Capítulo 26

— Por que você está dizendo isso? — perguntei totalmente abalada. Não por estar me sentindo ofendida; eu estava, mas porque no fundo tinha consciência de que não era mentira e ouvir da boca dele tornava tudo ainda mais doloroso.

Nós éramos perfeitos juntos. Quando tudo começou a ser tão difícil e errado?

Quando Thomas apareceu. Essa resposta era bastante óbvia, mas ao mesmo tempo, tão complicada, pois precisava reconhecer que Thomas havia mudado muita coisa desde que chegara. O simples fato de ele estar por perto alterou todo o curso da minha vida, e ter de admitir isso era basicamente assumir que ele ainda era importante de alguma forma.

O meu coração era do Samuel, eu queria que fosse. Mas eu estava pisando numa linha de indecisão que beirava o absurdo. Thomas e eu não tínhamos nada. Nenhum vínculo no presente. Por que estava considerando que ele poderia ser alguma coisa além do que Samuel era? Isso não fazia sentido. Samuel estivera comigo nos últimos cinco anos, e era assim que eu estava retribuindo?

Por que eu deveria retribuir alguma coisa?

Um choque começou a esfriar a minha espinha, como se alguém tivesse me jogado um balde de água fria com aquela linha de raciocínio. Eu não queria ter chegado àquilo.

Será que todo o meu amor por ele não passava de mera gratidão? Não podia ser. Cinco anos da minha vida com um homem, porque era grata por tudo o que ele já tinha feito por mim?

O simples pensamento fez o meu estômago revirar.

Não dava para continuar a conversa, não depois de pensar nisso.

Me senti culpada e ridiculamente sem argumento. Ele tinha que ser mais do que isso!

— Eu vou chamar um táxi — informou, parecendo querer desviar do assunto ao abaixar o olhar para o telefone sem fio, depois começou a digitar números que vinham acompanhados de seguidos bipes.

Os meus olhos encheram de lágrimas ao perceber que qualquer coisa que fizesse pioraria ainda mais a situação.

Gratidão?

Engoli o resto de dignidade que existia dentro de mim e olhei-o uma última vez, apreciando aquele rosto que eu não esqueceria; iluminado no queixo, testa, nariz e maças do rosto pelo display do telefone fixo, enquanto as concavidades ao redor dos olhos e nariz eram tomados pela sombra. Samuca era diferente de todas as pessoas que já conheci, e talvez, eu não o merecesse afinal, não com toda essa bagunça.

Passei as costas da mão pela maçã do rosto, desmanchando o caminho de lágrimas e recuei, saindo do apartamento de Samuca.

As coisas ficariam melhores com o tempo... As pessoas sempre diziam isso, precisava me agarrar a essa ideia. Era a minha única esperança. Samuel precisava de tempo para aceitar o que tinha acontecido e eu também precisava aprender a lidar com essa bagunça de sentimentos.

O compartimento fechado começou a me asfixiar. Estava hiperventilado quando reclinei as costas na parede e contei de zero até dez. Meu coração diminuiu o ritmo no processo e eu controlei a respiração. A porta do elevador se abriu, e eu corri para fora do prédio.

Eram cinco quilômetros de volta e eu atravessei a rua a passos largos.

Ele tinha motivos para não gostar do que tinha acontecido, mas isso não era motivo de fato para me afastar de uma vez por todas. No momento em que comecei a questionar todo o sentimento que Samuel poderia ter por mim, olhei para trás, por cima do ombro a fim de espiar a janela do apartamento de Samuca. As luzes estavam acesas. Esperava vê-lo da janela, me vendo partir desamparada e em completo desespero, mas ele não fez isso. Talvez tivesse bebendo alguma coisa, porque isso podia ser melhor do que conversar comigo.

Antes que pudesse me virar, colidi contra alguém que estava parado na calçada, mas isso não fez com que interrompesse meus passos. Apenas passei a mão pelo rosto; os olhos embaçados pelas lágrimas que se acumulavam.

— Eu... Eu... Eu sinto mui...to — A minha voz soou trêmula e urgente, apenas para continuar a correr.

— Nina — alguém gritou. Interceptei meus passos assim que ouvi meu nome ser pronunciado. Por uma fração de segundos pensei que estava enlouquecendo, porque aquela voz soou tão inusitadamente parecida com a de Thomas que fez a minha nuca se arrepiar.

Olhei por cima do ombro, mas não consegui identificar, pois o capuz cobria cabeça dele e a sombra projetada não permitia que tivesse contato com seu rosto, mas a levar em consideração o short de corrida, o tênis e o casaco masculinos, era um homem. Um homem alto e forte.

— Espera! — pediu, atravessando a rua.

Enviesei o olhar e medi o sujeito de cima abaixo, o nariz fino e o queixo marcado recebiam uma pequena parcela de luz.

Totalmente desestabilizada tanto física quanto mentalmente, ajeitei os ombros e a postura. Insisti em fitá-lo por mais alguns segundos, a fim de averiguar se não estava ficando louca e me atrevi a empurrar o capaz do casaco de moletom dele para trás.

O ar me faltou.

— Thomas... — balbuciei assim que o seu rosto se fez ver. — O que você está fazendo? — indaguei, abaixando a mão, medindo-o de cima a baixo. — Era você... Você está me seguindo?

Thomas me fitou com um olhar intenso que fez as minhas pernas estremecerem. Ele ergueu as sobrancelhas e deglutiu. Sua expressão convertendo-se em compaixão.

— O que aconteceu? — ele olhou para o outro lado da rua — você está chorando? — indagou, a mão erguendo-se em direção ao meu rosto. A base do dedo indicador enxugando a lágrima teimosa e solitária.

Aquilo provocou um furacão de emoções dentro de mim. Porque compaixão era uma coisa totalmente inesperada e naquele exato momento, os olhos sombrios e frios de Thomas se transformaram em calor e acolhimento.

Limpei a garganta, e girei o rosto para me afastar do toque.

O olhar de Thomas se ergueu por cima do meu ombro, e eu me arrependi de tê-lo acompanhado, porque o ar me faltou novamente. O coração errou uma sucessão de batidas e o chão pareceu abrir sobre os meus pés, quando encontrei Samuel atrás da janela, encarando-me de lá de cima.

Isso não tinha como ficar pior, sentia que a cada momento que se passava, o meu noivado se fragmentava e pressentia que restaria apenas o pó de tudo isso.

Thomas piscou algumas vezes seguidas, e assumiu uma postura defensiva ao erguer mais os ombros quase que imediatamente ao perceber de onde acabara de sair.

— Vocês dois estão... — eu não sabia se ele queria perguntar se estávamos bem, juntos ou brigando, mas a levar em consideração as minhas lágrimas e forma como saí do prédio, com certeza não indicavam coisas boas, mas me recusava a falar sobre esse assunto com ele.

— Eu preciso ir. — Informei, olhando para a rua.

Thomas pressionou os lábios, enquanto enfiou as mãos nos bolsos da frente do casaco e concordou quando viu o taxi surgir no inicio da Avenida.

O carro parou à margem do meio fio tempo suficiente para que Thomas abrisse a porta e gesticulasse com a mão em direção ao meu peito. Eu parei, encarando-o com meus mais de vinte centímetros de diferença. Thomas me encarou com profundidade, o que fez com que as estruturas de dentro de mim estremecem.

Exalei ruidosamente, e o cheiro amadeirado e mentolado invadiu as minhas narinas. Era um cheiro inebriante. O perfume dele que e havia ficado impregnando em mim e nas minhas roupas quando ele me beijou.

— Espero que em algum momento nós possamos realmente conversar sobre isso. — ele disse, com um apelo sincero.

Resignei-me ao silêncio, porque assim que ele disse isso, a mão dele saiu do meu caminho e eu pude cair no banco de trás do carro, engolindo a seco quando ele bateu a porta e continuou a me encarar de mim.

O carro entrou em movimento, e eu fiquei ali parada, olhando para ele através da janela; as mãos dele nos bolsos do casaco e aquela expressão abalada que de uma forma repentina, passou a ser recorrente em seu rosto, observei-o ficar menor à medida que o carro se afastava, e o meu coração pareceu inchar dolorosamente no peito quando ele sumiu do horizonte.

***

— Feliz aniversário. — Fernanda e Mari disseram para Lorena em uníssono, assim que entraram na minha sala.

Nós sorrimos juntas. Lor estava sentada na cadeira de frente para a minha mesa e estávamos conversando sobre como a Verônica estava se prejudicando por conta de Fred; duas semanas e nenhum artigo que mereça ser publicado. Por mais que tentasse ajuda-lo, os textos ainda eram dele e nada parecia ser suficientemente bom para Verônica.

"Era mais fácil ela ter te promovido" concluiu Lorena antes das meninas entrarem.

Talvez fosse, mas estava com a cabeça tão distante. A cirurgia da minha mãe tinha sido marcada para a quarta-feira. Com isso, estava planejando pedir minhas férias, afinal, faltavam dois meses. Eu precisava desse tempo para mim e seria fundamental no pós-operatório da minha mãe.

— Você não vai adivinhar o que eu tenho aqui. — Fê disse, sacando cartões, mesclados entre roxo e preto, compridos de dentro da bolsa. — Meu presente de aniversário para você é uma festa de Halloween para nós. Cinco ingressos para festa do Brews.

— O meu presente é coletivo? — Lorena se virou na cabeça sorrindo.

Fernanda levou à mão a cintura e franziu os lábios com prepotência para ela.

— O quinto é meu — Fred entrou na sala sem bater e intrometeu-se na conversa.

— O que? — Fernanda ergueu as sobrancelhas. — É a noite das garotas.

Fred passou os braços compridos em volta dos ombros da Fê e puxou a Mari do mesmo jeito, deixando uma gargalhada no ar.

— Fala para ela, Mari. — Fred pediu, entre uma gargalhada e outra.

Mari riu, mas não disse nada.

— Qual o problema? Eu também sou uma garota.

— Eu não posso. — Atestei com num suspiro desanimado. — Não estou no clima.

— Ah, Nina. Por favor. — Fernanda praticamente implorou com uma voz arrastada — é aniversário da Lor.

Apoiei os cotovelos na mesa, exalando ruidosamente, encarando-a com desânimo.

— Eu não sei, Fê. As coisas não andavam bem para mim. Com certeza a Lor entende — comentei sorrindo para a Lor que assentiu num gesto de cabeça.

— Eu entendo, Fê. Ela não está passando por um momento fácil. Vamos respeitar.

— Vocês já têm fantasias? — Mari perguntou.

Lor e Fê olharam diretamente para ela. Com certeza ninguém pensou nas fantasias.

— Deixa comigo — Mari disse ao esboçar um sorriso amplo.

— Eu quero uma fantasia de vampiro. — Fred ressaltou, soltando de Fernanda e sentando-se no tampo da minha mesa.

— Você ser o chupador de sangue? — Fê indagou — Eu também quero.

— Na verdade, todo mundo sabe que eu prefiro chupar outra coisa. — Fred retorquiu com a língua afiada.

— Fantasia de Vampiroca para o Fred, então. Mari. — Lorena completou.

Fred apertou os olhos em resposta. Não consegui conter a risada, ninguém conseguia. Era tão bom ter amigos que te fazem esquecer que o mundo está desmoronando sobre sua cabeça. Eu não conseguia parar de agradecê-los internamente só por estarem por perto e mesmo que tudo parecesse melhor, ainda não poderia deixar a minha mãe sozinha na sexta à noite para ir para uma festa enquanto ela estava doente. Aliás, eu não sabia em que momento exatamente Fê e Fred começaram a se dar tão bem, mas estava começando a achar engraçado que aos poucos ele estava se enturmado e se tornado nosso amigo.

— Onde nós vamos nos arrumar? — Lorena indagou. — Na minha casa não dá, estou cheia de coisas de casamento espalhadas.

— Vamos lá pra casa — Fê declarou. — Às sete.

Algumas xícaras de café e textos depois, após o expediente, manobrei o carro no estacionamento do prédio e direcionei-me ao apartamento.

Quando abri a porta, deparei-me com Fernanda passando com uma capa roxa de cetim que brilhava conforme a luz incidia e um espartilho preto de fitas no cabide. Lorena surgiu na porta gritando e questionando onde estava o outro pé de sua bota, e Fred a jogou no ar do quarto da Fernanda.

— Você não vai? — A minha mãe perguntou em meio a bagunça assim que me viu, fechando o corpete de estampa dourada da Mari, nosso apartamento se parecia com um camarim de teatro.

Balancei a cabeça em uma negativa silenciosa.

— Por que não? — ela quis saber.

Eu realmente não estava em clima de festa. As coisas estavam indo de ladeira abaixo e eu queria passar um tempo com a minha mãe.

— Vamos passar a sexta juntas — respondi simplesmente, soltando a bolsa no sofá e me jogando depois.

— Ainda dá tempo. — Mari acrescentou.

Mamãe fechou o corpete da Mari dando um trancão nela para a frente, a Mari resmungou alguma coisa com os olhos arregrados e minha mãe deu dois tapinhas antes de fazer a volta pelo sofá e se sentar ao meu lado.

Eu sorri, erguendo o olhar quando ela soltou um suspiro compreensivo.

— Eu sinto muito, meu amor, mas você não precisa parar a sua vida por minha causa. — Minha mãe disse. — Não de novo.

— Eu não estou parando — respondi. — Quero dizer, é errado querer ficar um pouco com você? Eu sei que você está tentando ser forte, mas você não fala sobre isso.

— Não tem sido fácil para nenhum de nós. — Ela assumiu, mas não havia dor em suas palavras. — Mas você não precisa provar que é uma pessoa boa o tempo inteiro. Todo mundo já sabe disso — Acrescentou, puxando a minha mão. — e eu não posso permitir que isso se repita. Você não pode parar toda a sua vida para se afundar nos meus problemas. Você é tão jovem — a mão dela deslizou pelo meu rosto — tem tanto pela frente...

— Mãe — eu a interrompi, inclinando-me para ela. Eu sabia do que ela estava falando.— Nada disso foi culpa sua. Está tudo bem. Vai ficar tudo bem.

— Por favor, saia um pouco e se divirta. Eu não posso permitir que se você feche novamente.

Encarei-a com hesitação. Eu não estava com ânimo para uma festa. Não quando Samuel estava me dando um baita gelo.

— Eu não sei o que fazer, mãe.

— Ele não falou com você? — ela indagou como se pudesse ler os meus pensamentos.

Exalei, jogando o corpo todo para trás com desanimo.

— Não, ele praticamente me expulsou do apartamento. Samuel entregou aquela carta para o Thomas e agora ele está tentando fazer perguntas que eu não quero responder.

Minha mãe franziu os lábios com empatia.

— Talvez ele ainda goste muito de você. — Ela comentou; eu franzi as sobrancelhas em desaprovação.

Vincos se formaram entre as minhas sobrancelhas. Era um tremendo absurdo, porque Thomas não gostava de mim. Isso não tinha nada a ver com sentimentos bons. Ele me tratava como uma barata astuta, tentando pisar em mim a todo o momento, e eu me desvencilhava para não morrer esmagada por seus enormes pés.

Ninguém, além de mim, conseguia enxergar isso?

— O que foi? — Ela questionou mediante ao meu ar de julgamento. — No passado ele não passava de um garoto mimado que gostava muito de você e estava na cara que ele faria qualquer coisa por você. Uma pena tudo ter acontecido tão rápido. Eu gostava dele.

No passado... — fiz questão de ressaltar. — Eu também o amava, mas isso mudou, mãe. Você se assustaria com o jeito que ele me olha. Parece que vai me comer viva. Thomas me odeia, e o sentimento é mutuou.

Eu não tinha contado para ela que Thomas havia me beijado e esse era um dos motivos pelo qual eu o odiava ainda mais. Porque ele tinha mexido com alguma coisa dentro de mim. Algo que desde então, nunca mais se aquietou.

— Não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem. Vá se divertir um pouco. Esfrie essa cabeça. — Ordenou, deixando um tapa no meu joelho ao se levantar. — Espera a poeira abaixar entre você e o Samuel. O tempo cura tudo.

Fernanda deu um pulinho exibindo e sacodindo um conjunto com uma capa para mim.

— Chapeuzinho vermelho? — indaguei.

— Não poderíamos te deixar de fora. — Mari acrescentou com um sorriso amplo e olhos cintilantes de animação. — E, aliás, não é um chapeuzinho qualquer.

— Mas você tem pouco tempo. — Fernanda fez questão de pontuar, vindo até mim e agarrando o meu braço, puxando-me pelo braço para o quarto.

***

Olá, meus amores. Capítulo de contextualização, me aguardem pq o próximo é babado!!!


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