Segunda-Feira, 20 de agosto.
Ja passou da meia noite e eles devem saber que eu estou perseguindo-os, mas se sabem por que não aceleram ou tentam algo contra mim? Devem estar tão concentrados em chegar em seu destino que não perceberam um moleque covarde sobre uma moto mantendo 50 metros de distância da traseira deles.
O veículo não tem placa. Já devia ter imaginado isso, são sequestradores. No lugar da placa há um buraco que fica no centro de uma amassão que vai até o porta malas... Deve ter sido um acidente recente...
Um dos desaparecidos recentemente, João Antônio, pai de um estudante da faculdade, pouco tempo antes de "sumir" se envolveu em um acidente em que seu carro chocou-se com o da frente... Tudo faz sentido agora...
Pensar naquilo me da enjôo. Meu corpo está gelado como se meu coração não bombeasse sangue suficiente. Carla está lá, a poucos metros de mim, correndo perigo, pode ser que estejam machucando ela, pode ser que ... Balanço a cabeça negando esse pensamento a mim mesmo, quando percebo que entramos num bairro isolado e com poucas casas.
Os sequestradores param em frente a uma garagem de portão eletrônico que sobe para eles. Reduzo e espero eles entrarem sem correr o risco de me verem. Encosto em um muro e saio a pé até a casa que eles entraram.
É uma casa grande e bonita. A pouca iluminação da rua e a falta da lua nessa noite dificulta a identificação de detalhes, mas percebo que todas as janelas estão trancadas.
Olho para o visor do meu celular, nada de sinal ainda. Preciso fazer alguma coisa mas o que ?
Tenho que ir até a delegacia e mostrar para os policiais o caminho até aqui. Os criminosos seriam presos, mas nesse meio tempo o que aconteceria com minha amiga? Qual outra opção eu tenho? Tentar entrar e enfrentar eles sozinho? Não sou um herói... Não sei lutar nem pôr medo em ninguém...
Penso em Carla. Se algo acontecer a ela, todo o peso disso cairá sobre minhas costas. Vai sempre ficar a dúvida, e se? E se eu tivesse entrado lá? E se estivesse me escondido lá dentro e atacasse quando não estivessem esperando? O elemento surpresa...
Encaro a lixeira quase encostada no muro da casa. Lembro das diversas vezes que esqueci minhas chaves da casa dos meus pais e usei a lixeira pra pular o muro.
Tomo distância sem pensar muito no que estava prestes a fazer. Corro em direção a lixeira e salto sobre ela usando-a de apoio sob meu pé esquerdo e agarro a extremidade do muro com dificuldade. Faço força e jogo todo meu corpo pra cima, com muito esforço consigo rolar sobre o muro e cair para parte de dentro.
Por sorte eu caio sobre um pequeno canteiro de grama que amortece minha queda.
Estou no quintal da casa ... A alguns metros o carro amassado esta estacionado na garagem em frente a entrada. Procuro alguma arma, qualquer coisa que pudesse usar pra surpreender. Vou andando lentamente pelos cantos e sombras sem fazer nenhum som sequer.
A casa possui um quarto de ferramentas do lado fora. Vou até ele, a porta esta destrancada então eu entro. Ascendo a luz.
Há mais que ferramentas comuns naquele quarto. As paredes são decoradas com facas e lâminas de todas as formas e tamanhos, das menores como as de cozinha até as maiores como a de açougueiros. Numa mesinha posta ali dentro há mais algumas armas brancas dentre elas um porrete como os usados por policiais. É esse que eu pego, e também coloco uma faca na cintura. Quando estou pra sair daquele lugar ouço algo lá fora.
Desligo as luzes e não saio. O som se repete. É um som conhecido, é como o bater de asas.
Abro somente uma fenda para tentar identificar aquele som. Bem em cima do muro que acabei de pular estão dois urubus. Suas penas negras como a noite e a pele cinza e enrugada dos seus pescoços se destacavam naquele muro claro. Por que urubus?
É hora de agir. Saio do quarto de ferramentas armado e volto ao quintal. As duas aves me encaram a cada passo que dou, tento não ficar incomodado com isso. São só aves.
A porta da casa também esta aberta. Será que posso chamar isso de sorte? Então eu entro. Estou em uma sala de estar comum, sofá, mesa de centro e TV. Com as luzes apagadas só identifico a forma das coisas. Há uma escada que leva pro segundo andar. Ouço algo vindo de lá. São vozes.
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