Capítulo 23

Se vocês puderem, leiam este capítulo ouvindo Before You Go do  Lewis Capaldi vai tornar a experiência ainda melhor, porque eu escolhi essa música para Sanina. 


A viagem de Minas para o Rio de Janeiro durou mais de sete horas. Era o bastante para me deixar cansada, enquanto tentava lidar com um sentimento de vazio interno que parecia que me engoliria e me deixava ainda mais resignada e triste.

O grande portão duplo preto e gradeado da casa da minha tia foi aberto e ela caminhou até ficar de frente para a minha mãe, cumprimentando-a e depois veio para mim. Eu não queria falar, conversar e muito menos ser simpática, ela já sabia disso. Minha tia já sabia de tudo e mesmo assim, ela abriu um grande sorriso, e eu não encontrei motivo algum para lhe responder quando me cumprimentou com um abraço apertado e caloroso ao afagar as minhas costas.

— Não fica assim, meu amor. As coisas vão ser bem melhores de agora em diante — ela perguntou ao desprender os braços de mim.

Segurei mais firme na haste da mala de rodinhas e engoli em seco.

Não parecia que era verdade e o que eu deveria dizer? Não... Sim? Eu não estava nada estava bem, mas estava difícil falar sobre isso. Ninguém parecia me ouvir, porque os problemas da minha mãe eram imensamente maiores do que os meus. Mas eu também estava sofrendo e ninguém parecia se importar com isso, porque eu era uma adolescente idiota.

O que uma adolescente de 17 anos tem a perder?

A minha vida virou de cabeça para baixo numa questão de dias. Eu estava do avesso. Tinha sido obrigada a deixar tudo para trás para acompanhar a minha mãe. Não era errado fingir que não estava tudo bem, mas me recusava a ter de explicar qualquer coisa. Não havia palavras dentro de mim que pudessem expressar o que estava se passando dentro de mim, então, decidir forçar um sorriso fechado e concordar com um gesto sutil de cabeça.

— Vamos, quero mostrar seu novo quarto. — Ela instruiu e se voltou para a minha mãe.

— Até que enfim você decidiu me ouvir. — Tia Ângela disse para minha mãe, tentando soar discreta. — Vai ser melhor assim.

Minha tia estava insinuando alguma coisa, mas todo mundo sabia que ela estava falando do relacionamento da minha com o meu pai.

Minha tia preparou um quarto somente para mim, o piso era escuro e simulava madeira, as paredes eram brancas, e uma cortina salmão cobria a janela, com um sofá de Chenille creme logo abaixo. Um lustre redondo e de cristal tinha duas camadas e emitia uma luz difusa e suave para o cômodo. Tateando a cama, meus dedos afundaram na manta felpuda branca, e foquei na porta espaçosa e de vidro. Ela dava acesso para a sacada que tinha vista para o jardim tropical aos fundos da propriedade. Impressionada, soltei o puxador da mala e deixei-a ali, avançando para lá.

A brisa do final da tarde fez meu cabelo voar assim que pus os pés na varanda e apoiei os braços no peitoril. A casa era linda, mas o jardim era exuberante. Precisei de mais do que alguns instantes para observar o máximo de detalhe possível. Pedras ladeavam o caminho que fazia curvas, e duas Magnólias seguiam para formar um corredor junto às alfazemas e aos crisântemos amarelos e vibrantes até o freixo suntuoso que fazia sombra para a grama.

Me virei para voltar ao quarto, mas deparei-me com uma porta que ficava logo ao lado da minha. Espiando ali, observei a escrivaninha que ficava na parte que ladeava a porta com vista para o jardim. A porta estava aberta e eu não percebi quando avancei dois passos, aproximando-me da mesa repleta de pesados livros, papéis, canetas e inúmeras anotações. O meu dedo deslizou sobre um intitulado "direito constitucional". Tudo poderia estar uma bagunça pela quantidade de coisas, mas surpreendentemente não estava.

— Nina. — Ouvi minha tia gritar do corredor do quarto. — Gostou do quarto?

Ela perguntou. Eu dei um pulo ao ser pega bisbilhotando. Esperava que ela estivesse falando do meu quarto e não deste, porém, a resposta seria sim para os dois.

O meu olhar repousou para a cabeceira da cama que era uma espécie de estante repleta de livros.

— A-aham. — Respondi com constrangimento tentando disfarçar enquanto o meu rosto queimar e me dedurava.

Ângela olhou de um lado para o outro e eu desejei me aproximar dos livros.

— Este é o quarto do Samuel. Ele não está em casa, na verdade, ele quase não fica em casa e quando fica, a gente não percebe, já que ele se tranca aqui e passa dias a fio.

Pensei em perguntar o porquê, mas engoli a seco.

— Vamos... Eu vou preparar algo para você comer — disse.

— Obrigada, tia. Mas eu quero descansar — articulei, simplesmente. Eu não estava com fome e também não gostaria de companhia agora.

— Está sem fome, meu bem? — Ela passou a mão pelo meu rosto, empurrando os cabelos compridos para trás.

Concordei.

— Eu imagino que essa situação toda não esteja sendo fácil, mas o pior já passou. Vai ficar tudo bem — ela tentou me consolar, mas isso só me deixou pior. Engoli a seco e embora não concordasse com isso, assenti num gesto contido. — Tudo bem. Descanse.

As minhas aulas começariam na próxima semana, e os dias se arrastavam numa tortura sem fim. O isolamento passou a fazer parte da minha rotina, eu quase não falava sobre mim ou como estava sendo lidar com a mudança. Evitava qualquer pessoa que tentasse se aproximar, pois não estava sendo fácil e o tempo não estava ajudando.

***

Suspirei ao perceber que a vastidão de estrelas no céu não reconfortava em nada o meu coração despedaçado. Muito pelo contrário, ao ver que havia tantas por toda parte, uma do lado da outra, só serviu para me mostrar o quão pequena e sozinha eu era e estava.

Até as estrelas tinham companhia.

Um ser tão insignificante vivendo num universo infinitamente grande. Pensar nisso me fez questionar como nunca me sentira assim antes? Talvez Thomas fosse uma galáxia, e eu era uma de suas estrelas. Não dava para acreditar que tinha acabado, a gente mal tinha começado. Num dia estávamos nos beijando e no outro, estava partindo.

O que será que ele estava fazendo agora? Será que já tinha percebido que eu tinha ido embora. Será que sentia a minha falta tanto quanto estava sentido a dele?

Havia uma pequena parte de mim que queria acreditar que com o tempo as coisas fossem melhorar, mas isso não parecia acontecer. Uma semana tinha se passado desde que chegara aqui, e eu sentia ainda mais saudades da escola, dos meus professores e de Thomas. Eu queria que o tempo tivesse parado há duas semanas, quando nenhum caos recaia sobre mim. Quando ainda podia me considerar uma pessoa feliz. "Mas isso tudo ficou para trás" foi o que a minha tia disse para a minha mãe. A minha felicidade tinha ficado para trás. Ela, mesmo que indiretamente, também disse isso para mim, pois também tinha deixado muitas coisas para trás, e ao contrário da minha mãe, coisas boas.

Imersa em pensamentos que levavam a minha mente para longe, inclinei as pernas e agitei o balanço em que estava sentada, movimentando-o levemente para frente e para trás.

O marido da minha tia estava sendo bondoso conosco, e a pedido dela, nos abrigou. Nossa nova casa era bonita e ampla. Seis quartos, duas salas, cinco banheiros, uma grande piscina e o principal: se parecia com um lar. Isso parecia ser melhor do que qualquer mansão, porque nós nunca tivemos um lar. Nós poderíamos ser felizes aqui se nos esforçássemos.

A vasta área externa era coberta pelo gramado verde e recém-aparado que mais se parecia com um tapete. Eu estava embaixo do freixo, uma árvore corpulenta e com galhos que se esticavam sobre mim como braços abertos, e quem montara o balanço escolhera estrategicamente o mais espeço deles. A sombra que ela fazia, mesmo em meio à escuridão da noite já existente, me deixava intrigada. Como uma coisa conseguiria deixar tudo ainda mais obscuro e penoso do que já era? Essa talvez fosse uma das características dela, e eu sentia que compartilhava dessa penúria, pois estava tão triste por dentro que tudo ao meu redor parecia carregar um ar de luto e decepção.

A minha mãe surgiu pela porta dos fundos e esgueirou-se até o balanço ao lado, sentando-se em silêncio.

Retrai-me instintivamente, pois nós não conversámos. Nós nunca conversávamos, para falar a verdade. A minha mãe passava a maior parte do tempo no plantão ou descansando o suficiente para encarar o próximo. Agora que estávamos aqui, sozinhas, suas palavras não passavam de ecos abafados.

— Eu sinto muito... — ela disse fracamente, inclinando o corpo para frente enquanto me encarava.

Pensei em lhe perguntar pelo quê, mas a resposta era meio óbvia, porque eu também estava sentindo muito e já não havia mais o que ser dito.

Ela puxou um envelope e o estendeu em minha direção. Balancei a cabeça em negativa ao ser completamente pega de surpresa. Minha mãe queria que eu o pegasse de volta.

— O que? — indaguei, atônita — você não entregou?

Ela negou com um gesto constrangido de cabeça, e eu a encarei de sobrancelhas franzidas. Essa não era uma decisão dela. Era a minha vida. Foi a única coisa que pedi a ela antes de partirmos e ela simplesmente resolveu ignorar. O ressentimento tomou conta.

— Essa foi a única coisa que pedi a você, mãe. Por que você fez isso? Thomas nunca vai saber o que aconteceu.

— Talvez vocês se reencontrem em algum momento. — Comentou quando sacolejou a carta no ar para mim. — Thomas é um bom garoto. Vocês formavam uma boa dupla — acrescentou, quando ergui a mão para pegar a carta. — Se quiser que a carta chegue até ele realmente, envie-a pelo correio, mas você deveria ter falado alguma coisa ao invés de ter escrito a carta.

Encarei o papel e por um momento me odiei por agradecer silenciosamente a ela por não a entregá-la. Seria melhor assim, tudo estava acabado e em pouco tempo ele me superaria. Se é que ele fosse sentir a minha falta de fato.

Me senti perdida e confusa. A ideia de Thomas saindo com outra garota fez meu coração estremecer. Não era isso o que eu queria, pois sabia que nunca o superaria, e eu odiei a minha mãe por não ter dado a carta, mesmo que ficasse aliviada por não tê-lo feito.

Thomas devia estar pensando que eu simplesmente o abandonei. Que amor resistiria a isso? Minha mãe só tinha piorado a situação no instante em que decidira não entregar a carta, e por mais que fosse melhor assim, ainda doía pensar que não o veria mais.

— Você estragou tudo. — Soltei com ressentimento.

Não estava me referindo ao fato de ela simplesmente não ter dado a carta a ele. Mas tudo isso era culpa dela. As pessoas costumam resolver seus problemas a partir do momento em que eles surgem, e a minha mãe levou muito tempo para tentar solucionar os delas. Na verdade, ela ao menos se esforçou para isso. Com o tempo, colocou a mim e a ela nessa situação. Um pai alcoólatra e abusivo que roubava boa parte do nosso dinheiro e uma mãe que abaixava a cabeça para tentar parecer que levava uma vida perfeita. Será que ela se orgulhava disso? Porque não parecia perfeito agora. Se ela tivesse colocado um ponto final, se tivéssemos nos mudado tudo seria diferente. O que prendia ela a ele? Eu... Não podia ser. Ela tinha um bom emprego, e eu conseguiria um emprego de meio período se fosse o caso.

— Eu sei... — ela balbuciou afetada. — Eu sinto muito. —disse antes de se afastar. O vestido rodado esvoaçando-se e dançando no ritmo do vento.

Suspirei e recostei a cabeça na corda, movimentando-me mais no balanço. Algumas horas depois, as luzes da sala foram apagadas. O vento afagava o meu rosto, e eu fechava os olhos para apreciar a sensação da brisa me afagando.

— Qual é a graça desse balanço? — Uma voz sóbria e masculina irrompeu por trás de mim, e um par de mãos deu um pequeno impulso sobre as minhas costas, fazendo-me movimentar para a frente sobre balanço. A saia do meu vestido esvoaçou-se, e eu precisei soltar da corda para segurá-la ou então, cometeria uma gafe.

No fim, me atrapalhei com o fato de ter de me segurar, abaixar a saia do vestido e manter a carta a salvo. O meu corpo tombou para trás com o movimento, e eu me desequilibrei virando sobre o apoio. A tentativa de impedir uma vergonha, tornou-se um grande desastre.

Oh meu Deus, oh meu Deus.

— Eu sinto muito. — Ele disse, tentando me segurar da forma como pode.

Senti o habito fresco dele sobre a minha pele, e virei o rosto para trás para conferir quem havia feito isso e surpreendi-me ao me deparar com o enteado da minha tia.

Os meus cabelos caiam para trás, enquanto ele me segurava pelas costas, e a minha cabeça pendia para trás, meu rosto de frente para o dele. Ele era inquestionavelmente bonito. Barba no mesmo tom do dos cabelos emolduravam um rosto anguloso. Os cabelos loiros claros e espetados para cima combinavam com os olhos verdes cintilantes interessados. As sobrancelhas dele se moveram para cima e eu me agitei.

— Minha nossa — respondi, me recompondo ao segurar as mãos na corda e me iça novamente para o balanço.

— Me desculpe. — Ele pediu com nítido constrangimento.

— Tudo bem. Eu já estou acostumada — respondi, dando de ombros. — As coisas costumam ser bastante caóticas por aqui.

— Eu me lembro de você do casamento do meu pai — comentou, sentando-se no balanço ao meu lado. — Está tudo bem com você? — indagou com interesse, as duas mãos segurando nas cordas do balanço.

Não respondi, engolindo a resposta a seco e apenas agitei o balanço com a perna, tentando ignorá-lo.

O balanço aos poucos reduziu o movimento, e mão dele segurou a corda, interrompendo totalmente o vai e vem.

— Eu te vejo aqui toda noite e na maioria das vezes você parece tão triste. Por que você passa tanto tempo embaixo dessa árvore?

— Eu não sei — respondi, erguendo o olhar para ele. — Gosto daqui.

Ele ergueu a sobrancelha e eu desviei o olhar tentando ignorar o fato de que ele estava olhando para mim mesmo depois de eu ter interrompido o contato.

— O que é isso? — ele perguntou, inclinando-se mais para o meu lado para pegar alguma coisa no chão.

Era a carta.

— Deve ter caído. — Aleguei. Com certeza caiu. E depois estendi a mão para que ele pudesse me devolver.

— Você gosta de cartas? — indagou com nítida curiosidade. — É para quem?

Ele arqueou as sobrancelhas e virou o verso, vasculhando o envelope.

— Thomas — ele balançou a cabeça e inclinou um pouco o corpo, olhando para mim por mais tempo do que o adequado e depois devolveu a carta.

*****

Olá, meus amores!  Como vocês estão?

Estou completamente dividida, pois, ao mesmo tempo em que não quero que acabe, fico receando pela despedida. Porque a Nina, o Samuca e o Thomas são tão lindos. Não quero que acabe, mas precinto a reta final nos alcançando. Porém surpresas aguardam meus leitores mais lindos do mundo!!!! 

Fica com o gostinho e duvido você deixar um palpite sobre o que você acha que pode ser.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top