Capítulo Quatro


Todas as garotas já haviam sido encaminhadas para o hotel e iriam seguir para suas casas no dia seguinte. Com exceção de Ellie Mitchell, que permaneceria lá até que as outras participantes fossem selecionadas. Sua família seria encaminhada para o hotel para passar os próximos três dias que iriam anteceder a divulgação da lista oficial ao lado da garota.

Embora a divulgação da escolhida tenha dado uma das maiores audiências dos últimos tempos, o rei não parecia tão contente com o resultado.

— Você viu a forma como ele anunciou, Daisy? — o rei perguntou à esposa. — Viu como ficou nítido que aquilo era um sacrifício para ele?

— George, ele apenas estava nervoso. Você deveria entendê-lo. Há anos não existe Seleção. Não ficaria nervoso se tivesse passado por isso?

O rei George deu um sorriso debochado para a esposa.

— Talvez uma Seleção fosse tudo o que eu precisasse agora. Um monte de garotas lindas à minha disposição. Talvez eu até encontrasse uma melhor que você.

A rainha não pôde responder. Um dos conselheiros apareceu no momento, anunciando que a presença do rei era necessária na sala de reuniões para tratar de alguns assuntos orçamentários.

— Converse com seu filho, Daisy. Eu mato aquele garoto se isso não acontecer como planejei — ele cochichou.

Como sempre estava na frente das pessoas, ela retribuiu as palavras com um sorriso e um beijo no rosto do esposo como se tivesse escutado a mais linda declaração.

— Também amo você, George.

Assim que virou as costas, falou consigo mesma.

— Um dia ele morre e você não precisará conviver com ele. Ele vai morrer.

A rainha Daisy tinha muitos defeitos. Era distante do povo e da família, dissimulada e ambiciosa, mas ninguém poderia contestar seu amor pelos filhos, embora ela demonstrasse pouco. Assim que deixou o marido no corredor, seguiu para o quarto do filho para tentar arrumar as coisas.

— Posso entrar? — perguntou.

— Claro, mãe.

Edward se levantou e, como de costume, beijou a testa da mãe e a abraçou rapidamente.

— O que te traz aqui?

— Seu pai não gostou muito do seu jeito no programa hoje. E embora eu odeie dar razão a ele, acho que realmente você poderia ter sido melhor na sua performance.

— Performance? Mãe, é do meu futuro que está em jogo!

— Filho, é o seu dever como príncipe. Você sabe que deve fazer o que for necessário para o bem do povo.

Edward sabia que seria muito melhor se manter calado, mas, ao ouvir aquilo, toda sua tensão e seu estresse guardado desde que aquela maldita Seleção começou, atingiu o ápice.

— Dever? Isso não seria meu dever se meu pai realmente trabalhasse pelo bem do povo. Além do mais, isso está longe de ser pelo povo, é apenas pela coroa. E ainda que você estivesse certa, acho que seria a pessoa errada para me dizer isso.

Ele viu sua mãe mudar de feição e, aos poucos, seu rosto assumiu uma expressão de indignação.

— Isso é uma crítica à sua mãe?

Era tarde demais para voltar atrás nas palavras ditas, agora Edward iria até o fim.

— O que a senhora tem feito pelo povo? Qual foi a última vez que "sujou" suas mãos reais para fazer algo além de aparecer esporadicamente em eventos beneficentes? Até mesmo o rei faz mais do que a senhora.

— Acha que nunca amei Illéa? Acha que sempre foi assim?! — a rainha indagou, consternada. — Esse país já foi tudo para mim. Eu vim da Nova Escócia decidida a viver meu dever para com o povo. Mas, há anos, Illéa se transformou em meu motivo de vergonha. Não há uma vez em que eu saia em público e não tema encontrar uma das mulheres do seu pai. Eu já tive que me inclinar para uma plebeia porque ela exigiu que eu fizesse isso ou diria no meio do evento que dormiu com o rei. E quando fui falar com o George, sabe o que ele disse? Incline-se.

Escutar tudo aquilo somado ao rosto consternado da mãe fez com que Edward recuasse um pouco em suas palavras. Respirou fundo, baixou o tom e falou:

— Mãe, todas essas garotas estão vindo para o palácio sonhando com um romance encantado. Você viu a cara da menina que venceu? Ela chorava desesperadamente por ter sido selecionada. Aquilo não poderia ter me assustado mais. Elas estão vindo à procura de um amor que provavelmente não vão ter.

— Nem tudo se resume a amor, Edward. Você dará a essa menina ao menos alguns meses de uma vida que, sem a Seleção, ela nunca teria. Ainda que acabe com ela, a vida dessa garota vai melhorar como ela nunca imaginou. E isso, muitas vezes, é o que basta. O que uma mulher poderia querer de melhor?

— Então, talvez, a senhora não tenha tanto o que reclamar da sua vida.

— Eu quase sempre odeio seu pai, mas minha família, embora tivesse título, estava fracassada. Não me arrependo de ter me casado. Morar com George é muito melhor que ter que vender todos os bens e viver como uma simples plebeia.

Edward queria vomitar ao escutar aquilo. Que saudade sentia do avô. Foi a única pessoa com escrúpulos que chegou a conhecer.

— Além do mais, ganhei você e o George. E meu amor por vocês transforma tudo em algo suportável.

Mesmo diante daquela declaração, Edward ainda se sentia enojado.

— Por nós e pelo dinheiro.

— Sim — a rainha respondeu com calma. — Mas, ainda que você não me admire, não duvide do que sinto por vocês. Você e seu irmão seriam os únicos motivos que me fariam deixar o dinheiro de lado. Apenas vocês.

Edward se manteve calado. Era muito melhor do que dizer que não conseguia acreditar de verdade naquilo.

— Preciso ir — a rainha falou. — Mas não esqueça do que falei, Edward. Gostando ou não, esse é o seu dever. E sabendo quem é seu pai, sugiro que o cumpra com excelência.

Assim que ficou sozinho no quarto, Edward quis quebrar tudo o que tinha ali, mas a verdade é que ele nunca foi dado a esse tipo de atitude. Quando finalmente se acalmou, escutou outra batida no seu quarto, mas decidiu ignorar. Até que viu a porta ser aberta mesmo sem sua autorização e seu irmão surgir lá dentro, parecendo em pânico.

— Preciso que você faça alguma coisa pela outra menina que é da província da tal Ellie. Resolvi sair mais uma vez escondido e, assim que cheguei no bar, escutei algumas pessoas conversando e dizendo que já sabiam como mandar uma mensagem para a coroa. Era só atingir a única selecionada a quem eles tem acesso. Certamente, será mais ovos e comida podre, mas, ainda que seja algo que não mate, essa menina não tem culpa, Edward.

— Como assim? Do que você tá falando?

— Não precisa ser muito inteligente para entender que, se escolhermos mais uma de cada província, essa menina já está dentro, Edward. O povo entendeu, e quem nos odeia agora odeia ela também. Seu nome é Anelise e agora ela é o alvo.

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