Capítulo Nove
Saí andando pelos corredores do palácio sem saber direito para onde ir, ou melhor, tendo a certeza de que não dava para chegar aonde eu realmente queria estar. Queria gritar e fazer algo que colocasse minha raiva para fora, mas nem isso eu sabia direito como fazer, tendo que seguir tantas regras. Quando achei que não poderia fazer mais nada, porém, lembrei que eu poderia ter acesso à internet para publicar algo sobre a Seleção, e logo descobri como eu poderia extravasar.
Segui ainda meio zonza pela raiva e frustração até a sala dos computadores e, assim que alcancei a maçaneta, vi a porta se abrir e Melissa sair de lá.
— Meu Deus, você está bem? — ela perguntou alarmada ao me ver.
— Sim — me resumi a responder. Porém, ela não aceitou essa reposta.
Melissa segurou meu braço e tornou a perguntar:
— É sério, Anelise. O que você tem? Você está bem?
Então, me vi chorando, embora soubesse que não era um choro de tristeza. Melissa, mesmo tendo aquele jeito distante, logo tentou me acalmar com um abraço que não durou muito, mas eu sabia que havia sido de coração.
— O que houve?
E eu contei cada detalhe daquele encontro; contei até mesmo do momento em que o príncipe apareceu no meu quarto. Confessei como a eliminação de Sarah havia mexido comigo e com a minha falta de habilidade em lidar com as emoções e encontros que viver aquilo exigia. Mesmo omitindo a minha conversa com Ellie e o que eu pretendia fazer ao entrar naquela sala, senti que fora a conversa mais franca que havia tido desde que chegara ao palácio.
— Primeiro de tudo: se acalme. Liss — ela continuou, me chamando pelo apelido que, até então, só a Ellie me chamava lá dentro —, está tudo bem sentir falta, medo e não se dar bem com as coisas que rolam aqui. Olha para mim e me diz se sou boa em fazer amizade! — brincou. — E, ainda assim, ver a Sarah ir embora mexeu comigo mais do que meu orgulho me permite assumir. Acha que fomos as únicas ao ver a reação das meninas e ficar se perguntando como seria a gente lá? E também como vai ser ao ver mais garotas partirem? Não fomos! E bom, sobre o príncipe, eu não acho que ele tenha feito por mal...
— Achar que só posso estar aqui por interesse no dinheiro dele não é fazer algo por mal, Melissa? — perguntei, irada, e ela não se abalou com minha ira.
— Olhe ao seu redor, veja todo esse luxo. Acha mesmo que milhares de pessoas não dariam um braço para chegar perto disso? Sabe-se lá quantas pessoas já não chegaram perto do príncipe apenas por interesse em pisar neste lugar. E bom, não haveria nada de errado se você viesse aqui querendo isso, e, pelo que você me falou, o príncipe não te repreendeu, apenas quis entender. Ele sabe que isso é possível e que, se você estivesse aqui por isso, não seria a única.
— Não mesmo — voltei a cortá-la, e Melissa rolou os olhos, fazendo sua conhecida cara de enfado.
— Pelo amor de Deus, alguém nesse palácio precisa te educar para que você deixe as pessoas falarem! Preciso falar com a senhora Anne ou com o senhor Peter sobre isso.
— Me desculpe, Melissa — falei de coração, mesmo que quisesse rir um pouco só de imaginá-la procurando a senhora Anne para isso. — Pode concluir.
Melissa novamente rolou os olhos e então voltou a falar:
— Como eu ia dizendo, você não seria a única. Sabendo disto, e como é um relacionamento com ele que está em jogo, não podemos julgá-lo de querer saber o que cada uma de nós está querendo aqui. Uma escolha errada e ele terá ao menos uma história de namoro ruim pra contar. E se um namoro ruim já é péssimo para nós, meros mortais, imagina então para ele, que tem muitos segredos e coisas a perder.
Olhando por aquele ângulo, fazia um pouco de sentido o que Melissa falava. Mas, ainda assim, eu sentia que ele me julgara mal apenas por poucas palavras. E se eles queriam tanto educação, eu não achava aquilo nada educado.
— Mas, agora, me diga. O que você estava indo fazer aqui na sala de computadores? Acho que escrever sobre esse encontro não faz muito sentido.
Não, não fazia. E eu bem sabia disso. Por isso, precisava pensar em uma desculpa melhor para não deixar justo Melissa desconfiada.
— Quando estou muito estressada, gosto de ouvir música, me acalma. Vim aqui par tentar ouvir alguma na internet. Não sei se podemos, mas não ligo — inventei e torci para que Melissa não precisasse de mais informações.
Ela riu de mim.
— Não seria mais fácil e confortável fazer isso no Salão de Mulheres?
— Pode ser que já estejam escutando algo lá ou que eu atrapalhe alguém. Fora que estou querendo ficar sozinha — dei ênfase na segunda parte na intenção de que Melissa entendesse minha dispensa, e ela entendeu.
— Então aproveita, gata!
Ela se despediu de mim com outro abraço desajeitado e saiu sem parecer suspeitar de algo ou irritada por eu tê-la dispensando. Algo me dizia que, por mais irritante que ela pudesse ser algumas vezes, Melissa seria uma boa companhia durante aqueles dias.
Assim que fiquei sozinha novamente, entrei na sala e sentei em frente a um dos computadores. Quando mais nova, eu havia conhecido e me apaixonado por um garoto que também escrevia sobre o governo. Uma das coisas que ele me ensinou e pela qual eu seria eternamente grata foi fazer isso sem deixar rastros no computador que você estivesse usando caso ele não fosse seu. O garoto saiu da minha vida tão rápido quanto entrou, mas foi tempo suficiente para me preparar para aquele momento.
"O circo continua
Desde que o retorno da Seleção veio à tona, esta escritora acompanha, da forma mais íntima que pode, o seu desenrolar e também seus efeitos dentro do reino. Aos olhos de quem vos escreve, ficou claro algumas coisas: a Seleção não é querida por muitos; Mesmo quem odeia, acompanha; E, por fim, mas não menos importante, príncipe Edward cumpre muito bem o seu papel.
Todos, sejam eles apoiadores ou oposição da família Schreave, parecem concordar em uma coisa: príncipe Edward é o mais querido de toda a família real. Entre um rei egocêntrico e infiel, uma rainha distante e fria, um príncipe boêmio e sem nenhuma responsabilidade, e um príncipe aparentemente bom e apenas mais ausente que os outros citados, esta última opção é também a única capaz de conseguir a simpatia de todos. Se eu não fosse tão desconfiada, poderia dizer que ele é a esperança. Mas será? Para todos os efeitos, não deixando a desconfiança desta autora de lado, o príncipe Edward entretém e engana muito bem. Manteve-se anos e anos longe de grandes responsabilidades, mas também de escândalos. Nunca fez nada efetivo pelo reino, mas também nunca apoiou o pai publicamente quando errou. Jamais foi visto trocando de mulheres por aí, mas ninguém nunca ouviu falar que ele as trata bem de fato. Na dúvida, com tanto ouro, vestidos deslumbrantes e juras de amor, o reino parece ter tomado para si apenas as afirmações positivas de cada frase. Príncipe Edward é o príncipe perfeito, mesmo tendo feito apenas o mínimo. Mas eis que agora ele dá seu máximo. E, pela primeira vez, o vemos rendendo muito bem para a coroa."
Era isso. Eu conseguira dizer muito do que pensava sem colocar diretamente minha briga com ele. Respirei aliviada com o sentimento de que, talvez, mesmo fazendo parte daquele circo, eu ainda fosse capaz de mostrar a verdade para o povo de Illéa.
Assim que terminei, apaguei todos os meus rastros e saí da sala o mais rápido que pude. Não queria e nem podia ser vista fazendo aquele tipo de coisa. Então, voltei para o meu quarto e, assim que cheguei, encontrei minhas duas criadas com os olhos cheios de expectativas. Frustrei cada uma delas com apenas uma frase.
— Me deixem sozinha, por favor. Tive um péssimo encontro — pedi, e Stephany olhou para Abigail um pouco receosa.
Abigail, que era sempre muito mais elegante que Stephany, também olhou para mim e não saiu do lugar.
— O que houve? — perguntei, quando percebi que nenhuma faria nada.
— O príncipe acabou de mandar um mensageiro aqui. Ele trouxe o recado dizendo que, amanhã, o príncipe solicita sua presença na sala de jogos.
Abri a boca, chocada. Ele não podia estar contando com minha presença depois daquele nosso encontro.
— Eu não vou — sentenciei, agora mais irritada do que quando havia chegado.
— Temo que essa opção não exista, senhorita — Abigail falou educadamente, e eu rolei os olhos.
— Claro que existe. Eu não vou me encontrar com aquele homem nem mais uma vez sequer.
Stephany, então, se aproximou de mim e respirou fundo antes de dizer:
— Não faça isso, senhorita Anelise. Você tem chances reais de ganhar isto aqui.
Aquilo bastou para que eu explodisse de vez.
— Eu nem quero mais fazer parte disso, meninas. Para ser sincera, acho que ele só quer me ver amanhã para oficializar minha saída. Me sinto péssima depois desse encontro. Não aguento pensar na ideia de que posso ficar aqui e ver Olivia, Ellie ou Melissa sair. Eu não quero mais fazer parte disso. Nunca quis. Quando dei por mim, já soluçava e tinha Stephany e Abigail ajoelhadas ao pé da cama onde eu estava sentada.
— Olhe para mim, senhorita — Abigail pediu, e mesmo em meio às lágrimas, obedeci. — Não importa se sairá amanhã ou daqui um mês. Saia daqui de cabeça erguida e com a imagem de mulher forte que sei que a senhorita é. Se quer minha opinião e a de Stephany, nós duas não poderíamos querer uma candidata mais forte e mais humilde para trabalhar, e, com certeza, trabalhamos para alguém que daria uma ótima princesa. A senhorita pode até achar que não aguenta, mas sabemos o que houve com a senhorita antes. Sabemos que teve que passar um tempo aqui por causa de ameaças, nos contaram tudo. E veja só, ainda assim, se manteve aqui. A senhorita está longe de sua família, é claro que suporta ficar longe das amigas. E sobre sua briga com o príncipe, meu lado profissional lhe alerta que não é muito prudente, mas o pessoal só lhe diz que nenhum relacionamento é pautado apenas em perfeição. E ele não a mandaria chamar para te eliminar. Seja o que houve, estou crente que o príncipe já deixou para trás.
— Isso mesmo, senhorita. Eu concordo inteiramente com Abigail — Stephany disse, e eu concordei com a cabeça.
— Fico lisonjeada que vocês duas possam me ver de uma forma tão linda, mas temo frustrá-las. Não acho que o príncipe e eu daríamos certo.
Stephany riu.
— Deixe que o tempo mostre isso. Não apresse o resultado. Apenas nos prometa que irá amanhã. Mesmo que seja para sair, não saia como alguém que não fez as coisas direito.
Não sabia se Abigail e Stephany já haviam entendido como era importante para mim sair honrada daquilo tudo, mas, seja como fosse, Stephany conseguiu tocar onde mais importava.
Eu iria àquele encontro.
👑👑👑
No dia seguinte, no café da manhã, todas as meninas me olhavam, curiosas, querendo saber um pouco do meu encontro com o príncipe. E isso incluía Olivia e Ellie que, diferente das outras, tinham intimidade para me perguntarem diretamente.
— Foi tão mágico como foram os encontros da semana passada? — Olivia perguntou, empolgada.
— O que vocês fizeram? — Ellie indagou.
Melissa, que estava conosco, apenas respirou fundo.
— Tomamos um chá. E eu não estava presente nos outros encontros para saber se foi igual.
— Você sabe o que quero dizer, Anelise — Olivia ralhou, impaciente.
— Vai, fala se foi legal!
— Vocês não acham que fofocar é algo fora dos bons costumes de uma princesa? — Melissa indagou, tentando me salvar. — Aliviem essa pressão em cima dela. Se houver algo a ser dito, ela vai contar sem precisar disso. Parece até que Anelise encontrou a cura para uma doença degenerativa.
Ellie, que vinha lutando para não se comportar de forma inapropriada, não conteve o suspiro e rolou os olhos quando escutou Melissa falar. Tão pouco conteve a língua afiada.
— Melissa, por que você não vai, sei lá, trocar de lugar com uma de suas criadas? Não cansa de ser insuportável?
Se ela queria abalar Melissa, isso pareceu longe de acontecer.
— Eu sou insuportável? Ao menos não sou eu que estou enchendo minha melhor amiga de anos quando ela claramente não está confortável com isso.
Então, Ellie olhou para mim, esperando que eu desmentisse Melissa e lhe desse razão, mas eu não pude fazer isso. Na verdade, estava grata à Melissa por ter parado aquele interrogatório.
— Não sei bem o que dizer, meninas. O lugar estava lindo, a comida estava gostosa, e o príncipe era o príncipe. Não vou suprir as curiosidades de vocês.
— Eu não achava que você esconderia o jogo, Anelise — Olivia disse, triste, achando que eu estava fazendo aquilo de propósito.
Foi então que puxei a mão das três e procurei um lugar mais reservado para conversarmos.
— Meninas, eu nunca fui cheia de amigas. A Ellie sabe bem disso. Mas, desde que cheguei, vocês, junto à Sarah, foram o que eu só achei na Ellie quando estava fora desse palácio. Não quero perder isso por causa de uma coroa idiota — falei, sincera. — E eu sei que, pra maioria aqui, inclusive para vocês, não se trata de uma coroa idiota, mas tudo bem. A gente só não pode achar que estamos umas contra as outras. Não faz o menor sentido brigarmos pelo afeto de alguém. Nem somos nós que decidimos! Nem sabemos se o príncipe realmente está à procura de afeto! — exclamei, exasperada. — Eu não estou escondendo o jogo, Olivia. Eu realmente só não sei o que falar. Se querem algo talvez empolgante, tenho outro encontro hoje. Mas nada de mais, porque ontem nosso encontro não foi dos melhores. Isso é tudo que me sinto confortável para falar e sem nenhum jogo. Vocês são minhas amigas, talvez a Ellie mais, mas vocês também são importantes. E eu não vou perder isso por causa de um homem. Se há algo que me orgulharia, caso eu saísse hoje, é do que venho construindo com vocês. E isso nenhum príncipe toma da gente sem que a gente queira. Eu espero que vocês também rejeitem essa oferta.
Olivia, a mais afetuosa depois que Sarah partiu, me puxou para um abraço e alcançou o braço das outras duas para que elas viessem também.
— E vocês duas me prometam que vão parar de implicar tanto uma com a outra — ela disse, e a gente não precisava sair do abraço para saber de quem Olivia estava falando.
— A Ellie ama não me suportar, é isso que nos une — Melissa brincou e acabou arrancando um sorriso de Ellie.
Quando nos soltamos, Melissa fingiu coçar o nariz para esconder o rosto vermelho.
— Mesmo com esse meu jeito bem diferente do de vocês, que é muito mais preparado, diga-se de passagem. Quero dizer que vocês todas, sem exceção — Melissa fez questão de destacar enquanto olhava para Ellie — são muito importantes. Só faz duas semanas, mas essas duas semanas seriam muito mais difíceis sem vocês três.
Ellie deu de ombros, já que só nós três e mais ninguém do palácio a víamos.
— Tenho que admitir que eu sentiria falta até mesmo da Melissa — ela disse, por fim, e todas nós rimos.
Sair para um segundo encontro no dia seguinte ao primeiro fez com que eu me tornasse o assunto mais falado entre as garotas. Aparentemente, elas achavam que isso tinha muito mais peso do que eu mesma pensava. E tudo isso fez com que eu acabasse surtando um pouco também.
— Se toda vez que a senhorita for a um encontro ficar com esse vai e vem, acho melhor só lhe vestirmos exatamente na hora — Abigail ralhou e eu levei as mãos à boca para tentar roer as unhas.
— Não faça isso! — Stephany gritou antes que eu conseguisse fazer qualquer coisa. — Não quero ser chata, mas passamos um tempo considerável para deixar suas unhas impecáveis, senhorita. Isso não é uma boa opção.
Rolei os olhos apenas para não dizer alguma coisa rabugenta.
— Então vocês vão ter que me ajudar a matar este tempo de uma forma legal — falei, e as duas me olharam confusas. — Cuidem em pensar em algo divertido para fazermos, ou sempre que eu estiver ansiosa, terei que ficar andando sem parar ou roendo as unhas para que minha mente trabalhe menos.
Abigail e Stephany me olharam confusas e eu sabia o motivo. Elas não eram preparadas para jogar com quem quer que trabalhassem, não fazia parte das famosas regras. Mas aquele era meu quarto, pelo menos enquanto eu ainda estivesse no palácio. Então, preferia acreditar que, ao menos ali, eu poderia ser eu mesma e fazer o que bem entendesse.
— Vocês não podem ficar tão chocadas assim só porque pedi para fazermos algo divertido. Qual é! — falei, chocada, e as duas ainda me olhavam sérias.
— Não sabemos o que alguém como a senhorita poderia fazer de divertido com alguém como nós — Stephany disse e Abigail concordou com um maneio de cabeça.
Alguém como elas? O que isso queria dizer?
— Como assim alguém como eu ou alguém como vocês? — indaguei, já sabendo que não gostaria da resposta.
— Somos criadas, senhorita Anelise. Qualquer pessoa a quem tenhamos que servir não é alguém como nós.
Poucas coisas naquele palácio me deixaram tão crente de que lá não era meu lugar como aquela frase. E havia muita coisa que me incomodava no dia a dia.
— Eu não sou ninguém importante lá fora sem essas roupas e sem o castelo para me proteger. Não há nenhuma diferença entre nós três. E ainda que minha conta bancária fosse um milhão de vezes maior, se eu posso ser sincera, prefiro mil vezes nos divertimos do que passar o dia passeando pelo palácio com a senhorita Anne.
— É que... — Abigail começou, mas eu a cortei.
— Se vocês vão me tratar assim, prefiro ficar sozinha. Achei que por serem com quem passo mais tempo, poderíamos desenvolver uma amizade.
Stephany olhou para Abigail de forma significativa e, depois, deu de ombros.
— Seria uma honra ser sua amiga, senhorita. Abigail e eu ficamos muitos felizes — ela disse com um sorriso no rosto.
Suspirei aliviada, me dando conta de que estava mais tensa do que fazia ideia com aquela conversa.
— Se seremos amigas, poderiam me chamar apenas pelo nome? Eu não gosto de toda essa pompa.
Abigail se apressou para responder antes que sua amiga falasse.
— Entendo sua crítica, mas, para o bem de todos, acho que certas coisas devem se manter. Por mais bobo que possa parecer, nos custará muito se nos virem lhe chamando só pelo nome.
— Nem mesmo quando estamos só nós três? — tentei e ela riu.
— Quem sabe um dia, senhorita Anelise.
E, depois daquela conversa sobre nossas diferenças, eu já sabia o que queria fazer junto delas.
— Por que não conversamos sobre nós? Me contem mais sobre suas vidas fora do palácio — pedi, empolgada, e as duas se sentaram para começarmos a conversar.
A conversa com Abigail e Stephany havia sido maravilhosa. Descobri que, enquanto eu durasse na Seleção, elas morariam por lá e, assim que eu fosse eliminada, as duas voltariam para suas casas e viriam ao palácio com horários certos.
Tanto Abigail quando Stephany eram novas. Ambas tinham vinte e quatro anos. Stephany era recém-casada; havia trocado alianças com seu esposo, por quem ela era totalmente apaixonada, fazia seis meses. Quando lhe perguntei como fazia para manter o casamento bem mesmo morando longe dele, ela falou que o veria no final do primeiro mês. Teriam um final de semana juntos. E, embora para mim aquilo ainda soasse muito difícil, Stephany fazia parecer fácil manter o sentimento quente no coração.
Abigail namorava um rapaz da guarda e riu de Stephany ao comemorar que ele também estava no palácio. Embora fosse muito mais contida sobre seus sentimentos, dava para ver que ela era completamente apaixonada pelo rapaz. E apesar de mais contida, ela era muito menos ligada a convenções que Stephany e eu. Não sonhava com cerimônia de casamento ou noivado; falou que, embora não fosse bem-visto pela sociedade as pessoas apenas casarem sem fazerem festa, juntar os uniformes estava ótimo para ela.
O tempo voou de tal forma que só paramos a conversa quando ouvimos uma batida na porta.
— Quem será? — Abigail perguntou, e Stephany deu um pulo ao ver as horas.
— Meu Deus, senhorita Anelise. Você está atrasada vinte minutos para o encontro.
— O quê? — indaguei, chocada em como o tempo havia voado.
Tudo isso ocorreu sem que nos lembrássemos de abrir a porta.
A batida voltou a se repetir e, antes que alcançássemos a porta, escutamos alguém dizer:
— Senhorita Anelise, está tudo bem? Posso entrar?
Stephany levou a mão à boca, chocada, e depois cochichou:
— É o príncipe.
Meu coração batia nos ouvidos quando Abigail tomou a atitude de finalmente abrir a porta.
— Alteza — ela saudou e fez uma reverência graciosa.
Stephany e eu tentamos repetir a graça de Abigail, porém, o nervosismo não deixou que nenhuma das duas conseguisse.
— Alteza — saudei também e o vi sorrir sem jeito.
— Está tudo bem? Lhe esperei o máximo que consegui sem me preocupar.
— Meninas, vocês podem nos dar licença? — pedi, e as duas balançaram a cabeça em um sim antes de murmurarem algo e fazerem outra reverência.
— Fique à vontade — falei e, então, ele se sentiu confortável para fechar a porta.
— Está tudo bem? — Edward tornou a perguntar, ainda parecendo preocupado.
— Achei que você não fosse ficar tão surpreso caso eu faltasse.
— E não ficaria, por isso esperei desde ontem que uma de suas criadas fosse levar um recado negando o convite. Mas isso não ocorreu.
— E ficaria tudo bem caso eu tivesse feito isso?
O príncipe me olhou com um breve sorriso nos lábios.
— Não teríamos um encontro contra sua vontade, senhorita Anelise.
Rolei os olhos ao escutar o senhorita.
— Isso ainda vai continuar? Essa coisa de senhorita — expliquei antes mesmo que ele perguntasse.
— Achei que, depois de ontem, eu tinha perdido o direito de lhe chamar apenas pelo nome — ele falou, sincero, e eu queria rolar os olhos até ver meu próprio cérebro.
— É só um nome, você não precisa salvar minha vida para me chamar apenas pelo nome.
O príncipe se encolheu sem jeito, e eu me dei conta de como havia soado grosseira. Mas, lembrando de ontem, eu não tinha me cuidado em me desculpar.
— De toda forma, não tive intenção de faltar ao encontro. Apenas parei para conversar e nós três perdemos a hora.
Dessa vez, o príncipe acabou sorrindo de verdade.
— Por que será que isso não me surpreende vindo da senhorita?
Pela leveza do sorriso dele, me permiti sorri também enquanto dava de ombros.
— Que bom que não o choco.
— Tive que dispensar as câmeras por causa do seu atraso, mas acredito que podemos ter o encontro, caso você queira. Podemos?
— Podemos sim — me limitei a responder, enquanto seguia para porta.
— Senhorita — o príncipe me chamou e tocou de leve em mim quando passei perto dele.
— Oi — respondi, parando minha caminhada e olhando-o.
— Acredito que precisamos conversar antes desse encontro de fato acontecer, concorda?
Não, eu não concordava, mas sabia que seria a coisa mais madura a ser feita.
Sem dizer uma palavra, segui para a cama e me sentei nela, à espera que ele começasse a conversa. O príncipe andou um pouco pelo quarto enquanto me olhava de soslaio e, quando viu que eu não falaria nada, começou a falar.
— Eu nunca quis ser grosseiro e, pior ainda, magoar a senhorita. Nunca foi minha intenção diminuí-la, ou julgá-la. E sei que, mesmo sem intenção, consegui fazer até mais que isso.
— Não me sinto confortável com as regras e o exagero da sua vida, mas acredito que consiga conviver com elas. Porém, Alteza, há uma única coisa que não tolero: seus julgamentos ao meu caráter. Não ache, nem por um minuto, que, por usar uma coroa, é melhor ou que está numa posição que pode me diminuir. Saio agora mesmo se essa for ser sua atitude.
Eu sabia que estava sendo petulante para uma plebeia falando com um príncipe, mas algo me dizia que não pararia na masmorra por fazer isso.
— Aceito tudo isso. E não posso concordar mais.
Balancei a cabeça em um sim, e o príncipe quase deixou um sorriso escapar de seus lábios.
— Podemos ir agora? — ele indagou enquanto estendia o braço para mim.
Segurei seu braço em silêncio e seguimos. Algo me dizia que cada encontro com o príncipe era um erro, mas eu tentava dizer a mim mesma que só ia porque não podia negar.
Descemos para a sala de jogos sob o olhar atento de qualquer um que nos encontrasse pelo caminho. Até mesmo os guardas, sempre tão discretos, deixavam que seus olharem entregassem sua curiosidade.
Odiava ser o centro das atenções daquela forma. Sentia que eles não me olhavam por quem eu era, mas apenas por quem eu poderia vir a ser. Saía para um encontro com o príncipe e, então, todos me davam atenção porque eu poderia ser a próxima princesa.
Deixei um suspiro escapar, mas o príncipe não notou porque, bem nesta hora, ele falou:
— Você gosta de jogar?
— Sou muito competitiva quando quero — respondi, sincera.
Se eu levasse um jogo a sério, não importava quão bobo ele fosse, eu só entrava para ganhar.
— Eu poderia ser cavalheiro e, em segredo, deixar você ganhar. Mas não acho que esse comportamento seja o que você deseja.
— Não mesmo, Alteza. Não gosto da pena de ninguém.
Meu jeito competitivo pareceu animar o príncipe, que apressou os passos e acabou me fazendo andar mais rápido.
— O que a senhorita quer fazer? — ele perguntou com um sorriso empolgado nos lábios quando chegamos à sala de jogos.
— Eu conheço essa sala tanto quanto conheço os itens do livro de regras da senhorita Anne. Ou seja, nada — brinquei, e ele quase deixou escapar uma risada. — Você nunca ri de verdade, né? — indaguei.
— Como assim?
— Você até chega a dar sorrisos verdadeiros, mas dar uma risada, eu nunca vi — constatei, e ele maneou a cabeça.
Vi que o príncipe estava um pouco sem jeito com aquela afirmação, mas antes que eu pudesse mudar de assunto, ele falou:
— Risadas não ficam tão bem, soam um pouco... como pode dizer? — ele procurou palavras e logo as encontrou. — Não fica tão bonito e fino, vamos dizer assim.
Caminhei ao redor uma mesa de pebolim e, então, falei:
— Tudo na sua vida parece tão calculado.
Príncipe Edward não respondeu. Ele sabia que aquilo não era uma pergunta.
— Se quiser minha opinião, você não rir nem perto das garotas que podem ser suas futuras namoradas deixa a possível relação muito difícil e rasa.
Embora eu achasse que o que tinha acabado de dizer pudesse ter sido duro, o príncipe abriu um sorriso mais largo do que de costume.
— E você quer que eu dê uma risada com você, Anelise?
Eu não sei dizer se foi a sugestão implícita que havia naquela pergunta, o novo tipo de sorriso que eu descobri nos lábios dele, ou vê-lo falando meu nome tão normalmente, mas, naquele momento, meu coração acelerou de tal forma que eu não podia justificar como uma simples taquicardia.
— Acho que você deve rir com todas as que você julgar que podem seguir na seleção — falei enquanto caminhava rápido pela sala, na tentativa de colocar para fora o que estava em mim.
Eu não sabia o que havia causado aquilo no meu coração, nem o que podia significar de fato. Mas de uma coisa eu sabia: não seria bom para mim se sentisse novamente.
O príncipe ensaiou um suspiro que acabou não saindo bem como deveria. Certamente ele não suspirava em frente a plebeus. Depois disso, chegou com um assunto novo.
— Príncipes, de modo geral, não costumam jogar. Acho que isso aflora um lado que não julgam certo. Mas eu acredito que podemos jogar este jogo. O que acha?
E, então, ele apontou para uma mesa de Aero Hockey.
Sorri. Eu amava aquele jogo.
— Eu amo jogar isto.
— Então vamos, senhorita Anelise.
Sorri quando ele voltou a me chamar como antes. Então, tive uma ideia.
— Se eu ganhar, quero acabar de vez com essa história de senhorita Anelise — falei decidida, e o príncipe me encarou curioso.
— Por que lhe chamar assim lhe incomoda tanto?
— Porque ninguém me chama assim. Lhe escutar me chamando assim me lembra de como estou longe da minha casa e da minha vida. Agradeço pelas meninas daqui não me chamarem assim.
Não pretendia falar tanto como aquilo mexia comigo, mas, quando vi, já havia desabafado.
— Todos lhe chamam de Anelise, então?
— Mais ou menos. Em casa e até aqui, com as meninas mais próximas, me chamam de Liss.
— Liss — ele repetiu, como quem testa ver como o nome soa na própria voz. — Acho que se eu fosse lhe chamar por um apelido, não seria esse.
Sorri e o encarei, curiosa. Qual nome estava passando na cabeça dele?
— E qual seria, Alteza? — indaguei, sorrindo.
— Lise — ele respondeu bem certo, como quem já havia pensado nisso antes.
— Lise — foi a minha vez de testar como o nome soava. — Acredito que seja bem melhor que senhorita Anelise.
— Tudo bem, se ganhar, não lhe chamo mais assim. Mas se eu ganhar, quero que me acompanhe em um encontro especial.
— Isso não precisa de aposta. Sabe que pode nos chamar para um encontro quando quiser.
— É uma festa de gala que será dada para recepcionar os italianos. Embora eles não sejam dados a seguir regras, ainda existem certas normas de etiquetas que não podemos abrir mão. Um jantar cheio de normas, sorrisos educados e tudo mais que você odeia.
— Tudo bem — suspirei. — Vamos começar os jogos.
Comecei abrindo o placar, mas rapidamente Edward empatou. Seguimos sempre eu na frente e ele no máximo empatando comigo. Meu braço doía e, pelo jeito que o príncipe sempre balançava o seu, era possível concluir que o dele também. Agora faltavam apenas duas jogadas e eu estava um ponto à frente. Se seguisse o que estava acontecendo o jogo todo, eu ganharia.
Então, coloquei o disco no lugar que queria e comecei a jogada. Edward me encarou decidido e contra-atacou. Demorou até alguém fazer o ponto, mas um rápido momento para piscar e vi que o ponto havia sido dele.
— Agora é tudo ou nada — falei.
— Preparada para ir ao baile comigo, senhorita Anelise? — ele desafiou e eu sorri, gostando de como estávamos funcionando.
— Preparado para tirar de vez esse tal de senhorita? — desafiei de volta.
Edward se preparou para começar o jogo e parecia tão concentrado que quase entreguei o jogo ali mesmo. Mas eu não queria ter que ir àquele baile e sabia que, se ganhasse, ele não ousaria me convidar. Então, eu precisava.
Quando Edward fez a jogada, nem mesmo minha obstinação foi suficiente para contra-atacar. Foi certeiro. Ele havia ganhado.
— Isso! — ele comemorou, dando um soquinho.
Então, o príncipe me olhou e algo novo aconteceu. Eu fazia um biquinho de derrota e ele me retribuiu dando uma risada. Riu de verdade. Daquelas risadas que ecoam pelo ambiente. Foi impossível não rir de volta.
Quando percebemos, estávamos nós dois rindo e nem sabíamos mais o motivo.
— Acho que isso significa que você já tem companhia para o baile — falei, ainda rindo.
— E que não será mais chamada de senhorita.
Encarei-o, confusa, e ele apenas sorriu.
— Foi um golpe de sorte minha vitória. Passei o jogo todo apenas tentando acompanhá-la. Além do mais, acho que devo lhe agradecer pelo melhor encontro de todos.
Segurei o ar e fiquei muda. Não esperava por isso. Deu para perceber nos olhos do príncipe que nem mesmo ele esperava por aquelas palavras que deixou escapar. Ele olhou para baixo envergonhado e tentou começar outro assunto.
— Sei que você não gosta muito da ideia, mas acho que Peter vai procurá-la para lhe passar algumas coisas e prepará-la para o baile.
Entrei na onda dele e não voltei ao assunto anterior.
— E aí está o momento em que toda felicidade é roubada das minhas mãos — brinquei, fazendo uma cara imensamente triste. — Mas quando será? Preciso me preparar psicologicamente para isto.
— No final da semana que vem.
— Achei que fosse fazer alguma eliminação antes disso — falei, sem entender o porquê de fazer planos para tão longe.
— E vou — disse, calmamente.
Ele viu a confusão nos meus olhos e falou:
— Você com certeza não está nem perto da lista de meninas que podem sair, Anelise.
— Existe uma lista? — indaguei, enquanto tentava conter o que quer que estivesse acontecendo com meu coração.
— Sim. E você não está nela.
Não consegui pensar em nada para responder e tive quase certeza que o mais correto era não tentar. Eu não confiava na coerência das minhas palavras se meu cérebro estivesse agora no mesmo estado que minha barriga e coração.
— Alteza, estou cansada. Podemos voltar? — indaguei.
O príncipe me encarou, provavelmente confuso com minha súbita mudança de assunto. Sendo o cavalheiro que era, porém, respondeu:
— Claro, Anelise.
Seguimos para o quarto envoltos em um clima estranho, no qual os dois pareciam constrangidos demais para falarem algo. Mas também muito decididos a fingirem o contrário. Em meio a tentativas desastrosas de diálogos, fui deixada na porta do meu quarto com um "até breve" e um sorriso sincero nos lábios dele.
Como parecia ser costume do príncipe, ele ocupou boa parte dos outros dias da semana de vários encontros. Encontrou Jennifer Moore para tomar um chá, almoçou a sós com Nina Martinez, saiu para passear com Regina Daniel e para cavalgar com Melissa. Ellie estava em pânico por não ter sido convidada, principalmente depois do convite a Melissa.
— O príncipe me odeia — ela sentenciou, assim que entrou no meu quarto.
Não pude conter a risada. Aquilo não seria possível. Ellie era especial demais para ser odiada.
— Deixe de ser idiota, ele não odeia você.
Desta vez, ainda munida de todas as armas do drama, ela jogou-se na minha cama com o rosto enterrado no travesseiro e falou:
— E por qual outro motivo ele ainda não teria convidado a preferida do público para um encontro?
Busquei pensar rápido. Embora soubesse que ele não odiava Ellie, era difícil compreender seus motivos para não convidá-la.
— Não sei direito, Ellie. Mas com certeza não é ódio — assegurei, e ela não se convenceu.
— Claro que é, só que você é amiga demais para ter coragem de me dizer isso — disse, fazendo beicinho.
Caminhei até minha cama e me sentei ao seu lado.
— Talvez ele esteja usando este tempo para sair com garotas com quem não teve tanta química nas fotos. Quer tirar a prova se está certo. Você não deixou dúvidas nele.
Ellie forçou seu corpo a se levantar e a ficar sentado.
— Na primeira semana isso podia fazer sentido, mas não agora. Liss, ele chamou até a Melissa para um encontro. A Melissa!
Rolei os olhos em reprovação ao seu comentário. Ellie e Melissa seguiam não sabendo muito bem como lidar uma com a outra, embora só andássemos juntas.
— Ellie, falar assim não é legal.
Foi a vez dela de rolar os olhos.
— Para de bobeira, não estou falando isso por competição. Acredite ou não, gosto dela. Mas nós duas temos que concordar que um encontro com a Melissa não deve ser dos melhores. Imagine só ela rolando os olhos e fazendo cara de enfado para o príncipe.
Sorri ao imaginar. Era a cara da Melissa.
— Eu já rolei os olhos para ele e fiz até pior. Nós brigamos e eu já lhe disse umas verdades.
Toda a diversão de Ellie esvaiu assim que minha frase alcançou seus ouvidos.
— Você não fez isso, Anelise Benett.
— Fiz sim!
Ellie olhou para os quatro cantos do quarto e encarou a sacada onde Stephany descansava, esperando Abigail chegar com um vestido para eu provar. Stephany fazia tanto silêncio que eu havia até esquecido que ela estava lá.
— Senhorita Stephany, poderia nos deixar a sós um minutinho? — Ellie pediu e me deixou confusa.
— Claro — minha criada respondeu, prestativa. — Procurei ver se Abigail precisa de ajuda, senhorita Anelise.
— Tá certo, Stephany. Até mais.
Tão logo Stephany saiu do quarto. Ellie me segurou pelos ombros e falou, irada:
— Você quer morrer, Anelise? Quer ser pega? Quer que todos descubram? Quer ferrar com sua família? Quer ferrar a mim?
Todas essas perguntas foram feitas com tanta emoção que, mesmo sem gritar, vi a veia da testa de Ellie pulsar.
— O quê? — perguntei, confusa demais.
— Você vai lá e fala poucas e boas para o príncipe, deixa evidente para ele suas ideias e tudo que você discorda. Talvez liguem os pontos.
— Ah... — foi tudo que falei ao entender do que se tratava.
— Se você não pensa em você, pense ao menos na sua família e em mim.
— Isso não teria como respingar em você.
— Acha mesmo que a melhor amiga seria poupada? Eu facilmente seria colocada como sua ajudante. Eu nem ousei abrir aquele site, mas Angelina, de Calgary, parece acompanhar e ser ousada o bastante para visitar mesmo estando aqui. Você tem uma ajudante, não tem? Foi recentemente atualizado...
Antes que ela me perguntasse quem era e eu precisasse mentir justo para Ellie, cortei-a e falei:
— Está tudo sob controle, certo? Jamais deixaria isso ser descoberto e respingar em você. Confie em mim.
Ellie fechou os olhos com força, como fazia sempre que estava prestes a perder o controle. Quando os abriu, parecia mais calma.
— Eu amo você, Liss. Ainda que eu não me prejudique diretamente, não teria paz se soubesse que algum mal tinha lhe ocorrido.
Vi seu corpo estremecer, só de pensar na ideia, e a puxei para um abraço.
— Nada vai acontecer comigo. Te dou minha palavra.
👑👑👑
Havia chegado o dia do Jornal Oficial e todas as meninas estavam com os nervos à flor da pele. Fora os quatro encontros que o príncipe Edward havia tido logo depois do nosso, ele ainda passeou pelo jardim Rose Amber e voltou a sair com Angelina Holmes e Maggie Rydd; ambas tiveram o encontro com ele na semana anterior a primeira eliminação.
— Meu Deus, Liss. Você está magnífica — Olivia disse ao me ver.
Eu usava um vestido meio acinzentado com lindos apliques na parte dos seios e também um pouco na saia, que era levemente bufante. Minha cintura era marcada por uma fita fina do mesmo tom do vestido, que tinha o tecido parecido com tule.
— Você também, Olivia — retribuí o elogio de forma sincera.
Olivia tinha muita classe, e seu vestido vermelho acinturado havia destacado isso.
— Estou tão nervosa. Não fui chamada ainda para um encontro, Ellie também não. Tenho medo do que isso pode significar.
Me aproximei dela e tentei acalmá-la.
— O príncipe tem vários outros afazeres fora participar de encontros, Olivia. Nem se ele quisesse muito, teria como encontrar com todas em tão pouco tempo. Não se preocupe com isso.
— Melissa disse que ele foi magnífico no encontro com ela. Ela te contou? Parecia um sonho de tão lindo — ela começou a falar, enquanto piscava de felicidade.
Acabei rindo. Imagine só quando fosse a vez dela!
— Ellie passou no meu quarto antes de vir. Falou que viria mais cedo para pegar vaga na frente e conseguiu arrastar Melissa com ela. Vamos ser só nós duas hoje, então.
Olivia, então, me deu a mão e seguimos para a área de gravação do Jornal Oficial.
Assim que chegamos, vimos de longe Ellie e Melissa sentadas bem na primeira fila da ala direita, que ficava do lado oposto onde a família real estava, fazendo com que eles olhassem para elas. Enquanto andávamos, Olivia comentou algo sobre um vestido verde muito mal escolhido de uma das garotas. Mas eu não consegui ouvir, porque, assim que olhei para frente, vi o príncipe Edward entrando. E, mesmo sem motivo algum, senti minha barriga gelar.
— Vamos nos sentar aqui — falei, achando duas cadeiras vazias na segunda fileira do lado esquerdo do palco.
Era melhor assim. Dessa forma, o olhar do príncipe não conseguiria encontrar o meu.
Depois de tudo pronto, ficamos em silêncio. Pude ver as câmeras com suas luzinhas vermelhas indicando que o show havia começado. Desta vez, ninguém da realeza falou e, por isso, Cail, nosso mestre de cerimônias, logo entrou com todo seu encanto.
— Boa noite, meu amado povo de Illéa. Prontos para as fortes emoções que podem vir hoje à noite? Será que o príncipe eliminará alguma garota da competição? Será que vocês poderão fazer parte da Seleção como na semana passada? — Cail falava com um sorriso imenso preso nos lábios. Mesmo que você odiasse aquele circo, se via rindo com ele. Ele era a atração perfeita para uma noite como aquela. — Antes de mais nada, que tal vermos como foi essa semana dentro do palácio? Vamos ver um pouco como nossas queridas garotas aproveitaram o castelo.
Então, um vídeo começou a passar no telão – e eu acredito que passou de tela inteira para os espectadores – de como fora nossa semana, incluindo um pouco dos encontros. Me vi na tela no encontro catastrófico que foi o nosso primeiro e, realmente, não apareceu nada sobre o segundo. Mas uma coisa em especial me chamou atenção. Embora Ellie não tivesse tido um momento com o príncipe e também não tivesse feito nada de mais, quando passavam cenas sobre nosso dia a dia, era nela que a câmera focava. Isso dava a sensação de que ela fora a estrela da semana.
Ao olhar para Olivia, consegui perceber que ela estava tendo a mesma impressão que eu. Olivia olhava para todas que tiveram um encontro, e depois para o telão com a testa franzida.
— A Ellie está aparecendo mais que os encontros ou é impressão minha? — ela finalmente comentou algo.
— Aham. Talvez o público tenha pedido para vê-la — comentei minha teoria.
— Ou alguém aqui no palácio quer que o público a veja, já que o príncipe não parece ver muito — Olivia disse rapidamente.
Não havia maldade na fala de Olivia. Quando a olhei nos olhos, percebi que ela realmente só tinha a intenção de desvendar o mistério que era ver tanto de Ellie quando ela não participou de fato de nada.
— Pior que faz sentido.
Procurei pelo rosto do príncipe e ele parecia naturalmente calmo, não me dando indícios sobre Olivia estar, ou não, certa. Mas foi ao olhar para o rei que tive a certeza. Embora sua feição fosse extremante calculada para passar entusiasmo em ver um vídeo de tantas garotas fazendo nada, seu olhar entregava a verdade: ele estava se deleitando ao ver Ellie no telão.
Assim que o vídeo acabou, Cail voltou a falar:
— Hoje vamos fazer diferente, não ouviremos apenas o príncipe. Queremos ouvir também algumas garotas.
Houve um pequeno e organizado alvoroço nos dois lados do palco. Todas nos arrumamos na cadeira e tomamos um pouco de ar, tentando nos preparar para o que estava por vir.
— Senhorita Anelise Benett. Talvez seu depoimento seja o mais esperado, já que o público a escolheu na votação passada.
Então, um cameraman surgiu magicamente no centro do palco e balançou a mão para que eu olhasse para ele. Puxei o ar e falei:
— Acredito que sim, Cail — tentei sorrir.
— Conte-nos como foi. Soube que tiveram mais de um encontro.
Não gostei quando ele disse isso. O primeiro encontro, aquele péssimo e todo montado para que o público visse — editado, claro —, por pior que tenha sido, eu não ligava de compartilhar. Mas o segundo, cheios de provocações e palavras não ditas, eu queria poder guardar apenas para mim. Temia falar dele e descobrir coisas que não queria, além de jogá-lo no ar, e então, ele deixar de ser apenas nosso para ser algo público. A feição empolgada de Cail, entretanto, me fez perceber que nada era só nosso naquele jogo.
— Sim. No primeiro, fomos tomar um chá. Foi esse que vocês viram. Nós conversamos sobre as realidades de cada um. Foi um encontro no mínimo revelador. Já no segundo, acredito que a gente tenha quebrado algumas barreiras que antes ainda existiam. Ficamos mais à vontade enquanto jogávamos.
Terminei e falar e o rapaz que me filmava saiu do palco. Cail se virou em direção ao príncipe.
— Seu primeiro encontro com a senhorita Anelise foi filmado apenas no começo, mas ainda temos registros. Porém, o segundo não há nada. Quis mais privacidade, Alteza? — Cail perguntou com um sorrisinho.
O príncipe sorriu de volta e piscou algumas vezes.
— Na verdade, esse também teria algum trecho filmado, mas houve alguns contratempos e a filmagem não pôde ocorrer. Porém, não posso negar que ficamos mais à vontade sem nenhuma câmera.
— Interessante — Cail se limitou a dizer enquanto sorria.
Depois de varrer calmamente o estúdio com os olhos, Cail falou com Ellie.
— Senhorita Ellie Mitchell. Pelo vídeo, pudemos ver que a senhorita é uma líder nata, mas ainda não teve nenhum encontro com o príncipe. Isso a preocupa?
Ninguém ali no palco percebeu, e tenho certeza que também passou despercebido pelo pessoal de casa, mas eu vi quando Ellie fez seu tique de quando estava nervosa ou acuada. Minha amiga, assim que ouviu a pergunta, rapidamente prendeu levemente a pele do queixo entre os dedos para então poder falar.
— Boa noite, Cail — ela primeiramente saudou, sendo a garota preparada que todos nós sabíamos que era. — A resposta para sua pergunta é não. E acho até que tenho algo que possa surpreender você. Ver que tanto eu quanto outras meninas ainda não tiveram um encontro com príncipe me orgulha.
Cail olhou para a câmera e fez uma expressão caricata de confusão. Pude ver, com algum esforço, que o rei olhava agora com curiosidade para Ellie.
— O príncipe é um homem ocupado, tem um reino para cuidar junto à sua família e eu ficaria imensamente decepcionada se o visse deixando suas obrigações de lado apenas para passar todo o seu tempo conosco. Óbvio que eu adoraria que o encontro com o príncipe já tivesse acontecido, mas suas razões são as mais nobres possíveis. E sei que sua intenção não é preocupar nenhuma de nós.
O rei esbanjava orgulho quando Ellie terminou de falar. E pelas feições de Cail, ele também. Rapidamente, o rosto do príncipe apareceu no telão, e algo em mim se irritou por suas feições estarem tão indecifráveis. Queria muito saber o que se passava em sua mente. Eu estava orgulhosa que Ellie tivesse se saído tão bem e deixado suas inseguranças.
Cail voltou a falar e tomou um rumo diferente do que estava tomando até então.
— Bom, mas este programa tem que andar, e isso significa que chegamos a um momento delicado do dia de hoje. Príncipe Edward, nos responda a pergunta que todos querem saber a reposta. Terá alguma eliminação hoje?
Olivia segurou forte minha mão antes que o príncipe respondesse, e vi que quase todas as meninas estavam na mesma tensão.
— Sim, Cail. Hoje mais quatro meninas irão nos deixar.
O número me chocou. Ele tinha tido encontro com pouco mais que quatro ao todo. Cada vez que ele eliminava tantas, mais risco tinha de estar tomando uma medida precoce e errada.
— Pode se dirigir ao centro do palco para dizer suas escolhas, Alteza — Cail falou com uma voz calculadamente tensa.
O príncipe olhou para a família e, depois, seguiu para o palco com um leve sorriso forçado nos lábios. Eu podia não o conhecer tão bem, mas conseguia perceber que ele não gostava de fazer aquilo.
— Senhorita Jennifer Moore, venha até aqui para que eu possa me despedir de você.
Jennifer levantou-se e virou levemente para trás para poder apertar a mão de America Clarck, a garota de Columbia com quem tinha criado uma amizade. Depois disso, seguiu de forma forte até o palco e a abraçou brevemente antes de seguir para o canto do palco.
— Senhorita Regina Daniels, sua jornada na Seleção acaba aqui.
Regina estava na fileira em frente à minha, mais precisamente na frente de Olivia. Ela ficou tão em choque que precisou que Angelina, uma linda moça negra que ostentava um dos cabelos mais lindos que já vi, tocasse nas suas costas para que ela se levantasse.
Pela postura de Jennifer, eu tinha achado que as reações das meninas da semana anterior haviam nos ensinado algo, mas mudei de ideia assim que vi Regina chegar ao palco.
Regina era ruiva, e chorou tanto quando chegou perto do príncipe que seu rosto assumiu quase o mesmo tom do seu cabelo. Ele não sabia o que fazer. Regina abraçou até mesmo Cail, que, pego de surpresa, acabou deixando escapar uma risada nervosa. Quando finalmente conseguiram fazê-la ir para o canto, o príncipe precisou de uns segundos para se recompor.
— É, esse momento não é fácil — Cail falou para que o príncipe ganhasse tempo.
— Err... — Edward voltou a falar. — Senhorita Kriss Smith, pode vir aqui para nos despedirmos?
Diferente de Regina, Kriss se levantou assim que ouviu seu nome, e rapidamente já estava no centro do palco abraçando o príncipe. Ela fez tudo tão rápido que levantou a dúvida se estava apenas querendo que acabasse logo ou só não queria mais participar da Seleção.
— E senhorita Desire Harris, sua jornada aqui acabou.
Olivia e eu nos olhamos confusas. O príncipe não havia nem mesmo tido um encontro com ela. Como decidira tirá-la, então?
Mary, de Angeles, que estava ao meu lado, nos falou:
— Constance teve um encontro com ele e contou que Desire havia insinuado que vocês dois já haviam tido alguma intimidade, porque teve dois encontros com ele e o viu entrando em seu quarto.
— Nós não fizemos mais que conversar e jogar nesse tempo — me defendi, chocada.
— E se tivessem se beijado, seria natural também. Acham que não vai ter isso? — Olivia indagou, indignada.
Quando terminou de falar, Desire já estava com as outras três meninas no centro do palco novamente, recebendo um par de brincos do príncipe.
— Alteza, soubemos que haverá um baile muito importante nos próximos dias. Quem sabe a gente não possa ajudá-la a fazer sua escolha para lhe acompanhar — Cail começou rindo, e meu coração acelerou.
— A minha escolha já foi feita, Cail — ele se adiantou em responder, e as meninas começaram a se olhar.
Cail não podia perguntar quem era, não naquele momento. Eu não queria que todos soubessem ao vivo.
— Pode nos dizer quem é, Alteza?
Segurei o ar e apertei a mão de Olivia o mais forte que pude.
— Ai! — Olivia exclamou quase no mesmo tempo em que o príncipe disse:
— A senhorita Anelise.
E, então, todos os holofotes estavam sobre mim, e vi meu rosto junto ao do príncipe ocuparem a tela inteira do telão.
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