Capítulo 35

Devemos estar felizes pelas coisas que fazemos a quem amamos, você só não pode se afundar nisso, porque não se deve abrir mão da própria felicidade para agradar outras pessoas. Mas eu estava tão preocupada com a decepção que causaria às pessoas devido a minha escolha, que me afundei num mar de dúvidas e receios.

Mentir para os outros é errado, mas mentir para você mesmo é desleal; é a pior coisa que você pode fazer com você mesmo, e eu caí nesse erro; tinha passado tanto tempo dizendo a mim mesma o quanto estava apaixonada por Samuel, que isso passou a ser a minha verdade, e quando Thomas saiu do passado direto para o meu presente, essa verdade começou a se desfazer e neste momento, eu comecei a questionar o que era realmente verdadeiro na minha vida.

A minha vontade de ficar com Samuel era realmente amor? Ou era apenas uma mentira boa o bastante para enganar até mesmo a mim; um atalho para uma felicidade que eu jamais encontraria depois de me perder de Thomas.

A sensação de ter usado Samuel como curativo para estancar uma ferida que jamais cicatrizaria me fez sentir péssima.

Que pessoa horrível tinha sido eu, mas eu me sentia tão feliz. Eu não queria acreditar que Samuel tinha sido apenas um band-aid.

— Ele não foi um curativo pra você, amiga. — Lorena fez questão de ressaltar. — Vocês estavam bem.

— Até não estarem mais. — Fernanda acrescentou sem piedade.

— As coisas mudaram dentro de você. É só isso. — Mari reafirmou com compaixão. — Isso acontece o tempo inteiro com todo mundo.

Fred ergueu o olhar do celular, sentado a cabeceira da mesa para dizer:

— Essa é para você, gata. — Ele apontou para mim — se você acha que ama duas pessoas ao mesmo tempo, escolha a segunda. Porque se você realmente amasse a primeira, não teria uma segunda opção.

— Então o Thomas está ganhando. — Declarou Fê, que estava sentada entre mim e ele, esticando-se para tomar o telefone da mão dele. — Onde você viu isso?

Era desleal todas as coisas, inclusive meus sentimentos, apontarem para Thomas. Eu sabia que ele tinha me marcado, mas não esperava que revê-lo reacendesse todos esses sentimentos com tanta intensidade.

— Foi o Johnny Depp quem disse isso. — Fred fez questão de informar.

— Você está lendo a Magnólia? — Fernanda questionou ao ver a página principal na tela do telefone de Fred.

— Eu acho que você deveria falar com os dois. Vocês são adultos e o Samuel merece pelo menos uma satisfação do que está acontecendo com você. — Mari opinou com mais seriedade, balançando a cabeça para Fred e Fê ao ignorá-los.

— É. Já se passaram duas semanas desde que vocês se encontraram naquele restaurante. — Lorena acrescentou. — Está na hora de fazer alguma coisa ou então, vai se lamentar por perder os dois.

Suspirei pensativa. Eu não queria ter de fazer essa escolha. Era injusto demais, porque ainda tinha sentimentos por Samuel.

Duas semanas...

O tempo era tão cruel. Os ponteiros do relógio pareciam girar mais lentamente do que o habitual. Era uma tortura mental, porque mesmo que ele estivesse passando de vagar para mim, tanta coisa tinha acontecido nesse período e mesmo assim, não parecia ter sido o suficiente para tomar uma decisão. Alguma coisa fazia o meu coração sangrar. Um incomodo. Talvez um espinho. Thomas era minha sangria desatada. Ele não saia da minha cabeça e fazia a minha consciência pesar de um jeito que me tirava o sono.

— Eu não sei o que dizer a eles. — Assumi num suspiro. — Quer dizer, eu sei, mas estou com tanto medo.

Lorena sorriu de lado, sem mostrar os dentes e suspirou pegando a minha mão sobre o tampo da mesa.

— Você já se decidiu, Nina. Acho que o seu medo é a dor que a sua decisão vai causar em um dos dois. — Lorena se inclinou sobre a mesa de madeira para falar.

No fundo eu sabia que isso era verdade e estava mais do que na hora de eu tomar uma postura. A essa altura, talvez eu tivesse perdido os dois, porque Thomas não me procurou mais depois daquilo, e eu tinha pedido por isso, porque até um cachorro, em algum momento, se cansa de ser chutado. Agora, eu teria que ir atrás dele desta vez.

Mas e se ele não me quiser?

Talvez eu devesse tentar descobrir.

— Você sabe onde o Thomas mora? — indaguei, abruptamente.

— Ele mora na Barra. — Lorena respondeu de bate-pronto. — Por quê?

— Como você sabe? — Mari perguntou. — Eu não sabia que ele morava na Barra.

— Verônica me pediu para levar algumas coisas na casa dele um dia desses. Só isso. — Ela se justificou ao dar de ombros.

A minha garganta se contraiu mediante a ideia que estava circundando a minha cabeça. Eram nove horas de uma sexta-feira à noite.

— Então — conclui mentalmente — você sabe onde ele mora?

Lorena ergueu a sobrancelha em sua pose mais cética.

— Me passe o endereço. — Pedi forçando um riso.

— Não se atreva a fazer o que você está pensando — Ela exclamou, elevando um pouco o tom de voz.

*

Eu não precisei de muito para convencer Lorena a me passar o endereço, mas não precisou ela tinha acabado de estacionar o Renegade de frente para um portão gigantesco de madeira e isso foi tempo o bastante para me fazer repensar a loucura que estava prestes a fazer.

— Você não vai desistir, não é? — Mari perguntou, enfiando o rosto entre o banco do motorista e o meu.

A minha garganta secou e o nervosismo me fez hesitar no banco do carona; um frio em meu estômago fez a minha barriga se contrair, e eu precisei suspirar quando Lorena olhou para mim com uma tremenda interrogação.

— Não... — Respondi, mas estava mais do que na cara que eu não sabia o que estava fazendo.

— Vai logo, Nina. — Fred exclamou, inconformado.

— Calma, gente. — Lor interpelou a meu favor. — Isso não está ajudando.

— Obrigada, Lor. — Eu disse ao abrir a porta do carro e descer.

Dois passos em direção ao portão e o barulho dos pneus me fizeram sobressaltar para olhar para trás.

— O que... — Balbuciei com descrença ao ver o carro entrar em movimento. — Aonde você está indo?

— Pense nisso como uma motivação... — Fernanda gritou da janela antes do carro tomar mais velocidade. — Você quis vir. Agora é com você.

Eles não tinham feito isso comigo...

A revolta me fez olhar ao redor.

Thomas morava num terreno na periferia do Rio de Janeiro.

Eles me abandonaram na toca do lobo.

O interfone praticamente me engoliu antes que eu tomasse coragem para tocá-lo.

— Alô. — Uma mulher atendeu do outro lado do telefone.

— Oi. — disse, a voz vacilante devido ao nervosismo. — Eu sou uma velha amiga de infância do Thomas. Ele está em casa?

— Como você se chama, querida?

— Eu me chamo Nina. — Respondi.

Ela devolveu o telefone ao gancho, e muito provavelmente iria falar com Thomas sobre mim e ele não me receberia.

Não depois do que aconteceu no restaurante. Pensei pouco antes do portão se abrir.

Oh meu Deus.

O meu estômago se revirou numa bagunça caótica de sentimentos.

O terreno não era plano e a grama aparada forrava o chão como um tapete em meio ao caminho de pedras que levava para a porta de entrada da casa. Ultrapassei o espaço à passos inseguros, pensando se existiria a possibilidade de dois copos de chope me deixarem bêbadas ou se era simplesmente o nervosismo falando mais alto.

Essa era a hora da verdade. Eu só precisava ser honesta com ele.

Deixei duas batidas na porta e perdi a noção do tempo, porque ele simplesmente pareceu passar a conta gotas, numa infinidade que só me deixava ainda mais insegura da minha decisão.

A porta se moveu, num abrir lento até que o meu fôlego foi roubado pela figura que estava atrás dela.

— Nina. — Ele balbuciou, ainda incrédulo.

— Thomas... — Balbuciei com a voz trêmula.

— O que você quer?

— Eu tinha pensado muito sobre o que dizer a você no caminho para cá, mas agora. Agora... Eu não consigo me lembrar de nada. Mas, nada é melhor do que o que eu sinto por você. — Soltei, sem controlar o fluxo entre meu cérebro e boca. — Eu nunca deixei de te amar e quando você voltou, isso me deixou maluca, porque é uma coisa que eu não consigo controlar. Eu não consigo parar de pensar em você e no que teria acontecido se eu não tivesse ido embora... Será que nós...

A minha voz foi morrendo à medida que a expectativa no rosto dele ia morrendo. Uma silhueta chamou a minha atenção ao fundo e o ar embolou na minha garganta quando Carolina aparece em meu campo de visão.

— Eu... — Balbuciei completamente constrangida. — Eu sinto muito.

— Tudo bem. — Thomas disse, num suspiro.

Carolina estreitou o olhar, alternando-o entre mim e depois para Thomas, encarando-o com contrariedade.

— A gente pode continuar depois? — Thomas indagou a ela.

Carolina ergueu a sobrancelha num expressão dura e fechou bruscamente a pasta que estava aberta em suas mãos.

— Boa noite. — Carolina disse, e Thomas assentiu para ela.

Carolina passou a alça da bolsa no ombro, e eu virei o corpo de lado para que ela pudesse passar sem ao menos olhar para mim.

Thomas ergueu a sobrancelha e me deu as costas, avançando para dentro do cômodo, virando-se para uma mesa e servindo-se de algum tipo de bebida cor de caramelho. Whisky, deduzi pelo copo, observando em silêncio.

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