Domingo, 19 de agosto.

Gastei até meu último centavo em comida. A maioria era porcaria que se minha mãe me visse comendo provavelmente teria um ataque, mas pelo menos ao abrir a geladeira terei algo pra admirar por uns 2 ou 3 dias. Passei grande parte do dia pensando sobre ontem e foi a primeira vez que algo me ocorreu. O perigo que Carla correu naquela noite. Foi testemunha de um crime e sabe-se lá o que teria acontecido se os criminosos tivessem-na percebido, talvez quisessem o silêncio dela. Marcus, o policial pareceu ter pensado nisso também já que insistiu para levá-la pra casa na viatura. Ele disse que uma das lojas por perto tinha câmeras de segurança e que iria analisar as imagens pra tentar identificar o carro. Isso me deu uma ponta de esperança, mas não tanto quanto deveria.

Carla estava nervosa demais pra identificar o carro, tudo que disse é que era preto e que dele saíram duas pessoas, porém existe a possibilidade de haver outra pessoa lá dentro dirigindo. Foi tudo rápido demais segundo ela. E nem eu nem o Marcus quisemos forçar a barra, o que foi pra mim uma atitude nobre para um policial.
São 23 horas e recebo uma mensagem. Era ela.

"Hey! Ta ai??"

Respondo de imediato:

"Tô sim, por que?"

"Tem algo estranho acontecendo."

"O que foi?" -pergunto apreensivo.

"Tem um carro preto parado aqui na esquina em frente. Eu tô sozinha em casa e pode ser bobeira minha, mas tô com muito medo."

"Relaxa existem milhares de carros pretos. Você só esta com medo pelo que presenciou ontem."

"Pode ser... Mas ainda estou com medo... Até pensei em ligar pro Marcus mas pra piorar o sinal de celular não ta pegando hoje aqui, to pelo Wi Fi. "

"Quer que eu vá ai? Chego em 20 minutos."

"Vem por favor! Se não não vou conseguir dormir..."

Pego meu capacete e chave da moto e saio depressa do meu apartamento. "É só um medo bobo", repito mentalmente enquanto desço as escadas até a garagem. Quando subo na moto um arrepio sobe pelas minhas costas e minhas entranhas gelam. Não sou de acreditar em pressentimentos, mas também nunca tive um tão ruim antes.

Saio com a moto e adentro as escuras ruas da cidade. Faz frio essa noite e nuvens negras que ocultam a lua predizem um forte chuva que esta por vir. Atravesso rua após rua o mais rápido possível, a falta de trânsito me ajuda e em pouco tempo chego na rua de Carla.

Paro a moto assim que dobro a esquina, demoro um tempo pra processar o que vejo.

Um carro preto esta parado em frente a casa dela, os faróis estão acessos e a porta de trás esta aberta. Dois homens de preto e encapuzados carregam alguém. O mais alto segura suas pernas e o outro seu dorso. Carregam aquela pessoa como se carregassem um saco de lixo. Quem é aquela pessoa? É uma garota...

Minhas pernas tremem e meu estômago se revira. Me desequilibro e caio da moto que por pouco não esmaga minha perna.

Os dois homens jogam Carla no banco de trás do carro e vão para o do frente, eles não me notam. Não consigo ter reação... Eles vão embora... Eu não posso deixar... Porque meu corpo não se mexe?

O medo toma conta de mim. Me arrasto pela calçada e me escondo debaixo de uma lixeira. Escuto o som do carro partindo. Lembro de Marcus, ele nos deu o número. Passo as mãos pelos bolsos a procura do celular, o seguro desajeitadamente, minhas mãos tremem, meu corpo treme...

Não tem sinal. Nem mesmo um ponto.

-Merda! Merda! Merda!

Meus olhos se enchem de lágrimas, eu tenho que fazer alguma coisa. Talvez chamar alguem na rua, bater na porta de algum vizinho... Não, não vai dar tempo! Eu tenho que ir atrás deles, não posso deixar nada de ruim acontecer com Carla.

Me levanto e monto na moto. Dou partida e vou em disparada dobrando a esquina que o carro preto dobrou alguns instantes antes... Não vejo o carro, não vejo nenhum rastro ou som. Sigo atravessando quarteirões inteiros atento a qualquer sinal.

Quando cruzo uma esquina eu vejo de relance o carro atravessando o sinal vermelho. Eu o sigo.

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