Capítulo 22
Algum tempo depois, ainda afogada em pensamentos, sobressaltei ao ouvir um carro cinza irromper em alta velocidade. A enxurrada de água recaiu sobre mim assim que a roda passou rápido pela poça, ensopando-me de água suja. A indignação me tomou por inteira, e eu vasculhei a rua, percebendo Thomas não estava mais atrás de mim, e eu sequer sabia em que momento isso tinha acontecido.
Esfreguei os braços por cima do casaco molhado e senti o alivio quando os meus ombros caíram, relaxados. Não importava o que Thomas estava fazendo, bastava vê-lo para que eu tomasse uma postura defensiva. Era uma reação do meu corpo para mantê-lo afastado.
Eu só precisava chegar em casa e tentar falar com Samuca. Ele era a minha maior preocupação. Nessa confusão toda, o meu noivo quem estava sendo o maior prejudicado.
A fachada do condomínio se fez ver, e eu me apressei em sair da chuva, correndo para dentro.
As luzes estavam oscilando devida a instabilidade na energia e o elevador estava desativado.
Ótimo! Teria que seguir pelas escadas, mas antes de prosseguir, passos surgiam logo atrás de mim, até que uma mão agarrou o meu pulso com firmeza, fazendo-me girar rapidamente sobre os tornozelos.
Que droga!
—Thomas... — balbuciei com surpresa, assim que abaixei o olhar, reprovando sua mão em volta do meu pulso. — O que você está fazendo aqui? — percebi que não importava o que ele estava fazendo aqui. — Eu quero que vá embora do meu condomínio.
— Ainda bem que eu não dou a mínima para o que você quer — retorquiu. — Eu sei que eu tenho sido um idiota de primeira, mas você pode, por favor, tentar me ouvir?
Encarei de olhos estreitos. Eu não queria escutá-lo. Será que ele não tinha percebido isso ainda.
— Não! — Exclamei, puxando o meu pulso de volta.
A expressão de Thomas se tornou mais incisiva e ele segurou com mais força, impedindo que me afastasse. Eu insisti em puxar o meu braço de volta.
— O que você está pensando? Me solte! — berrei, puxando o braço com tudo. Esfreguei o pulso quando consegui me livrar de seu aperto. — Estou farta de você e das suas perseguições — disse, correndo para subir as escadas.
— Quer saber — soltou, ele estava correndo atrás de mim — eu também estou cansado de ter você fugindo de mim o tempo todo, tente, pelo menos, lidar com essa droga.
— Eu não estou fugindo. — Aleguei, interceptando os meus passos e me virando para ele abruptamente.
Mas me arrependi no momento seguinte voltando a correr, quando o meu olhar encontrou com os dele. Thomas me encarava um interesse obscuro.
— Então porque você não conversa comigo como uma pessoa normal? — indagou, dessa vez eu não me virei, eu não queria encará-lo outra vez.
Por que eu ainda estava debatendo com Thomas? Isso não fazia o menor sentido.
— Porque você é um idiota. — Rebati sem pensar demais.
— Ah... Eu sou um idiota? — ele perguntou com indignação, seguindo os degraus atrás de mim. — Pelo menos eu não fujo das coisas como você.
Eu não estava fugindo. Pelo menos não queria reconhecer que estava, principalmente para ele. Thomas desencadeava sentimentos confusos e difíceis de lidar. Ficar brava me ajudava a mantê-lo do outro lado do muro impenetrável que eu havia erguido, porque eu não podia me permitir viver isso, não com a minha vida praticamente estabilizada. Ele não esperava que nós fôssemos amigos depois de tudo o que vivemos no passado. Isso seria impossível, pois ainda era doloroso olhar para ele e pensar em tudo o que me foi tirado.
Nós já tínhamos sido tão felizes e onde deixamos essas pessoas? Quando nos distanciamos tanto do que éramos? Eu não me sentia mais a mesma Nina de seis anos atrás. Em que momento tudo deixou de ser o que era? O que teria acontecido se tivéssemos ficado juntos? Se tivéssemos nos reencontrado antes de nos perder tanto. Desejar nunca tê-lo abandonado era abominável, porque isso me fazia questionar coisas que até agora eram tão concretas. Eu não era verdadeiramente feliz com a vida que tinha? Era difícil olhar para ele e fingir que nada tinha acontecido. Ele tinha que se afastar.
— Vai embora, droga! — berrei, sem paciência.
— Vamos conversar — ele insistiu.
Nós estávamos chegando ao meu pavimento, e eu já estava cansada e ofegante, mas não podia parar, não com Thomas no meu encalço. Abri a bolsa para pegar as chaves do apartamento assim que alcancei o último lance de escada.
Avancei em direção a porta, tentando acertar o buraco de fechadura, mas o nervosismo desmedido me impediu que o fizesse antes de Thomas me alcançar.
— Já chega desse joguinho, Nina — Thomas segurou a maçaneta antes que eu pudesse passar pela porta e me proteger dele. — Eu não signifiquei nada para você? Se for isso, diga. Agora. — determinou. — Você não vai poder fugir de mim para sempre — alegou, abrindo a porta quando girei a chave.
E para minha surpresa, Samuca estava do outro lado da porta. A garganta dele subia e descia com um olhar que cintilava decepção e julgamento quando se deparou comigo e Thomas ao meu lado.
Mas que merda!
— Samuel... — balbuciei estarrecida. Meus músculos se tencionaram completamente com o calor da emoção.
Será que ele tinha ouvido a última parte?
É claro que ele tinha ouvido. Qualquer um do pavimento teria escutado, e eu desejei a morte a ter de lidar com essa situação.
"Eu não signifiquei nada para você?"
Quantas interpretações erradas essa colocação poderia ter? Milhares? Eu não quis pensar nisso, porque o desespero foi maior assim que o meu olhar foi descendo pela camisa polo preta até a caixa que estava em sua mão. Eu fiquei inerte e em pânico. Uma onda de sensações ruins começou a varrer meu corpo num misto de quente e frio que começava a se misturar de um jeito desagradável em meu estômago.
Embora sentisse que meu coração tinha parado de cumprir sua função, tentei pronunciar alguma coisa, qualquer coisa, mas meu cérebro desoxigenado não permitiu que som algum pudesse sair da garganta.
Apontei com o dedo para a caixa, que eu conhecia muito bem e fazia questão de manter escondida. Esse era o meu segredo, a única coisa que nunca havia contado a Samuca, e me recusava a acreditar que ele tinha encontrado aquilo. Naquele momento, me arrependi amargamente de não tê-las queimado.
— Ele é o Thomas? — Samuel indagou retoricamente, com tom de desapontamento, encarando Thomas por cima dos meus ombros. — Seu Thomas... — ele apontou com a carta que eu sabia que ele tinha lido. — Por que você escondeu isso de mim? — indagou ao se aproximar rapidamente.
Por que ele tinha lido aquilo?
Ou por que, depois de seis longos anos, eu ainda não tinha conseguido me livrar daquilo?
Exalei ruidosamente, e abri a boca para dizer alguma coisa em minha defesa. Mas o que exatamente eu deveria dizer?
Que isso não era o que ele estava pensando? No que ele estava pensando afinal? Que guardar aquelas coisas significava que eu ainda supria sentimentos por Thomas? Essa era a resposta mais óbvia, porque Samuca esperava que eu tivesse o superado. E eu tinha, mas Thomas fazia parte de um passado que eu não gostava de me lembrar. De momentos dos quais não havia muitas razões para serem revividos. Ele era a única razão, ele era a melhor parte disso, e guardar essas recordações foi uma forma de... de não esquecer totalmente a pessoa que eu era quando estava com ele. Eu queria me lembrar da sensação, teria sido para sempre até que não foi, e Samuca sabia disso mesmo que nunca tivesse falado, e então recuei, sentindo meu coração minguar à deriva das palavras.
Samuca soltou a caixa no chão e passou direto por entre mim e Thomas, empurrando a carta em direção ao peito dele.
— Aonde você vai? — perguntei para as costas dele, tentando alcançar seus passos — Você não pode ir embora desse jeito. Vamos conversar.
— Agora você quer conversar? — Samuca parou abruptamente, soltando uma risada amarga de ironia — depois de todo esse tempo você quer conversar agora? Agora que eu descobri seu segredo sujo — ele estava ríspido e pela primeira vez, pude sentir o olhar ácido de julgamento dele sobre mim.
Ele não queria me escutar, Samuel já tinha concluído tudo por si só e não estava disposto a parar para me ouvir, e mesmo que soubesse que algumas coisas não poderiam ser explicadas, eu ainda estava disposta a tentar. Samuel não podia simplesmente ir embora.
Eu não passava de uma garota assustada e que não sabia o que fazer diante da situação que poderia colocar todo o meu futuro em risco. E naquele momento, tinha percebido o quanto estava sendo egoísta com ele, pois estava com tanto medo de perder o trabalho, ou afetar o meu relacionamento com a notícia de que meu ex era o meu chefe que estraguei tudo forçando uma situação inadmissível. Era como tentar segurar uma faca pela lâmina, no final, você acaba toda cortada e sem nada nas mãos. A minha carta de demissão estaria no e-mail de Thomas amanhã.
Engoli a seco quando o peso e a pressão das lágrimas começaram a se formar atrás dos meus olhos, fazendo a minha visão embaçar.
— Por favor... — Eu praticamente implorei para que ele pudesse ao menos parar para me ouvir. — Tente me ouvir.
— Em que momento você pensou em me contar que ele era o seu ex-namorado? O seu chefe é a droga do seu ex-namorado, e você guardou todas aquelas coisas... Eu achei que você fosse feliz comigo, Nina. Que eu fosse suficiente.
— Mas você é... — rebati fracamente, tentando tocar em seu rosto com a ponta dos dedos.
Samuca interceptou o movimento e abaixou a minha mão, pressionando os lábios ao negar com um gesto de cabeça ao se afastar.
Eu não poderia permitir que Samuel fosse embora daquele jeito. Embora tivesse cometido tantos erros, eu ainda o amava. Nós tínhamos que conversar.
— Por favor, Samuel. Eu tentei te contar, muitas vezes...
— Você não deveria ter me julgado tanto por não falar sobre a doença da sua mãe. — Ela parou bruscamente no degrau, e eu me apoiei no corrimão, deparando-me com seu desapontamento. Estava doendo vê-lo tão decepcionado e saber que eu realmente tinha errado. Eu tinha mentido e cobrado coisas que nem eu mesma estava fazendo. — Até porque você também estava escondendo uma coisa de mim.
Ele me deu as costas novamente, descendo mais rápido dessa vez.
Desci para o saguão e irrompi pela portaria às pressas. Samuca já tinha cruzado o portão que dava para a rua, fazendo um gesto de mão para chamar o táxi.
— Samuca... — insisti ao atravessar o portão. — Não vai...
O carro amarelo parou à beira do meio-fio e Samuca abriu a porta, olhando entristecidamente para mim por cima da janela uma última vez.
— Você mentiu esse tempo todo — ele me condenava com o olhar e eu me senti envergonhada pela situação — eu acho melhor a gente dar um tempo.
Tempo?
Eu quis chorar, mas sequer tive tempo para responder àquilo.
O meu coração se partiu no momento em que ele virou o rosto para frente e bateu a porta. O carro acelerou, levando-o para longe de mim. Permaneci ali, encostada nas grades do portão, parada, completamente incrédula e vendo o carro seguir a rua até sumir no horizonte. Incapaz de processar tudo o que tinha acabado de acontecer em tão pouco tempo.
Ele tinha ido embora. A realidade desceu amarga.
O arrependimento começou a me corroer pelos ossos. Por que eu simplesmente não falei? Tudo teria sido tão diferente. Ele teria me escutado, teria entendido. Mas eu menti e agora ele me odiava. Eu tinha passado tanto tempo esperando o momento certo para falar, mas esse momento não parecia existir, pois sempre havia uma desculpa, um receio. Eu estava com medo.
Isso não deveria acontecer e não parava de lamentar ao perceber a minha posição. Errada, completamente errada. Eu tinha perdido o homem da minha vida para uma mentira. Tinha chegado ao fundo do poço ao esperar a oportunidade perfeita. A minha vida parecia um trem desgovernado e sem freios. Eu só queria sentar e chorar, porque Samuca tinha me deixado.
Fechei os olhos quando a chuva começou a gotejar em minha cabeça e ombros, e suspirei, virando-me para voltar para o apartamento. Um reboliço assoprou no meu baixo ventre ao me deparar com Thomas parado próximo a porta de entrada. A tristeza se transformou em fúria corrosiva.
Tudo isso era culpa dele.
Uma agitação efervescente começou a aflorar dentro de mim.
Thomas era tão culpado disso quanto eu, mas ele tinha arruinado a minha vida só pelo prazer de o fazer e algumas ideias absurdas de como ele poderia estar planejando fazer isso a algum tempo começaram a circular em minha mente. Isso tinha ido longe demais e a que custo?
A minha covardia tinha me levado a um caminho que talvez não tivesse mais volta, mas isso tinha que parar. Thomas precisava parar. Num misto de coragem e fúria, cerrei os punhos e comecei a pisar duro em direção a ele. A minha raiva totalmente apontada e preparada para ser descarregada sobre ele.
Thomas desceu os degraus da entrada do condomínio e perceber o quanto a sua postura estava ereta, enquanto esbanjava pretensão, me deixou ainda mais irritada.
Ele queria me arruinar e estava feliz por ter conseguido. Conclui, impulsivamente.
— Tem noção do que fez? Você deve estar orgulhoso. — Gritei sarcasticamente, perdendo totalmente o controle. — Era isso o que você queria, não era? — inquiri com brusquidão, as palavras saindo no automático da minha boca. — Destruir a minha vida...
— Para falar a verdade, Nina... — ele disse, num tom bastante alto e arrogante. — Era.
Eu não tinha sido capaz de processar o que estava prestes a acontecer. Não em tempo real. Talvez fosse efeito da chuva gelada que recaia sobre o meu corpo, mas de repente o calor se fez intenso, porque Thomas me puxou pelos ombros, puxando-me bruscamente contra ele. Nossos corpos colidiram e ele me envolveu, cobrindo os meus lábios com os seus antes mesmo que pudesse impedi-lo.
O que ele estava fazendo? Questionei a mim mesmo, batendo os braços ao tentar me soltar, mas não foi o suficiente.
As mãos dele estavam ao redor do meu rosto, quentes, grandes e firmes, mas elas desceram de pressa, atando os meus pulsos teimosos que o empurravam.
— Já chega de resistir. — Balbuciou, seus lábios roçando nos meus ao se pronunciar; sua voz não passava de um murmúrio rouco e grave que fez arrepios se formarem na minha nuca e trilharem as costas em forma de luxúria.
Senti o toque rígido dos seus lábios úmidos pressionar urgentes contra os meus, e em meio a um turbilhão de sensações, tentei argumentar, balançando a cabeça em negativa.
Thomas insistiu, e sua mão parou sobre o meu pescoço, puxando o meu rosto mais para ele, teimando no toque. O meu corpo começou a amolecer com a proximidade. A minha respiração desregulou e o sangue começou a correr num compasso frenético. Era o meu coração dando cambalhotas. Eu não queria, eu não podia, mas o meu coração não obedecia ao cérebro, e o mundo pareceu parar de girar quando o calor da mão dele se propagou sobre a minha pele e pequenas centelhas começaram a me queimar por dentro. O meu autocontrole começou a se desmanchar como açúcar na língua. Era impossível resistir, eu ainda o odiava, mas nada, neste momento, parecia ser maior do que isso, pois tinha passado tanto tempo esperando por aquele momento, sentindo saudade dos beijos dele que me senti refém do toque. Thomas abriu a boca outra vez, e eu movimentei a minha, recebendo o seu contato.
O ritmo aumentou à medida que a necessidade de puxá-lo mais para mim se tornou incontrolável. Minhas mãos seguraram na lapela no terno dele, e Thomas me segurou pela cintura, e nossos corpos se pressionaram mais até que não houvesse espaço algum entre nós. Meus dedos percorreram com pressa um caminho até a nuca dele, emaranhando-os em seus cabelos.
Minhas pernas bambearam e alguma coisa vibrou entre as minhas coxas. O desejo era latente e beirava a loucura.
Existe uma parte descontrolada dentro de cada um de nós e embora tentemos aprisiona-la, às vezes ela escapa. Thomas era a minha, e estava à solta. Ele tinha o dom de desestabilizar tudo. As minhas certezas pareciam tão imprecisas enquanto ele as questionava. Tudo se tornava tão longínquo e ínfimo quando ele estava por perto. Isso nunca tinha mudado. Talvez porque no fundo, mantínhamos uma parte de nós mesmos intacta, como a brasa que se recusa a apagar e a qualquer mínimo estímulo se acende. Essa parte nunca o esqueceria, e naquele momento estava desesperada por mais dele. O desejo que sentíamos um pelo outro ainda estava aqui. Vivo e tão intenso que doía.
Eu só queria que não acabasse, porque depois disso, estaria arruinada. Thomas tinha conseguido o que queria, e mesmo assim eu não estava correndo dele. Na verdade, os meus braços envolveram seus ombros. Pelo contrário, não queria que ele saísse e puxei-o mais para mim; as mãos dele emaranhadas nos meus cabelos molhados, causavam uma pressão deliciosa no couro.
Isso era mais do que me lembra. Thomas era mais do que a minha memória vaga me permitia lembrar. O meu juízo tinha sido lavado pela chuva e levado pelos ralos.
O que eu estava fazendo ao me entregar desse jeito?
Pensei em parar, mas ele reclinou meu corpo para trás, apertando-me mais contra ele.
— Que gritaria é... — a voz de Fernanda irrompeu como um choque violento para o meu descontrole.
Minha nossa senhora!
Me afastei de Thomas com brusquidão e totalmente constrangida, não soube onde enfiar a minha dignidade.
Isso foi um errado e o meu coração retumbou de culpa dentro do peito.
— Não foi nada. — Limitei-me a responder, me afastando deles.
Eu não quis olhar para Fernanda, não para ver que acabara de desapontar mais uma pessoa. Isso tinha que parar.
****
Meu pai amado, eu preciso de massagem cardíaca e de respiração boca a boca. Do Thomas.
"Chama o bombeiro para apagar o fogo da Nina" kkkkkkkkkkk
Gente, eu ainda não acredito que saiu!!!
Estou de cara. O que você achou? Eu ainda estou me abanando aqui kkkkkkkkkk
<3
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