Capítulo 34

A mulher de cabelos compridos e soltos da mesa se levantou da cadeira e cumprimentou Samuel, dando-lhe um aperto de mãos.

Eu não conseguia ver o rosto dela, mas eu me senti enciumada só pelo que estava vendo de suas costas. Se tratava de uma mulher esguia e curvilínea, de pele levemente bronzeada e divinamente coberta por um vestido preto liso de ceda, marcado na cintura e rodado na parte da saia, escandalosamente decotado nas costas definidas; com uma faixa em forma de gola devidamente ajustada ao pescoço. Os cabelos brilhantes reluziam a luz ao correr por sobre as costas e cair pelos ombros quando ela se inclinou, iniciando uma conversa.

Samuel me olhou rapidamente por cima do ombro dela e naquele breve momento, uma pontada cortou meu coração ao ver o quanto eu o havia decepcionado agora. Ver o desapontamento explicito no reflexo dos olhos dele me fez suspirar ruidosamente.

O que eu estava fazendo?

Era para sermos nós e olha o que aconteceu...

Ele voltou-se para a mulher, e assentiu. Ela se moveu, projetando o rosto mais para trás quando Samuel gesticulou para o garçom, e o meu estômago embrulhou-se nauseado, porque eu conhecia aquele rosto anguloso e bonito da mulher.

Carolina.

Samuel estava se encontrando com Carolina.

A constatação fez um nó azedo se formar em minha garganta. Ele tinha me dado um cano para almoçar com a Carolina. Era demais para mim, por isso, fechei as mãos em punhos e preparei-me para levantar da mesa e sair dali.

Thomas segurou o meu pulso com firmeza, impedindo-me de levantar antes mesmo que eu o tivesse feito.

— O que foi? — Ele indagou, ainda segurando o meu pulso. — Você não vai embora só porque ele está aqui?

A pergunta dele me fez perceber que você não tem tanto tempo quanto imagina que realmente tem. Enquanto você está lidando com os seus problemas, as outras pessoas também estão enfrentando os seus próprios e não dá para julgá-las por isso. Agora Samuel estava saindo com Carolina.

Por que ela tinha nas mãos tudo o que era para ser meu?

Primeiro Thomas e agora, Samuel.

Era para sermos nós, Samuel e eu, juntos e sentados à mesma mesa, nos reconciliando. Mas estávamos com outras pessoas e naquele momento, a ficha havia caído. Não haveria mais Samuel e Nina contra o mundo, casados; bem-sucedidos. O meu coração estava partido o bastante para não saber o que fazer com ele e era hora de tirar o meu time de campo e repensar muitas coisas.

— Eu perdi a fome. — Aleguei friamente, encarando Thomas.

— Não. Você não perdeu. O que foi, heim... Você ainda quer reatar com ele? Qual o problema com você? A gente estava se beijando há alguns minutos... E agora você está bravinha por causa dele.

Ele estava certo. Qual era o problema comigo?

Eu o amava, sim. Mas também amava Samuel. Eu precisava ser honesta comigo e tentar não os magoar estava sendo muito custoso, porque eu só estava me machucando.

As minhas pernas amoleceram e eu desisti de me levantar.

— Eu não sei... — Assumi com frustração, olhando por cima do ombro dele a fim de checar se o que Thomas acabara de falar poderia ser ouvido.

Sabe quando você sabe exatamente o que está acontecendo, mas não pode falar porque é confuso demais e pode magoar as outras pessoas? E, nessa ocasião, eu precisava ser muito honesta comigo mesma. Eu não queria que Thomas se afastasse, mas também não queria que Samuel me abandonasse, porque no fim, escolher um seria abandonar o outro, e eu não queria ter de fazer uma escolha dessas, porque meu coração batia de um jeito descomunal por Thomas e era injusto, pois por Samuel, eu sentia um amor tranquilo e constante que poderia durar para o resto da vida se eu quisesse.

Era errado amar duas pessoas simultaneamente, mas quando Samuel me encarou outra vez, enquanto arqueava a sobrancelha, mais focado na minha conversa com Thomas do que na sua própria com Carolina, eu percebi que poderia sentir meu coração estremecendo, porque foram cinco anos de relacionamento, mas eu não queria um amor que me levasse à banho-maria e morno. Eu queria ser sucumbida pela paixão e por todo o sentimento abrasador que Thomas despertava em mim. Eu já tinha feito a minha escolha, só precisava de coragem assumi-la para mim mesma.

— Na carta... — Ele começou a falar. — Você disse que me amava e que não queria que fosse daquele jeito. Eu estou aqui... Isso não é o bastante para você?

Olhando para Thomas, pude observar de perto os portais azuis insondáveis em sua retina, e fiquei tentando decifrar o que poderia estar se passando por aquela mente complexa.

Ele me amava? Então, porque a minha vida tinha se tornado uma droga depois que ele aparecera com aquele sorriso bobo e arrogante. Ele não tentou, em momento algum, facilitar as coisas para mim e além do mais, estivera se relacionando com Carolina durante todo esse tempo.

— E a Carolina? — indaguei com um pouco mais de entonação. — Você não estava com ela?

A resposta de Thomas foi jogar a cabeça para trás e abrir um sorriso branco que me permitiu ter uma bela vista dos seus molares.

— Por quê? — Ele provocou — você está com ciúmes?

Eu me revirei por dentro. As minhas sobrancelhas se arquearam, incomodada com a forma como ele estava sendo muito sugestivo quanto a isso.

Eu com ciúme?

Thomas se inclinou sobre a mesa; sua expressão se fechando num ar muito mais sóbrio e sério do que antes. Ele segurou a minha mão e me fitou; eu tentei resistir ao gesto, mas ele foi mais ágil e relutou, apanhando a ponta dos meus dedos mesmo assim.

— Não tem nada entre mim e a Carolina. — Ele declarou com ar de profundeza nos olhos. — Podemos pedir? — Indagou, mirando o relógio analógico em seu braço. — Tenho reunião importante às duas.

Eu olhei para lá outra vez, observando Samuel conversar formalmente com Carolina, e Thomas ficou me fitando.

— Afinal, o que você vê nele? — Thomas indagou, pegando-me de sobressalto. O que? — É melhor do que o que vê em mim?

— O que? — rebati, mesmo que eu tenha ouvido, mas não poderia acreditar que Thomas, o Senhor-Cretino-Confiado tinha me feito essa pergunta.

Pela primeira vez pude assistir a sua autoconfiança se dissipar como uma chuva de poeira no ar enquanto seu orgulho ferido travava uma batalha ferrenha contra seu ego inflado.

Eles eram pessoas distintas. Samuel o oposto de Thomas. Ideais completamente diferentes. Mas porque os dois mexiam tanto comigo?

— Eu estou vendo o jeito como você olha para ele... — Thomas argumentou friamente. — Como se fosse um prêmio de uma disputa, valioso o suficiente para você questionar se abre ou não a mão.

Vincos de descrença se formaram entre minhas sobrancelhas. Eu não sabia o que dizer, por isso, apenas neguei com um gesto de cabeça.

A minha garganta se apertou. Samuel não era de forma alguma um prêmio, mas ele era realmente valioso demais para mim. Ele era importante e esteve ao meu lado em muitos momentos importantes da minha vida. Cinco anos não são cinco meses. Nós iriamos nos casar e teríamos uma vida juntos. Era errado respeitar isso? Pensei abaixando o olhar para o meu anel de noivado. Pressionando o polegar para girar a pedra única, branca que ornamentava a aliança. Não era fácil. Não se tratava de "simplesmente abrir a mão".

Um sentimento de impotência e indecisão me fez erguer o olhar para Thomas.

O que eu queria de verdade? O que me faria de fato feliz?

— Acho que dessa vez, foi eu que perdi a fome. — Ele declarou com rispidez, erguendo-se abruptamente e saindo da mesa.

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