Capítulo 29
A cabeça latejou como se meus neurônios fisgassem por dentro. Abri meus olhos e a dor se mais tornou intensa.
Os raios de sol a pino invadiam pela vidraçaria das janelas e derramava-se quente e amarelo sobre a pele agredindo as minhas retinas. Fechei os olhos com força e balancei a cabeça de um lado para o outro, apoiando o peso do corpo nos cotovelos e resmunguei em meio a tontura; alguém murmurou também.
Como eu cheguei em casa? Indaguei a mim mesma, deixando-me afundar novamente no sofá, e quando não houve resposta para essa pergunta, o nervosismo me fez gelar.
O que tinha acontecido? O gosto azedo de álcool na boca me fez fazer uma careta antes de olhar para o lado, deparando-me com Fernanda.
Mortícia Addams tinha se desfigurado numa mistura caótica de sombra e batom borrocados. O lápis de olho estava tão manchado que rodelas pretas tomavam os côncavos fundos e o batom manchava do lábio inferior até o queixo, transferindo-se para a mão.
— Fernanda. — Chamei-a, mas ela sequer respondeu.
Isso não deveria estar acontecendo. O desespero assumiu o controle das minhas ações para insistir, agora sacudindo-a pelo ombro.
— O que foi? — Ela balbuciou com letargia e sonolência. — Eu estou tentando dormir, você não está vendo?
— Fernanda, como nós chegamos em casa? — indaguei, engolindo a seco. — Eu não estou conseguindo me lembrar.
— Boa tar... — minha mãe passou dizendo, mas parou quando seu olhar repousou sobre o meu rosto.
— Mãe? — soltei precipitada.
Boa tarde?
Já era tarde? Isso foi o gatilho que faltava para minha mente começar a funcionar. Dando um pulo do sofá, peguei meu celular sobre a mesa de centro, acendendo a tela para verificar as horas.
— Aconteceu alguma coisa, mãe. — Declarei com mau pressentimento.
Parte da minha noite se tornou densa e não passava de vagos detalhes embaçados. Frustração me tomou quando um espaço vago me incomodou entre o momento em que estávamos na quinta taça de Martini e o momento em que Fernanda chegara em casa com a gritaria.
"Férias", foi a última coisa que eu me lembrava de pronunciar antes de dormir. Eu precisava mais do que nunca de férias.
O final de semana se arrastou, talvez porque estivesse esperando com apreensão ou afundada numa vergonha infinita, e para o meu maior desespero, Fred me contou o que tinha acontecido na noite de Halloween.
"Você não se lembra do pirata bonitão? " Ele indagou insinuativa do outro lado da linha.
Eu não estava gostando do tom provocativo do qual ele usou para pronunciar "o pirata bonitão", mas eu me lembrava dele no começo da festa e do comentário que ele fizera em relação a bela bunda dele.
"Lembro, qual o problema? "
"Você não se lembra mesmo? " Ele parecia desconfiado. "O que você tomou? Porque todo mundo está bem..."
"Eu não sei, Fred. Você pode, por favor, me dizer o que sabe" o meu tom beirava uma suplica salpicada de desespero.
"O problema, minha cara..." Eu podia jurar que ele estava com a mão livre na cintura e os olhos estreitados. Não é que Fred seja óbvio, mas o jeito dele era bastante parecido com o da Fernanda. "O pirata é o nosso chefe. Eu dei em cima dele, e você dançou com muito à vontade com ele e eu até me atreveria a dizer que estavam no maior papo."
Meu queixo caiu. Eu tinha dançado com Thomas bêbada. Tão bêbada que não conseguia me lembrar de nada. Alguma coisa fria começou a escalar as minhas pernas e subir até a nuca. Eu fiquei ali, parada, sentindo meus dedos ficarem gelados em volta do telefone, e a vergonha aos poucos se emaranhou no meu rosto.
"Calma! Essa não é a pior parte."
"Tem como ficar pior? " Indaguei, os músculos se contraindo quando ele riu com desfém.
"Você deu uma crise de histeria quando se deu conta de que ele era ele. Eu só queria uma oportunidade, e você dispensou o cara com um chute na bunda, Nina. Eu não sei se consigo te perdoar. "
"E depois, Fred? " quis saber o restante, a apreensão quase me fazendo finalizar a ligação para não ouvir. "O que aconteceu depois?"
"Acabou. Nós viemos embora."
"O que eu disse para ele?
"Como eu vou saber? "
A minha garganta se estreitou e eu tive que engolir a informação como um nó.
A segunda-feira havia chegado e esse momento não poderia mais ser adiado.
Suspirei, segurando firme a minha carta de licença que estava na mão. O meu estágio estava chegando ao fim e eu tinha direito a essas férias, esperava que pudessem liberá-la mesmo que faltassem dois meses.
Dois meses. O tempo passava à conta gota, porque este era o tempo que eu tinha para mostrar que era realmente eficiente e merecedora de um cargo efetivo na Revista, mas cá estava eu: com um envelope que praticamente assinava a minha dispensa definitiva, contudo minha mente precisava desse tempo e minha mãe precisaria de alguém para ajudá-la integralmente após a cirurgia. Não dava para lidar com Thomas, eu não queria ter de lidar com ele, e esperava que essas férias fossem o suficiente para colocar as coisas no devido lugar.
Era o melhor que eu podia fazer e por incrível que pareça, não estava nem um pouco arrependida.
Depois de muito pensar, percebi que a vida segue um fluxo pelo qual não vale a pena lutar. As coisas acontecem porque precisam acontecer, eu só tinha que aceitar isso.
Emburrei a porta de vidro e ultrapassei o saguão com segurança.
Caminhei até o elevador e me direcionei ao setor do RH.
— Bom dia, Ellen — cumprimentei a bela morena ao dar duas batidas na porta e colocar a cabeça para dentro, esperando que ela permitisse a minha entrada.
— Pode entrar, Nina. — Ela parecia surpresa. — Aconteceu alguma coisa?
— Na verdade, sim — antecipei, me colocando de frente para a mesa dela, depositando a carta de Solicitação ali. — Estou com alguns problemas pessoais e gostaria de saber se poderia me dispensar nos próximos dias.
A sobrancelha dela se ergueu num tom surpreso. A maioria das pessoas não esperavam que eu pedisse férias, porque da última vez eu me recusei a tirar as férias e mesmo que tivesse assinado a papelada, acabava passando a tarde revisando e produzindo alguns textos.
A mão magra e com dedos longos pegou o envelope sobre a mesa e deslizou-o para mim novamente, curvando os lábios num sorriso constrangido. A atitude dela me fez tomar uma postura defensiva.
— O novo diretor não tem permitido à liberação de funcionários sem consentimento dele.
Os meus músculos se tencionaram com o choque da nova informação. Eu teria que pedir ao Diretor para assinar a minha Solicitação?
— O Thomas? — indaguei precipitada, coçando a garganta ao perceber a gafe que acabara de cometer. — Sr. Roriz?
Ellen assentiu com a cabeça, num gesto afetado.
— Peça para ele assinar a Solicitação, e a traga para mim. — Ela sorriu como se isso fosse uma coisa simples e levou a ponta dos dedos sobre o envelope, empurrou-o e deslizando-o mais para mim.
Só que não era! Não depois do que aconteceu na sexta-feira. Não queria ter de olhar para ele depois do que Fred havia me contado. Pensar nisso fez a temperatura do meu corpo abaixar à medida que a ideia de ter que pedir a assinatura de Thomas para tirar minhas férias se tornou iminente.
Fiquei ali, com as mãos frias, olhando para o envelope, esperando que ela sorrisse e me dissesse que tudo não passava de uma brincadeira, mas isso não aconteceu e eu ergui a sobrancelha, forçando um sorriso.
Pensei em pedir a ela o favor de levar a minha Solicitação para que ele mesmo assinasse, mas ficaria muito evidente que havia alguma coisa entre mim e Thomas, e ninguém além de mim, das meninas e do próprio Thomas sabia do que estava acontecendo na minha vida pessoal. As pessoas não sabiam que Thomas e eu namoramos no passado e queria que permanecesse desse jeito.
— Tudo bem. — disse, num suspiro ao pegar o envelope. — Obrigada, Ellen.
Olhei para os meus peep toes altos e vermelhos nos pés, hesitando em bater à porta. Muito insegura do que estava fazendo ali, suspirei ruidosamente, inflei o peito de uma coragem que eu precisei fingir que existia e deixei duas batidas seguida, abaixando as mãos e apertando os punhos como se a ação de bater naquela madeira me desse um choque.
As mãos suadas e frias denunciavam a minha exasperação. Do que eu estava com tanto medo? Eu me sentia tão insegura.
Eu não queria ter de fazer isso. Pensei, abaixando o olhar para o envelope com a Solicitação, mas antes que a minha cabeça começasse a me bombardear com pensamentos confusos, a maçaneta girou, colando qualquer coisa para escanteio. O ar embolou na minha garganta quando ele abriu a porta, sem se dar ao trabalho de ver quem estava batendo.
— Então, tudo certo — Thomas disse para Carolina. — Você assume o caso da Poket, e eu cuido da reunião com os... — Ele parou antes de concluir quando seu olhar parou sobre mim.
— Olá, Nina. — Carolina disse, com sua voz mais grave e rouca do que o habitual, passando a mão pelo rosto; as enormes unhas azuis afuniladas na ponta se fizeram perceber ao afastar o cabelo do rosto. Depois ela abriu sorriso simpático e subiu mais a pasta de couro diante do corpo.
Abri um sorriso nervoso para ela, e o toque abafado de um telefone se fez ouvir. Foram necessários dois toques seguidos para percebemos que era o meu.
— Preciso levar esses croquis. — Alegou ela rapidamente, desvencilhou-se de mim ao se direcionar para o elevador.
Abaixei o olhar para puxar o celular do bolso da calça jeans, e o meu estômago se revirou ao ler "Samuel" na tela.
Por um momento, eu quis largar tudo para atendê-lo. Ele queria dizer alguma coisa e isso fez todas as minhas expectativas voltarem para a superfície, mas antes de completar a chamada, ergui o olhar, fitando Thomas que estava com a mão na maçaneta, medindo-me com o celular na mão. Um sorriso escapou dos meus lábios, e ele deslizou a mão livre para o bolso da calça de alfaiataria azul marinho e aprumou a postura sob o terno sem paletó de mesma cor, como se intuísse que o seu tempo era valioso demais para isso. Os meus lábios se tornaram retos quando a minha garganta se contraiu. Mirei o envelope em segundo plano, atrás do telefone e comecei a ponderar a relevância de tudo.
Tinha de resolver essa situação com Thomas o quanto antes. Aqui e agora. Não poderia me permitir vir aqui e bater à porta e ter que encará-lo uma segunda vez.
Analisei-o uma última vez, os olhos de gelo na mesma cartela de cores de seu terno sob medida faziam todo o conjunto ficar mais sóbrio e hipnotizante. E eu precisei de mais tempo do que deveria para conseguir desviar o olhar. Daqui, de onde estava, a luz que entrava pela janela e banhava a sala, contornando suas costas; o rosto contra a claridade, as retinas banhadas de um quê mais sombrio e abstrato fizeram as minhas pernas bambearem. As pupilas negras tão pequenas me encaravam à distância, e as riscas pratas tornando-se mais cintilantes ao sobrepujar o azul de vidro.
A boca estava fechada numa linha reta e dura. As sobrancelhas dele se ergueram e os olhos se estreitaram.
O telefone tocou mais uma vez na minha mãe e isso me fez erguer os ombros.
Não, eu não podia atender, não agora!
Puxei o botão vermelho, dispensando a chamada ao permitir que entrasse na caixa postal e forcei um riso para Thomas ao abaixar o celular.
— E eu preciso falar com você. — Anunciei, dispensando o telefone para o bolso.
Thomas ergueu a sobrancelha e olhou por cima do ombro, a pasta aberta sobre a mesa.
— Claro! Agora você precisa falar comigo? Uma pena — a ironia estava mais do que evidente em seu tom de voz — nem tudo sai do jeito como desejamos ou... precisamos! — comentou, soltando a maçaneta para voltar-se a mesa.
Engoli a seco, o meu olhar varrendo a sala dele e avancei a passos inseguros. Eu só precisava que ele autorizasse a minha licença
Certo... Ele não estava facilitando as coisas. Mas isso não me impressionou, porque depois de tanto tempo afastada dele, havia percebido que Thomas tinha aprimorado uma coisa: a arte de dificultar as coisas e tomar os caminhos mais complicados do que deveriam ser.
Nisso nós poderíamos dar as mãos.
A ideia me fez abaixar o olhar para a mão dele que estava segurando uma caneta, prestes assinar algum documento e imaginar nossas mãos dadas. Os dedos compridos dele entrelaçando os meus dedos delgados.
— ok. — disse, ele ergueu um olhar intenso para mim. Eu cruzei as pernas e me atrevi a deixar o envelope com a solicitação sobre a mesa. — Quando você estiver livre, leia e assine para mim. — informei, deslizando a carta mais para ele — por favor. — Acrescentei, com um pouco mais de gentileza.
Thomas puxou o envelope e fez questão de colocá-lo em uma pilha de papéis ao lado da mesa.
Que maravilha...
Tudo o que precisava agora.
Senti vontade de lhe dizer que eram simplesmente as minhas férias e que por uma norma idiota que ele mesmo criara, deveria assinar, mas não quis dar a ele gosto. A ideia das mãos dadas soou absurda quando ele jogou o corpo soberbamente para trás, sobre a grande e suntuosa cadeira de couro e apoiou um braço no apoio, encarando-me presunçosamente como se indagasse "mais alguma coisa? "
Claro! Vá se ferrar, idiota.
As minhas mãos se fecharam quando a minha mente vagou até seu colarinho desabituado em dois botões. A vontade era só uma, agarrá-lo pela gola e gritar com ele até que toda aquela maldita presunção pregada em sua cara sumisse.
Por que tinha que ser tão cretino assim comigo?
Mas não fiz isso, virei de costas e revirei os olhos, suspirando ao abandoná-lo ali. Eu sabia que ele estava me olhando porque podia sentir o calor de seus olhos fulminantes sobre mim.
Tentei ligar para Samuel, mas a ligação caiu na caixa postal e sem deixar recado, desliguei e fitei o relógio que marcava quatro horas, ainda hesitante, tirei o ramal do gancho e digitei 175 para falar com Thomas.
A minha ansiedade aumentava à medida que a espera se prolongava. Foram necessários quatro toques para que uma voz feminina se fizesse audível; eu sabia que era Melissa.
— Oi, Melissa. Tudo bem? — Indaguei nervosamente, mas sem dar tempo para que ela respondesse — O Sr. Roriz ainda está no escritório?
Ela levou mais do que alguns segundos para verbalizar uma resposta e presumi que estivesse se virando para fitar a porta dele.
— Ah, o Thomas... Ele já saiu. — Informou ela, suavemente.
Eu não ouvi o que ela tinha dito, talvez alguma coisa como: a agenda dele ficou livre na parte da tarde, mas estava ocupada demais praguejando-o internamente, porque o cretino ao menos se deu ao trabalho de assinar a minha dispensa.
— Grande Idiota egoísta. — Resmunguei, pensando alto demais.
Eu precisava da minha licença e ele sequer tinha medido o esforço para olhá-la.
— O que você disse? — Melissa indagou confusa do outro lado.
Eu parei, os olhos praticamente saltados quando fui pega numa tremenda saia justa.
— Hum — a minha garganta se contraiu — Nada, eu não disse absolutamente nada — respondi constrangida, esforçando-me para não soar desesperada. — Obrigada pela informação, Melissa — agradeci, tentando ser educada depois da besteira que tinha feito e enterrei o telefone na base.
O meu celular notificou algumas vezes, era a Verônica me passando a lista de tarefas do mês de Novembro. Esperava que essa Licença alinhasse Fred e Verônica para que pudesse terminar, pelo menos, o meu estágio em paz. Porque a essa altura, não tinha a menor expectativa de que fosse contratada, não com Thomas sendo o meu chefe. Encaminhei metade do trabalho para Fred e voltei ao meu, começando pelo número um da lista. Um texto sobre o próximo desfile de Natal.
— Isso está horrível! — resmunguei para mim mesma avaliando o trabalho.
Três parágrafos e nada minimamente bom. Havia tanta coisa para escrever e não conseguia verbalizar absolutamente nada que pudesse verdadeiramente ser lido.
Um misto de frustração e fadiga começou a me sufocar e me fez fechar a tampa do notebook com brusquidão. Eram seis da tarde e não tinha conseguido preparar nada. Peguei a bolsa, o casaco e me direcionei ao estacionamento.
Mia miou e correu para mim no momento em que abri a porta, ronronando e se enroscando nos meus pés.
— Oi, fofura — suspirei, agachando para pegá-la no colo. — Onde está a mamãe? — indaguei, fechando a porta, como se ela pudesse me responder realmente, e vasculhei ao redor, procurando algum sinal da minha mãe.
***
Olá, meus amores. Como vocês estão?
Por aqui, vamos super ansiosas e tensas. O Sisu foi prorrogado para a 0h do dia 14 e eu estou a mil kkkkk
bom, gente, orem por mim, mas por enquanto curtam mais um capítulo de Interligados.
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