Capítulo Cinco


A noite após o resultado foi uma das piores da minha vida. Eu não conseguia acreditar que um favor a uma amiga tinha mudado tanto o meu caminho. Tentei conter as lágrimas que insistiam em cair. Sabia que, provavelmente, teriam fotógrafos no aeroporto e não queria estar de cara inchada em todos os jornais e revistas.

Conter as lágrimas até que foi uma tarefa fácil, mas dormir foi algo quase impossível. Eu tentava me enxergar no palácio e sempre acontecia algo de ruim no fim de cada visão. Eu perdia a amizade da Ellie, era presa, Ellie era presa em meu lugar e até mesmo me casava com o príncipe e era condenada a uma vida infeliz ao lado de alguém que eu não admirava.

No dia seguinte, depois de ter dormido o que me pareceram poucos minutos, levantei crendo que teria ao menos uns três dias de vida normal. Mas, assim que abriram a porta do quarto em que eu estava e eu levantei com minha mala, fui recebida por um homem que parecia falar um monte de coisas sem nexo.

Ataque... sua casa... família... O tal homem continuava a contar uma história que meu cérebro ainda era incapaz de compreender.

— A senhorita está bem? — ele perguntou, finalmente percebendo minha incapacidade de acompanhar a história.

— A-ata-atacaram minha família? — consegui me forçar a perguntar enquanto sentia meu corpo inteiro tremer.

— Não! Senhorita, mantenha a calma. Sua família está bem.

— Mas você disse...

Uma das criadas que me ajudou durante minha estadia no hotel se aproximou e me guiou até a cama.

— Fique calma, senhorita. Ele não disse que sua família foi atacada. Mantenha a calma.

— Isso mesmo. Estou dizendo que algumas fontes nos informaram que um grupo pretende ir até sua casa e jogar coisa em vocês, assim como fizeram com a família real. Acredito que a senhorita saiba o motivo.

Não. Eu não fazia a mínima ideia do porquê era alvo do ódio de pessoas que eu nem conhecia.

— Não faço a menor ideia.

— A senhorita, embora ainda não oficialmente, é uma das selecionadas. O povo percebeu isso e alguns decidiram atacá-la para então ferir a coroa.

Olhei para onde estava e rapidamente a possibilidade de ser atacada sumiu da minha mente. Eu estava muito bem segura. Só que isso não me acalmava em nada. Apenas me deixava culpada. Enquanto me encontrava segura, minha família corria risco. Afinal, quem poderia me dar a certeza de que seriam apenas frutas e pedras?

— Minha família! Como está minha família?

— Foi dela que vim falar, senhorita. A senhorita não voltará para casa e sua família virá ao seu encontro até que todas as selecionadas sejam divulgadas e, assim, possamos fazer a segurança de sua família de forma direta.

— Eles virão para o hotel?

— Não podemos hospedar nenhum de vocês aqui. De acordo com as normas, a senhorita só poderá ter os privilégios de selecionada depois que anunciarem seu nome oficialmente. E hospedar vocês aqui seria dar a mesma coisa que a senhorita Ellie está tendo. Então, nossa ajuda será de forma informal, e desde já, peço que mantenha sigilo.

— Se vocês não podem fazer a segurança da minha casa e nem podem nos deixar aqui, o que irão fazer?

Eu não podia acreditar naquilo tudo. Uma decisão, além de me colocar no meu maior pesadelo, agora tinha colocado minha família também.

— Nenhum lugar será mais seguro e longe de curiosos que o palácio. Claro que a senhorita e sua família não ficarão hospedadas efetivamente lá. Mas tem uma casa, que era de um antigo funcionário, que fica dentro da propriedade e está desocupada. Ela abrigará vocês.

— Eu vou para o palácio?

— Preciso que a senhorita entenda que não frequentará o palácio de fato. Não chegará nem perto dele, para ser sincero.

Aquele homem parecia dizer aquilo como uma repreensão. Ele achava que eu ficaria desapontada ao escutar suas palavras, mas, na verdade, elas me confortavam. Tudo que eu menos queria era perder para aquela maldita Seleção meus últimos três dias perto da minha família. Diante das circunstâncias, de qualquer forma eu já os havia perdido, mas saber que eu ficaria bem longe do palácio de fato era um conforto.

Não sei se demorei tempo demais calada, mas quando dei por mim, o homem já estava indo embora. Chorei assim que fiquei sozinha. Minha criada havia ido cuidar para que minha mala fosse levada ao palácio, e eu me encontrava encolhida na cama, como se aquela posição me deixasse um pouco mais segura para o que viria.

👑👑👑

Quando cheguei à casa, minha família já estava lá. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, minha mãe veio me dar um abraço apertado.

— Filha, como você está? Você está bem? — indagou, enquanto examinava cada parte do meu corpo com aquele olhar cuidadoso que apenas mães sabem ter.

Antes mesmo que eu pudesse responder, meu pai também veio me abraçar e fazer suas próprias perguntas.

— Foi calmo até aqui? Você sabe quando poderemos ir embora? Como você está? Pode nos falar a verdade.

— Gente, já falei pra vocês ficarem calmos. Olha só onde estamos. Acham mesmo que precisa de todo esse drama? — não precisei olhar para saber que aquela voz cheia de impaciência era da Jane.

— Jane — comecei, irritada —, será que você sabe que fomos trazidos para cá porque as pessoas queriam nos ferir de alguma forma?

— E agora nos encontramos no palácio. O lugar mais seguro que esse país tem. Não perdemos nada com isso. Só teremos mais conforto. Deixa de drama.

Não sei bem o motivo, mas quando percebi, estava chorando e praticamente gritando com Jane.

— A família Schreave anda pouco se importando conosco por anos, Jane. O povo foi deixado de lado por todo esse tempo, e, agora, para tentar nos manipular, ela nos joga nesse jogo insano que é a Seleção. Passarei sei lá quanto tempo disputando com garotas que eu nem sei quem são. Disputarei algo que nem quero com minha melhor amiga. Nenhuma dessas garotas terá a chance de viver o conto de fadas que sonha, porque sabemos que isso não passa de uma manipulação barata da coroa. E tudo, Jane, tudo que eu queria era poder ir pra minha casa e viver ao menos três dias da vida normal que eu tinha. Mas, em vez disso, estou presa em um lugar com muros enormes porque minha família, quer sua mente oca enxergue ou não, está em perigo. Você acha que seria trazida aqui a troco de nada? A ameaça é real, Jane. Então não me peça para deixar de drama. Não me faça te suportar menos do que eu já não suporto várias vezes.

Assim que terminei de falar, Jane me encarou de nariz empinado, mas com lágrimas nos olhos.

— Eu sinto muito não ser a irmã que você sonhou ter, mas se quer saber, prefiro muito mais eu do que você.

Ela seguiu para onde provavelmente era o quarto e minha mãe foi atrás, já meu pai me deu um abraço.

— Entendo sua revolta e seu medo, mas não desconte em quem não merece, está bem? A Jane não faz por mal, ela apenas admira a família real, coisa que não é incomum. Não dá pra culpar um cachorro de caça por caçar, ele foi criado e educado para isso. E caso você queira mudá-lo, essa mudança não será da noite para o dia.

— Eu só... — eu sabia que tinha errado em algumas palavras, mas será que a Jane não podia ser um pouco mais sensível?

— Você está sobrecarregada e assustada, meu amor. Acredite se quiser, até mesmo a Jane sabe disso — ele disse e depois beijou minha testa. — Apenas não esqueça que sua família te ama e sempre estará com você.

Já era noite e Jane e eu ainda não tínhamos conversado. Sendo muito sincera, eu não tinha certeza se queria ter aquela conversa. O dia havia sido pior do que eu imaginava e sentia que aquela conversa poderia deixá-lo ainda pior.

Estávamos sentados à mesa para jantar. Um funcionário do palácio havia deixado tudo pronto para nós e eu seria muito ingrata se falasse que a comida não era a melhor que eu já tinha colocado na boca.

— Minha nossa! — Jane exclamou assim que colocou a primeira garfada na boca.

— Isso é divino! — meu pai também exclamou aos risos e fez todos nós rirmos juntos.

— Eu poderia comer essa mesma coisa por toda a minha vida — minha mãe disse e eu concordei com a cabeça.

— Achei que eles fossem mandar os insumos para que nós mesmos fizéssemos nossa comida.

— Acredito que isso daria um pouco mais de trabalho. Eles teriam que permitir que algum de nós fosse ao palácio pegar o que a gente julga que precisa. E o homem que me visitou deixou claro que nem chegaríamos perto do palácio de fato.

— Quando o Justin souber... — Jane começou, mas eu a interrompi.

— Não! Não, Jane. Você não pode falar disso com ninguém. Nem mesmo com seu noivo.

— Quem vem ao palácio e guarda segredo? — ela perguntou, chocada.

— Havia até a possibilidade de que vocês fossem feridos, Jane. Por isso viemos para cá. Mas a coroa está fazendo isso por baixo dos panos. Isso foi uma medida de emergência para tentar consertar um problema que eles mesmos causaram. Só que eu ainda não fui apresentada como selecionada. Não deveria estar junto com vocês comendo essa comida deliciosa. A coroa não permitiu que nada disso fosse divulgado. Se essa história sair, não sei de que forma podemos ser punidos.

— Eles te falaram isso?

— O que você acha?

— Mas o Justin...

— Filha — minha mãe interveio —, acho melhor não arrumarmos problemas para a Liss e para nós mesmos.

— Esse segredo todo faz com que eu me sinta uma prisioneira — ela reclamou.

Jane finalmente havia visto as coisas da forma como todos nós víamos.

— É basicamente o que somos por esses três dias, Jane.

Tenho quase certeza que se a comida não fosse tão gostosa, Jane teria perdido o apetite. Porém, ela comia tudo de maneira furiosa e magoada.

Antes que eu terminasse minha janta, ouvimos alguém bater na porta, e eu, como a responsável pela casa, fui atender. Grande foi o choque ao ver que quem estava do lado de fora era o príncipe George.

— Boa noite, senhorita.

Fiquei tanto tempo paralisada que quase esqueci que deveria fazer alguma reverência. Coisa que o príncipe parecia esperar.

— Alteza — finalmente falei e me curvei um pouco. — Aconteceu algo?

— Alteza?! — ouvi meu pai falar um pouco alto e, quando virei, minha família estava chocada encarando o homem na porta.

— Boa noite a todos. Interrompi algo? — ele perguntou ao ver que Jane segurava um garfo.

Como minha família parecia chocada demais para falar, expliquei.

— Estávamos terminando o jantar, mas está tudo bem. Aconteceu alguma coisa? — tornei a perguntar.

O príncipe demonstrou perceber que, talvez, uma conversa na frente da minha família fosse algo grande demais para exigir segredo. Então, ele me convidou para sair da casa.

— Poderíamos conversar um pouco aqui fora, senhorita?

Não sabia se queria conversar com ele, mas achei prudente ir.

— Claro.

Então saí, fechando a porta atrás de mim.

— Meu irmão queria ser a pessoa que viria até aqui, mas você deve imaginar que a Seleção está deixando-o bastante ocupado. Fora que seria um escândalo imenso se descobrissem que vocês se viram.

— Compreendo.

— Então ele me pediu que viesse até aqui primeiro para se desculpar por todos os transtornos. E também para saber se estão bem instalados.

— É uma boa casa — falei, sem saber bem o que responder.

— Quero que saiba que as desculpas dele também são minhas.

— Acredito que desculpas não mudarão muita coisa — falei sem pensar, e então me dei conta, ficando sem saber o que fazer.

— Não, senhorita, nossas desculpas não mudarão nada. Mesmo assim, espero que as aceite.

Fiquei calada. O príncipe acabou rindo.

— Percebo que o Edward terá ao menos uma garota difícil para lidar. Informarei isso a ele.

— Não sou difícil — rebati. — Apenas acho que não há clima bom para que algo legal seja dito.

— Não está feliz de ter sido selecionada?

Eu tinha a resposta pronta, mas sabia que não poderia falar a verdade. Aquilo poderia me colocar em problemas, ainda mais porque, até onde eu sabia, o príncipe que estava falando comigo era o problemático.

— Não esperava que minha família corresse perigo. Apenas isso.

— Compreendo. Mas, bom, gostei de você — ele falou com um sorriso no rosto. — Sempre gosto de alguém que possa tirar meu irmão do sério e você parece capaz disso — ele acabou rindo de verdade, tanto que suspeitei ter perdido a piada. — Agora preciso ir, senhorita. Ninguém pode saber que estive aqui, peço sigilo da sua parte e da sua família.

— Manteremos segredo, Alteza.

No dia seguinte, fomos abençoados com um café da manhã que parecia superar o jantar, se é que isso era possível. O almoço conseguiu superar as duas outras refeições. E o nosso segundo jantar quase fez todos chorarem.

— E eu achando que o que comíamos era comida — minha mãe falou.

— Você cozinha tão bem quanto eles, meu amor — meu pai lhe falou enquanto fazia carinho em sua mão.

Jane e eu suspiramos.

— Vocês são tão lindos — Jane disse, encantada.

Meus pais eram assim: do nada transbordavam amor. Jane e eu não poderíamos ser mais abençoadas de tê-los como pais.

— Eu não queria estar aqui, mas fico feliz que estejamos todos juntos — meu pai disse e a gente sorriu em resposta.

Ele estava certo. Aquilo era bem mais fácil tendo-os ali.

Não tardou para que escutássemos alguém batendo na porta. Todos se levantaram num pulo, suspeitando que fosse o príncipe como na noite passada. Estávamos certos.

— Alteza — falamos juntos.

— Boa noite. Senhorita Anelise, poderia me acompanhar? — e logo foi se retirando da casa.

— Ele nos ignora — ouvi Jane cochichar e fiquei triste por ela só ter percebido agora.

— Meu irmão praticamente me obrigou a vir aqui te entregar isso. Concluo que saiba que ninguém pode saber disso — ele advertiu enquanto me dava uma carta.

— Pode deixar.

— E isso inclui sua família — ele tornou a advertir.

— Pode deixar — repeti, mesmo com vontade de dizer que minha família era de muito mais confiança do que ele.

— Não retornarei a essa casa, então acho prudente me despedir da sua família.

— Certo — foi o que consegui dizer.

Porém, quando achei que ele fosse entrar na casa, ele voltou-se para mim de maneira intrigada e falou:

— Queria acreditar que você é apenas uma menina irritante, senhorita Anelise. Ou que você é uma das muitas garotas apaixonadas que serão anunciadas amanhã, mas você não me convence em nenhum dos papéis. E, se quer saber, isso me deixa bastante preocupado.

Meu coração gelou e eu achei que fosse colocá-lo pela boca. Meu Deus, ter o príncipe como inimigo quando se vai morar em sua casa é bem pior do que eu imaginava para os meus dias de seleção.

— Como? — consegui perguntar, mesmo com medo da resposta.

— Há algo que não sei decifrar, mas que me deixa preocupado. Não só pelo meu irmão, que pode acabar se machucando nesse processo, mas também por você. Meu pai certamente também perceberá isso, e sinto informar, não será nada bom para você. Suspeito que meu irmão também vá, mesmo que sua beleza seja perturbadora. E, bom, Edward é um completo cavalheiro em noventa por cento do tempo, mas não o queira como inimigo.

— Eu não quero ser inimiga de ninguém — falei com o coração aos pulos e com a mão tremendo.

Rapidamente coloquei as mãos para trás para que ele não percebesse.

— Mas, apesar de tudo, simpatizei com a senhorita. Então, se quer um conselho, aprenda a jogar ou terá problemas nesses meses.

Uma ira cresceu dentro de mim ao ouvi-lo mesmo que de forma discreta chamar tudo aquilo de jogo. Isso foi mais um motivo para minha mão tremer.

Coloquei as mãos para frente e apertei uma à outra para tentar conter os tremores enquanto falava de forma controlada.

— É algo que envolve os sentimentos do seu irmão. Acho que o senhor não deveria me mandar aprender a jogar numa situação dessa.

— A vida é um jogo, cara senhorita Anelise. E eu não sei você, mas gosto de saber para onde minha peça está sendo levada. Além do mais, a senhorita me parece esperta demais para entender o que quero dizer. Não vamos agir como rebeldes que problematizam tudo.

Eu sabia, bem lá no fundo, que ele não fazia ideia que estava falando com uma possível rebelde. Mas ouvi-lo proferir aquelas palavras me causaram calafrios. Quis vomitar. Mesmo tentando manter uma postura equilibrada, passei os braços ao redor do corpo. Poderia me fazer parecer frágil, mas era a única maneira de me manter em pé.

— Agradeço os conselhos, Alteza.

— Vamos entrar. Saudarei e me despedirei da sua família.

Tudo que o príncipe George falou lá dentro não foi captado por mim. Na minha mente um alarme havia soado e tudo que eu queria era estar bem longe dali, ou, ao menos, ter minha família longe. Se eu fizesse algo errado, queria arcar com tudo sozinha.

Assim que ele nos deixou, segui para o meu quarto com a desculpa que estava com dor de cabeça. Peguei meu computador para escrever, mas não consegui concluir nada. Queria dizer ao povo que vivíamos em um jogo maluco onde nós, súditos, além de não ditar nenhuma regra, ainda estaríamos sempre em desvantagem. Queria falar para eles que todos jogam, mesmo os que se omitem. Mas, nesse caso, eles eram os peões do lado da monarquia, os sem título algum que eram quase sempre os primeiros a morrer. Porém, nada disso eu conseguia colocar na página em branco que estava na tela do meu computador. Queria socar alguma coisa. Era frustrante aquela sensação de estar de mãos atadas em uma situação que você precisa muito fazer algo.

Depois de alguns minutos de choro, decidi ler a carta que o príncipe Edward havia me enviado. Sabia que havia possibilidades de me assustar ou me revoltar ainda mais, mas eu preferia a leitura a ter que ficar imóvel na cama.

"Boa noite, senhorita Anelise. Eu, na verdade, estou escrevendo isso durante à tarde, mas como sei que meu irmão só irá entregá-la à noite, resolvi te saudar no seu tempo e não no meu.

Provavelmente, seus dias aqui no palácio devem estar sendo entediantes e maçantes, ainda mais quando não se pode sair de casa, como é seu caso. Mas eu espero que esteja gostando de algo. Assim como sua família, não podemos esquecer dela.

Queria começar lhe pedindo desculpas por todo o transtorno. Estou acostumado a viajar muito, mas sei que nada supre a sensação boa que é estar em casa. Então, me desculpe por tudo isso.

Sou muito próximo de meu irmão, e, de alguma forma, me sinto próximo também de você. Então, queria pedir desculpas por qualquer besteira que ele tenha lhe falado e também para não odiá-lo. Ele fala demais, mas é um bom cara. E, talvez, você não deva ter essa impressão agora. Ele me falou que será engraçado lidar com você, que você parece difícil – de um jeito bom. Confesso que isso me deixou ansioso e assustado, mas estou tentando acreditar que é apenas uma brincadeira dele.

Não sei se pelo jeito implicante do meu irmão, ou algo assim, mas temo que você não seja uma das garotas mais empolgadas. Entenda que ele não me disse nada, mas anos de convivência me permitem lê-lo com uma certa facilidade. Mas espero não trazer mais tristeza para a senhorita.

Quando nos encontrarmos, espero que separe um tempo para conversarmos. Estou ansioso para conhecê-la de fato.

Com cuidado, Príncipe Edward Schreave."

Ao terminar a leitura, percebi que teria que ser ainda mais cuidadosa do que achava que fosse precisar. Embora o príncipe Edward tenha dito que seu irmão não lhe disse nada, tinha ficado óbvio que ele estava com algumas ressalvas e se eu não tomasse cuidado, poderia me meter em muitos problemas.

A sensação de que estava aprisionada aumentou dentro de mim e, antes que eu percebesse, já estava derramando algumas lágrimas. Gozando do que poderia ser meu último grito de liberdade, resolvi escrever para o site.

"Está confuso para todos.

Não sei muito bem o que escrever para vocês hoje, mas algo dentro de mim queima dizendo que eu deveria fazer isso. Me sinto confusa, sem saber no que acreditar, e parte de mim também está amedrontada. Eu não sabia que os últimos acontecimentos de Illéa poderiam mexer tanto comigo. A verdade é que estou confusa e acredito que já esteja ou vai ficar confuso para todo mundo.

Daqui a menos de vinte e quatro horas, vocês conhecerão as outras 35 garotas – ou seriam 34? – que formarão o time das selecionadas. Cada passo delas vai chamar atenção de vocês, um por um. Os possíveis romances vão despertar sentimentos que parecerão estar sendo vividos por vocês e não por eles, e, então, pouco se lembrarão do que está acontecendo ao redor.

Que fique claro que não repudio quem assistir ao programa, eu mesma serei uma telespectadora presente. Mas vocês não podem se esquecer que são vidas, pessoas que têm vivências diferentes das nossas. E, principalmente, não podem esquecer que isso aqui ainda é um pão e circo, a Seleção continua tendo um objetivo muito diferente do contado.

As meninas não são vilãs, o príncipe – meu maior motivo de confusão – talvez seja, ou talvez não seja. Mas existe um vilão, e ele quer nos enganar. Consuma a cultura inútil que é a Seleção, mas não esquecendo que um dia ela acaba e os problemas do país não.

Está todo mundo confuso e eu sei. Mas não se esqueça quem é o verdadeiro vilão e quem você deve combater de verdade."

👑👑👑

A manhã do dia seguinte teve clima de despedida, embora ninguém tenha falado nada. Durante a tarde não houve muito tempo para este clima, já que, entre o início e o fim da manhã, os funcionários da família real nos levaram de volta para nossa casa a fim de que o prefeito pudesse me parabenizar quando meu nome fosse dito naquela noite. O plano anterior proposto pelos organizadores era que, após o sorteio, ainda houvesse mais dois dias para então sermos confinadas no palácio. Mas, graças ao problema que enfrentei, os planos foram mudados e embarcaríamos na manhã seguinte.

— Nunca pensei que fosse dizer isso, mas estava com saudade daqui — Jane falou e meus pais riram. — Sério!

— Todos nós estávamos, filha — meu pai disse enquanto beijava a testa dela.

— Vai ser estranho não te ter mais aqui, Liss — minha irmã falou, do nada, e não consegui esconder a surpresa.

Provavelmente, meus pais acharam que seria um bom momento para nos reconciliarmos, porque, quando olhei, eles já haviam nos deixado a sós.

— Vai ser estranho não ver mais vocês também.

— Não quero que vá embora assim. Não quero estar brigada contigo. Sabe-se lá Deus quando você volta.

— Acredito que rápido — respondi, ainda sem saber muito o que dizer. — Mas também não quero ir embora com a gente assim.

Jane ergueu um pouco a mão e então falou:

— Bem novamente?

Apertei sua mão em reposta.

— Bem novamente.

Jane me puxou para um abraço.

— Liss — começou a falar assim que me soltou —, você sabe que as meninas receberão algo pelo tempo que ficar lá, né? Graças a Deus não passamos fome nem nada, mas esse dinheiro viria muito a calhar, principalmente para sua faculdade. Mamãe e papai se culpam por não ter me dado essa chance, embora eu já tenha explicado a eles que nem é meu sonho. Também sou nova e posso fazer depois de casada. Você é a menina inteligente da casa, sabe que eles farão até o impossível para te dar isso.

— O que você quer dizer?

— Que talvez não seja bom você tentar vir logo. Quanto eles disseram que pagavam por semana?

— Ainda não falaram, só sei que recebo.

— Bom, dependendo de quanto for, tente ao menos sobreviver um mês lá.

— Não sei se consigo, Jane.

— Você é uma menina inteligente, não vai demorar pra perceber que essa é a melhor decisão.

— É. E eu terei a Ellie lá, talvez isso facilite as coisas.

— Isso se você não se apaixonar pelo príncipe e perder essa pose toda.

— Isso não vai acontecer — falei, brava.

— É o que veremos — Jane disse, rindo. Escolhi relevar para não brigarmos novamente.

Quando chegou a noite, vimos os guardas – que até então nos vigiavam de forma oculta – se revelarem e fazerem guarda em frente de casa. O rei havia mandado guardas para as casas de todas as pré-selecionadas para que não houvesse nenhum imprevisto.

Embora eu já soubesse que faria parte do programa, cada minuto a menos para o início do Jornal Oficial eu ficava mais ansiosa. Sentia que algo poderia acontecer a qualquer momento, só não sabia o quê.

— Está tudo muito parado — meu pai comentou enquanto olhava a janela.

— E o que você está esperando que aconteça? — minha mãe indagou, sem entender.

— Tentaram nos atacar quando se deram conta que a Liss era uma das selecionadas. Tá parado demais para o dia oficial do sorteio.

— Não tá, não — Jane falou, apontando para a tevê, e pudemos entender do que ela falava.

Algumas pessoas – mais de cem, isso eu podia afirmar – estavam sentadas na praça de Clermont segurando alguns cartazes. Não havia bagunça, apenas elas caladas, algumas com o rosto pintado mostrando o que queriam falar para a coroa.

"Esse jogo já nos levou uma."

"O pão e circo não nos faz esquecer do presente e muito menos do passado."

Não precisava de muito mais para entender de quem eles falavam. Celeste Newsome era o nome dela. Havia sido morta dentro do palácio, no dia em que o rei Maxon iria anunciar sua esposa entre Kriss Ambers e a rainha America.

Assim que os responsáveis pelo jornal se deram conta do que estava escrito, a filmagem foi cortada e voltou para o âncora.

— O que aconteceu com a linda jovem Celeste Newsome, há muitos anos, todos sabem que não foi culpa da coroa, mas sim de rebeldes. Rebeldes que se diziam pacíficos como esses que estão na praça, mas eram, na verdade, sanguinários que buscavam a destruição de toda Illéa. Admiro a coragem e fé da coroa em deixar protestos como esse acontecerem. Espero que estes manifestantes não matem mais ninguém — o homem falou em um tom calculado para nos despertar certo medo.

— Matar! — minha mãe gritou, indignada. — Essas pessoas vão matar quem? Como? Usando cartazes como arma e matando uns aos outros? É óbvio que é um protesto pacífico.

Meu pai, que não costumava discordar da minha mãe, dessa vez mostrou um ponto de vista diferente.

— Meu amor, acontecimentos como aquele deixam marcas que jamais poderão ser esquecidas. Perdemos em um só dia dezenas de pessoas. Não é chocante que as pessoas ainda temam qualquer ato de rebeldia contra o governo.

— Mas eles estão com cartazes! — ela interveio.

— Eu também acho que não farão nada — ele tentou, calmo. — Mas eles não foram revistados, e essa talvez fosse a única maneira de provar algo.

— Concordo — Jane disse, e eu torci para que não viesse muita besteira. — Eu mesma estou assustada. Espero que realmente não matem ninguém.

Era um pouco difícil admitir para mim mesma, mas a verdade é que eu também estava assustada. E tinha ficado bem mais assustada na época em que me falaram do possível ataque à minha família. Até queria, mas não podia discordar de Jane, porque, lá no fundo, eu talvez fosse um pouco parecida com ela.

Minha mãe saiu pisando firme e não falamos mais nada sobre aquilo.

Ao começar o Jornal Oficial, minha família voltou a se reunir, e, embora soubéssemos que eu já era uma selecionada, todos pareciam muito ansiosos.

— Acho que vou ter um ataque — Jane disse enquanto roía as unhas.

— Acho que estou quase no meu estado que você, filha — minha mãe disse e, então, meu pai estendeu a mão para as duas.

— Fiquem calmas. Já sabemos o que acontecerá com a Anelise, não precisa disso. Além do mais, nada mudará, continuaremos juntos.

Então, ele pegou a mão da minha mãe e juntou à de Jane para que pudesse ficar com uma das mãos livre e segurar a minha.

As notícias foram dadas sem citar o protesto de Clermont. Se por falta de tempo de inserir no jornal, ou receio que os manifestantes conseguissem aliados, eu não sabia. Alguns bons minutos depois, foi chamado então o mestre de cerimônia, Klint Covy, e a hora do anúncio finalmente chegou.

— Acho que todos vocês estão ansiosos para conhecer as adoráveis trinta e cinco belas garotas que se unirão à nossa linda Ellie nessa corrida rumo ao coração do nosso querido príncipe Edward. Então, que tal começarmos? — Klint introduziu o sorteio, logo após ter entrado no palco e ser ovacionado com palmas entusiasmadas. — Mas, antes, que tal chamarmos aqui nosso maravilhoso e encantador príncipe? Príncipe Edward, por favor, venha aqui. Temos uma missão para você.

O príncipe levantou-se, e pela sua reação, concluí que ele já sabia que isso aconteceria. Tinha um sorriso calmo no rosto e caminhava com segurança.

— Boa noite, Klint. Qual será minha missão? Espero que não me coloque em nenhuma situação difícil.

Klint riu de uma forma só sua, que acabava arrancando ao menos um sorriso de todos que assistiam.

— Jamais faria isso, Alteza.

— Assim espero — o príncipe respondeu de forma brincalhona.

— Queremos apenas que Vossa Alteza seja o responsável por sortear o nome de cada cesto. Você sorteia, leio o nome e lhe mostramos uma foto da garota selecionada.

— É. Sou capaz de fazer isso.

—Então podemos iniciar o sorteio, plateia? Quantos de vocês querem saber quem serão as selecionadas?

Um barulho tomou conta do estúdio e só parou quando os cestos contendo dois cartões cada foram entrando no palco.

— Pode começar, Alteza.

E, então, vi a confiança do príncipe vacilar. Por uma fração de segundo, foi possível ver um certo medo tomar conta de seu rosto. Mas ele logo vestiu sua capa de confiança e lançou a mão no primeiro cesto, o de Allens.

— E começando em ordem alfabética, vamos conhecer a selecionada de Allen — Klint fez uma pausa dramática. — Senhorita Alicia Baker, você é uma das selecionadas.

A foto de uma linda garota ruiva apareceu na tela. Vimos também o rosto do príncipe que parecia sereno e sem muita surpresa.

— Ela é linda — minha mãe disse e todos nós concordamos.

— Agora é a vez de Angeles.

O príncipe foi rápido e logo Klint estava anunciando.

— E a selecionada se chama Mary Kudrow.

Mary era uma garota de cabelos morenos e curtos que a faziam lembrar uma boneca. Achava isso desde que vi seus vídeos na época em que tínhamos que gravar.

O sorteio foi seguindo e, quando estava perto de Sonage ser sorteado, o telefone tocou.

— Liss? — ouvi Ellie chamar do outro lado da linha.

— Ellie! Que surpresa.

— Você está assistindo? Está ansiosa?

— Estamos todos na sala. E ansiosa não, mas com medo.

— Só queria dizer que estamos juntas, tá bem? Eu tecnicamente não poderia estar falando com você agora. Mas precisava te falar que você não está sozinha.

Sem nem perceber, eu já estava chorando.

— Obrigada, Ellie. Isso é bem importante para mim — falei, tentando segurar o choro.

— Tchau, amiga. Até amanhã.

— Tchau, Ellie. Saudades.

Desligamos bem a tempo de escutar Klint avisando que Sonage seria o último e, por isso, iriam para Sota. Ele pegou o envelope da mão do príncipe e leu.

— A bela Rachel Cooper é a selecionada de Sota.

Rachel Cooper tinha a pele negra e lindos cabelos cacheados. Ela era linda.

O sorteio foi seguindo até chegar a vez de Zuni.

— De Zuni, senhorita Sarah Lee.

Pouco vi Sarah, já que estava em pânico por saber que, logo em seguida, viria meu nome.

— E Sonage só tem um envelope. Ansioso para ver novamente o rosto da moça, Alteza?

— Devo confessar que sim, Klint — pela primeira vez, o príncipe sorriu de nervoso.

Algo dentro de mim também me deixou nervosa, e me peguei ansiosa para ver a reação do príncipe.

Mesmo sabendo que era o meu nome que estava no envelope, o príncipe Edward pegou-o, entregou-o para Klint, e o mestre de cerimônias abriu e leu:

— E nossa última selecionada a ser anunciada é nossa querida Anelise Benett.

Meus olhos não largaram a tevê e eu não me mexi um centímetro. Queria ver a reação do príncipe agora que ele tinha escrito para mim.

O príncipe fixou os olhos no que provavelmente era minha foto e depois virou-se, procurando alguém que eu suspeitei ser seu irmão. Depois, ele voltou a olhar para a câmera com um meio sorriso que não conseguia esconder seu nervosismo, mas também diversão. Pensei que, provavelmente, o príncipe George tinha feito alguma brincadeira sobre mim, só podia ser isso. E eu não sabia se gostava de ser uma diversão entre eles.

— Então é isso, amada Illéa — Klint falou e eu despertei do transe em que minhas emoções me colocaram. — Agora podemos finalmente dizer que é fato. É oficialmente o início da Seleção.

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