Capítulo Dez


Dizer que o rei ficara furioso com a atitude do príncipe Edward seria puro eufemismo. Assim que as câmeras foram desligadas, os dois príncipes, como se já esperassem por algo, tentaram passar o mais rápido que puderam entre nossos vestidos e as pessoas que tentavam desmontar tudo, mas não foram rápidos o bastante.

— Edward! — o rei gritou de maneira tão dura que todo o set parou.

Com o olhar derrotado, Edward fez um sinal com a cabeça para que o irmão seguisse sem ele e esperou o rei, que acabou lhe arrastando pelo braço para que todos vissem. Me sentindo envergonhada por ver aquela cena – e também um pouco culpada –, acabei me livrando de Olivia e seguindo sozinha para o quarto antes que sentissem minha falta.

Mas o maior dos meus problemas decorrentes daquele pedido não estava no tratamento frio que o rei tinha com seu filho mesmo no dia seguinte, e nem na maneira como as minhas amigas me encaravam em silêncio como se eu estivesse escondendo algo. Meu maior problema surgiu quando cheguei ao meu quarto depois do almoço e encontrei Stephany na porta com as mãos trêmulas enquanto tentava manter o suco dentro do copo que segurava.

— Ah, meu Deus! Senhorita Anelise, que bom que chegou. Eu não sei mais quanto tempo aguentaria lidando com ela e quanto tempo conseguiria passar aqui fora à sua espera sem que ela gritasse por mim.

Encarei Stephany sem entender suas palavras sussurradas. Quando fiz menção de falar, ela usou uma das mãos para fazer sinal de silêncio e voltou a sussurrar:

— A rainha está ali dentro. Disse que só sairia daqui quando falasse com a senhorita.

— O quê? — perguntei em um sussurro cheio de medo.

— Acho melhor a senhorita entrar. Não é bom deixar a rainha esperando.

Não tive tempo de pensar em mais nada. Stephany abriu a porta com a mão livre e, usando o quadril, me deu o empurrão que eu precisava para entrar no quarto.

— Aí está a queridinha do meu filho — a rainha me saudou com um sorriso forçado nos lábios e sem nenhuma vontade de esconder seu sarcasmo.

— Majestade — lhe saudei antes de fazer uma reverência.

A rainha sorriu para Stephany e Abigail antes de falar:

— Será que as senhoritas poderiam fazer um outro suco para ela e nos deixar a sós?

Minhas criadas logo balançaram a cabeça afirmativamente e saíram fazendo outra reverência.

— Que bom finalmente estar a sós com você, Anelise — ela disse, sem usar senhorita ou qualquer outra formalidade. — Estava ansiosa por esse momento.

— É uma honra... — tentei começar a falar, mas ela me cortou.

— Vamos deixar as bajulações de lado, está bem? Há um motivo para que eu evite falar com todas vocês e este é o motivo. Não suporto a ideia de várias garotas fingindo me amar.

A rainha falava palavras duras com tanto desdém que me senti pequena e incapaz.

— Me desculpe — balbuciei, insegura.

— Está desculpada, até porque não vim aqui para falar sobre isso. Vim aqui falar sobre seu relacionamento com meu filho.

— Nós não...

— Não estou lhe perguntando nada, Anelise — ela voltou a me cortar, e a raiva começou a substituir minha vergonha por ira. — Edward sempre foi um menino bom. Na verdade, ele sempre foi maravilhoso. Mais do que eu poderia querer e mais do que a imprensa é capaz de reconhecer. Mas junto à sua bondade também veio uma inocência e certa incapacidade de bom julgamento.

Ela estava insinuando que...

— Então há de concordar que eu não deva confiar muito em você.

Sim, ela estava insinuando. Ou melhor, ela estava afirmando com todas as letras.

— Não acredito que tenha lhe dado motivo para isto — consegui juntar coragem para falar.

A rainha riu forçadamente.

— Não é culpa sua, meu bem. Eu desconfio de todas vocês. Mas diferente das outras, você parece ter encontrado vaga no coração do meu filho. E acredito que você já ouviu muita coisa de mim, mas há algo que a mídia não divulga: eu faço tudo pelos meus filhos. Então, nada mais justo do que eu vir aqui te conhecer um pouco melhor.

— Faz sentido. O que a senhora quer saber de mim?

Eu estava com medo, muito medo, mas isso não significava que eu iria enfraquecer perto daquela mulher que me olhava como se eu não fosse nada.

— Nada que você tenha a me dizer é mais revelador do que meus detetives vão descobrir. Então, vim apenas te dizer isso.

— Eu não tenho nada a esconder, Majestade — blefei, na tentativa de sua desconfiança parar ali.

— Eu espero, Anelise. Meu filho se arriscou muito por você tomando aquela atitude de lhe convidar. O baile é um evento importante. Isso significa que você importa mais do que eu esperava que esse monte de garotas fosse importar. E o mesmo amor que te fez aceitar a vir para o palácio antes do dia e guardar o segredo sobre isso, é o amor que me move a te investigar de ponta a cabeça. Eu amo meus filhos e você fez isso porque amava sua família também. Então espero que continue os amando como antes.

— A senhora está ameaçando minha família? — perguntei, alterada demais para quem falava com uma rainha.

Ela não tinha o direito de colocá-los no meio daquilo. Nada do que ela fosse descobrir tinha a ver com eles.

A rainha piscou algumas vezes depois da minha pergunta e negou com a cabeça, me fazendo enxergá-la como humana pela primeira vez.

— Jamais faria algo com sua família, Anelise. Tenho escrúpulos o suficiente para jamais colocá-los no meio disso a esse ponto. Mas qualquer coisa que venha a acontecer com você vai afetá-los, não vai? Por isso, pense neles. Você não vai querer deixá-los tristes.

Mesmo sabendo do tom de ameaça contra mim, suspirei aliviada. A rainha não parecia mentir, e isso me deixava segura o suficiente para suspirar de alívio por minha família. Eu suportaria tudo contra mim mesma, mas nem um segundo de algo sendo feito a quem eu amava.

— Alguém vai te procurar para ir te ensinando o que você precisa para não passar vergonha. Faça o seu máximo — ela avisou, e eu balancei a cabeça em um sim. Não pretendia fazer vergonha. — Meu filho apostou muito te convidando sem nos contar, Anelise. Para ser sincera, não gostei. Mas espero que você honre o sacrifício dele.

E, sem me dar nem mesmo um "boa tarde", a rainha saiu do quarto me deixando com o corpo tremendo.

Depois do encontro com a rainha, eu não conseguia pensar em mais nada a não ser naquele maldito baile. Lembrava de sua ameaça, de seu olhar altivo e de uma palavra que não me deixava relaxar: sacrifício.

Cada vez que me lembrava de como ela havia falado da atitude do filho, mais eu pensava na reação do rei e do olhar do príncipe George para o irmão, quando o outro ficou para trás. Onde o príncipe Edward havia se metido apenas para me convidar para aquele baile?

Movida por um misto de sensações, levantei-me da cama em um ímpeto e corri para minha penteadeira em busca de alguns papéis em branco que eu havia deixado por ali. Peguei uma caneta e escrevi um bilhete para o príncipe, na tentativa de ajudar a nós dois.

"Boa noite, Alteza.

Não sei se tenho permissão para fazer o que pretendo, nem mesmo se gostará do que tenho a dizer, mas acredito que será o melhor para nós dois. Me senti muito honrada com seu convite para o baile e reconheço que perdi a aposta que o envolvia, mas receio não ser a melhor companhia. Seus pais, Cail e certamente o povo de Illéa há de concordar comigo. Anne e Peter também.

Por esses motivos, queria lhe pedir para chamar outra garota mais bem preparada para ser sua acompanhante oficial no baile. Será o melhor para todos.

Perdão,

Anelise Benett."

— Abigail, você poderia me fazer o favor de levar esse bilhete o mais rápido possível ao príncipe Edward? Preciso que você assegure que ele chegará às mãos do príncipe ainda essa noite.

Abigail assentiu firmemente antes de sair com um sorriso no rosto. Senti um aperto no peito na hora que ela sorriu – aquele bilhete tinha o extremo oposto do que ela esperava.

— Está tudo bem, senhorita Anelise? — Stephany perguntou, e eu forcei um sorriso.

— Está sim, Stephany.

Ela saiu da varanda e se aproximou de mim com calma antes de falar:

— A rainha é terrível quando quer, sei disso. Não se deixe abalar. Ela não tem uma vida fácil e é louca pelos filhos, não leve para o pessoal.

Suspirei. Cada dia aquele programa sugava mais de mim. Não era apenas a rainha, embora ela tivesse sido o fator crucial, mas era tudo. E esse tudo cada dia se tornava ainda maior.

— Não é só ela... Eu não nasci para isso — confessei, sentindo vontade de chorar. Stephany percebeu que aquela não era hora de falar, e fiquei grata por isso. Eu não queria falar daquele assunto com ninguém, e esperava que parte dele acabasse ainda naquela noite.

No silêncio do meu quarto, me permiti voltar para a cama e tentar descansar, embora estivesse ansiosa. Eu precisava descansar um pouco. Quando já estava quase cochilando, escutei a porta ser aberta e vi Abigail entrar com os olhos arregalados e um sorriso estampado no rosto.

— O que houve? — perguntei, confusa.

— O príncipe está aí fora e deseja entrar.

Não tive tempo para processar a informação. Stephany, sempre mais afobada que Abigail, acabou por ela mesma liberar a entrada do príncipe, e, quando dei por mim, ele já estava dentro do meu quarto parecendo um pouco perturbado.

— Alteza — lhe saudei, enquanto me levantava da cama.

— Vocês poderiam, por gentileza, nos deixar a sós? — Edward perguntou às minhas criadas, e elas prontamente saíram.

Encarei-o, percebendo que sua feição perturbada ainda continuava, e então me preocupei.

— Está tudo bem?

O príncipe me olhou, confuso.

— Sou eu quem lhe devo fazer esta pergunta. Está tudo bem, Anelise? O que lhe levou a escrever aquelas palavras?

Logo que entendi o motivo de sua perturbação, suspirei de alívio por não ser algo mais sério. Porém, logo fiquei tensa ao me perguntar como eu iria lhe explicar.

— Eu acho que... — comecei, meio incerta — que seja melhor assim. Não sou a candidata mais bem preparada para isso.

O príncipe me encarou, e, sem querer, encolhi um pouco. Ele tinha a mania de olhar para você como se visse sua alma.

— Isso não faz o menor sentido. O que houve?

Eu não queria – e talvez nem devesse – dizer o que houve de verdade. Então, tentei dizer algo que fizesse sentido e não fosse mentira.

— Algumas coisas me fizeram perceber que nós dois perderemos muito se eu não for como todos esperam. Não quero colocar nenhum de nós em problemas.

— Isso foi por causa daquele show do meu pai após o jornal? Olha, não precisa disto. Está tudo bem.

Respirei fundo. Por que ele não podia ter apenas lido o bilhete e ficado em seu quarto?

— O que aconteceu quando você foi embora com seu pai? — perguntei. Eu precisava saber o que tinha acontecido.

— O que vo... — ele começou, parecendo meio indignado. — Qual a importância disto?

O príncipe não iria me convencer de nada se não me contasse a verdade.

— Eu preciso saber o que aconteceu. Preciso saber por que aquela atitude foi tão arriscada — minha frase acabou me denunciando, e a feição de Edward mudou.

— Quem lhe disse que eu havia me arriscado? — ele perguntou rápido.

— Eu só... — comecei, mas fui incapaz de seguir mentindo. Então, me calei.

Edward permaneceu em silêncio, me encarando. De alguma forma, isso me fazia sentir vontade de falar, mas me segurei. Ele era quase um completo desconhecido, não havia motivos para eu querer dividir minhas coisas com ele.

— Preciso que seja sincera comigo, Anelise.

— Mas eu...

O príncipe era educado demais para falar por cima da minha frase. Mas percebi, antes de terminá-la, que ele não queria ouvir aquilo. Então, fiquei em silêncio.

— Você não está sendo, e por favor, não argumente o contrário.

O problema era que eu não sabia se deveria ser sincera com ele. Naquele castelo, todos pareciam ter segundas ou terceiras intenções em cada fala, independente do jogo que era a seleção. O ambiente era por si só competitivo. Até que ponto, em um lugar como aquele, eu poderia me expor para alguém que mal conhecia?

— Não é justo você querer minha sinceridade quando não respondeu minha pergunta — acusei, na defensiva.

O príncipe ensaiou um sorriso sem felicidade alguma.

— Se eu me abrir, terei sua sinceridade de volta? — ele quis saber, e eu achei justo.

Porém, algo em seus olhos – talvez a urgência para que eu confirmasse e, assim, pudéssemos trocar nossas confidências –, mexeu comigo de forma que eu não esperava. E, sem precisar da resposta dele, comecei a chorar e a contar sobre sua mãe.

— Eu não aguento isso, Edward — falei, sem nem me lembrar das formalidades. — Você conta em rede nacional que fui sua convidada para um baile importante e, além de todas as garotas me olharem estranho, seu pai quase te arranca do lugar aos gritos. E quando acho que não pode piorar, sua mãe aparece no meu quarto e me diminui, me diz que você arriscou muito fazendo isso. É pesado demais para mim. Eu nunca precisei lidar com nada parecido com isso.

Eu iria explodir, sentia como se isso fosse acontecer a qualquer momento. Tive que compartilhar isso com ele.

— É tanta coisa que eu me sinto como uma bomba-relógio prestes a explodir na frente de centenas de milhares de pessoas. E eu não vou ter tempo de recolher meus destroços, porque terei que lidar com todos os danos — falei, em meio às minhas lágrimas. — Todos estão esperando por isso. Illéa, as meninas, seu pai, sua mãe, até mesmo eu. Todos esperam pelo momento em que eu vou explodir. E eu sei que isso vai acontecer logo, logo.

Edward, sem seguir nenhum protocolo, sentou-se ao meu lado na minha cama e segurou minhas mãos.

— Meu pai sempre bateu em mim e no meu irmão. Isso é o que geralmente acontece. Mas, conforme fomos tendo uma vida mais pública, isso foi diminuindo. Não podemos aparecer com marcas. O George é o herdeiro direto da coroa, e, hoje, eu sou a cara do maior show da coroa. Então, a represália dele não foi nada pesado demais. Apenas alguns gritos, humilhações e lembretes de tudo que eu posso perder.

Ele falou tudo isso de maneira calma, enquanto minhas lágrimas iam diminuindo. Aquilo acabou me deixando mais tranquila.

— E o que você pode perder? — perguntei, curiosa.

— Fizemos um acordo antes disso começar de fato. Eu iria para uma universidade fazer um curso de curta duração de História da Arte. E, se tudo corresse bem, cursaria Relações Internacionais em sequência.

— E onde eu arruíno tudo?

Edward balançou a cabeça em negativa assim que ouviu minha pergunta.

— Não é você, Anelise. São as visões diferentes sobre este programa. Meu pai quer que eu pense na audiência e no quanto isso pode chamar atenção, já eu penso que vou entregar meu coração a esta pessoa. Então, temos estratégias diferentes para o programa. E caso as minhas deem resultados ruins aos olhos dele, eu perco essa tentativa de sair daqui.

— Mas não seria bom que você tivesse uma formação acadêmica?

Sempre achei que esse fosse o esperado da realeza. Não entendia como o rei poderia tirar isso do filho sem prejudicar os próprios anseios.

— Sim, mas eu queria fazer fora daqui. Ao menos, fora de Angeles. E isso eu só consigo se o rei permitir.

— O problema do rei pode até não ser comigo especificamente, mas sou o da sua mãe. Ela pareceu querer deixar isso bem claro.

O príncipe, surpreendentemente, riu. Olhei confusa para ele e recebi outro sorriso como resposta.

— O problema da minha mãe é diferente do meu pai, mas continua não sendo só com você, Anelise. Minha mãe possui muitos defeitos, mas eu sei que ela ama meu irmão e eu, e ela nunca concordou com a forma do meu pai de educar a gente. Além disso, ela quer muito que eu consiga fazer meu curso.

— E eu posso acabar com tudo isso — constatei.

— Não só você — ele fez questão de dizer enquanto tocava minha mão com um pouco mais de força. — Isso envolve mais as pessoas que estão relacionadas às minhas decisões. E isto não é o ponto principal.

Esperei em silêncio pela continuação, mas ela não veio. Então encarei o príncipe, que pareceu instantaneamente desolado.

— Qual o ponto principal?

Edward se mexeu desconfortável na cama e tomou ar antes de falar:

— Não entenda mal, está bem? Mas minha mãe não confia na eficácia da seleção. E mais que isso, ela desconfia de todas vocês. Sua esperança é que eu não me envolva de verdade com nenhuma de vocês.

— Então ela acha que quero dar um golpe em você — falei, soltando sua mão.

Eu odiava todo aquele luxo, era contra a coroa, e a mãe dele achava que eu iria lutar para conseguir aquilo tudo?

— Sua mãe não pode estar mais enganada — sentenciei, desta vez me levantando.

— Anelise, você há de reconhecer que tudo aqui, não necessariamente você, pode ter um jogo de interesse. Você não pode culpar minha mãe por querer cuidar do filho.

Aquilo me deixou com raiva, com muita raiva. A mãe dele havia me ameaçado. Eu não suportaria escutar ele defendendo-a por mais tempo.

— Isso não dá o direito de ela vir aqui me humilhar e me ameaçar, falando que eu deveria pensar em como minha família ficaria se algo acontecesse comigo. Ela também tentou justiçar as palavras dela falando que se preocupa e que ama você. Mas isso não quer dizer nada!

— Eu sinto muito — Edward falou, envergonhado. — Sinto muito pelas ameaças, humilhações e tudo mais que ela possa ter feito.

Respirei fundo, procurando me acalmar enquanto o encarava.

— Eu odeio tudo isso, e não vejo motivos para tentar te conquistar e te dar um golpe. Eu odeio isso tudo — falei, ainda com raiva.

— Sempre que você fala assim, me pergunto o quanto você ama a senhorita Ellie.

— O quê? — indaguei, confusa com a mudança de assunto.

— Você fala com muita certeza o quanto odeia isso tudo. Faz questão de sempre lembrar. Você deve amar muito sua amiga para ter se disposto a estar aqui.

Meu coração acelerou, e senti como se uma pedra de gelo estivesse no meu estômago. Eu, mais uma vez, estava falando mais do que deveria.

— Estou com raiva. Me desculpe.

O príncipe balançou a cabeça em um sim meio cansado.

— Eu entendo.

Ele, então, se levantou e caminhou até mim para, mais uma vez, segurar minhas mãos. Algo naquela proximidade me deixava nervosa de uma forma que eu não sabia explicar.

— Mas eu peço que não desista de me acompanhar no baile. Se não for pela vontade de ser minha escolhida, que seja por amizade a mim. Como poderia explicar que você simplesmente não quer ir comigo mesmo depois de eu ter anunciado para o país inteiro?

Era um bom ponto. Seria, no mínimo, humilhante para ele e problemático para mim.

— E, caso eu tenha conseguido um pouco da sua afeição, peço que vá. Ir com você significa muito. E eu não ligo se meus pais concordam ou não com isso. Seria uma honra lhe ter ao meu lado.

Meu coração neste momento estava acelerado, e eu temia que minhas mãos, coladas nas dele, estivessem geladas tamanho o meu nervosismo.

— Posso te fazer passar muita vergonha — argumentei, tentando não só convencer ele, mas a mim, que não seria uma boa ideia mesmo com suas palavras.

— Eu mesmo me encarrego de te ajudar, Anelise. Eu só preciso que você me diga sim, e faremos isso dar certo.

E, então, algo que eu nem imaginava sentir foi sentido por mim. Ouvi-lo falar que faríamos dar certo deixou de ter apenas o sentido do baile e pareceu ser para nós. E este nós ia além de um noite. Era nós para a vida inteira. E isso me fez sentir vontade de beijá-lo. Muita vontade de beijá-lo.

Não sei por quanto tempo fiquei imersa naquele desejo novo que sentia, mas, quando dei por mim, o príncipe soltava, um pouco sem jeito, minhas mãos e me perguntava:

— Você aceita ir comigo ao baile?

Como eu poderia dizer não se tudo que eu queria naquele momento ia muito além disto?

— Aceito.

👑👑👑

Eu me encarava no espelho pela décima vez apenas naquela última hora. Estava enrolada em vários pedaços de pano que Stephany e Abigail haviam separado para fazer meu vestido e que, aos poucos, ganhavam forma. Nervosas por saber que estavam vestindo a acompanhante do príncipe, meus dias agora eram repletos de provas que, na maioria das vezes, eram apenas para confirmar medidas que já estavam confirmadas na hora anterior.

— Eu vou surtar se tiver que provar mais uma vez esse monte de panos — adverti, assim que elas começaram a me despir.

— A senhorita precisa estar linda neste evento. Veja a honra que está tendo — Stephany disse sorrindo, e eu rolei os olhos.

— Qual? A de ser ameaçada?

Eu havia tentado manter segredo sobre a rainha, mas, em meio a um dos meus ataques de pânico por causa do que tinha que aprender, acabei contando o que havia acontecido.

— Isto é mais um motivo para a senhorita estar linda: calar a boca da rainha — Abigail disse, parecendo furiosa só de lembrar.

— Ah, meninas. Sou tão grata por ter vocês comigo.

E aquilo era verdade. As duas eram muito mais do que eu poderia querer ou merecer. Além de muito solícitas e engraçadas, elas estavam se mostrando muito mais fiéis do que eu imaginaria. Afinal, elas sempre pareceram respeitar a coroa, mas quando contei o que tinha acontecido, elas me colocaram em primeiro lugar. Não eram todos os criados que fariam isso.

— A senhorita não tem que agradecer, nós amamos o que fazemos e para quem fazemos.

Como estava só de lingerie, não lhes dei um abraço, mas eu sabia que elas tinham conhecimento de toda minha gratidão.

— Agora, se me derem licença, vou tomar um banho, que daqui a pouco o príncipe chega.

As meninas riram em animação e eu me peguei sorrindo também. Seria a primeira aula que teria com ele; as outras duas que eu havia tido foram uma junto com as outras meninas, ministrada pela senhora Anne, e uma particular com o senhor Peter. Depois de dois dias em que ele não aparecera, cheguei a duvidar que suas aulas estariam de pé. Mas, na noite anterior, antes de dormir, havia recebido um bilhete seu confirmando.

Terminei de me vestir e dispensei a ideia das meninas de me maquiarem. Eu podia não ser expert em cuidados com a pele, mas sabia que ficar maquiada o tempo inteiro não fazia bem. Além do mais, qual o problema de mostrar quem sou sem maquiagem? Uma coisa que eu ficava muito feliz era que a grande maioria das meninas parecia pensar da mesma forma, e isso tirava de nós a obrigação de ficarmos maquiadas no quarto, temendo visitas umas das outras.

Assim que decidi sentar-me para esperar, escutamos uma batida suave na porta, e essa sutileza já entregava quem estava do outro lado. Abigail logo correu para atendê-lo.

— Alteza — nós três falamos assim que a porta nos deixou ver seu rosto.

— Boa noite, senhoritas. Tudo bem?

Abigail e Stephany ensaiaram um "sim" que saiu mais parecido com um murmúrio sem muito sentido. Logo tomei a frente.

— Tudo sim. E contigo? — perguntei causalmente.

— Estou ótimo, Anelise.

As meninas ainda não haviam o visto me chamando assim e acabaram deixar escapando uma risadinha, que deixou nós dois constrangidos.

— Ér... — comecei, tentando achar um assunto, mas não pensei em nada.

— As senhoritas poderiam ir à cozinha pegar algumas coisas para comermos? — ele pediu educadamente.

— Alguma coisa de sua preferência, Alteza? — Abigail indagou.

— Não. Tudo que os cozinheiros fazem eu amo. Você tem preferência, Anelise?

Desde cedo, eu estava torcendo para no almoço e na janta ter um bom suco de maracujá. Como em nenhum momento ele esteve disponível, eu já sabia o que pedir.

— Se tiver maracujá, desejo um copo.

— Querendo dormir na minha aula? — o príncipe brincou, e eu decidi que gostava de vê-lo brincando.

— Não seja bobo — falei, rolando os olhos. — Apenas quero.

Quando as meninas nos deixaram a sós, Edward respirou fundo e começou a falar, parecendo empolgado:

— Eu acho que você já vem aprendendo muito de regras e etiquetas, assim como sobre os costumes que podem irritar os italianos. Então vou te ensinar algo que, provavelmente, ninguém vai.

Encarei-o, curiosa. O que ele poderia me ensinar que já não tivesse passado pela cabeça de Anne ou de Peter?

— E o que seria?

O príncipe caminhou até ficar muito próximo de mim. Então, falou baixinho:

— Como sobreviver a esses eventos.

E sua feição era séria, deixando claro que, talvez, aquele fosse ser meu maior desafio.

— Por que eu deveria me preparar para alguém me falar que eu não sou da realeza? Não me importo que digam isso.

Em cerca de uma hora, Edward já havia me falado de várias coisas. Desde rir mesmo sem achar graça se alguém te contar algo que julga engraçado, como não abaixar o olhar mesmo estando machucada. Esse último ponto acabou puxando o atual, que se tratava de me preparar para me xingarem por minha falta – a qual eu era muito grata – de sangue azul.

— Você já ouviu falar de comunicação passiva-agressiva? É assim que todos aqui tratam as conversas. Ninguém vai tentar te diminuir simplesmente dizendo isso. Na verdade, vão fazer isso da maneira mais rasteira e sem nunca ser diretos. Porque precisam provar, em caso de você reclamar, que nunca tiveram essa intenção.

— Ainda assim, isso não me preocupa — argumentei.

— Não acho isso depois daquela nossa briga. E eles vão falar daquilo a pior.

A nossa briga. Aquela onde me incomodei por ele insinuar que eu estava ali para usá-lo e ganhar dinheiro. A que ele supôs que eu só podia ser alguém desesperada por dinheiro. Só de lembrar, fiquei instantaneamente irritada.

— Se eles forem tão idiotas, vou dar uma resposta assim como lhe dei.

O príncipe percebeu a irritação na minha voz, assim como pareceu ter percebido que, indiretamente, eu o havia chamado de idiota. Mas nenhuma das duas coisas o fez desistir do ensinamento.

— Você não pode responder como me respondeu. Ainda não entendeu isso? Suas fraquezas não podem ficar expostas para essas pessoas. Muito menos para os meus pais.

E isso me deixou ainda mais irritada. Todos nós tínhamos dores e o direito de nos magoarmos, por que eu não podia ser humana em vez de uma boneca?

— Não estou nem aí para os seus pais ou para quem quer que seja. Não vou engolir sapo apenas para ser a bonequinha que você precisa — sentenciei, dessa vez já um pouco sem controle na voz.

— Eu te falei que iria te ensinar a sobreviver a eles, e é isso que estou fazendo. Quer você concorde ou não, é assim que as coisas funcionam por aqui, Anelise. Um usa a fraqueza do outro, e eu não quero ninguém encontrando as suas. Te preparar para isso é a única forma que tenho de te ajudar. Se você não quiser, então nada poderei fazer.

O príncipe ainda não parecia bravo, mas eu estava. E ele tentar me provar que eu deveria ser fingida só me deixava ainda mais.

— Para aprender, vou ter que passar por cima de mim?

Edward passou as mãos nos cabelos, pela primeira vez demonstrando certa falta de controle. Mas rapidamente se recompôs e me olhou nos olhos antes de dizer:

— Aí é que está, Anelise. Você precisa fazer isso justamente para não deixar ninguém passar por cima de você. Como você vai agir se alguém te perguntar algo como: "você deve estar bem feliz de ser a queridinha do príncipe, não é? Vai mudar de vida"? Você vai brigar com essa pessoa e deixar ela ciente que pode te infernizar o baile todo com esse assunto ou vai tirar este prazer dela? Acho que a segunda opção é bem mais inteligente.

Respirei fundo. Ele estava certo.

— Tudo bem. Então o que eu devo fazer?

👑👑👑

A semana havia se passado como um vento. Depois da aula com Edward, eu havia tido mais outra particular com Peter, mais duas coletivas com a senhora Anne e as meninas e uma última, muito rápida, com Edward, onde ele me ensinou como nós dois, enquanto par, deveríamos agir.

No meio disso tudo, Olivia e Melissa já haviam voltado ao normal comigo, sem os receios que pareciam ter desde que eu havia sido chamada para ir ao baile com Edward. Mas Ellie ainda demonstrava um claro ressentimento que, por falta de tempo, não tínhamos esclarecido. Agora, faltando poucas horas para o baile, eu sentia que não deveria ir sem antes falar com ela. Por isso, mesmo sabendo que corria risco de deixar Stephany e Abigail irritadas com meu sumiço – como elas diriam, "quase tempo nenhum para o baile" –, saí do quarto e segui rumo ao de Ellie.

Bati na porta umas três vezes até ser atendida por Carmela, uma das criadas que cuidava dela.

— Boa tarde, senhorita Anelise.

— Boa tarde, Carmela. A Ellie está aí?

A criada educadamente encostou um pouco mais a porta e virou-se para o quarto, como quem queria se certificar de qual reposta deveria dar. Segundos depois, ela a reabriu com um sorriso ensaiado nos lábios.

— Pode entrar.

Entrei e, assim que olhei para Ellie, não me senti confortável lá dentro. Minha amiga me encarava com um olhar cansado de quem não queria viver aquele momento.

— Será que poderíamos conversar? — perguntei, incerta, e Ellie segurou um suspiro.

— Sobre o quê? — ela fingiu curiosidade.

— Eu sei que não estamos bem, Ellie. Desde o último jornal que não somos as mesmas uma com a outra.

Olhei para as duas criadas, esperando que Ellie pedisse para ambas nos darem licença, mas ela não fez isso.

— Antes de você esconder da gente que era a preferida do príncipe?

Comecei a me sentir constrangida por termos aquela conversa na frente das meninas.

— Será que vocês poderiam nos dar licença, meninas? — perguntei, mesmo com medo de Ellie falar para elas ficarem.

— Claro — responderam juntas e saíram do quarto.

— Eu não me preocupo de ter essa conversa na frente delas, são próximas a mim — Ellie disse, e eu não duvidei. Sabia que sua índole jamais deixaria que tratasse mal aquelas moças apenas pelo cargo que ocupavam.

— Sei que sim, mas, se vamos nos acusar, prefiro que não tenha plateia. Até porque estamos brigando por algo tão idiota.

— Idiota por quê? Ah, sim! Porque você acha toda realeza um lixo, não é? — indagou, irônica. — Tão lixo que você está cada dia mais próxima do príncipe.

— Não é isso, Ellie. É idiota apenas porque temos uma amizade de anos e estamos deixando um cara que mal conhecemos, e uma festa que nem sabemos se vai ser boa, ficar no meio dessa nossa amizade.

Ellie riu sem humor.

— Não se trata disso, Anelise. Se trata de nós duas e de como você sabe que tudo isso importa muito para mim.

— E eu reconheço isso — argumentei, indo para próximo dela na cama.

— Sabe e mesmo assim esconde de mim que o príncipe e você estão próximos. Sabe e deixa ele te convidar para o baile.

— Ele me convidou porque perdi uma aposta, Ellie. Fora que você sabe que não sou ninguém para dizer o que ele faz ou deixa de fazer aqui dentro. E eu não te escondi, eu só não sabia como contar, não achei o momento certo.

Eu havia falhado em manter aquilo só para mim, mas não tinha sido proposital.

— Eu jamais deixaria de te contar.

— É diferente, Ellie...

— Diferente? — em cada palavra dela dava para ver que havia muito ressentimento.

— Você sabe que eu não me importaria. E não ficaria mal como você poderia ficar e até como ficou.

— Ai, Anelise. A quem você quer enganar? — ela perguntou com deboche. — Isso passou a te importar já faz um tempo.

— O que você quer dizer com isso?

Tudo poderia estar uma confusão, mas eu jamais julgaria Ellie se ela me contasse que havia sido convidada, ou que, como ela acusou, ela era a queridinha do príncipe.

— Olha para mim e me diz que você tem a mesma indiferença de antes pelo príncipe.

— Não, eu não tenho. Mas isso não quer dizer nada — rebati. — O príncipe se mostrou um pouco mais digno do que eu imaginava.

— E também mais fácil de gostar, não é?

— Como assim, Ellie?

Eu não conseguia entender por qual motivo ela insistia naquilo. Eu não estava no jogo, nunca estive e não planejava estar. Isso não havia mudado.

— Posso ainda não ter tido um encontro com ele, mas sei o quão apaixonável ele é. Só quero que você admita que está se apaixonando.

Ela falava isso carregando certeza e acusação em seu olhar. Ao mesmo tempo que eu sentia que deveria confessar para ter chance de seu perdão, sentia também que isso poderia ser a ruína de nossa amizade.

— Eu não o odeio como já supus antes, mas nada do que sinto é algo que me faça entrar de fato na seleção, se quer saber. O caminho está totalmente livre para você. E embora eu nunca tenha apoiado e nem vá apoiar um monte de garotas brigando por um homem, se você quer achar alguém para estar no seu caminho até ele, há aqui mais de vinte garotas e eu não sou uma delas. Continuo a todo custo querendo distância da coroa.

Deu para perceber que minhas palavras ainda não eram o que Ellie queria, mas pareceu ser o suficiente para acalmá-la e voltar a falar comigo.

— Amo você, Liss. Independentemente de qualquer coisa, prometo nunca esquecer disso e peço que não esqueça também.

Puxei-a para um abraço apertado que estava desejando há muito tempo.

— Nunca vou esquecer que amo você.

"O jogo da Seleção

Quando o programa começou, esta escritora que vos fala já sabia que tudo não passava de um entretenimento muito bem pensado para alienar o povo na medida certa. Trinta e seis garotas, vestidos bem costurados, ouro, machismo e um príncipe para completar a equação. Nunca houve a menor chance deste programa dar errado. Mas estamos mesmo vendo algo real?

Para os telespectadores, o jogo acontece quando essas garotas lutam para alcançar seus objetivos, que, sejamos sinceros, não se resume – e ainda bem – a conquistar um príncipe. Algumas querem a coroa, outras querem o pós-programa, outras querem realmente o amor. E não julgo qualquer que seja o motivo. Mas fica a pergunta: este é mesmo o jogo?

Algumas andorinhas me contaram que o jogo não se resume a isto. E essas garotas não são as peças principais do tabuleiro. Já parou para se perguntar qual lugar o povo ocupa? Ele sim é uma peça importante.

Seguimos aqui acompanhando se a coroa vai conseguir continuar jogando tão bem com o próprio povo."

Eu sabia que escrever aquele texto tinha me custado minutos que Stephany e Abigail jamais me deixariam esquecer, mas eu precisava. Colocar para fora minhas frustrações e impressões estava sendo a única forma de suportar toda a pressão que a situação me colocava. Sabendo que estava atrasada, adiantei os passos e tentei chegar o mais rápido possível ao quarto sem receber olhares tortos por minha falta de modos.

— Ela chegou! — Stephany quase gritou de alívio.

— Onde a senhorita se meteu? Procuramos no quarto das senhoritas Melissa, Olivia e Ellie, e nenhuma sabia de notícias — Abigail contou em um tom descontente.

— A senhorita Ellie foi a única que nos acalmou, dizendo que fazia ideia de onde estaria. Mas que era melhor deixarmos, porque a senhorita não demoraria.

Prendi a respiração por alguns segundos ao ouvir o que Stephany disse. Ellie continuava tendo ideia de que eu escrevia no site, e eu sabia que não era seguro para nenhuma das duas ela saber disso.

— Desculpem. Estava precisando de um tempo para mim. Mas já estou aqui e estou pronta para que vocês façam tudo o que quiserem. Prometo não reclamar de nada.

Abigail olhou para Stephany, ainda descontente. Mas suspirou derrotada e começou a falar:

— Vou buscar seu vestido enquanto a senhorita toma banho. Stephany vai cuidar de suas unhas assim que estiver de banho tomado.

Pela falta de tempo, tudo foi feito muito rápido. Comecei a me sentir culpada. Stephany fez seu melhor pintando minhas unhas, mas era nítido que ela gostaria de ter tido tempo para tirar algumas cutículas. Abigail deixou claro que faria um cabelo mais simples, porque queria ter tempo para a maquiagem. A única coisa que elas se orgulhavam era o vestido.

Assim que Abigail tirou-o do saco, suspirei, chocada com o resultado. Era muito melhor do que já parecia durante as provas.

O vestido era de modelo mullet, e tinha, como tom principal, um verde bem escuro. Por cima, um tecido fino havia sido costurado nele e havia uma estampa floral que parecia ter sido feita à mão. Essas flores viravam um bordado quando chegava na cintura, e se abriam em dois ramos para formarem um decote que eu nunca havia usado antes. "Sexy e chique na medida certa", foi como as meninas o definiram. O decote, a cor e o modelo mullet me deixavam com o ar de uma mulher sexy, já a estampa e o bordado davam um toque sutil para não deixar vulgar.

— Eu estou magnifica — falei suspirando ao ver meu reflexo.

Eu não lembrava da última vez que tinha me visto tão bonita quanto aquele dia. Minha maquiagem era forte e tinha como tom principal o verde, mas também tinha um toque de amarelo que combinava com as flores do vestido. Meu cabelo havia sido preso em um coque, deixando apenas alguns fios de fora. Stephany e Abigail, mesmo reclamando do tempo, haviam feito muito mais do que eu poderia imaginar.

— Obrigada, meninas — agradeci com um sorriso.

— A senhorita não precisa agradecer — Abigail disse, satisfeita. — É uma honra para nós duas podermos lhe vestir.

Me olhei mais uma vez no espelho antes de sorrir novamente.

— O príncipe vem lhe encontrar? — Stephany perguntou, ansiosa.

— Na verdade, não. Nos encontraremos no topo da escada para entrarmos juntos.

— Não veremos esta cena ao vivo, mas estamos ansiosas para vermos na televisão — Abigail disse sem conter a empolgação.

Ver a empolgação nos olhos das duas acabou me deixando ansiosa. Principalmente quando eu pensava que grande parte da felicidade das duas era que eu estaria com o príncipe.

— Aproveite, senhorita Anelise. Estaremos aqui orgulhosas — Stephany falou e me deu um leve abraço que, depois, foi repetido por Abigail.

Caminhei lentamente pelo corredor cheio de quartos onde as meninas e eu estávamos alocadas. Todas elas certamente estariam finalizando os últimos detalhes antes de estarem prontas para o baile – apenas eu tinha que estar presente tão cedo. Encarei a porta do quarto de Olivia e tive que controlar o ímpeto de entrar lá, apenas para escutar de alguém que eu confiava que tudo daria certo. Continuei andando e, quando estava prestes a virar no próximo corredor, escutei a voz de Ellie dizer:

— Anelise — ela falou, com a voz alcançando o tom mais alto que a vi usar dentro do palácio.

Virei-me para trás e encontrei Ellie sorrindo para mim. Ela usava o vestido azul que parecia bordado e tinha a saia muito armada, deixando-a parecendo uma princesa. Estava linda.

— Arrasa — ela balbuciou, e senti como se estivesse me abraçando.

— Obrigada — balbuciei de volta antes de me virar e seguir rumo ao baile.

Quando cheguei ao corredor final, pude ver, lá longe, o príncipe à minha espera. Todo meu corpo gelou.

Era redundante dizer que ele estava lindo, porque, embora eu odiasse admitir, ele era lindo. Sua roupa não era muito diferente das que ele costumava usar normalmente, mas as ondas castanhas de seus cabelos agora estavam alinhadas e penteadas firmemente para o lado. Seu paletó escuro combinava com meu vestido, e me peguei imaginando como seria quando ficássemos lado a lado. Enquanto eu o observava de longe, acabei não percebendo que ele fazia o mesmo comigo. Só me dei conta do seu olhar quando voltei a observar seus olhos e os encontrei vidrados nos meus.

Foi então que tudo perdeu a importância.

Edward me olhava sério, sem nenhum esboço de sorriso, e eu me senti a única pessoa presente dentro daquele palácio fora o príncipe. Seu olhar me dizia que eu era única e que nada mais importava, e eu acreditava em cada uma dessas coisas. Quando achei que nada podia ser mais intenso quanto aquele olhar, ele baixou um pouco os olhos e prestou atenção no meu decote. Segurei o ar. Tinha medo que um movimento o fizesse parar de olhar para aquele lugar, e eu não queria que isso acontecesse. Queria ele ali, me olhando, me admirando e me querendo daquela forma tão intensa e ao mesmo tempo tão singela. Seus olhos voltaram para os meus e não consegui segurar o suspiro. Meu peito subia e descia de forma rápida, como se tivesse esquecido como se respirava. Só me dei conta do meu estado quando um rapaz passou apressado por mim e bateu de leve no meu ombro.

— Desculpe, senhorita — ele falou apressado, enquanto me segurava um pouco.

— Tudo... — comecei, ainda atordoada com as sensações que sentia. — Tudo bem — consegui murmurar.

— Anelise? Você está bem?

Eu não sabia como o príncipe havia chegado tão rápido perto de mim, mas ali estava ele, e ouvir sua voz quase me fez voltar a tombar novamente.

— Eu... eu estou bem.

O príncipe e o rapaz confiaram em mim e me soltaram, deixando que eu pudesse me recompor. Passei a mão no vestido enquanto pensava em alguma coisa para dizer ao príncipe sem que ele percebesse como eu estava me sentindo perto dele.

— Alguma dica antes de colocarmos suas aulas em prática? — indaguei com um sorriso no rosto, feliz de ter conseguido pensar em algo.

— Você está linda, Anelise — ele disse, mirando meus olhos, e fui obrigada a baixar o olhar. — Essa é a única coisa que tenho a lhe dizer.

Ainda evitando seu olhar, sorri e falei:

— Que comecem os jogos, então — e coloquei minha mão em seu braço.

O salão estava abarrotado de gente e muito bem arrumado. Assim que entramos, todos os olhares foram postos sobre nós e fiquei feliz de ver que todos pareciam admirados de um jeito bom. Avistei de longe os pais de Edward e, antes que pudesse chamá-lo para nos escondermos, ele falou:

— Meus pais nos viram. Vamos até lá. Fique calma, está bem?

— Acho que isso é pedir demais — confessei, e fiz o príncipe dar um leve sorriso.

— Todos neste salão estão te admirando, Anelise. Você é muito mais do que imagina.

Eu não sabia como aquela noite acabaria, mas ouvir Edward falar daquela forma me fazia ter a certeza de que cada minuto ali me deixava mais longe do meu objetivo de ficar longe da coroa.

Caminhamos lentamente pelo salão sob o olhar atento de todos. Quando chegamos perto do rei e da rainha, ela sorriu para nós dois.

— Vocês estão lindos — a rainha disse depois que dizemos a reverência. — Tudo bem, senhorita Anelise?

— Tudo — me limitei a responder.

— Espero que as aulas tenham ajudado.

— Mãe... — Edward começou, mas seu pai o cortou.

— Pare com isso, Edward. Ela está apenas dizendo a verdade. Esperamos que as aulas tenham ajudado todas.

— Tenho certeza de que sim, Majestade — respondi, conseguindo esconder no sorriso o meu incômodo, assim como Edward havia me ensinado.

— Seus amigos já estão por aqui, Edward. Cuide para que nenhum dos dois chamem muita atenção.

Nós dois entendemos que esse seria o fim da conversa e nos afastamos.

— O que ele queria dizer com "cuide para que nenhum dos dois chamem muita atenção"? — indaguei, confusa.

— Assim que conhecer os gêmeos, você vai entender. Mas, antes disso, que tal dançarmos uma música? Carlo e Carmélia são uma prova de resistência, e eu prefiro que façamos isso de bom humor.

Eu não sabia o que esperar dos tais irmãos, também não sabia se queria dançar com ele depois de tudo que senti antes de entrarmos no salão. Mas Edward não me deu chance de ordenar os pensamentos, e, quando dei por mim, já estávamos prestes a começar a dançar.

— Precisamos mesmo fazer isso? — indaguei baixinho, e o príncipe me olhou confuso. — Todos os olhares já estão sobre nós, dançarmos chama ainda mais atenção.

Ele ensaiou um sorriso.

— Como você mesma disse, Anelise: "Todos os olhares já estão sobre nós". Que diferença faz dançarmos?

Era um bom ponto. Mas isso não me deixava mais confortável.

— Eu só queria que uma dança não nos assemelhasse a uma pintura em exposição — murmurei, tentando esconder meu desconforto para todos.

— É um baile e eu sou o príncipe, filho dos anfitriões. Você é minha acompanhante. É natural que todos nos olhem.

Ele não mentia. Era exatamente isso que deveria acontecer sempre que Edward pisasse em um salão. E não apenas quando era no salão de seu castelo, mas em qualquer lugar que fosse. Este pensamento fez meu coração apertar, e quase não controlei a ansiedade para que a música terminasse.

— Acho que você precisa tomar alguma coisa. Por que não faz isso enquanto procuro os irmãos? — Edward sugeriu calmamente. — Suas amigas acabaram de chegar.

Olhei para o topo das escadas e vi Olivia entrar, seguida de Melissa e Ellie. Elas estavam deslumbrantes. Olivia estava linda em um vestido quase bege, cheio de apliques de flores no busto que formavam uma manga só. Esses apliques iam até parte da saia e deixavam minha amiga angelical, parecida com uma fada. Melissa estava imponente em um vestido verde quase no mesmo tom do meu. Porém, o dela era de um tecido brilhoso e tinha uma espécie de capa que criava, em torno dela, um ar de poder que combinava muito com sua personalidade.

— Vou falar com elas e depois te procuro — lhe avisei, e ele concordou com um meneio de cabeça.

Segui rumo às minhas amigas e esperei que as três fizessem suas entradas cheias de cuidado. Pude ver também Sky Gordon – uma moça loira de lábios carnudos e jeito incrivelmente sexy – entrar com um vestido num tom parecido com cinza e que deixava um de suas pernas à mostra. Ela deixou todos de queixo caído.

— Oi, meninas.

— Oi, Liss — Olivia saudou, e voltei a vê-la como uma fada.

— Vocês estão absurdamente lindas — falei, e as três sorriram.

— Como estão as coisas por aqui? — Melissa quis saber.

— Cheguei não faz muito tempo. Mas já sei que terei que ficar de papo com os herdeiros da Itália.

— Anne passou no quarto de cada uma de nós para falar que precisávamos falar com as pessoas — Ellie disse, e pude perceber que ela queria rolar os olhos.

— Isso é tão desgastante — Melissa reclamou e eu concordei.

— Sim. Eu vim só falar com vocês e terei que...

Antes que eu terminasse a frase, vi Olivia arrumar ainda mais a coluna, e isso me fez olhar para trás.

— Alteza — as meninas saudaram, e me apressei em fazer isso ao ver que era o príncipe George.

— Boa noite, senhoritas. Vocês estão lindas — ele disse, e pude perceber que havia um ar de flerte em suas palavras.

Aquele homem não tinha limites?

— Vim aqui porque preciso de vocês. Senhorita Anelise, peço encarecidamente para ir ao encontro do meu irmão e, assim, fazer companhia para os gêmeos porta.

— Gêmeos porta? — Melissa indagou, confusa.

— É como carinhosamente chamo meus queridos amigos da Itália. O QI deles não difere muito do de uma porta qualquer — ele disse calmamente, e as meninas riram.

Ele, então, virou-se para mim e falou:

— Preciso que a senhorita vá ajudar Edward. Não tenho estômago para eles depois de ter que escutar o conde Getúlio falar sobre sua nova esposa quarenta anos mais nova. Enquanto a senhorita faz isso, passarei um tempo com suas amigas, impedindo que me achem desacompanhado.

Ele tinha bons argumentos, mas seu jeito galanteador me impediu de sorrir para ele como minhas amigas faziam.

— Licença — pedi e segui à procura de Edward.

No caminho, algumas pessoas que eu tinha visto na lista de convidados que Peter havia nos passado falaram comigo, e minha ida ao príncipe demorou mais do que eu esperava. Quando o encontrei, ele já estava com os tais gêmeos.

Os dois se pareciam o suficiente para sabermos que eram irmãos, mas, talvez por serem de sexo diferentes, não deixavam nítido que eram gêmeos.

— Altezas — saudei e fiz uma reverência.

— É ela, Edward? — a menina perguntou.

— Sim. Carlo, Carmélia, esta é a senhorita Anelise de Sonage. Senhorita Anelise, estes são e Carlo. Princesa e príncipe da Itália.

— Que honra te conhecer. Neste meio tempo, já ouvimos algumas coisas sobre você, senhorita — disse com um sorriso.

Quando Edward falou que a Itália era próxima a Illéa – apesar dos comentários que havia escutado durante aquela noite –, supus que seria fácil me enturmar com eles. Mas entre o exagero característico e alegre deles, também existia uma princesa e um príncipe que pareciam ter saído de uma fábrica, não de seres humanos.

Edward estava dando tudo de si para me colocar na conversa, mas eu não tinha o que falar quando o assunto eram férias em lugares que eu jamais tinha ido e piadas sobre coisas materiais que jamais tive.

— Eu já disse a que, assim que for rei, lhe farei usar a menor coroa que tiver em todo o reino. Somos gêmeos, mas nasci primeiro e farei isso ser lembrado — o príncipe Carlo falou, rindo, e sua irmã riu junto.

— Aposto que jamais deixará isto acontecer — Edward falou, dando o sorriso complacente dele.

— E aí, Anelise? Se você namorar mesmo o Edward, já imaginou sua tiara quando se casarem?

Carmélia tinha o ponto positivo de falar com quase nenhuma formalidade e assim dar o tom usual às conversas, mas suas qualidades aparentemente paravam aí.

— Nunca parei para pensar nisso, para ser sincera.

Carlo, muito mais extravagante que a irmã, fez questão de usar isso para fazer a conversa voltar para si. Ele era o ser humano mais próximo de um pavão que eu conhecia.

— Não consigo evitar pensar em meu casamento. Quero que minha esposa use a coroa mais brilhante que houver em todo o reino.

E então, Carlo voltou ao monólogo sobre si e eu me encolhi na cadeira na tentativa de desaparecer. Busquei com os olhos onde estavam as meninas, mas, se eu tinha a tarefa de entreter os mimados reais, as outras garotas entretiam os demais convidados, de modo que nenhuma estava desacompanhada.

Como um abutre pronto para o ataque no menor sinal de fraqueza, vi o rei me encarar e sorrir. Nosso encontro no início da noite havia deixado claro que ele ainda não tinha engolido a ideia de Edward ter me chamado quando os planos dele eram outros. Edward ter lhe privado de fazer mais outra atração no circo que era a Seleção havia o deixado furioso.

Vi quando ele educadamente interrompeu a conversa e chamou o rei e a rainha da Itália para irem falar com os filhos. Eu sabia que não gostaria do que estava por vir e que deveria ter me preparado melhor, mas estava me sentindo tão deslocada que não tive tempo para me recompor e aguentar o golpe que ele daria.

— Olá, meus queridos filhos — o rei disse, antes de dar um sorriso que até mesmo eu achei encantador.

— Majestade — nós dissemos juntos enquanto nos curvamos, mesmo sentados.

— Vejo que você está se dando muito bem com Carlo e Carmélia, senhorita Anelise. Do que vocês falavam?

Do que eles estavam falando? Do que eles estavam falando? Em algum momento, entre os sonhos extravagantes de Carlo e seu desejo pelo trono, eu havia perdido o foco da conversa e, agora, não fazia ideia de qual era o assunto.

— Eu estava contando para ela sobre como estou me preparando para assumir o trono — Carlo falou, sem perder a oportunidade de puxar a atenção para si.

Quase suspirei aliviada.

— É um caminho bem duro. Concorda, senhorita? — ele continuou.

Pelo canto dos olhos, percebi que Edward encarava a mãe como quem pedia socorro. Eu não tinha certeza se ela iria querer me ajudar.

— Sim, Majestade. Exige muito estudo.

— Com toda certeza. Fico feliz que tenha percebido isso. Não vir com uma boa educação às vezes acaba limitando nosso entendimento.

Segurei o ar e pude ver que até mesmo a rainha pareceu constrangida com a fala.

— A senhorita Anelise é absurdamente inteligente — Carmélia falou confiante, e olhei confusa para ela.

Eu não entendia por que ela estava me ajudando.

— Também acho — ele concordou por educação. — Me diga, senhorita Anelise, como a senhorita acha que os príncipes poderiam ajudar na hora de selar um acordo entre reinos? Acredito que esteja a par do assunto que a Itália está tentando com a Nova Ásia.

— Eles não comentaram comigo — respondi.

O rei soltou um leve riso cheio de maldade.

— Mas isto é de conhecimento de todos. Achei que soubesse de geopolítica — e, então, balançou a cabeça como se estivesse confuso ou se desculpando. — Que erro o meu. Com essas roupas, quase esqueci que a senhorita não tem sabedoria disto.

O príncipe Carlo sorriu e Carmélia repreendeu-o com o olhar. O rei e a rainha da Itália se olharam e, então, o rei do país disse:

— Se for a escolhida do príncipe, tenho certeza de que aprenderá ao decorrer do tempo.

— Sim. Mas é como dizem, melhor que já estejamos preparados.

O olhar de pena de todos, até mesmo da rainha, só me fez me sentir menor. Encarei o rei, tentando achar palavras, mas não consegui pensar em uma resposta. Afinal, que resposta eu daria? Inventaria uma forma de acordo e correria o risco de passar ainda mais vergonha? Então, virei meu olhar para o príncipe Edward e o vi calado, apenas me olhando como se pedisse desculpas, e não pude mais lidar com aquilo. Me levantei apressada e saí sem me despedir. Não passaria mais um minuto naquele lugar.

Mesmo com algumas pessoas me olhando, continuei andando rápido e não ousei olhar para trás. Eu só precisava chegar ao quarto, e lá poderia desabar como meu coração pedia. Quando já estava nos corredores fora do salão, escutei a voz do príncipe:

— Anelise!

Tentei ignorar e continuei andando. Escutei até quando ele pediu desculpas a alguém. Ele, então, voltou a me chamar.

— Volte para o salão, Alteza. Vão sentir sua falta — respondi enquanto andava.

O príncipe apressou os passos e me alcançou.

— Anelise, por favor, pare e olhe para mim.

Parei e me virei, mas não para escutá-lo. Era a minha vez de falar.

— O que quer comigo, Alteza?

Meu rosto devia denunciar a dor que estava sentindo, porque o príncipe passou alguns segundos calado.

— Não vá embora assim. Vamos voltar para a festa — ele pediu, e fiquei ainda mais triste.

— Para quê? Para dar mais sorrisos falsos, aguentar ainda mais piadas e ser mais uma vez humilhada? Ou seria para aguentar dois irmãos fúteis e sem nenhum conteúdo, cheio de histórias que em nada tem a ver comigo? Talvez seja para acompanhá-lo e entrarmos no salão fazendo nossa melhor atuação.

— Eu sinto muito pelo meu pai e reconheço que deveria ter lhe preparado para Carlo e Carmélia. Eles não são más pessoas, tenha certeza disto.

Ri sem humor.

— Não acredito que pude acreditar que isso daria certo — comentei. — Onde eu estava com a cabeça?

— Está dando certo, Anelise. Os gêmeos te adoraram, as pessoas estavam te admirando...

— Não, alteza. Eles estavam admirando uma pessoa que não sou. E não os julgo, eu também me deixei levar por essa farsa. Olhe só para essa roupa — comentei, voltando a rir em meio a algumas lágrimas que já escorriam dos meus olhos. — Me olhei no espelho e quase acreditei que eu era mesmo alguém para este evento, mas não sou. Você nunca deveria ter me chamado.

— Eu não me arrependo — ele disse, firme.

— Deveria! — exclamei, irritada. — Você me colocou na pior situação da minha vida. Todas aquelas pessoas me olhando, me encarando, esperando algo de mim.

— É um baile, Anelise. Você sabia disso quando aceitou.

— Como se eu pudesse negar.

Foi a vez do príncipe parecer um pouco irritado.

— A senhorita sabe que eu jamais lhe forçaria a isso.

Passei as mãos no rosto, irritada ao vê-lo me chamando daquela forma.

— Bastou um baile para você voltar ao personagem do príncipe. Já me chama de senhorita novamente.

Edward me encarou num misto de dúvida e ira.

— Mas é isso que eu sou, Anelise. Sou príncipe! Você sabia disso. Sabia de tudo que me cercava desde que se inscreveu, que aceitou meu pedido para este baile. Não é nenhuma novidade.

— Justamente. Você é o príncipe. Quem ousa dizer não para um príncipe?

Suas feições, então, mudaram de raiva para um pouco de tristeza e mágoa.

— Você está sendo injusto comigo, Anelise. Sabes muito bem que não era apenas o príncipe Edward que estava lhe convidando.

— E quem era? — indaguei, na certeza que ele não teria a resposta.

O príncipe passou as mãos nos cabelos tão bem penteados, respirou fundo e me encarou antes de dizer:

— Era o príncipe, porque isto eu nunca deixarei de ser, mas era também um rapaz convidando a garota que mexe com cada estrutura dele quando está por perto.

Minha fala parou antes mesmo de sair da garganta, e o encarei em choque. Senti meu coração acelerar e não consegui pensar com clareza.

— O quê? — perguntei, sem tirar os olhos dos seus.

— Você mexe comigo mais do que imagina, Lise.

Ao escutá-lo falando aquilo e me chamando de um apelido novo, todas as barreiras que se mantinham de pé pareceram ruir na minha frente. Em um segundo, dei um passo, deixando nossos corpos quase colados.

— Eu... — comecei, sem fazer ideia do que diria a seguir.

Não precisei pensar nas palavras seguintes. O príncipe me tomou em seus braços e me beijou de forma avassaladora. Sentir seus lábios nos meus me causou um arrepio por todo o corpo, e reagi aprofundando ainda mais o beijo. Seu braço me puxou para ainda mais perto, e nossas línguas se encontraram causando uma loucura no meu estômago. Mas, quando essas sensações estavam perto de me tomar por inteira, caí em mim e me afastei abruptamente.

— Anelise...

— Não! Eu... eu não acredito...

Lembrei-me de todas as minhas certezas. Da humilhação que o rei me fizera. Das regras. Dos fingimentos e, por último, mas me doendo mais que tudo, de Ellie e da nossa conversa. Ela não podia estar certa, eu não poderia deixar aquilo acontecer. Eu jamais faria isso com ela.

— Anelise.

Encarei o príncipe, consternada.

— Eu não nasci para isso. Jamais serei a pessoa certa para estar ao seu lado. Essas roupas, essa maquiagem e esse cabelo são só uma capa. Você não me conhece de verdade. Essa Anelise que você beijou não existe!

— Eu não beijei você pelo que você está vestindo. Eu posso não lhe conhecer por completo ainda, mas tenho certeza de que quem me beijou foi a Anelise de verdade.

Ele não tinha o direito de afirmar aquilo quando nem eu mesma sabia quem eu era. Porque a Anelise que eu conhecia jamais beijaria um príncipe, principalmente tendo Ellie ali.

— Você não me conhece!

E então, aproveitei que estávamos sozinhos no corredor e corri. Eu precisava sair dali, ficar longe do príncipe.

A Seleção poderia me tirar tudo, menos me afastar de mim.

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