Capítulo 16

O meu almoço foram duas barrinhas de cereais de banana, aveia e flocos de arroz. O telefone notificou à uma hora um compromisso que eu tinha esquecido. Então, desci até o quinto andar. A porta se abriu e eu me deparei com a situação da minha sala. Já não havia mais a parede que ladeava o corredor, e todos os cascalhos tinham sido praticamente removidos.

Passei pela cena, ainda sem acreditar na nova realidade. Sem paredes de concreto. Parecia bom, Thomas estava certo, embora não assumisse isso em voz alta. O andar ficaria muito mais amplo com menos paredes, mas uma obra em pleno outubro? Bufei, dando de ombro para a ideia.

Maluco!

Respirei fundo ao me lembrar que com ele tudo era para onde e pelo visto, isso não tinha mudado. O corredor terminou e eu passei pelo balcão onde a Lor estava, deslizando a ponta das unhas pela madeira chamando a atenção dela para um comprimento silencioso.

Lor ergueu a cabeça da agenda e me fitou.

— Onde você esteve no almoço? — perguntou, quando eu parei ali na frente.

— Adivinha? — Franzi o olhar, esticando os braços pelo balcão, murmurando antes de dizer. — No inferno.

Ela revirou os olhos e um vinco se formou entre as sobrancelhas finas da minha amiga.

— Thomas? — Ela perguntou, incrédula, parando de movimentar a caneta sobre a agenda de amanhã, encarando-me diretamente como se não acreditasse no que eu estava falando. — Para, Nina. Ele não pode ser tão ruim assim... — disse, voltando a escrever na agenda, ignorando o que eu estava dizendo.

— Adota ele para você ver — revidei, enviesando o olhar e erguendo-me do balcão. — Você vai querer devolver. — Acrescentei, seguindo em direção à porta da Verônica.

— Se eu fosse você, não me atreveria a entrar aí. — Recomentou, girando na cadeira ao erguer uma sobrancelha. — A fera está solta.

A maçaneta da porta girou antes que eu pudesse me afastar e Lorena comprimiu os lábios.

— Eu avisei... — Lorena comentou, erguendo os ombros quando a porta se abriu e uma versão "Verônica muito aborrecida" fez-se apresentar.

Verônica abaixou o olhar para o relógio analógico de prata, redondo no pulso fino e bufou, abrindo caminho para que eu entrasse, mas antes que ela pudesse fechar a porta, passos ecoaram pelo ambiente e um homem apareceu com algumas pastas nos braços. Ele era bastante pálido, os cabelos castanhos caiam pela testa em largos cachos definidos. Os óculos redondos escondiam a beleza de grandes olhos castanhos. Ele deveria ter por volta dos vinte e sete anos, mas parecia um menino pela forma como se vestia.

— A Vê-verônica está aí? — Ele gaguejou, parando na frente do balcão, fitando Lorena por alguns segundos.

Lorena arqueou as sobrancelhas, com os lábios entreabertos em uma nítida expressão descrente que entregava tudo. Ela levou alguns segundos para processar a situação, mas quando o fez indicou, com a caneta e um meio sorriso forçado, para mim e Verônica na porta.

O menino direcionou o seu olhar para nós e uma linha se curvou, formando em um sorriso que fechado soou simpático.

— Medeiros? — Verônica perguntou, ela também estava descrente quando percorreu com o olhar o homem de cima abaixo. Calças jeans azuis desbotadas, frouxas nas pernas e camisa polo vermelha. Eu podia ler os pensamentos dela, mas preferi não pensar nisso. — Frederico Medeiros? O jornalista.

Ele assentiu num gesto de cabeça contido e as molinhas do cabelo se mexeram de cima para baixo com o movimento.

— Mas pode me chamar de Fred. — Ele acrescentou.

Verônica bufou e abriu mais a porta. Fred fez um gesto positivo para Lorena em agradecimento.

— Nina, esse é Fred. — Verônica fez a volta sentando na cadeira, cruzando as pernas na saia lápis preta, ao encaixar-se do outro lado da mesa. A luz do sol tentava invadir a janela coberta pela persiana na lateral do escritório, mas a única luz no cômodo era a fluorescente sobre nossas cabeças — Ele vai assumir meu antigo posto de Editora. — Fred girou na cadeira e abriu um sorriso gentil para mim, erguendo a mão em um comprimento amistoso. — Fred, Essa é Nina, nossa Editora Assistente. Você pode passar à tarde na Revista, a Nina vai estar à disposição no que precisar.

— Eu vou? — contestei, confusa, enquanto Fred erguia a pasta, levando-a sobre a mesa, mas parou quando a minha voz irrompeu, encarando-me. — Mas e a lista que você me passou? — perguntei, antes que ela se levantasse da cadeira.

Ela parou e me encarou compenetradamente por algum tempo.

— Divida com ele. Afinal, Fred é o escritor. Você só precisa auxiliá-lo, como sempre. — Ela estalou a língua e eu estreitei o olhar para ela.

Verônica deve ter percebido o meu descontentamento, porque a mulher esticou os braços sobre a mesa e praticamente se debruçou na minha frente. O olhar sem desviar dos meus.

— Auxiliar, não é esse o seu trabalho? — inquiriu, com uma voz muito mais firme e grave.

Virei o meu rosto, constrangida, em direção a Fred e depois fitei Verônica. Eu sabia o que ela estava fazendo. Porque ela não podia passar o cargo à diante comigo no caminho, e ela estava tentando resolver isso ao me colocar no devido lugar.

Ela continuou a me fuzilar com um olhar matador, aguardando a resposta que queria ouvir, então concordei com um aceno contido de cabeça.

O que mais eu poderia dizer?

A verdade é que as coisas acontecem porque, em muitos casos, a gente simplesmente deixa acontecer. Eu não queria prejudica-la. Acusar alguém de roubo era uma coisa grave e se esse assunto surgisse pelos corredores da Revista, ela estaria encrencada. Verônica assinava os meus textos, porque eu os escrevia e depois de pronto, encaminhava para ela. No começo, ela era legal comigo, mas acho que ela se esqueceu dessa parte.

Quando ela assumiu o posto de Editora, seus textos não agradavam a Carolina. Eles sempre voltavam com alguma reclamação e ela não sabia mais o que fazer. Eu peguei um dos textos e usei a temática para elaborar o meu, eu queria ajudá-la, não dar o trabalho pronto. Mas ela pegou o meu texto e mandou para a Carolina como se fosse dela. Verônica me manipulou com um papo furado de que estava com bloqueio e depois, se transformou no habito, e as coisas se tornaram uma tremenda e sórdida mentira. E agora ela me tratava desse jeito.

— Muito bem. — Verônica estalou, com um sorriso intransigente, devolvendo a pasta de Frend num deslizar rápido sobre a mesa sem ao menos abri-la. Recostei-me na cadeira, dispersando a mente para longe.

A minha mãe estava doente e tudo o que as pessoas sabiam fazer era exigir alguma coisa de mim. Ninguém se importava se estava tudo bem ou não. Essa constatação me fez perceber o quanto a minha vida estava vazia. Tudo sempre se resumia ao trabalho e pela primeira vez, ele não veio em primeiro lugar.

Talvez, Lorena estivesse certa. Ainda dava tempo de sair da Parilla e começar do zero. A situação estava insustentável, porque Verônica estava se aproveitando do meu trabalho e Thomas estava a fim de transformar os meus dias na Parilla em um verdadeiro inferno.

Verônica disse alguma coisa que não passou de um ecoar distante nos meus tímpanos e suspirou, pegando a bolsa ao passá-la pelo ombro.

— Nina? — Verônica parou o que estava falando ao coçar a garganta e me encarar com um vinco indagador entre as sobrancelhas escuras.

Murmurei uma resposta e segurei os braços da cadeira, endireitando a postura ao voltar a mim, fitando-a.

— Como eu estava dizendo — suspirou gesticulando com a mão — eu não posso ficar com vocês, porque tenho uma reunião agora. — Ela tomou o terninho vermelho do encosto estofado alto da cadeira, levando-o dobrado em um braço. — Essa sala é toda sua, Fred — informou, pegando alguns papéis e uma caneta evidentemente cara, prateada e de corpo fino — A Nina está temporariamente no oitavo, mas semana que vem ela volta para esse andar. — disse, andando em direção à porta, deixando-a aberta.

Girei a cintura, segurando o meu corpo nos braços da cadeira acolchoada de rodinha e Verônica parou na frente do balcão de Lorena.

— Quando surgir um tempo — agora ela se direcionava a Lorena. — Mostre a Revista para ele.

Fred me fitou por tempo demais, e quando os passos dos saltos começaram a se afastar o bastante, ele exalou ruidosamente.

— É sempre assim? — Fred perguntou depois de um tempo seguro.

— Hmm-hum — respondi num gesto de cabeça, desviando o olhar da porta para ele, girando um pouco à base da cadeira, ainda processando toda a situação. Analisando-o descaradamente.

Lorena contratou alguém para um cargo acima do meu, que por acaso eu fazia boa parte do serviço para ela e, a megera ainda teve a audácia de jogar a responsabilidade da experiência dele nas minhas costas.

— Frend? Não é mesmo? — estalei, ainda encarando-o diretamente. — Você entende alguma coisa de moda?

As sobrancelhas dele se elevaram sob a armação dos óculos e ele suspirou ruidosamente, deixando dois tapinhas sobre a pasta.

— Eu sou jornalista, escrevi na Kargo por quatro anos e andei dando uma olhada no conteúdo da Revista. Eu dou conta.

— Kargo? — rebati. — A Revista financeira? — quis saber, com os olhos cintintilando interesse.

Fred balançou a cabeça, concordando com o gesto. Depois, sacou a pasta do colo e abriu, exibindo algumas das matérias que ele tinha escrito. Ele tinha uma boa abordagem e sabia do que estava falando, mas moda e dicas financeiras eram coisas totalmente diferentes, mas não seria eu a lhe dizer isso.

— Muito bom. — Comentei admirada, assim que virei a quarta página. Ergui o olhar para ele, apoiando a mão na parta. — Eu vou passar para você as próximas matérias que a Verônica programou e depois que você se acostumar com o conteúdo, os temas vão ser por conta da sua criatividade. — fitei-o, e ele concordou ao balançar a cabeça. — Eu preparo os textos para a impressão e Verônica aprova.

Fred concordou. Eu queria o cargo dele, mas sabia que Verônica não o passaria para mim, mas pelo menos voltaria a ter a minha rotina de trabalho habitual de preparar os textos. Era um trabalho tranquilo, e eu precisaria disso, ainda mais agora, que precisaria cuidar da minha mãe. E poderia trabalhar em casa se fosse o caso.

— Eu vou encaminhar tudo para você — informei, devolvendo a pasta para ele ao fechá-la com delicadeza. — Como a Verônica mesmo disse, a sala é sua — disse, mesmo que eu a quisesse para mim, pensei olhado uma última vez para a persiana que escondia a paisagem externa. — O e-mail é corporativo, já fica logado no computador, e tem tudo o que você precisa. Estou sem ramal, porque decidiram quebrar a minha sala para tornar tudo mais amplo — revirei os olhos ao me lembrar do argumento de Thomas — e estou em uma mesa provisória, mas no sistema de comunicação você pode me passar todas as suas dúvidas que eu tentarei ajudar no que puder. Ah! — Suspirei, de pé, afastando-me dele — e sugiro que vá ao sétimo, no RH, Ellen vai te ajudar com tudo, logins, senhas, números de telefones, horários — instrui, cuspindo sucessivas informações. — Eu só não sei como vai ser com a Lorena, porque ela é secretária da Verônica, ou do Editor... — refleti, dando de ombros ao abrir a porta. — Mas, de qualquer forma, estarei aqui para te auxiliar.

Eu fechei a porta atrás de mim e suspirei, sem fôlego. Lorena olhou para mim.

— Ajuda ele... — O que eu disse não passou de um abrir e fechar extravagante de lábios.

Lorena virou a caneta na direção dela com nítida descrença e depois apontou para mim.

De volta para a mesa, joguei-me na cadeira e bati com a cabeça no encosto, fechando os olhos com força e cerrando as mãos em punhos. Por um instante, num impulso nervoso, tive vontade de varrer todas as minhas coisas para o chão, mas respirei fundo e tratei de me recompor.

É só uma fase ruim. Eu não parava de repetir isso para mim mesma, a fim de que pudesse me acalmar. Eu não tinha conseguido a promoção e isso estava me deixando muito chateada, porque eu realmente tinha me empenhado muito para isso, mas eu já deveria ter previsto que não aconteceria.

Babaca!

Praguejei Verônica ao apoiar os cotovelos na mesa e pressionei os olhos, focando na tela do computador.

"Enviar a lista"

Pensei antes de sentir um calor incômodo trilhar a minha nuca, eriçando os meus pelos. Desviei o olhar da tela, incomodada com a sensação de estar sendo vigiada e fitei a porta da sala de Thomas que estava aberta e ele estava sentado atrás da mesa. Eu podia jurar que ele estava olhando para mim, mas percebi que ele estava compenetrado demais, com o cotovelo apoiado na mesa, e a cabeça escorada na mão. Os olhos rolavam de um lado para o outro, lendo qualquer coisa na tela do notebook. A perna estava cruzada de um jeito aberto e espaçoso embaixo da mesa, de modo que apenas um dos sapatos ficasse amostra.

Intrigada, mantive o olhar por mais algum tempo.

Será que ele estava me olhando? Perguntei a mim mesma, analisando-o descaradamente. Mas me arrependi de fazer isso, quando os olhos dele relancearam da tela do computador para mim. As sobrancelhas se arquearam e o dedo anelar pairou por seu lábio volumoso. Eu virei o rosto que começou a queimar, com urgência, focando no que realmente deveria fazer.

A lista.

Consegui respirar com mais tranquilidade depois das quatro. Tirei o celular do carregador e desbloqueei-o, num suspiro frustrado.

Samuca não tinha mandado nenhuma mensagem e parte disso por minha causa. Ainda não tinha digerido bem a ideia de que ele tinha escondido a doença da minha mãe de mim, mesmo sabendo do meu afastamento.

Ele não tinha a obrigação de tentar apaziguar as coisas, mas como meu noivo, ele não tinha o direito de esconder uma coisa tão séria de mim, ainda mais sobre a minha mãe e eu precisava de um tempo para resfriar os ânimos.

Deixei o celular de lado e foquei no notebook, abrindo uma nova aba no Google. Hesitei em fazer o que estava pensando, mas não consegui conter a curiosidade e digitei "câncer de mama" na caixa de pesquisa. É uma das primeiras coisas que os médicos não recomendam que os pacientes façam, pesquisar sobre suas doenças na internet, mas eu precisava saber. Porém, percebi que foi uma péssima ideia procurar por isso quando meus músculos se tencionaram e tirei a mão do touchpad como se tivesse levado um choque na ponta do dedo.

***
Olá, meus amores. Tudo bem ? Olha o capítulo da sexta lindíssimo ❣️

Eu vou deixar uma indicação da minha lindíssima e querida amiga Clarissa Coral. 

@cla_coral

Eu vou deixar o link nesse banner maravilhoso de Paraíso profano um comentário para que vocês possam visitar. 🔖

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