Capítulo 38
É engraçado como o nosso cérebro nos prega peças. Eu sabia, ou pelo menos, o meu subconsciente sabia, que Thomas estava brincando comigo. Tudo não passava de um jogo de vingança para me magoar e mesmo assim, havia me entregado de bandeja para ele quebrar meu coração.
Eu precisava voltar ao trabalho, mas quando o elevador passou pelo andar em que deveria estar, fui incapaz de descer. Saí da Parilla e resfoleguei o ar da rua. Passando a mão entre os cabelos e buscando me reorientar.
Não era o fim do mundo, mas parecia ser.
Ele tinha me enganado apenas para me magoar. Como ele poderia ser tão baixo? Indaguei a mim mesmo, buscando uma resposta no horizonte onde não havia mais nada além de carros e transeuntes apressados em chegar a algum lugar.
Meu olhar recaiu sobre as mesas do restaurante que havia do outro lado da rua e eu hesitei em atravessar quando encontrei Carolina sentada em uma das cadeiras, mexendo no telefone e tomando alguma coisa.
Sem pensar muito, apenas foquei em ir até lá.
— Oi. — Balbuciei para ela, segurando mais firme em minha pasta e tentando esconder a insegurança.
Carolina ergueu a cabeça e me fitou de sobrancelhas franzidas, depois gesticulou com a mão para que eu me sentasse e foi isso o que fiz.
— Sinto muito pelo que ouviu lá em cima. Não era para... — A voz dela era bastante firme, precisa e segura do que estava dizendo, mas quando ela apoiou o cotovelo sobre a mesa e massageou as pálpebras com as pontas dos dedos da mão, percebi que ela não estava tão imparcial assim.
— O Thomas... Ele... Ele... — eu balbuciava enquanto apontava para trás de mim, para a Parilla.
Carolina engoliu a seco e me encarou fixamente com aqueles olhos tão negros que as íris se confundiam com pupilas.
— Eu disse que não me envolveria nos assuntos dele, mas o que ele fez foi... — Ela suspirou, balançando a cabeça numa negativa, provavelmente dispensando o julgamento que faria se continuasse o monologo. — Eu não queria vender a Revista. Era um negócio de gerações da minha família e quando a minha mãe morreu, foi a única coisa que me restou. A Parilla estava no sangue dela e também seria minha, mas os meus irmãos não estavam colaborando. Afonso estava desviando dinheiro e foi graças a ele que entramos na lama, Mateo não passa de um alcoólatra mulherengo e festeiro. Santiago voltou para a Espanha e não faz a menor questão de tomar conhecimento dos assuntos da família. Thomas me ofereceu uma proposta irrecusável. 45% das ações e de quebra, ele ainda pagaria a parte que cabia a mim, e em troca ele ficaria com 55%. Todas as medidas deveriam ser aprovadas por mim e quando situação financeira se estabilizasse eu poderia comprá-la novamente. Era este o acordo.
Carolina parou e suspirou. Havia um "mas" e isso ficou claro no tom de voz dela.
— Só que Thomas estava muito empenhado em conseguir fechar à venda da Parilla, no começo foi estranho, mas depois, tudo fez sentido. Ele estava tão interessado em fechar o negócio por causa de você. Ele não queria apenas restaurar as condições financeiras da Revista e depois pôr no mercado. Ele estava planejando alguma coisa e quando eu te vi no restaurante com ele, tudo fez sentido.
As minhas sobrancelhas franziram em desdém. Isso era tão ridiculamente inacreditável que eu dispensei a ideia com a mão.
— Thomas não teria todo esse trabalho por minha causa.
Carolina segurou na haste da xícara para depois erguer o olhar, me encarando fixamente com as pálpebras estreitadas como se procurasse alguma coisa óbvia em mim, mas quando não a achou, inclinou o corpo para frente, ficando mais próxima de mim.
— Você ainda dúvida do que uma pessoa ressentida e com dinheiro é capaz de fazer, Nina? — Ela indagou, me encarando com interesse. — Eu abri mão de quase tudo por causa de ressentimento — Carolina forçou um sorriso doloroso, olhando por cima do meu ombro. Eu me virei, olhando para o mesmo lugar e deparando-me com o carro de luxo que acabara de parar diante do prédio da Parilla. — Acho que acabou... — Ela deduziu, forçando outro sorriso que não indicava satisfação alguma. — E eu não me sinto tão ruim por isso. Você deveria fazer o mesmo. — Sugeriu ao se levantar da mesa e seguir em direção à rua.
O mundo era dos ricos, isso não poderia ser questionado. O negócio de compra e venda de empresas estava no sangue da família de Thomas a algum tempo e ele não era burro, na verdade. Ele era muito espero e eu era burra. Conclui num suspiro frustrado, encarando o horizonte e relaxando os ombros que doíam devido a tensão.
Só me restava uma coisa: trabalhar.
*
Todos estavam em pé, no oitavo andar; um funcionário do lado do outro enquanto aguardávamos o novo pronunciamento.
Carolina coçou a garganta e tomou o primeiro plano e com um aceno silencioso de cabeça saudou a todos do recinto. Thomas não se destacava muito ao fundo com a nítida insatisfação do que acontecera na diretoria e acompanhado de um homem de terno bem cortado. Impressionada, levei uma considerável dose de tempo para assimilar aquela beleza exótica. Ele possuía uma pele levemente bronzeada, do tipo carioca praieiro. Os cabelos ficavam entre o tom de loiro acastanhado e eram compridos, recaiam organizadamente sobre a testa, emoldurando um rosto sinuoso e de queixo fino; bochechas altas davam a impressão de que o conjunto todo esboçava um diamante. Os lábios inchados insinuavam-se embaixo do nariz caucasiano e por algum tempo, foi difícil tirar os olhos dele. Não que eu estivesse me insinuando ou flertando com ele, mas porque o homem era diferente de tudo o que eu estava acostumada a ver.
— Certo. Como vocês já devem estar sabendo, vendi boa parte das minhas ações, por isso agora nós temos um novo acionista e eu gostaria de apresenta-lo a vocês. Conheçam Hector Abadie. — Carolina chegou um pouco para o lado e ele deu um passo para frente.
Nós formávamos um corredor vivo com Verônica na ponta da fila, depois de Lorena, eu, Mari seguida de mais três dúzias de pessoas e do outro lado, Fred estava de frente para Verônica, precedido de Fernanda, Melissa e todos os outros.
Hector inclinou-se e apertou a mão dos primeiros da fila até chegar a mim, fixando o seu olhar sobre os meus. Perturbada com as cores dos olhos dele, ambos azuis claros, porém o da esquerda, na parte inferior da íris era tomado. A heterocromia só servia para ressaltar tamanha beleza exótica. O homem sacodiu a minha mão com sutileza e arqueou uma das sobrancelhas finas, depois enlargueceu um sorriso amistoso em minha direção, e eu, como resposta, assenti num gesto constrangido de cabeça.
— É um prazer te conhecer. — O sotaque francês ficou bastante claro em seu português quando ele puxou o "r" no final das palavras.
Forcei um sorriso para ele, mesmo que o meu olhar estivesse parando instintivamente em Thomas, que mantinha uma postura defensiva, com as mãos juntas diante do corpo e uma nítida insatisfação pregada na cara enquanto olhava para mim. A minha garganta se contraiu, mas agi como se nada tivesse acontecido, ajeitando os ombros como uma afronta a posição que Thomas decidira ter em minha vida e olhei para frente. Para Hector, que ainda estava de frente para mim, segurando a minha mão. Sorri uma última vez antes dele soltar a minha mão e a levei para trás das costas, como se escondesse uma cena de crime.
— Ok, pessoal. Agora, de volta ao trabalho. — Thomas disse, dispensando a turma de funcionários.
Com isso, direcionei ao elevador junto com toda a equipe da Revista.
— Nina. — Meus tímpanos e cérebro trabalhavam naquele timbre.
"Nina", o meu nome soava como uma melodia perigosamente bem cantada em sua garganta, e embora isso não fosse o bastante para conter todo o rancor que havia se acumulado dentro de mim, me virei e suspirei ao encontrar Thomas com aquela cara de abandono e necessidade. Parecia um cachorro que caíra da mudança e já não havia expectativa alguma de encontrar seu dono.
Alguma coisa estremeceu dentro de mim, mas uma voz urrava em minha cabeça me alertando de que tudo não passava de um jogo idiota e egoísta que Thomas queria jogar. Isso foi o bastante para me fazer engolir em seco depois de fitá-lo e seguir em frente, para a direção oposta a dele.
Acabou.
Eu não podia ser idiota e me permitir cair em seu papo furado novamente.
*
— Vocês viram como o Novo Acionista praticamente engoliu a Nina viva na reunião? — Fernanda indagou.
A minha boca e os meus olhos se abriram com cutucada de Fernanda.
— Não foi nada disso, gente — revidei, tentando manobrar do assunto. — Ele estava sendo educado. Só isso.
— É um prazerr te conhecerr. — Mari gargalhou depois de imitar o português afrancesado do novo acionista.
— Vocês repararam nos olhos dele? — Indaguei com curiosidade.
— Ele é um gato. Isso ninguém pode negar. — Lorena acrescentou com as sobrancelhas erguidas insinuando malícia.
Tentando fazer a conversa se encerrar naquele último comentário de Lor, pressionei os lábios e incitei a todas a olharem para trás, para a porta.
Hector acabara levar a mão à maçaneta para abri-la e Verônica estava a tiracolo.
Lorena, Mari e Fê o cumprimentaram e Hector apenas abriu um sorriso simpático para elas.
— Merci — Hector levou a mão à frente do corpo e voltou-se para Verônica como se a dispensasse cordialmente.
— Oh... — Verônica formou um "o" redondo e surpreso com os lábios finos. — Eu preciso sair também. — Ela pareceu frustrada, mas não se opôs quando fechou a porta.
— Verrônica disse que você é a aprendiz. — Ele comentou, olhando da porta para mim.
— Sim. — Assenti. — Estagiária. — Forcei um riso ao indicar o computador com as duas mãos.
Hector ergueu as sobrancelhas.
— Posso ver no que está trabalhando?
Não dava para dizer não. Apenas abri caminho e deixei que o homem visse seja lá o que quisesse ver. Mas Hector me surpreendeu ao puxar a cadeira que estava de frente para a minha mesa para o lado da que havia atrás, onde estava sentada até pouquíssimo tempo.
— Certo. — Declarou, esperando que eu sentasse na minha para que ele sentasse na dele. — Vamos lá.
— Você escreve? — indagou, assim que eu me sentei na cadeira e ele aproximou mais a dele da minha.
— Sim. — Respondi sem pensar, incomodada com a proximidade que ele decidira impor.
— Posso verr?
O estalo que meu cérebro dera foi tão grande que um calafrio repentino fez um filete de suor se formar em minhas mãos. A resposta para aquela pergunta entalou na garganta e eu hesitei em responder que "não".
— Claro. — A minha boca não estava funcionando no mesmo ritmo do meu cérebro.
Comecei a movimentar o dedo nervosamente pelo touchpad do computador enquanto olhava através do vidro em busca de alguém que pudesse me salvar. Os músculos tensionados e uma aflição angustiante. A tela do notebook se acendeu no meu último trabalho aberto no word e Hector já ia inclinando-se mais sobre a mesa para ler.
— Gostei do título. — Ele comentou.
Eu não sabia se deveria ou não tirar da tela. Mas Hector foi mais rápido e virou o rosto do computador para mim.
— Isto é muito bom e eu não preciso terminarr de lerr para saberr que é um texto excelente. Você já concluiu os estudos? — indagou com ávido interesse em minha resposta.
Assenti num gesto de cabeça.
— Assim que pagar meu financiamento estudantil gostaria de fazer MBA em Paris. — Comentei.
É o sonho de qualquer pessoa que estuda moda e pretende se aprofundar na carreira, mas isso era uma coisa distante para mim neste momento.
— Ãã. Que coincidência. — Ele comentou. — A cede da Magnólia fica...
— Em Paris. — Eu não consegui deixar que ele concluísse a colocação e fiz isso por ele. A Magnólia era uma Revista francesa de moda muito influente e conhecida mundialmente.
Hector abriu um sorriso solene.
— Isso e a partir de agora, a Edição vai ter um par de olhos a mais. — Informou antes que a porta a nossa frente fosse aberta.
— Abadie. — Thomas coçou a garganta antes de empurrar completamente a porta.
A minha postura enrijeceu-se instantaneamente no instante em que Thomas fitou Hector depois a mim e eu pude sentir o quanto estar perto do novo acionista o incomodava.
— Thomas. — Hector respondeu, levantando-se da cadeira.
— Nós precisamos resolver... — A voz dele foi morrendo os poucos porque ele parecia conflitante. Talvez distante e um pouco pensativo. — Você precisa assinar a papelada. — Ele não explicou mais nada e sem tirar a mão da maçante desde o momento em que a abriu, ele gesticulou e Hector compreendeu o gesto, mas não sem antes erguer a sobrancelha para me encarar.
Engoli a seco, mas fingi que o comportamento de Thomas era tradicionalmente ridículo comigo desde sempre e ele simplesmente o acompanhou até o elevador.
— O que acabou de acontecer? — Lorena interpelou assim que abriu a porta. — Dia difí...
— Thomas e eu... — A minha voz soou mais frustrada do que deveria — nós terminamos.
Era tão estranho me sentir assim, tão triste, desolada, mesmo depois de descobrir que ele estava armando tudo apenas para me magoar. No fundo, talvez este fosse o meu maior medo. Me entregar novamente e ter o coração partido, pois Samuel jamais teria feito isso. Tão ruim, tão baixo. Isso era uma coisa que apenas Thomas teria capacidade para tramar, e eu era tão tola que ainda estava sofrendo por um homem que só queria me fazer mal.
— Como assim... Você estava tão bem com ele...
— Ele me enganou, Lor. — Resumi de uma vez. — Ele planejou tudo. Thomas só queria se vingar e eu, cega, cai direitinho.
— Oh, Nina. Eu sinto tanto...
Forcei um sorriso piedoso.
— Eu sou uma péssima amiga. — Ela se lamuriou — Nós te jogamos nos braços dele... Te abandonamos lá...
O meu coração estremeceu dentro do peito.
Eu também sentia muito, mas precisava seguir em frente.
— Não foi culpa de vocês.
— Mas e o Samuca? — indagou.
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