Choro dos Malcriados III
Minha consciência retorna quando os meus olhos começam a abrir. Vejo-me deitado sobre um chão de gelo azulado. Arregalo os olhos. Ergo o rosto e vejo um túnel à frente todo azul de congelamento e envolto de trevas.
— Laurinha?! — fumaça branca sai da minha boca. O frio extremo faz os meus lábios tremerem. Com as mãos no chão sugando o frio do gelo, faço esforço com os músculos, pondo-me de pé. — Laurinha?! — chamo, mas não recebo resposta. Tudo está na mais completa quietude. Trac! O osso do meu joelho esquerdo torce. — Ai, porra — solto um grunhido, cerrando os dentes.
Olho para o chão e vejo a lanterna caída um pouco à frente. Agacho-me e pego, apertando o botão e ligando sua luz. Iluminando o túnel gelado, inicio passos vagarosos, dando uma mancada na perna esquerda, com a minha cara enrugando numa careta de dor a cada passo, porém pouco a pouco a dor vai diminuindo, até que volto a caminhar com normalidade, ainda que sentindo uma e outra dor de pancada.
Em dois minutos de caminhada, atravesso o outro lado do túnel e chego a um grande canal de esgoto com caminho para a esquerda e para a direita. Viro a lanterna para a esquerda. Vejo nada além de escuridão e crostas de gelo. Viro para a direita e vejo a mesma coisa. Viro a luz para o teto e vejo conjuntos de canos cobertos por camadas de gelo.
Um esgoto embaixo de uma cidade feita para crianças? Será que era daqui que provinha água potável para elas? E como isso pode ser feito em um planeta inóspito como Marte? É logicamente impossível, ou talvez nem tanto, já que só o fato de Mederin sozinha ter colonizado este planeta antes mesmo de qualquer agência espacial já é absurda suficiente para criar mil e uma teorias mirabolantes.
Não sei como Laurinha não levou minha lanterna embora, pois está uma escuridão tremenda. Sem a lanterna, estaria como um cego andando em um labirinto de espinhos, e se os Malcriados estão aqui, então esta lanterna será a minha única defesa contra eles. Mas, do jeito como Laurinha ludibriou Coronel Fortitude, é possível que ela esteja sobrevivendo a todo este inferno há um bom tempo, como uma soldada veterana numa guerra de anos. Não sei quando o caos começou por aqui, mas suponho que deve ter sido há menos de um ano, ou menos de um mês.
Espero que não tenha acontecido nada a Laurinha. Vou precisar dela se pretendo revelar esta cidade ao mundo. Além do mais, acho que acabei criando um vínculo com ela, algo próximo de pai e filha. Eu realmente espero que ela esteja bem.
Olho novamente para os dois lados. Sem pensar muito, ando para a direita, iluminando o chão de gelo. Ilumino a parede da esquerda e me deparo com um garotinho congelado por trás dela. Eu paro de andar. O garotinho está com as mãozinhas grudadas na parede. Seu rostinho pálido está com a boca aberta na forma de um grande O, e os olhos totalmente revirados em branquidão. Olhar para isso me causa mais tristeza do que temor. Quantas crianças vão ter que morrer para o sucesso desta utopia? Quantas crianças Mederin está disposta a sacrificar em nome do próprio ego?
Tchórrrrrr! O fone começa a chiar enquanto eu mantenho o olhar fixo na criança.
— Tô te vendo — soa uma vozinha fina. — Tu me vê...?
Um arrepio me estremece os músculos. Minha respiração acelera abruptamente. Ainda assim eu crio coragem para dar uma resposta:
— T-tô... — murmuro. — Eu... tô te vendo...
A estática perdura por alguns segundos.
— Tu mente... — a vozinha soa trêmula, resfriada. — Não tô mais aqui... — a criança congelada se move para trás e desaparece. O fone então deixa de chiar. Não esboço nenhuma reação de surpresa, simplesmente desvio o olhar para seguir caminho, mas antes de mover os pés, dou uma última olhada melancólica. Será alucinação mesmo? Ou serão seus espíritos pedindo socorro?
Respiro fundo e volto a seguir caminho, andando calmamente, com o queixo tremulando de frio. A vila que passei parecia ser bem grande, então certamente este esgoto deve ter um tamanho no mínimo equivalente, talvez maior, talvez seja do tamanho desta cúpula inteira, não tem como ter certeza. Deve haver várias saídas para este esgoto, mas eu tenho que achar uma que me deixe bem longe do vilarejo, portanto eu não posso andar pouco por aqui, mas com a presença dos Malcriados, bem, talvez uma corrida dê uma ajudada. Só preciso tomar cuidado para não ficar perdido, mas a este ponto isso é o mais provável de acontecer. Não vai ser fácil perceber se estou andando em círculos ou não. Tudo aqui é muito igual.
Ilumino as paredes, o teto, e vejo que é gelo puro. Apesar disso, meus pés não estão escorregando. Trata-se de um gelo seco e sólido como metal, o que é estranho... Ou nem tanto, já que estou dentro de uma cidade construída na superfície de um planeta inóspito. Nada deve ser considerado impossível aqui. Depois de tudo isso, acho que nada mais vai me surpreender na vida.
Marte é um planeta mais afastado do sol do que a Terra. Pode o gelo daqui ter sido criado por alguma anomalia natural? Afinal, ninguém nunca explorou o subterrâneo do planeta Marte, e esta geleira parece que só existe em áreas subterrâneas de Jardines. Posso estar errado, mas a última vez que vi isto foi no Covil da Minhoca na Cúpula Espaço, que é justamente uma área subterrânea. Ou então pode que isto seja algum experimento feito aqui em Jardines por Mederin ou por outra pessoa.
Continuo andando e andando. Há outros corredores menores nas paredes laterais, mas estão bloqueados por paredes sólidas de gelo, sendo assim, só posso ficar seguindo por este caminho. No entanto, ao andar mais um pouco, percebo um corredor menor à esquerda sem nenhuma parede bloqueando. Jogo a luz da lanterna para lá, então inicio caminho. Neste momento o meu ouvido esquerdo detecta passos distantes de corrida. Deve ser a Laurinha.
Acelero os passos e viro um caminho para a esquerda. Conjuntos de canos congelados se ramificam por toda a parede, todos ligados no teto. Sim, deve ser daqui que vem a água para Jardines, mas não deve haver um esgoto apenas nesta cúpula. É impressionante ver como a Mederin pensou em tudo quando construiu este lugar. Se foi um exército de drones que construiu tudo isto, como então ela conseguiu esse exército de drones? Duvido que foi ela quem os criou. Se fosse apostar, diria que ela roubou de algum lugar ou de algum gênio especialista em robótica, ou pode que esse gênio esteja morando aqui e simpatize com as ideias de Mederin.
No fim do caminho eu me deparo com uma porta toda azul de gelo. Seguro a maçaneta, que ataca as minhas veias com um frio que me faz arfar e estremecer. Giro a maçaneta e empurro. Entro em um espaço amplo e quadrangular, repleto de canos ramificados por todo o teto e grande parte das paredes. Há uma porta ao fundo a frente e mais duas à esquerda e à direita.
— Um labirinto? — sussurro, olhando todas as portas. — É sério isso?
Ando rapidamente para a porta a frente. Vejo que está levemente escancarada, com isso eu apenas a empurro. Entro em um corredor estreito, com paredes feitas de tijolos, mas cobertos de gelo. Não há canos no teto, ao invés disso estão grandes lentes de projetores de tela. Corro um pouco para chegar rapidamente ao final. Como esperado, encontro mais uma porta ao final. Giro a maçaneta e empurro. Passo para o outro lado, adentrando outro espaço amplo e quadrangular idêntico ao que havia passado. Provavelmente, ainda estou embaixo da vila. Preciso andar mais.
Caminho rapidamente, iluminando as portas da esquerda e da direita. Viro-me para a porta da direita e sigo para lá. Com o frio que faz aqui, é capaz de eu literalmente congelar se ficar parado por muito tempo.
Tchórrrrrr! O fone chia no exato instante que paro diante da porta. Toco o dedo em cima do fone.
— Alô?!
A estática continua por alguns segundos.
— Papai?! — é a voz do menino que vi congelado. — PAPAI?!
— Alô?! Quem tá falando?! ALÔ?!
— Não deixa a gente te pegar, por favor — a voz se distorce num tom grosso e soproso. — Corre — está chorando aos soluços. — Apenas corre — a ligação é subitamente cortada. Arquejando nervosamente, ilumino ao meu redor. Encontro uma sombra de olhos brilhantes me observando perto de uma parede. Fixo os meus olhos nela, tenso e temeroso.
Tchórrrrrr!
— Há algo que você precisa saber sobre nós — soa uma voz fininha e rouca do meu fone. — Ainda estamos vivos — o fone volta a chiar um pouco mais. — Nós podemos ajudar — a sombra aponta o dedo para a porta à minha direita. — Siga essa direção... Apontaremos o resto do caminho...
Olho para a porta apontada. Olho para a sombra.
— Por que me ajuda?
Um risinho ressoa do fone.
— A gente gosta de brincar... Não queremos ver você morrer...
Neste momento me vem outro questionamento:
— O que vocês são?
O chiado no fone persiste novamente. O dedo da sombra vira, apontando para trás de mim.
— Lá estou eu...
— MÃÃÃÃÃÃ!
Giro a cabeça. Um Malcriado dança com as mãos esticadas. Um impulso de adrenalina me faz disparar corrida, rumando para a porta da direita. Empurro a porta com o ombro e passo para o outro lado, batendo e rebatendo freneticamente os pés.
— É sempre tão frio aqui — vozes infantis falam comigo pelo fone. — Por que ninguém nos acolhe? — começa a chorar e soluçar. — Tenho tanto medo...
Eu corro em linha reta dentro de um corredor estreito. Atrás de mim, o Malcriado se contorce como um boneco mole, chacoalhando o corpo superior enquanto os pés batem e rebatem a todo vapor. Eu chego ao outro lado e ele continua correndo como o mais insano perseguidor.
Bato com o ombro na porta e passo para o outro lado. Novamente me deparo com um espaço amplo com três portas: duas nos lados e uma na frente. A sombra de olhos brilhantes está parada na porta da esquerda, com o dedo apontado para a mesma. Eu corro e bato com o ombro na porta, continuando por um corredor mais longo e estreito. Olho para trás. Dois Malcriados agora me perseguem como silhuetas dançantes.
— UÁRRRRRRR!
— BÃ BÁÁÁÁÁÁÁ!
BENG! Uma tampa metálica cai mais à frente. Sapo Milo corre como uma lagartixa na parede. Aponto a lanterna e ele some para o teto.
— Acha que pode escapar da justiça?! — a voz de estática persegue as minhas costas. — NINGUÉM PODE!
Viro a cabeça. Sapo Milo corre freneticamente no chão, veloz como um vulto. Viro o braço com a lanterna e aponto a luz. Sapo Milo salta e some, enquanto os Malcriados escondem o rosto com as mãos e caem para trás.
— Isso é uma injustiça — Sapo Milo corre pelo teto, bem acima da minha cabeça. — Eu sou inocente!
— UM INOCENTE COM MÃOS SUJAS DE SANGUE!
Chego até uma porta e abro com o bater do meu ombro. Desta vez eu corro em meio a um canal de água congelada, cujo caminho é largo e reto como uma avenida, e o teto é alto e preto de escuridão como uma noite sem estrelas.
— MÉRRRRRRR — Malcriados aparecem de todos os lados, disparando contra mim. — UÁRRRRRRR — balanço a lanterna para um lado e outro enquanto corro, espantando-os e fazendo com que abram alas. — ÉRRÉÉÉÉÉÉÉ!
Sapo Milo salta do teto para o chão, correndo para me atacar de frente. Aponto a lanterna a tempo e ele voa para as paredes, onde continua a correr como lagarto frenético, acompanhando-me.
— MÓRRRRRRR — mãos agarram o meu braço direito, mas eu insisto em correr mesmo que arrastando os pés de forma alvoroçada. — MÓLÓLÓRRRRRRR — sacudo o corpo e o Malcriado cai. — UÓRRRRRRR!
— NHIRRRRRRR — outro se prepara para me dar um abraço, mas eu aponto a luz da lanterna e ele se afasta com os braços escondendo o rosto. — NHI NHI NHI — cobre o rosto com as mãos num gesto de choro. — NHI NHI NHI!
Eu volto a correr, espantando mais Malcriados com a luz, incluindo Sapo Milo, que volta para o teto.
— MÉRRRRRRR — esquivo de um e passo direto. Outros Malcriados tentam me atacar pela frente e pelos lados, mas eu aponto a lanterna em um constante gira-gira, limitando-os a apenas correr atrás de mim, mas a horda não consegue chegar muito perto quando estão se esbarrando entre si a todo instante.
Chego a uma rampa inclinada para baixo, correndo com mais cuidado para não escorregar e embolar. Sapo Milo aparece ao final e avança, dando um salto. Esquivo de um tropeço lateral. Chegando ao final, dou de cara com uma porta e abro com a colisão do ombro.
Um Malcriado pula e me abraça de frente.
— NHÁRRRRRRR!
Golpeio um empurrão e o derrubo. Pulo por cima dele e encontro uma escada de mão para subir. Agarro-me aos degraus de alumínio congelado e subo o mais rápido que os meus braços e pernas permitem. No final eu encontro o caminho totalmente aberto para a superfície.
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