balancei a cabeça para os lados. Respirei fundo e abaixei a mão, mirando-o. — E o que fizeram com a menina depois disso?
— A gente matou. Foi um tiro na cabeça dela e já era, matou na hora. Depois, a gente jogou o corpo no esgoto e é isso.
— Vocês O QUÊ?! — meus olhos se arregalaram. Apontei o carro. — Tá me dizendo que você matou uma criança dentro desse carro?! O MEU NOVO CARRO?!
— A desgraçada não parava de chorar! A gente tinha que calar a boca dela! Mas se preocupa não que o carro tá todo desinfetado. Não ficou evidência nenhuma, nem digital, nada. Tá tudo limpinho. Olha, vem ver aqui — chamou-me com a mão e, juntos, aproximamo-nos da porta para o assento do motorista, que estava com a janela abaixada. — Pode ver que tá tudo limpinho, os assentos, o volante. O retrovisor ali a gente teve que colocar um novo por que o antigo tava todo fodido, tá ligado?
Ele não estava errado. O assento estava totalmente novo e desinfetado. Nada estava fora do lugar e, mais importante, não haveria quem fosse desconfiar de que o carro foi roubado. Nem queria imaginar a reação da Jaqueline caso viesse a perceber algo errado. Pior que isso seria a polícia nos enquadrar enquanto estivesse levando ela para a festa. De todo jeito, eu precisava correr esse risco.
— Tá bom, isso já basta — abri a porta do carro e sentei no assento, enfiei a chave e girei. O motor soltou um ronco furioso e o veículo já estava pronto para pilotagem. Olhei para Pistolado. — Tá certo aí o dinheiro que eu te dei, não tá?
— Tá sim, meu compadre! Tu é um dos tipos que eu mais confio, tá ligado?! Agora, vai na paz e fica com Deus aí! Se tiver um probleminha, tu já tem o meu número! É só ligar pra cá, morô?!
— Beleza — pisei no acelerador e levei o carro para a estrada lamacenta, girei o volante para a esquerda e fui seguindo reto pela estrada. — Muito bem — ergui os olhos para o retrovisor e o ajeitei para refletir os meus olhos e a minha testa. — Agora é só esperar anoitecer e ir pegar a Jaqueline — sorri com confiança e ansiedade. Fiz uma curva para a direita, com o carro dando uma e outra balançada por causa dos buracos.
Quando a noite caiu, eu, pelado dentro do banheiro de casa, girei a manivela preta e a água do chuveiro jorrou por cima da minha cabeça, escorrendo pelo resto do meu corpo. Mexi bastante os cabelos castanhos já muito crescidos. Girei a manivela e a água deixou de cair. Passei o sabonete por todo o corpo com agitação, começando pelos braços, depois esfregando pelo pescoço, pelo peito, pelas virilhas e terminei por esfregar as costas até onde podia. Voltei a abrir o chuveiro e deixei que a água levasse toda a espuma para o ralo.
Quando terminei, puxei a toalha branca e esfreguei cada parte do corpo com pressa, em seguida me dirigi até a cesta de roupa que ficava ao lado da porta. A cesta era de plástico branco. Bem em cima da sua tampa estavam as minhas roupas de festa: uma camisa xadrez de cor cinza e branco fechado a botões, um calção jeans azul escuro com dois bolsos laterais e mais dois na traseira e um par de tênis preto de cadarços vermelhos da marca Morioka Modas.
Após me vestir completamente, borrifei o perfume de alfazema do pescoço até os quadris. Esfreguei creme nas palmas das mãos e as esfreguei em movimentos frenéticos por todo o cabelo. No final eu peguei o pente e penteei os cabelos cuidadosamente para trás. Peguei o relógio de ouro falso e prendi no pulso direito. Olhei para o mostrador branco e os ponteiros negros indicavam 18h51.
— Bem na hora — esbocei um sorriso, sentindo o coração palpitar de ansiedade. Olhei para o meu reflexo no espelho. — Vou chegar bem na hora.
Em menos de um minuto eu saí de casa, entrei no carro, enfiei a chave e girei. Assim que o motor roncou, pisei no acelerador e girei o volante para andar sobre o asfalto em uma velocidade de quarenta quilômetros. Tzun tzun. Meu celular vibrou dentro do bolso. Deixando apenas uma mão no volante, puxei o celular do bolso e atendi com um deslize do polegar, logo levei o celular para a orelha.
— Alô?!
— É Gilson Fernandes de Melo quem tá falando? — perguntou a voz grave de um homem que parecia estar na meia idade.
— É sim. Quem quer saber?
— Aqui é Adão de Freitas Silva. Eu vi que você colocou a sua casa a venda, não é verdade?
— É, eu coloquei uma placa ao lado da entrada — virei uma curva para a direita. Pisei levemente no freio para diminuir a velocidade quando passei a andar atrás de um carro preto. — Você tá interessado em comprar?
— Meu amigo, eu tô procurando uma casa nova aqui na cidade desde 2015. Sim, eu tô muito interessado em comprar. Ando atrás de uma casa simples e a sua é justamente o que eu procuro. Quando é que eu posso passar aí pra gente negociar?
— Tem como ser amanhã a tarde? — virei a esquina à esquerda, dirigindo reto sobre o asfalto de uma avenida iluminada em tom laranja pelos altos postes prateados. — Duas da tarde, pode ser?
— Perfeito — Adão respondeu. — Às duas horas eu apareço, então. Até mais.
— Até — desliguei e enfiei o celular de volta no bolso. — Adão de Freitas Silva — falei comigo mesmo, pensativo. — Onde foi que eu ouvi esse nome antes? — naquele minuto eu fiquei perdido em pensamentos, tentando recordar o nome, mas nada me vinha a mente, pois não era interessante para mim agora. — Seja quem for, vai ter que esperar a festa acabar.
Coloquei a casa a venda uma semana depois da morte da minha mãe. Não podia continuar vivendo sob o mesmo teto em que tirei a vida da minha mãe, ou melhor, libertei a minha mãe de um sofrimento infernal, já que eu sabia que o papai nunca mais iria voltar para casa. Finalmente alguém se interessou em comprar. Aquela noite não podia ficar melhor. Passei a dirigir com um meio sorriso de otimismo o trajeto inteiro, trajeto esse que durou menos que cinco minutos.
Estacionei o carro na frente de um apartamento branco de dez andares, onde na laje do teto estava destacado um grande letreiro retangular de fundo azul claro com o nome Edifício Romero escrito em letras grandes e vermelhas. Bem na calçada, escorada ao lado de um poste, com o celular perto da face, Jaqueline estava vestida com uma blusa verde e azul sem mangas e com alças finas, um short jeans branco curto e sapatos brancos. Ela rapidamente se aproximou assim que me reconheceu dentro do carro.
— Menino, tu chegasse faltando um minuto pras sete! Tá rápido, hein — rindo, ela abriu a porta e sentou ao meu lado, fechando a porta num abafado bung. — Vamos lá?!
— Vamos — pisei no acelerador e segui reto pelo asfalto, que felizmente estava pouco movimentado. — Vem cá, é impressão minha ou o teu apartamento é o mesmo que um senhor de idade desapareceu dentro de um elevador?
— É o mesmo, sim — Jaqueline acendeu um cigarro com o isqueiro e começou a fumar. — Disseram que um senhor de idade ficou usando o elevador várias vezes sem sair de dentro dele. Ele apertava um botão e ia pra um andar, depois apertava outro, e outro, e mais outro, e mais outro, até que, de repente, cadê o velho?! Pra onde é que foi o velho?! Ninguém sabe!
— Ele simplesmente sumiu do nada?! — mantive o foco na estrada, ainda que prestando atenção.
— Exatamente! Evaporou do nada — ela soprou fumaça para fora da janela. — Aquilo causou um reboliço tão grande que tu nem imagina. Todo dia aparecia algum veículo de mídia querendo fazer investigação, entrevistar os moradores, analisar o elevador, essas coisas... Não descobriram porra nenhuma.
— E tu deu alguma entrevista pra eles? — olhei-a de canto, com um leve sorriso, inalando seu perfume de lavanda.
— Eu não, pra quê?! Não sabia de nada! Nem conhecia o velho! Ele nem sequer morava lá — ela soprou mais fumaça pela janela. — O único que sei é que o velho tinha fugido de um asilo chamado Lar dos Anciãos. Desde aquele dia, o pessoal do meu prédio não tá mais usando o elevador. Tão dizendo que tá mal-assombrado, que tá possuído pelo capeta e tudo mais. Eu mesma uso numa boa. Devo nada pro capeta mesmo... E tu?!
— Eu o quê?!
— Tá devendo alguma coisa pro capeta?!
— Eu não! Tô limpo igual sabonete!
Nós dois caímos no riso. Após meia hora de viagem, nós finalmente estávamos andando sobre uma estrada de terra em meio à penumbra sombria do campo, indo diretamente para o rancho onde a festa de Aderaldo estava ocorrendo.
— Cara, eu AMAVA o Trio Pátria Mundo — Jaqueline gargalhava com a nossa conversa. — Era o meu desenho favorito da infância! Amava demais aquela porra! Quando perdia um episódio, eu ficava doida dentro de casa, quebrando tudo, gritando, mandando todo mundo tomar no cu! Ficava doidona!
— Qual era o teu personagem favorito? — eu estava evitando rir demais para não perder o foco na estrada. — O meu era o Fortitude.
— O meu era o Malvado Cabeção de Ovo.
— Sério?! — perguntei em surpresa, sem mirá-la. — Logo o vilão?!
— O que é um desenho de super-heróis sem um bom vilão pra tocar o terror?! Eu me amarro demais nos vilões, e o Cabeção de Ovo foi o melhor de todos! O resto que veio depois dele era, tipo, forçado demais, tá ligado? A Malvina Picareta, por exemplo, não tinha a menor graça! Era muito melhor ter inventado uma desculpa pra trazer o Cabeção de Ovo de volta, mas aí a produtora do desenho fechou por denúncias de pedofilia, tráfico sexual de crianças, enfim...
— É, aquilo foi triste mesmo — avistei o rancho de janelas iluminadas, com vários carros estacionados de maneira desordenada na sua frente. Apontei o dedo. — É aquele o rancho?
— Aquele mesmo — ela confirmou. — Agora é só estacionar e entrar pra festaaaaaa — cantou com as mãos erguidas, fazendo sinal de V com os dedos. — Uhuuuuuul! Vamos lááááááá!
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